lady gaga todo mundo no rio

A nova linguagem visual da cultura pop

O caminho para a popularidade visual na cultura pop é combinar diferentes mídias? Ou isso sempre aconteceu?

Matheus Camiña

A cultura pop sempre se alimentou de si mesma. Mas nos últimos anos, a popularidade visual de muitas obras parece vir da mistura cada vez mais explícita entre diferentes mídias.

A pergunta não é mais se os criadores se inspiram em outras obras — isso é um fato histórico. A questão agora é: para emocionar o público hoje, é preciso dialogar com múltiplas formas de arte ao mesmo tempo?

Cabana do Leitor Google Discover

Google Discover é do Google. Os cabaneiros podem nos seguir por lá.

Seguir

Em fevereiro de 2025, o cantor The Weeknd apresentou duas faixas de seu novo álbum Hurry Up Tomorrow na cerimônia do Grammy. A primeira, “Cry for Me”, manteve a assinatura do artista: batidas eletrônicas precisas, sintetizadores melódicos e um visual dramático pontuado por feixes de luz e figurinos teatrais. Mas algo além da estética chamou a atenção — a movimentação dos dançarinos.

Lady Gaga é uma das maiores lendas da cultura pop atual.
Lady Gaga é uma das maiores lendas da cultura pop atual.

Em diversos trechos, eles se lançavam ao palco em movimentos caóticos, apenas para congelarem em poses dramáticas ou repetirem gestos de desejo em direção ao cantor. A imagem não soava aleatória. Pelo contrário: ecoava uma ambientação familiar para quem já explorou o cenário “Gate of Divinity” no jogo Elden Ring, de Hidetaka Miyazaki. E não por acaso — o próprio Abel Tesfaye, nome real do artista, já declarou ter terminado o jogo e ser fã de várias obras japonesas, que inclusive já inspiraram suas músicas anteriores.

Esse cruzamento entre jogos, música e performance não é exceção. É o novo comum.

Vale lembrar que o próprio cenário “Gate of Divinity” tem raízes visuais profundas: sua inspiração vem da escultura “Gates of Hell”, iniciada por Auguste Rodin em 1880. Em outras palavras, o que vemos nos palcos de 2025 talvez carregue, em camadas invisíveis, o peso de séculos de arte. E isso é fascinante.

rbsm

Como sintetizou Picasso — ou, para alguns, T. S. Eliot —: “Good artists copy. Great artists steal.” A frase, mais do que polêmica, resume uma verdade na base de toda criação: nada nasce do zero. A diferença, hoje, é que os grandes artistas estão roubando de todos os lugares ao mesmo tempo — do século XIX ao metaverso, da escultura à inteligência artificial.

Outro exemplo forte dessa tendência é o filme Nope (2022), do diretor Jordan Peele. (Alerta de spoiler!) No clímax da trama, a entidade antagonista assume uma forma abstrata, quase celestial, que lembra os “anjos” de Neon Genesis Evangelion. E em um momento simbólico, Peele ainda recria a famosa cena da moto de Akira, clássico absoluto dos animes japoneses.

Aqui temos um cineasta de Hollywood, reconhecido por obras de suspense psicológico e crítica social, absorvendo linguagens orientais e reprocessando-as para seu público ocidental — e para o novo formato de mídia com o qual deseja dialogar.

akira

No fim, talvez estejamos vivendo não um “multiverso de personagens”, mas um multiverso de mídias: onde a arte contemporânea se alimenta de tudo, e onde os limites entre videogame, cinema, escultura e performance já não importam mais. O que importa é o impacto — e como reconhecemos, mesmo sem nomear, os ecos dessas referências.

A cultura pop sempre foi um espelho. Agora, ela parece ser um mosaico.

Compartilhe este artigo