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Os perigos da “fórmula Marvel”

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.

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Quando reavaliamos os títulos que compõem o Universo Cinemático Marvel, pensamos rapidamente que se trata de uma carreira eclética. O estúdio já fez uma space opera, uma aventura nostálgica nos moldes de Indiana Jones, uma obra com aspirações shakespearianas, um heist movie (ou “filme de assalto”), um longa psicodélico e até mesmo um filme que combina um pouco dos thrillers políticos da década de 1970 (como Três Dias do Condor) com o estilo enérgico que Jason Bourne trazia em suas sequências de ação.

Dito isso, o que leva muitas pessoas a antipatizarem com Capitão América: O Primeiro Vingador? Por que Homem-Formiga é esquecível, ainda que seja bastante divertido? Por que ninguém parece gostar muito dos dois Thor? Por que não há praticamente ninguém que se lembre de O Incrível Hulk? Por que as continuações de Homem de Ferro são inferiores ao original? Por que Vingadores: Era de Ultron deixou a desejar? E por que até mesmo o ótimo Doutor Estranho rendeu comentários do tipo “a fórmula Marvel já está saturando”.

Todos esses questionamentos são gerados a partir de dois motivos principais: à primeira vista, esses filmes soam ambiciosos e originais por reverenciarem diversos gêneros e subgêneros (heist movies, space operas, aventuras pulp, dramas shakespearianos, obras lisérgicas e etc). Por outro lado, o objetivo inicial sempre se perde porque a Marvel/Disney parece fazer questão de impor todas as suas “marcas d’água”: piadinhas, participações especiais de outros personagens, easter-eggs, o vilão genérico que está em busca de um artefato para se sobressair de alguma forma pouco inventiva, tramas simplistas e aquela estrutura narrativa básica que já vemos há tantos anos.

Assim, por mais que os filmes do Marvel Studios sempre tentem simular estilos cinematográficos particulares, todos eles parecem ser muito parecidos uns com os outros e nós, como espectadores, raramente conseguimos esquecer que estamos assistindo… A um filme do Marvel Studios. São obras que nunca parecem funcionar completamente fora da esfera das adaptações de quadrinhos. Falta à empresa a audácia que Christopher Nolan teve em seu Batman – O Cavaleiro das Trevas, que investia numa abordagem assumidamente realista e jamais abandonava este planejamento para seguir convenções típicas dos filmes de super-heróis. O resultado foi uma película que poderia muito bem integrar uma prateleira exclusiva para o gênero “policial” numa locadora.

De todo modo, é compreensível – porém lastimável – que o estúdio queira evitar riscos, pois estes sempre podem resultar em fracasso (seja ele justo ou não) graças a um público que não está muito interessado em sair de sua zona de conforto. Pensem em Hulk: sim, é verdade que o longa trazia vários problemas, mas ainda assim é uma pena que muitos deixem de valorizar a ousadia de Ang Lee, que apostou numa linguagem visual ambiciosa e foi corajoso ao criar um drama disfarçado de filme de super-heróis.

E há também um segundo fator que faz com que os títulos do Marvel Studios dificilmente consigam ir muito além do que o ideal: a todo o momento, o estúdio faz questão de lembrar que todos estes projetos não são mais que peças de um quebra-cabeça que nunca parece se completar, trazendo uma quantidade excessiva de referências, cenas que soam mais como trailers para produções futuras e desfechos inconclusivos que dão a impressão de que o próprio longa está encarando o público e dizendo “hey, não precisa se importar muito com este filme, mas venha ver o que pretendemos te dar nos próximos”.

O primeiro Homem de Ferro, Guardiões da Galáxia e Doutor Estranho são ótimos exemplos de narrativas que começam e se encerram dentro delas mesmas, funcionando isoladamente sem depender demais dos outros títulos do Marvel Studios. Em contrapartida, Homem de Ferro 2 faz questão de incluir participações gratuitas da Viúva Negra e uma subtrama que envolve uma doença de Tony Stark que, no fim das contas, só serviu para arremessar um amontoado de fan services forçados (SHIELD, Nick Fury, o escudo de Capitão América, uma “missão no Novo México” que obviamente alude aos eventos vistos em Thor).

Era de Ultron interrompe o fluxo de sua narrativa diversas vezes apenas para berrar “Guerra Infinita!”, “Thanos!”, “Gemas da Manopla do Infinito!” ou “Guerra Civil!” nos ouvidos do espectador. Homem-Formiga faz diversas pausas para inserir participações especiais inorgânicas de outros personagens da “Casa das Ideias”, a base onde os Vingadores operam e diálogos referentes aos Heróis Mais Poderosos da Terra que simplesmente não soam naturais o suficiente. O primeiro Capitão América acaba se prejudicando através de um final atrapalhado que se preocupa muito mais em antecipar Os Vingadores – The Avengers do que em concluir a sua própria história. Até mesmo o excelente O Soldado Invernal pecava neste quesito, mostrando-se incapaz de pôr um ponto final no arco dramático que dá título ao filme.

A diferença, porém, é que Capitão América 2 trazia um diferencial fortíssimo: a atmosfera que os irmãos Anthony e Joe Russo era radicalmente distante daquela que costuma permear a maioria das outras películas da Marvel/Disney, desde a paleta de cores acinzentada até o tom mais sério que fazia com que os alívios cômicos se tornassem menos invasivos que de costume, passando pelas cenas de ação agressivas, pela trilha sonora opressiva e pela trama um pouco mais intrincada que o padrão. E também temos Capitão América: Guerra Civil, que obteve resultados excepcionais unindo o que havia de melhor em O Soldado Invernal com o senso de escapismo que existia no primeiro Os Vingadores. Não é à toa que essas três obras citadas na frase anterior são as minhas preferidas do estúdio.

É difícil negar que o Marvel Studios está fazendo um trabalho bastante competente, resta apenas um pouco de ousadia para levar à frente as ambições e ideias criativas propostas no início de seus projetos. Se o objetivo é fazer um heist movie protagonizado por um super-herói, então que seja um heist movie protagonizado por um super-herói, e não um filme de super-heróis com retoques de heist movie. E que funcione sem depender em excesso dos outros longas do Universo Cinemático Marvel, é claro.

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