É um caso curioso ter um filme como “Cara-de-Barro” no gênero de super-heróis no cinema, porque é uma produção que não “se encaixa” nos padrões estabelecidos nesses últimos anos. É simplesmente um terror corporal extremamente colorido e sujo, que não tem vergonha de sua fantasia e segue com convicção em seus objetivos até o fim.
Em “Cara-de-Barro”, seguimos Matthew Hagen (Tom Rhys Harries), um ator promissor de Hollywood cuja ascensão meteórica é interrompida após ser horrivelmente desfigurado por um chefão do crime de Gotham City. Desesperado para recuperar sua aparência, identidade e carreira, ele se submete a um tratamento científico experimental e questionável pela doutora Caitlyn Carr (Naomi Ackie). O filme é dirigido pelo cineasta inglês James Watkins (Não Fale o Mal) e conta com roteiro de Mike Flanagan (Doutor Sono e Missa da Meia-Noite) e Hossein Amin.

Inclusive, desde a sua criação por Bob Kane e Bill Finger nas páginas da revista “Detective Comics #40”, o personagem-titular possui uma conexão forte com o cinema, pois, quando surgiu, ainda não era o Matt Hagen e não tinha poderes, mas sim o Basil Karlo, o primeiro Cara-de-Barro dos quadrinhos (sim, existem mais de um). Karlo era um ator famoso de filmes de terror e enlouqueceu ao descobrir que seu clássico filme de terror, “The Terror”, seria refilmado com outro ator no papel principal.
Como dito antes, o personagem não tinha poderes ou corpo de argila: ele apenas usava a fantasia e a máscara do monstro “Cara-de-Barro” do seu antigo filme para cometer uma série de assassinatos, e seu visual era inspirado em Erik, o Fantasma da Ópera, do livro de mesmo nome.

Já nosso protagonista, Matthew Hagen, recebeu sua notoriedade pela mídia quando apareceu na aclamada “Batman: A Série Animada”, com o episódio duplo “Perito em Formas Humanas”, e foram esses episódios que inspiraram o Flanagan a escrever o roteiro de “Cara-de-Barro”.
É o terceiro longa-metragem do novo universo cinematográfico da DC Comics (DCU), que está sendo comandado por James Gunn (diretor da trilogia dos “Guardiões da Galáxia” e de “Superman”). É uma ousadia tremenda produzir um filme de terror sobre um vilão do Batman no começo de um universo, no entanto a execução é grotescamente esplêndida.
Infelizmente, Flanagan não pôde conduzir o longa, então Watkins assumiu o barco e conseguiu entregar uma direção competente e bastante inventiva. É facilmente seu melhor trabalho e consegue muito bem utilizar suas imagens para transmitir a sujeira em cores (aliado à cinematografia excelentíssima de Rob Hardy), usando particularmente vermelho e amarelo para expressar sua violência visceral e os desejos e prazeres entre os personagens.

Sem dúvidas, vai haver comparações entre “A Substância” e “Cara-de-Barro”, apesar de ambos compartilharem a premissa de um artista tentando salvar sua carreira através de uma fórmula; contudo, “Cara-de-Barro” vai muito além disso.
É uma história de vingança que mergulha no body horror, tendo influência do cinema de David Cronenberg (“A Mosca” e “Crimes do Futuro”) e usufruindo de elementos quadrinescos ao seu favor. A desfiguração do rosto de Hagen é apenas o começo de sua queda: ele sofre difamação, além de ser traído pelo sistema, por amigos e por agentes. O personagem chega ao fundo do poço e, se tratando de Gotham City (vale ressaltar que a cidade está espetacular), o astro assinou sua própria tragédia.
Tom Rhys Harries (“O Retorno”) está brilhante como Matt Hagen/Cara-de-Barro. É um personagem que exige do ator bastante versatilidade, e Harries proporciona uma performance sublime — não é exagero essa afirmação, pois o astro consegue passar todas as nuances e expressões que o papel necessita. Hagen não é uma pessoa perfeita, porém o seu declínio gradual até se tornar o monstro é melancólico. É uma melancolia que o espectador sente através das imagens e da interpretação de Harries.

A estética de “Cara-de-Barro” é um dos aspectos mais apaixonantes. É uma produção que encanta por transformar toda a sujeira em cores vibrantes; o exemplo disso é a própria Gotham da obra. A cidade do Cruzado Encapuzado é tudo aquilo que o público espera: é imunda, corrupta, selvagem, todavia também é um local cheio de identidade. O longa consegue trazer a imersão de Gotham para o espectador e sentir a experiência que está vendo uma cidade perdida no caos, e no meio de tanto lixo e fumaça, talvez haja um pedaço bem pequeno de esperança.
Além disso, o visual reflete na utilização da brutalidade, porque há uma beleza nessa jornada de sangue e ódio. As cenas são grotescas e tensas? Sim, portanto a direção de Watkins captura o encanto de como o sangue é jorrado, os membros do corpo sendo arrancados e a pele dissolvendo, além de explorar com excelência os poderes de metamorfose do Cara-de-Barro com planos, efeitos e truques de câmera que fazem o público se maravilhar com as cenas.
“Cara-de-Barro“, é um horror corporal colorido, mas extremamente violento. É uma surpresa maravilhosa que não tem medo de arriscar na sua proposta e consegue entregar um espetáculo feroz muito inventivo e levar seus temas a sério. São filmes assim que fazem o cinema de quadrinhos ter uma fagulha de otimismo para não ficar preso na mesmice e poder ser um gênero ousado.















