A cultura pop sempre se alimentou de si mesma. Mas nos últimos anos, a popularidade visual de muitas obras parece vir da mistura cada vez mais explícita entre diferentes mídias.
A pergunta não é mais se os criadores se inspiram em outras obras — isso é um fato histórico. A questão agora é: para emocionar o público hoje, é preciso dialogar com múltiplas formas de arte ao mesmo tempo?
Em fevereiro de 2025, o cantor The Weeknd apresentou duas faixas de seu novo álbum Hurry Up Tomorrow na cerimônia do Grammy. A primeira, “Cry for Me”, manteve a assinatura do artista: batidas eletrônicas precisas, sintetizadores melódicos e um visual dramático pontuado por feixes de luz e figurinos teatrais. Mas algo além da estética chamou a atenção — a movimentação dos dançarinos.

Em diversos trechos, eles se lançavam ao palco em movimentos caóticos, apenas para congelarem em poses dramáticas ou repetirem gestos de desejo em direção ao cantor. A imagem não soava aleatória. Pelo contrário: ecoava uma ambientação familiar para quem já explorou o cenário “Gate of Divinity” no jogo Elden Ring, de Hidetaka Miyazaki. E não por acaso — o próprio Abel Tesfaye, nome real do artista, já declarou ter terminado o jogo e ser fã de várias obras japonesas, que inclusive já inspiraram suas músicas anteriores.
Esse cruzamento entre jogos, música e performance não é exceção. É o novo comum.
Vale lembrar que o próprio cenário “Gate of Divinity” tem raízes visuais profundas: sua inspiração vem da escultura “Gates of Hell”, iniciada por Auguste Rodin em 1880. Em outras palavras, o que vemos nos palcos de 2025 talvez carregue, em camadas invisíveis, o peso de séculos de arte. E isso é fascinante.

Como sintetizou Picasso — ou, para alguns, T. S. Eliot —: “Good artists copy. Great artists steal.” A frase, mais do que polêmica, resume uma verdade na base de toda criação: nada nasce do zero. A diferença, hoje, é que os grandes artistas estão roubando de todos os lugares ao mesmo tempo — do século XIX ao metaverso, da escultura à inteligência artificial.
Outro exemplo forte dessa tendência é o filme Nope (2022), do diretor Jordan Peele. (Alerta de spoiler!) No clímax da trama, a entidade antagonista assume uma forma abstrata, quase celestial, que lembra os “anjos” de Neon Genesis Evangelion. E em um momento simbólico, Peele ainda recria a famosa cena da moto de Akira, clássico absoluto dos animes japoneses.
Aqui temos um cineasta de Hollywood, reconhecido por obras de suspense psicológico e crítica social, absorvendo linguagens orientais e reprocessando-as para seu público ocidental — e para o novo formato de mídia com o qual deseja dialogar.

No fim, talvez estejamos vivendo não um “multiverso de personagens”, mas um multiverso de mídias: onde a arte contemporânea se alimenta de tudo, e onde os limites entre videogame, cinema, escultura e performance já não importam mais. O que importa é o impacto — e como reconhecemos, mesmo sem nomear, os ecos dessas referências.







