Caixinha de lembranças

Carla Rocha
4 Min Ler

caixinha

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Leia ao som de Sweet Beginnings

A memória é uma caixinha de lembranças que a gente volta pra reviver algo quando não resta mais nada, apenas a saudade. A gente volta pra saber onde foi que tudo desandou depois de uma tragédia, é aquela famosa caixa-preta que todos procuram depois da queda dos aviões. A gente volta porque se pergunta: Onde foi que deu errado? Só que já é muito tarde para recuperar histórias perdidas em meio a tantos destroços e destruição. Não há mais como voltar e  então a gente apenas aceita e vai vivendo. Aceita e segue em frente, continua caminhando sem saber pra onde meio entorpecido e com o corpo anestesiado de tanta dor sem nem perceber todo o resto de vida a nossa volta.

Passei tanto tempo tentando me convencer de que eu tinha que te esquecer a qualquer custo se eu quisesse seguir em frente que nem percebi quando as suas lembranças finalmente ganharam um efeito de ‘Blur‘ na minha mente e hoje você mais me parece como um borrão no meio do meu passado, como quando a gente tira uma foto e olhando para ela muitos anos depois não consegue reconhecer nenhum rosto naquela imagem, mas sabe que aquela pessoa foi muito importante e de alguma forma te marcou. Não conseguimos lembrar direito dos detalhes de cada uma, mas sabemos que elas fizeram parte de quem somos hoje de alguma forma e sente aquela pontada de saudade e agonia ou quem sabe até alguma dose de nostalgia.

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Quando foi que deixei de pensar em você? Não sei exatamente quando foi que aconteceu. Só sei que quando não restar mais nada ainda vou olhar aquela antiga foto. A nossa primeira foto, meio sem graça, onde sorrimos felizes por ter nos encontrado em meio a uma multidão desconhecida e que hoje, muito tempo depois, aquelas duas mais parecem pessoas completamente estranhas uma pra outra. Mas daí a gente olha de novo e lembra de tudo que vivenciou com aquela pessoa e vem uma sensação boa do começo de tudo quando ainda acreditávamos que era possível ser feliz. O problema é que reviver o passado só faz com que a gente reviva também a dor e sofrimento desnecessários. E então a gente volta a pensar que o melhor é mesmo esquecer… Deixar aquela foto no fundo de uma caixinha na gaveta. Afinal, doía demais ter que reviver você todos os dias com todos os jeitos, manias e o lado bom que a memória costuma guardar.

Mesmo que algum dia eu não me lembre mais de você e mesmo que eu não consiga mais encontrar a nossa caixa preta em meio a tantos destroços pra descobrir onde foi que tudo deu errado, sei que você ainda vive aqui em algum lugar em uma caixinha de lembranças e recordações que a gente guarda no armário e retira vez ou outra para relembrar as partes boas da nossa história. A memória não é uma boa companhia quando ela insiste em guardar um passado que já não faz mais sentido, mas que mesmo assim ainda faz falta.

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