Por mais estranho que pareça, o gênero de apocalipse zumbi possui muitas similaridades com o de super-heróis e em Marvel Zumbis não é diferente.
Ambos tiveram seus momentos máximos de popularidade nas décadas passadas, com produções que marcaram gerações e definiram padrões para a indústria. Também é verdade que saturaram o público com obras genéricas, repetitivas e sem fôlego criativo. É então bem alinhado com esse histórico que Marvel Zumbis surge: uma série que reflete a fadiga de ambos os gêneros, mas que, curiosamente, consegue entregar o básico com mais competência do que boa parte das produções recentes da Marvel.
Derivada do quinto episódio da primeira temporada de What If…?, Marvel Zumbis foca no novo portfólio de personagens do estúdio, com um ou outro veterano surgindo para atrair o público tradicional. O estilo de animação segue o mesmo da série original — e, nesse ponto, acaba jogando contra a produção. Em um momento em que grandes estúdios estão elevando o nível técnico das animações 2D e 3D, a série recorre a um visual ultrapassado e pouco detalhado, o que dificulta a apreciação de sua direção de arte. Ainda assim, ela existe — e brilha em momentos pontuais.

A narrativa acompanha Kamala Khan em sua jornada por um mundo devastado, tentando encontrar uma possível cura para o apocalipse zumbi. Eu sei, “comer, dormir e repetir”: o clichê básico do gênero, mas que ainda funciona quando bem executado. A força da série está na criação de laços entre personagens e na pureza que Iman Vellani traz à heroína. Sua leveza e carisma fazem com que nos importemos de verdade com quem ela encontra pelo caminho — e o fato de sabermos que, em um universo apocalíptico, todos estão sempre à beira da morte, reforça o impacto emocional dessas conexões.
Apesar da animação limitada, as lutas chamam atenção. A coreografia é bem pensada e dá espaço para versões alternativas de personagens, como Blade, que brilha em seus confrontos com os mortos-vivos. A violência é até surpreendentemente permissiva para os padrões da Disney — e há algo de divertido em ver heróis icônicos zumbificados, mas ainda com total controle de suas habilidades.

Outro ponto positivo é a duração enxuta: com apenas quatro episódios, Marvel Zumbis evita o erro de tantas produções do gênero. The Walking Dead é a maior prova de que alongar demais uma história sobre zumbis pode transformá-la em um morto-vivo narrativo. Aqui, a brevidade funciona como um acerto de tom e ritmo.
Infelizmente, o brilho da protagonista não é acompanhado por um elenco coadjuvante à altura. Muitos dos novos heróis ainda sofrem com o desgaste das produções medíocres da Marvel nos últimos anos. A série, mesmo sem intenção, acaba evidenciando a dificuldade do estúdio em tornar essa nova geração realmente marcante. Ainda assim, Marvel Zombies fica à frente da pouco inspirada What If…?, que parecia escolher as ideias mais insossas possíveis para cada episódio.

No fim, Marvel Zumbis é o retrato de dois gêneros tentando se reinventar em meio ao cansaço. Não revoluciona nada, mas entrega um entretenimento honesto — o que, considerando a fase atual da Marvel, já é quase um milagre.



