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Avengers: Endgame – Uma aula de confecção cinematográfica

Nada, nem o horror de Han Solo congelado em carbonita, nem o choque da esposa de James Bond assassinada, poderia preparar os fãs para “o estalar”.

Fernanda Novaes

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O acumulo de dez anos e mais do que o dobro de filmes no Universo Cinematográfico Marvel, “Avengers: Endgame” promete o encerramento, onde seu antecessor “Avengers: Infinity War”, semeou o caos. Um filme que revelou que todos os filmes da MCU tinham sido parte de um plano de mestre sem precedentes: um estalo, um gesto que, quando realizado por um supervilão armado com as Joias do Infinito, era capaz de exterminar metade de toda a vida no Universo.

Um dos elementos que tornaram os dois últimos filmes dos Vingadores distintos de outros filmes de super-heróis foi o fato do vilão Thanos não ser motivado pela habitual agenda de “dominar o mundo”. Como explicou à sua filha adotiva, Gamora: “É um cálculo simples. Este universo é finito, seus recursos são finitos. Se for deixada sem controle, a vida deixará de existir. Ela precisa ser corrigida”. Quando Gamora protestou que ele não poderia saber disso com certeza, Thanos respondeu: “Eu sou o único que sabe disso. Pelo menos eu sou o único com vontade de agir”.

Essa lógica pode parecer familiar. Em seu livro de 1798, “Um Ensaio sobre o Princípio da População”, Thomas Robert Malthus argumentou que a população do mundo crescia em progressão geométrica enquanto a produção de comida crescia em progressão aritmética. Ou seja, a população cresceria muito mais do que os alimentos, o que levaria o mundo a uma miséria permanente. A natureza interviria nos momentos em que o desequilíbrio atingisse determinado limite, por meio da fome e de pestes. As ideias de Malthus permanecem fortemente contestadas até hoje, mas são bastante simples – e, talvez o mais importante, fáceis de interpretar em nome de uma agenda tirânica de assassinatos em massa – que é lógico que uma variação delas apareça em uma ficção na filosofia do supervilão. 

Uma das melhores coisas sobre “Avengers: Endgame“, é como ele usa essa filosofia para olhar para a alma de Thanos , e como o Vingador que acaba matando o vilão era a personificação viva da visão de mundo oposta.

Tivemos um ano para lamentar a perda do Homem-Aranha, Senhor das Estrelas e Pantera Negra, e ainda nutrir teorias sobre onde os irmãos Anthony e Joe Russo poderiam orientar as coisas dali em diante. Talvez todos esses personagens não estivessem realmente mortos. Talvez os restantes dos Vingadores só precisassem viajar dentro da Pedra da Alma para recuperá-los. Ou talvez “Avengers: Endgame” teria que recorrer ao mais desesperado dos truques da narrativa, a viagem no tempo, para desfazer as perdas causadas por Thanos.

Quando vemos Thanos novamente pela primeira vez em “Avengers: Endgame“, o titã louco recuou para um “planeta jardim” para se aposentar. Notavelmente, uma das primeiras coisas que Thanos fez foi destruir as Joias do Infinito para que seu trabalho não pudesse ser revertido e para que ele não sucumbisse à tentação de usar as pedras para se tornar um Deus. Considerando-se que muitos fãs de quadrinhos acreditam que Thanos é a figura mais poderosa em todo Universo Marvel, essa decisão é bem feita. Aparentemente, estabelece que Thanos, não importa o quão mal suas ações possam ter sido, foi genuinamente motivado por um desejo de tornar o universo um lugar melhor do que por egoísmo ou luxúria de poder. É como observa o Capitão América à Viúva Negra: “Um bando de baleias foi avistado no rio Hudson, perto de Nova York”. A estratégia de redução populacional, embora maléfica, não foi isenta de benefícios.

Vale dizer que “Avengers: Endgame é o filme mais expansivo até agora, e sim, ele se esforça para fornecer catarse emocional para vários dos nossos personagens favoritos. É até seguro dizer que Endgame muda o foco das exibições extravagantes – embora elas estejam ali – para o mais humano do heroísmo, que vem em grande sacrifício pessoal.

Uma vez que Thanos começa a ver sua agenda como uma “inevitabilidade” , e é confrontado com a possibilidade de que este destino possa ser frustrado pelos Vingadores, um lado diferente dele emerge. Em vez de ver que as consequências morais de seu icônico estalar de dedos seria demais para o mundo suportar – que o universo preferiria lidar com seus problemas de alocação de recursos de uma forma humana do que simplesmente matar metade da população – Thanos argumenta que a vida está teimosamente disposta a aceitar a sabedoria de sua abordagem e, portanto, é indigno de viver. Até que ele é impedido pelo Homem de Ferro no último segundo. Seu novo plano era destruir toda a vida no universo e substituí-la por um novo universo criado por ele mesmo. É aqui que o suposto idealismo que motivou Thanos se revela uma ilusão, e Thanos é identificado como um verdadeiro monstro sem a fachada de uma nobre causa para se redimir.

Isso nos leva ao arco do personagem de Stark – especificamente como era apropriado para ele ser o Vingador que faz o sacrifício final ao derrubar Thanos.

Embora tanto Thanos quanto Homem de Ferro equilibre o egoísmo com o idealismo no começo, a qualidade redentora do Homem de Ferro foi sua disposição de aprender com seus erros. O fútil playboy bilionário do começo de “Homem de Ferro” e ganancioso capitalista em “Homem de Ferro 2” acabou se tornando o defensor da razoável regulamentação governamental em “Capitão América: Guerra Civil” e, finalmente, a figura de Cristo disposta a morrer para que o Universo possa viver no final de “Avengers: Endgame”. Isso não significa que o Homem de Ferro perca sua tendência individualista; é apropriado que, embora a habilidade de Thanos de manejar as pedras do infinito dependa de uma manopla que ele meramente adquiriu, a habilidade do Homem de Ferro de usar essas mesmas pedras para impedir Thanos depende da tecnologia que ele mesmo inventou. É o cérebro de Stark, assim como seu caráter moral superior, que salva o dia.

E é por isso que continua sendo tão poderoso considerar a troca de diálogo final entre esses dois personagens, quando Thanos diz que ele é inevitável e Stark simplesmente responde: “E eu sou o Homem de Ferro“. 

Nada, nem o horror de Han Solo congelado em carbonita, nem o choque da esposa de James Bond assassinada, poderia preparar os fãs para “o estalar” e a dor de ver metade dos heróis transformados em pó no final de “Avengers: Infinity War.”

A cena de abertura do Endgame revisita esse momento insuportável do ponto de vista de Clint Barton, também conhecido como “Gavião Arqueiro”, que ficou de fora da batalha anterior para passar um tempo com sua esposa e filhos, de tal forma que a sua dor, virá a representar o que todo ser humano deve experimentar ao testemunhar seus amigos e familiares desaparecerem ao redor do mundo – e por todo o universo.

Os irmãos Russo dedicam uma boa quantidade de tempo para convencer os heróis que a missão vale a pena tentar, mas nos pede para aceitar isso, depois de empurrarmos dois ou três desses filmes da Marvel por ano. De alguma forma, todos ficaram parados por meia década, esmagados pela depressão e pela derrota. Ainda assim, o flash forward de cinco anos permite mudanças significativas e, em alguns casos, divertidas para Iron Man, Hulk e Thor.

Mas aqui está a questão de usar a viagem no tempo para resolver seus problemas: assim que os roteiristas abrem a porta para esse dispositivo, qualquer sequência pode desfazer o que veio antes.

Aqui, alguém faz a sugestão de que eles voltem e estrangulem Thanos no berço, o que o filme trata como uma brincadeira, por que a ideia que é de fato aceita por todos é projetada para produzir o número máximo de reviravoltas surpreendentes, confrontos divertidos e momentos de união entre parceiros incompatíveis, como Thor e o guaxinim espacial Rock-Cooper. O plano também permite que os Vingadores sobreviventes revisitem cenas dos filmes anteriores, observando suas versões mais jovens – assim como companheiros mortos por Thanos – de um ângulo diferente, e em dois casos muito diferentes, enfrentando seu eu anterior.

Se a “Infinity War” construiu, inexoravelmente, uma conclusão “inevitável”, isso foi possível pela ousada escolha dos cineastas de posicionar seu vilão como um protagonista profundamente não convencional: foi Thanos quem empreendeu a “jornada do herói” daquele filme, superado em desvantagem pelos Vingadores em sua busca para acumular as pedras do infinito. Aqui, a equação é invertida, com um excesso de heróis se dividindo para repetir mais ou menos a mesma missão, com apenas um adversário para se opor a eles.

Se esses filmes são como sinfonias maciças, então os maestros tiveram o cuidado de dar a quase todo mundo um solo de destaque, ainda que breve – um momento no filme em que um grupo reúne todas as Vingadoras femininas, e prova que se o ataque de Thanos tivesse acabado com os homens, as mulheres restantes ainda seriam terrivelmente formidáveis ​​por conta própria. Por mais satisfatórias, e necessárias que essas vinhetas podem ser ainda é arte quando um filme parece tão claramente submetido à engenharia reversa de acordo com o apetite do público, ou isso faz de “Endgame” a melhor confecção de cultura pop?

Depois de mais de duas horas e meia de entretenimento, “Endgame” encerra todo esse cenário absurdo com uma série de cenas emocionais poderosas. O filme dá ênfase na importância da família, quer isso signifique laços biológicos ou aqueles vinculados pelo dever.

A conclusão final desta jornada de uma década é que o heroísmo não é definido pela bravura ou super habilidades, mas pelo que se renuncia pelo bem maior. .

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