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POR ONDE ANDA O SACI?

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Desde pequeno eu já tinha alguma leve noção do folclore brasileiro, um tanto verde, claro… mas percebia que beber o que era do exterior, pareciam ser um padrão.

Folclore, significa “a sabedoria do povo” – será que aqui, o povo valoriza a própria sabedoria?
Como não lembrar do Saci-Pererê?
Vamos por partes…

No dia 31 de outubro, comemoramos (desde 2003), o Dia do Saci, uma forma de contrapor o Dia das Bruxas que rola no mesmo dia.
Raramente valorizamos esse camarada ou qualquer outra entidade fabulosa de nosso folclore. Não temos dragões fodões e nem ciclopes imensos e canibais… mas e daí?
Mesmo com sua origem diversificada, indo de elementos lusitanos, afros e tupi, no entanto, o Saci acabou sendo um personagem culturalmente nacional.

O bom e velho Saci-Pererê, o pretinho perneta que fora sem dúvida popularizado ora pela literatura de Monteiro Lobato, ora pelo cartunista Ziraldo, anda meio “escondido”, como tantos outros companheiros do folclore de nosso Brasil, como o Curupira e o Boitatá.

Por que não existe então, um apego ao que é nosso?
Ou melhor: onde se encontra o respeito maior e uma valorização as tradições em nossa Terra Tupiniquim quando se trata de lendas e mitos?
Ora, porque a mitologia importada é mais “atraente”.
Não necessariamente.
É o próprio brasileiro que adota essa postura de idolatrar bruxas, vampiros, morcegos e zumbis lá de fora. Isso acaba criando um forte impacto, cara. Um impacto cultural: exaltar demais o que vem do exterior resulta em sufocar o que temos aqui.

O Saci não voa e não tem não dispara bolas de fogo, mas ele tem a sua própria identidade.
Tem quem diga que o Saci acabou perdendo uma das pernas em meio a uma luta de capoeira e mesmo assim, continuou ágil e travesso. Dentre suas habilidades sobrenaturais, consegue virar um furacão e sair em disparada. Para capturar o danado, basta jogar um rosário quando ele estiver executando seu tornando…
Aliás, Saci também é um termo que usamos para nos referirmos a uma pessoa ligeira, irrequieta, que não para quieta, o que sem dúvida é um reflexo que veio do personagem perneta!

Na figura do Saci, vejo algo muito interessante.
É uma fusão étnica.
Ele é um negro com gorrinho de português, e como seu habitat favorito são as matas, ele tem muito dos indígenas. O Saci acaba sendo, portanto, uma miscigenação cultural em forma de lenda.
Logo, se tornou um parte de nós.
Por que ter vergonha de um personagem que representa nosso país?
Por que não abraçar a nossa cultura e vez de ficarmos numa eterna dependência da mitologia que vem do Velho Mundo ou da América do Norte?
O Saci, é uma lenda, mas diz muito sobre nós mesmos.
Somos um reflexo dele. Seria legal darmos valor as nossas origens.

Então, hoje estamos comemorando uma tradição celta ou um dia para homenagear o nosso tão esquecido Saci?

Algumas sugestões do autor para leituras em torno de estudos folclóricos:

ARAÚJO, A. M. Festas, bailados, mitos e lendas. 2 ed. São Paulo: Companhia Editôra Nacional, 1967. v. I

CASCUDO, L. da C. Seleta. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.

FRANCHINI, A. S. As 100 melhores lendas do folclore nacional. Porto Alegre; RS: L&PM, 2011.

RIBEIRO, M de L. B. Folclore. Rio de Janeiro: Bloch; FENAME, 1980. (Biblioteca Educação é Cultura, v. 1)

SANTOS, C. L. Os mitos, as lendas e as mentalidades no folclore paraense. In: VANNINI, Ismael Antônio; GELLER, Odair Eduardo (Orgs.). História: tempos e espaços de criação. Francisco Beltrão: Grafisul, 2009. p. 157-179.

LOJA DC 4

Historiador, escritor (poesias, contos, crônicas e ensaios), crítico de literatura, ilustrador profissional e colunista do jornal Folha do Sudoeste (Francisco Beltrão, PR).

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