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Resenha| Cidades que afundam em dias normais

Paulo H. S. Pirasol
Paulo H. S. Pirasol
Poderia ser um escritor se escrevesse.

Cidades que afundam em dias normais foi escrito por Aline Valek, escritora e ilustradora mineira-brasiliense, publicada em setembro pela Rocco. A autora já publicou de forma independente Hipersonia crônica (2013), Pequenas tiranias (2015), entre outras obras. Em 2016, a Rocco publicou um de seus romances, As águas-vivas não sabem de si.

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capa do livro cidades afundam em dias normais

A cidade Alto do Oeste, meio do Cerrado, no início do milênio, afundou dentro de um lago. Vinte anos depois, uma seca extrema voltou a revelá-la e ex-moradores voltam ao lugar. Uma antiga moradora, Kênia Lopes, decide captar, através da fotografia, o lugar em ruínas e entender a relação da antiga cidade com os moradores que retornaram.

“As fotografias e depoimentos reunidos nesta exposição são, acima de tudo, um retrato de ruínas impossíveis de reconstruir: uma cidade aos pedaços, relações que se romperam, pessoas que partiram.”

O potencial da arte é o elemento fundamental da perspectiva que é proposta pela história. Na obra, entendemos que o que se perdeu com a cidade foram suas culturas. A cultura é a segunda natureza humana, um pensamento que pode sobreviver ao tempo, mas em Cidades afundam em dias normais percebemos que com a vinda cruel do tempo, o que resta destas culturas é a memória.

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“Inútil perguntar qualquer coisa ali, se quem realmente poderia responder não estava mais. Apenas as imagens não eram capazes de explicar o que realmente significava existir naqueles tempos.”

Paleolítico para Cidades que afundam em dias normais

Para nos fazer crer na importância de manter viva uma cultura, o livro introduz uma rejeição de Kênia às explicações que guias davam não só sobre a cidade, mas até do período Paleolítico. Para a fotógrafa, a memória não se equivale a explicação real do que aquilo significou.

É a partir deste momento que a sua jornada entre a memória passa a ter uma busca mais profunda, e suas perguntas aos moradores se mostram cada vez mais investigativas. Assim, em seus primeiros capítulos, a obra se assume como uma investigação da relação que existe entre o tempo e a cultura.

“Os dedos leram na parede as palavras KÊNIA TRAÍRA, riscadas fundo com uma letra dura, que gritava através do tempo.”

Durante seu documentário, Kênia investiga a si mesma e a relação que aquelas memórias lhe proporcionam, além de que, a quem mais proporcionam e por quem foram escritas. Ela divide: o retrato, autor e espectador. Em seguida, mostra como cada um deles é explorado pela fé, ganância ou curiosidade.

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São as camadas culturais, criadas pelo tempo, discutidas no livro que tornam a jornada interessante, apesar da obra parecer pessoal, com o ritmo mais significativo para a autora do que para quem desconhece aquele mundo e está embarcando nele agora, ou seja, o leitor pode sofrer uma dificuldade, justamente por ele estar presente, mas não sendo um ex-morador. Apesar disso, entender o significado da preservação cultural através de outro, é uma experiência única e justifica seu ritmo desigual.

É com base nas relações daqueles que interpretam e oferecem um significado da memória, que as cidades afundadas retornam.