Quando falamos de blockbusters e filmes de ação, o senso crítico costuma soar um alerta negativo — muitas vezes, antes mesmo de assistirmos às produções. Por quê? Pelo simples fato de serem filmes considerados “despretensiosos”, feitos com o objetivo de agradar ao público geral por meio de clichês hollywoodianos. E, convenhamos, o público adora — nunca enjoa. Mas, para os amantes mais puristas do cinema, esses longas são motivo de “revirar os olhos”, com suas cenas previsíveis e roteiros frequentemente classificados como “sem criatividade”, “sem originalidade” ou “sem furar a bolha”.
Mas qual é, afinal, o problema disso? Por mim, nenhum. Hoje, quase todo consumo é midiático e copiado — a velha máxima de que “nada se cria, tudo se copia” nunca foi tão verdadeira. E não há nada de errado nisso. O ponto está em entender que o conteúdo audiovisual que consumimos pode ser reinventado, mesmo quando parte de um clichê que você já julgou enfadonho.
“Tron: Ares” é exatamente isso. Convenhamos: a Disney fracassou com o filme original e também com sua sequência — e, muito provavelmente, a terceira produção da franquia seguirá o mesmo caminho. Isso é um problema do departamento de marketing da companhia. Ainda assim, o longa se mostra capaz de abraçar o clichê e, com isso, conquistar tanto o público geral quanto o coração de um crítico (pessoa física, não jurídica).

A história dá continuidade ao universo de Tron e leva o público de volta à Grade para vivenciar uma eletrizante aventura protagonizada por Ares, um programa altamente sofisticado de Inteligência Artificial. Enviado do mundo digital ao mundo real em uma missão perigosa, Ares marca o primeiro contato direto da humanidade com seres artificiais — um ponto de partida que reforça o dilema entre criador e criatura, base central do enredo.
Joachim Rønning reuniu o melhor do cardápio cinematográfico de ação atual — elementos de John Wick, Kingsman e até Twisters (2024) são evidentes — e, com sua experiência “mediana” em blockbusters (Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar e Malévola: Dona do Mal), conseguiu construir algo próprio a partir disso.
O longa respeita suas origens e a nostalgia do público, desenvolve um enredo emocional e racional, e ainda mantém a velha — e necessária — conscientização sobre a tecnologia, que tem afastado o ser humano da capacidade de criar com a própria mente.
Ainda assim, é impossível ignorar que Tron sempre teve em seu núcleo a crítica ao sistema capitalista e à relação entre poder e tecnologia. Aqui, Ares tenta atualizar essa discussão ao explorar a Inteligência Artificial e a militarização como novas formas de controle — uma ideia interessante que, porém, acaba tratada de maneira superficial.

O roteiro insinua debates grandiosos, como a ganância humana, o desejo de eternidade e a criação de um “novo mundo”, mas nem sempre consegue sustentá-los com profundidade. As metáforas religiosas de Adão e Eva e as tentativas de mitificar o nascimento de uma nova espécie tornam a narrativa menos potente do que poderia ser.
Ainda que o uso de arquétipos — como o de vilão arrependido e herói relutante presentes no filme — seja parte da natureza dos blockbusters, “Tron: Ares” falha em dar propósito a esses papéis, tornando o nascimento de uma nova espécie e os dilemas de seus heróis apenas repetições de ideias mais bem exploradas no passado.
Mesmo com esses tropeços comuns e humanos, “Tron: Ares” assume o papel de um filme que busca discutir moral e ética, o bem e o mal — um contraste interessante num momento em que o cinema parece mais interessado nas incertezas humanas do que em dilemas universais. Um bom exemplo é “Vidas Passadas“, também estrelado pela grandiosa Greta Lee. No filme íntimo de Celine Song, vemos a instabilidade emocional do ser humano que, independentemente da idade, nunca está realmente pronto para tomar as decisões “corretas” que a sociedade impõe — nem para lidar com suas consequências.
O blockbuster, que estreia hoje (quinta-feira, 9), segue a fórmula tradicional dos grandes lançamentos, apostando em uma moral simples e direta: um soldado criado por inteligência artificial começa a questionar os comandos de seu criador, o que leva ao clássico embate entre “criador e criatura”.

Filmes de ação geralmente pecam no desenvolvimento de personagens por priorizarem, naturalmente, as cenas de combate. Mas este não é o caso. Aqui, a narrativa brinca com a sensibilidade humana e com a lógica fria das máquinas. Jared Leto interpreta essa dualidade com uma fluidez surpreendente, tornando o espectador cúmplice da tentativa de comunicação entre um ser humano e uma IA.
A natureza digital da trama não impede que o público sinta empatia e apego pelos personagens — até mesmo pelo vilão. Nesse ponto, há uma única falha: o personagem de Evan Peters. Lembra um Lex Luthor versão “rico engomadinho e mimado” de “Superman” (2025) mas carece do destaque e da força dramática que o ator poderia facilmente entregar. Ainda assim, conforme a história avança, é possível compreender seu apagamento narrativo dentro da proposta do roteiro.
Voltando ao início: não é errado o público começar a ter um olhar mais crítico, ou que filmes reflexivos sejam naturalmente ruins. Tampouco que os “filmes bobos” sejam melhores que os complexos. A questão é que o extremismo dessa alienação crítica acaba levando muitos a desprezar qualquer filme “farofa”, esquecendo que seu principal papel é o entretenimento.
“Tron: Ares” é um espetáculo visual e fotográfico, com uma estética futurista-realista (sim, é redundante — mas você entende o sentido). As cenas de ação prendem o olhar à tela, enquanto o drama humano serve de base para a reviravolta das máquinas.




