Extermínio

Crítica 2 | Extermínio: A Evolução “Vidas zumbis importam…”

Extermínio: A Evolução nos leva à forma mais primitiva da humanidade, sendo, até agora, o melhor filme do ano.

Maria Laura
Por
Maria Laura
The time traveller, horse-loving pin-up.
Extermínio
10 Perfeito!
Extermínio: A Evolução

O instinto de sobrevivência é o mais primal de todo e qualquer ser vivo que habitou e há de habitar esse planeta mesmo diante de um “Extermínio“. Encrustado nas origens mais basais do nosso código genético, todas as nossas ações, inevitavelmente e inconscientemente, atuam na guerra para nos manter vivos, principalmente quando estamos em condições extremas.

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E o que é mais extremo do que uma sociedade pós apocalíptica tentando se reconstruir em praticamente total isolamento do restante do mundo? O que acontece quando o homem de fato se transforma o lobo do homem, e o seu maior predador é um humano que perdeu a humanidade? Como lidar com o isolamento total do restante da civilização que deixou países inteiros à própria sorte? Como é viver com a inevitável foice da mortalidade sempre no seu pescoço, numa realidade onde a morte é cotidiana? É possível encontrar propósito, e quem dirá, felicidade numa existência sofrida, caótica e trágica. E por fim, mesmo já sabendo que estamos condenados, ainda vale a pena viver?

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São essas questões profundamente existenciais e tão contempladas de uma forma ou de outra durante a nossa história enquanto humanidade que Extermínio: A Evolução tenta responder pelo prisma de uma terra arrasada por um vírus que ao infectar, transforma o hospedeiro num saco de carne sem qualquer autonomia com um só objetivo: sobreviver.

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exterminio evolucao 3

A perda do controle, a sede por sangue, a carnificina animalesca gerada por um ser que antes era racional, junto com o total desamparado de lidar com essa condição completamente modificadora da realidade já é um filme de terror em si. E ao voltar o olhar para dentro dos conflitos interpessoais dos sobreviventes nos deparamos com mais uma camada de horror: a verdade de que a vida não para, independentemente da crise, do fim do mundo, as coisas continuam acontecendo.

A trama de apocalipse zumbi não é nenhuma novidade na cultura pop, mas o que transforma Extermínio: A Evolução no meu filme favorito de 2025 até agora é a forma intimista e profundamente sensível à beleza da tragédia daquela pequena ilha e seus habitantes.

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É impossível ignorar a morte batendo à porta todos os dias, e o destino pior do que ela que acomete aqueles que são deixados para trás dos portões fortificados de lá. Por isso, o filme foca bastante em realizar paralelos com a Idade Média e a peste negra. Na realidade, o roteiro é extremamente perspicaz quando compara a situação daquele grupo de sobreviventes com diferentes épocas regadas a conflitos violentos. Como você fica anestesiado com tamanha violência, e de como a sua banalização é imprescindível para sobrevivência. Fica sempre bem claro que existem duas linhas do tempo correntes, a de quem está fora da ilha quarentenada e a de quem ficou para trás. 

Sociedades de vigilância e alto controle são um fenômeno natural em tempos de incerteza e principalmente em situações onde toda a fundação da sociedade é completamente destroçada. Dentro delas é comum a manipulação, as decisões arbitrárias e o simbolismo e a tradição enquanto autoridade.

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Uma das formas de exercer essa autoridade simbólica é por meio de ritos de passagem, e é dessa forma que conhecemos o protagonista do filme, Spike (Alfie Williams). Um menino de apenas 12 anos que fruto da expectativa e ambição do pai precisa fazer a travessia até o continente – antes do que é comumente esperado dessa tradição – para conseguir matar sua primeira presa humana e fazer a transição de alguém que agora pode verdadeiramente ser levado a sério naquela sociedade. 

exterminio evolucao 1

Se vivemos uma epidemia de filmes que fazem de tudo para entregar as minúcias e as nuances mastigadas para o espectador, subestimando a sua inteligência, “Extermínio” dá uma aula de “Show – Not tell”. São poucos diálogos expositivos, e a construção de mundo está nos detalhes que permeiam a atmosfera sufocante e opressora daquele lugar. O filme dá aulas de como representar o macro e o micro em tela, criando uma dicotomia dilacerante entre os anseios e a esperança tão ingênua da infância do protagonista com a cruel carnificina da realidade em que ele vive. 

A narrativa é uma gangorra emocional, ora com cenas sensíveis, delicadas que mostram o melhor do que a humanidade pode oferecer para pouco tempo depois dar um tapa na cara do espectador com uma cena visceralmente cruel em seguida, provando que realmente “o tempo não cura nada”.

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CRÍTICA EM VIDEO (não é a mesma do texto).

Visceralidade essa que não está restrita às ótimas e assustadoras cenas de gore mostrando a carnificina generalizada causada pelos infectados, ela também se encontra em cada ação, cada diálogo, cada desdobramento de uma ação inocente das personagens. Sempre achei extremamente inteligente a famosa frase “Life finds a way” (A vida dá um jeito) de Jurassic Park por conseguir colocar em poucas palavras como o lado instintivo da vida, da natureza, vai continuar ocorrendo ao mesmo tempo das subjetividades da vida humana e é exatamente isso que Extermínio retrata. 

De um ponto de vista evolutivo, ter um índice de fatalidade muito alto não é uma estratégia eficaz para um parasita. Se todos os seus hospedeiros morrem, o hospedeiro morre com eles e não sobre ninguém para continuar a sua propagação. Os infectados retratam a seleção natural em tela, completamente harmônicos e integrados no seu papel de predadores da fauna local, com diferentes “subespécies” que ocupam diversos nichos ecológicos. A evolução dos seus padrões de comportamento e fisiologia paradoxalmente retratam o caráter animalesco dessa doença ao mesmo tempo que retomam a humanidade passada dos acometidos por ela. 

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exterminio evolucao 2

É nessa dicotomia que o clímax da gangorra emocional da narrativa ocorre. Ralph Fiennes como Dr. Kelson, comove e cutuca a ferida aberta e ignorada de que algum dia aquelas pessoas foram (e de certa forma ainda são) seres humanos normais, que viam, riam, tinham anseios, medos, amores. É impossível não ter o coração dilacerado com a sensibilidade que esse personagem trata todos os seres humanos – infectados ou não – de “Memento Mori” pode ser paradoxalmente otimista e trágico ao mesmo tempo. A representação da morte como força motriz dessa terra condenada e como retomada da autonomia – é uma experiência arrebatadora. 

Por meio das referências pontuais a uma civilização que não existe mais, Extermínio: Evolução constrói uma colcha de retalhos de uma sociedade em frangalhos. As atuações impecáveis instigam o espectador a ver a beleza na tragédia, a preciosidade e simplicidade da felicidade. Usando os extremos da luta pela sobrevivência pós apocalíptica, o filme indaga sobre o que faz a vida de alguém

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A vida de uma pessoa é uma coleção de momentos bons e ruins. Os momentos bons não necessariamente fazem os ruins doerem menos, mas os ruins não tornam os bons insignificantes. 

A poesia da melancolia narrativa aliado ao visual impossível de esquecer já coloca Extermínio como um dos melhores filmes do ano e com certeza no hall dos mais impactantes filmes de zumbi já feitos. Eu espero que todos que assistirem ao filme tenham a mesma experiência arrebatadora que a reles autora que vos escreve teve. 

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Extermínio: A Evolução está em exibição nos cinemas.

Extermínio
Extermínio: A Evolução
Perfeito! 10
Nota 10
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