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Resenha de “MAR NEGRO”, de Dau Bastos

Marco Antonio Martire
Marco Antonio Martire
Marco Antonio Martire é formado em Comunicação Social pela UFRJ, trabalha como servidor público concursado no TRE-RJ e publica no CABANA DO LEITOR, no BLOGUI DO...

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Pela Ponteio, chegou às livrarias em 2014 este “Mar Negro”, novo romance de Dau Bastos, que nos apresenta em 276 páginas sua heroína: uma jovem alagoana que não tem nada de esbelta, pelo contrário, sua Anderline sofre de um mal terrível, é feia de dar dó, feia de se dar mal na vida. Esta é apenas a ponta do enredo que Dau Bastos desenvolve ao longo de seu romance. Inconformada com o destino de baranga, a protagonista e narradora Anderline abandona Maceió e parte em uma jornada através da Europa Oriental, rumo ao Mar Negro do título, onde por obra do autor espera desaparecer. Sua consciência da própria feiura a persegue por toda parte, está na gênese de seu irônico discurso e mesmo da decisão de partir, já que se apaixonou perdidamente pelo belíssimo chefe, jovem playboy milionário que vive a lograr, com ajuda da desprezada Anderline, novas conquistas amorosas.

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A feiura de Anderline – e sua extrema consciência, ela sabe inclusive que é personagem – projeta a crítica que povoa este romance e que o torna uma leitura surpreendente. Por ser feia, Anderline não tem direito à felicidade? Ela vai buscá-la em pleno inverno europeu, foge das capas de revistas, dos rostos de ojeriza de falsas amizades alagoanas, foge da sociedade que a criou para que louvasse a beleza e desgostasse de si mesma. Ela não é inocente, não nos engana, como defesa precisou desenvolver a mente, o que lhe serviu para que não transformasse em pedra o coração. Contudo, o saber que é intelectualmente superior à média não funciona bem como lar da satisfação, não basta para aplacar sua libido sempre alerta, que precisa de amantes, que requer afeto e carinhos. Dessa desdita, se faz o caminho deste “Mar Negro”.

Para apaziguar-se e entreter o leitor, Anderline narra suas aventuras, escreve emails para a melhor amiga, através das redes sociais denuncia para os cornos de Maceió o ex-chefe, mergulha cada vez mais fundo no leste da Europa, Berlim, Varsóvia, Budapeste, Bucareste, servem de gelados cenários que ela tenta percorrer em busca de salvação para a sua claudicante autoestima.

É a saga de uma imperfeita heroína, que adiciona ao seu discurso cheio de gostosas ironias comentários que zombam do próprio destino e das estratégias do autor. Anderline às vezes desconfia que é personagem, às vezes tem certeza, intui que sua existência é conduzida pelas mãos do escritor, que a traça sobre o mapa mundi em périplo de sentido certeiro. Através das aventuras de sua protagonista, podemos refletir a respeito da onipresença do que é hoje padronizado e servido como meta de vida e entretenimento. A feiura e os feitos de Anderline atestam que para viver não é preciso ostentar a beleza de uma deusa da mídia, talvez não seja necessário escapar para as terras do inverno europeu, será que não havia para ela destino mais próximo de nós?

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Fosse perto, mostra Dau Bastos, não haveria Anderline, ela é uma deusa das longas distâncias, persegue-se e também persegue o outro, aquele que ostenta (este sim aquele que deseja de verdade) a vocação para uma improvável felicidade.