foto de fundo A Visita Cruel do Tempo

A Visita Cruel do Tempo

Paulo H. S. Pirasol
Por
Paulo H. S. Pirasol
Poderia ser um escritor se escrevesse.

A Visita Cruel do Tempo é um livro escrito por Jennifer Egan publicado em 2010 pela Knopf. A editora Intrínseca lançou o livro nas livrarias brasileiras em 2012 com tradução de Fernanda Abreu. A obra venceu o Pulitzer de Ficção 2011, o National Book Critics Circle Award, o Los Angeles Times Book Prize e o Tournament of Books.

Jennifer Egan nasceu em Chicago e cresceu em São Francisco. Publicou trabalhos em revistas como The New Yorker, Harper’s Magazine, Granta e GQ. Com seus artigos de não ficção para a The New York Times Magazine, Egan recebeu diversos prêmios jornalísticos. Foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes do ano de 2011 pela revista Time.

Cabana do Leitor Google Discover

Google Discover é do Google. Os cabaneiros podem nos seguir por lá.

Seguir

O livro é um conjunto de histórias curtas inter-relacionadas conectadas a Bennie Salazar, um executivo da indústria musical, e aos outros integrantes de sua antiga banda de punk rock. O narrador muda conforme a história, assim como o tempo.

71SUdnzQgL

A obra implica em uma grande diferença de conhecimento do tempo do narrador em comparação aos personagens, estes que muitas vezes se mostram marcados pela juventude. O narrador tem a frieza de falar, em qualquer momento, sobre as tragédias que virão com o tempo.

Um detalhe que incomoda é que autora trabalha muito mais o seu papel como narradora do que a construção das ações do capítulo, e eles só acabam ganhando força devido aos elementos ousados da narração. Em outras palavras, a história se apequena ao se tornar tão dependente de um condutor.

Este fator também faz com que a narração seja muito bem trabalhada. Egan aos poucos vai mostrando que é capaz de viver intensamente cada personagem e sempre busca formas inovadoras de montar sua narrativa para que saibamos identificar a mudança de narrador.

A montagem da obra é o grande destaque, ela trabalha com a ideia de um tempo não linear e isto fica claro quando o próprio livro funciona desta forma. Os capítulos não seguem uma ordem cronológica e isso é sempre lembrado nos parágrafos quando ela expõe o futuro de um personagem a partir da transição com o presente, feita por determinado assunto, estabelecendo a coerência da exposição.

Ou seja, o próprio leitor sofre com a visita do tempo, da qual se mostra em muitas vezes bastante cruel. Assim são as tragédias, histórias que tiveram um início vivaz e sorridente, mas um fim doloroso e melancólico.

“Ele estava dirigindo um Mercedes vermelho. Em 1979, isso podia ser o início de uma história emocionante, uma história em que tudo poderia acontecer. Hoje em dia é um prenúncio de tragédia”

As consequências estão quase sempre longe do que esperamos; o livro mantém sua pegada realista. O futuro não é exagerado ao ser melancólico, é apenas indesejável. Com este desconforto percebemos que o tempo não está incomodando os personagens tanto quanto incomoda o leitor.

“É essa a realidade, não é? Vinte anos depois, a sua beleza já foi para o lixo, especialmente quando arrancaram fora metade das suas entranhas. O tempo é cruel, não é? Não é assim que se diz?”

Para os personagens o tempo é aquilo a se preocupar por representar o fim da juventude; para eles é linear. É preciso de maestria para abordar o tempo destas duas formas, linear e não linear ao mesmo tempo. Ainda mais para fazer o leitor sentir a mesma coisa, como é pretendido quando se observa a montagem do livro, e para fazer os personagens entenderem da forma que deve ser entendido por quem não está vendo a trama geral do livro.

A estrutura faz com que os personagens e o leitor se diferenciem na perspectiva de tempo. Deste modo, é fabulosa a delicadeza e o empenho com a qual Jennifer Egan implanta uma função exata na mente do leitor. Entretanto a dependência altíssima da história com a narração mutável enfraquece a carga emocional das ações.

A Visita Cruel do Tempo conquista o leitor pela escrita da autora e sua inteligência, mas não exatamente pela história.

Tags
Compartilhe este artigo