Com quantos paus se faz um filme do Nolan em A Odisseia? Apesar do grande reconhecimento cinematográfico de Christopher Nolan, suas obras têm passado por um escrutínio gigante nos últimos anos.
Os seus longas têm um certo estereótipo e um ar de “receita de bolo” que cansa uma parte do público e, de certa forma, houve uma perda de boa vontade geral com as excentricidades do diretor. Porém, “A Odisseia” talvez seja o mais perto que vamos chegar da unanimidade sobre um bom filme do Nolan; não tem como dizer que esse filme é ruim.

Foi se criando um clima de ansiedade enorme a cada notícia ou relato de bastidores que saía durante a produção, e acredito que muita gente, assim como eu, já veio assistir ao filme na defensiva, esperando se irritar com uma retratação insossa e cinzenta de uma epopeia. Mas, às vezes, acontece que a língua é o chicote da bunda, e o realismo cinzento é a antítese desse filme.
O longa realmente é um épico, construído em cada detalhe, em cada grão de areia das paradisíacas ilhas gregas. Narrativamente, a escolha de contar os feitos de Odisseu segundo a tradição histórica de tradição oral da Antiguidade, retratados de formas ligeiramente diferentes, sujeitos ao ponto de vista do narrador, engrandece os feitos heroicos e constrói com maestria o mito do herói grego.

Há uma melancolia sensível e delicada que permeia o filme, melancolia essa que poderia facilmente pender para o lado do realismo brutal. Eu realmente temia que uma história epopeica fosse ser contada à moda da Segunda Guerra Mundial.
Esse filme é tão bom que é ingrata a missão de dar os parabéns a todo ser humano envolvido em fazê-lo acontecer. O elenco está impecável, e os papéis polêmicos e controversos são aparições pontuais e muito bem-feitas. Inclusive, a forma em que certas personagens aparecem e desaparecem também é certeira: o tempo de tela pode ser inversamente proporcional ao peso dela para a história. Todo mundo aparece na exata hora em que precisa aparecer e sai na exata hora em que precisa sair. Quanto aos aspectos técnicos, tudo é feito com primor, amor e capricho. A tarefa hercúlea de contar a Odisseia culmina numa sinfonia visual de tirar o fôlego.
O espectador é devorado pela Grécia Antiga, os cenários ressoam a magnitude e a grandiosidade enorme dessa civilização. Você é engolido pela catarse, pelo mito, pelo onírico. O macabro é abordado sem medo, a estranheza é colocada com o mesmo protagonismo da beleza. Eu destaco as cenas da caverna do ciclope e da ilha de Circe, que deixam até suas entranhas desconfortáveis.

Meus olhos brilharam principalmente com as escolhas dos figurinos. Os tecidos são fluidos, translúcidos, etéreos, executados brilhantemente a ponto de parecerem parte do corpo das mulheres e não apenas uma roupa a ser vestida. Muitas vezes, roupas soltas e peças de época pouco estruturadas são feitas só para serem largas e um saco de batata sem forma. Aqui, foram esculpidas nos corpos das atrizes.
Os penteados intricados e os adornos muito bem colocados dão aquela sensação de imponência e nobreza inquestionável. O que mais me deixa feliz é que, de fato, os figurinos foram usados para fixar bem o papel das personagens do filme, algo imprescindível no mito: reconhecer pela imagem. Quem se destaca, destaca-se ou pela excentricidade ou pela simplicidade.
Todos sabemos que a Odisseia é uma história milenar e que não tem muito pra onde fugir quando se trata do que vai acontecer, mas esta humilde autora que vos escreve vai continuar evitando falar dos acontecimentos em si, porque eu realmente acredito que, quanto menos você souber das minúcias do filme, melhor. Confia e vai ter essa experiência de luxúria e catarse coletiva de um festival de Dionísio.
Assim como a história de Odisseu, “A Odisseia”, de Christopher Nolan, é profética e será citada como um dos mais belos exemplares do cinema para todo o eterno sempre.













