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Crítica | Michael “Sua música foi feita para todos, mas esta história foi feita para negros”

Michael tem um público específico e não está entre os críticos do Rotten Tomatoes, mas os moradores de Santa Marta vão entender.

Ed Rezende
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Ed Rezende
Produtor, escritor nas horas vagas, administrador, editor e fundador do site CDL.
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Michael
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Antes de tudo, é importante deixar claro que esta análise do filme Michael refere-se à cinebiografia do maior artista negro de todos os tempos, dirigida por um cineasta negro e produzida pelo espólio de Michael Jackson, formado em sua maioria por negros. Sendo assim, quem escreve aqui é um jornalista negro.

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O filme que estreia hoje nos cinemas brasileiros retrata um período da vida do Rei do Pop, sem abordar polêmicas criminais relacionadas ao artista. O foco principal está na sua relação com o pai, Joe Jackson, vivido por Colman Domingo.

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O que torna Michael especial talvez não seja a fotografia, que é bastante genérica, nem a direção, que não traz inovação (o que não é comum em cinebiografias), nem as cenas recriadas no filme idênticas aos clipes do Michael que encontramos no YouTube. Acho que minha percepção falha porque talvez ele impacte pessoas negras de uma forma diferente do que poderia impactar outras, e me refiro aqui ao roteiro e à relação dele com o pai.

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Michael

Conversando com uma pessoa ao meu lado, que também é negra, percebemos que compartilhávamos a mesma opinião: “o pai dele lembra o meu pai”. Talvez aí esteja o ponto chave, pois, embora as avaliações deste filme sejam provavelmente focadas na fotografia e na direção, não consegui me desligar do roteiro que traz em nuances frases ditas por intelectuais negros neste e em outros anos, remetendo muito à vida de Michael Jackson e à de tantos negros ao redor do mundo.

Uma das frases que mais me marcou nos últimos anos foi do psicólogo baiano Manoel Neto, que, em uma carta escrita antes de cometer ato contra si, disse: “Sou um homem negro. Eles respeitam a minha agressividade, não a minha cordialidade”.

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O pai do Michael era o tempo todo agressivo com os filhos, acreditando que a única forma de educá-los era justamente sendo duro. Mesmo depois de adulto, ele achava que, se não mantivesse essa postura, perderia o controle sobre todos ao seu redor.

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Michael também contrata o experiente advogado John Branca, interpretado por Miles Teller, para fazer valer suas vontades contra seu pai e a MTV, que na época só divulgava cantores brancos. Por mais que seu pai já fosse um grande empresário, ele não conseguiria enfrentar grandes conglomerados sendo um homem negro — talvez apenas um advogado branco pudesse fazê-lo.

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Outra grande frase que sempre guardo para mim é: “Para um negro não basta ser bom, tem que ser excelente”. Michael não era apenas um bom artista negro — bons eram seus irmãos (abandonados pelo roteiro neste filme, a ponto de nem sabermos o nome deles) — ele era excelente. E mesmo com toda a excelência ao seu lado, isso não o impedia de sofrer nas mãos do racismo.

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Joe não era apenas um patriarca linha dura, ele é o pai genérico que quase toda criança negra que viveu antes dos anos 2000 teve. O filme não o humaniza, pelo contrário, mas é impossível não ver um pouco dele no pai de muitas crianças negras dessa época.

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No meu caso, meu pai não chegou a concluir a 4ª série, pois precisou sair da escola para ajudar a família, e só conheceu ordem e obediência. No filme, Michael não quer seguir todas as regras que o pai impõe e, por isso, sofre mais. Quando comecei a questionar meu pai sobre o que ele queria para nós, acabei sofrendo o mesmo que o Michael sofreu.

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O pai do artista cometeu um erro fatal que mudou tudo em relação à sua questão, assim como para a pessoa negra que estava ao meu lado e para mim. Joe não entendeu que, quando Michael cresceu, ele já não tinha mais controle sobre ele e deveria apoiá-lo. Meu pai fez o mesmo, assim como o pai do meu amigo. O pai de Michael Jackson foi incapaz desse gesto, perdendo o filho para sempre.

Não à toa, muitos na minha sessão choraram. No filme, Michael percebe que não é como as outras crianças. Toda criança negra que cresceu na mesma época do cantor, ou em período semelhante, sabe o quanto o racismo era normalizado por conta do bullying que sofremos e, muitas vezes, até reproduzíamos entre nós mesmos sem perceber.

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A diferença é que, no caso do Michael, seu futuro estava na música, enquanto o meu estava, de fato, na escola, e não havia como escapar. Não estou invalidando as opiniões de críticos brancos sobre este filme, eles têm seus motivos, assim como jornalistas negros que podem ter uma visão totalmente diferente.

Acho que este filme não vai conquistar os críticos do Rotten Tomatoes, mas os moradores da periferia e do Santa Marta vão entender bem a mensagem.

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Estou apenas assistindo a este filme de um jeito diferente do que a maioria viu, dando mais importância ao que realmente importou para mim: a sua história.

Michael estreia hoje nos cinemas.

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Muito Bom 8
Nota 8
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