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Crítica | A Hora do Mal “Um novo clássico do terror”

"A Hora do Mal" é uma experiência assustadora com toques de humor, que estabelece seu diretor como uma voz inovadora no gênero.

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A Hora do Mal

Todos os olhares da indústria estão voltados para o novo talento do terror diretor de A Hora do Mal: o cineasta e comediante Zach Cregger, responsável por dirigir e escrever o aclamado “Noites Brutais (2022)”, um filme que conquistou tanto a crítica quanto o público. O sucesso do longa colocou Cregger no radar dos grandes estúdios, que agora aguardam com expectativa seu próximo projeto. O roteiro de “A Hora do Mal” foi alvo de disputa entre várias produtoras, mas a New Line/Warner Bros saiu vitoriosa nas negociações.

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Em entrevistas, Cregger revelou que sua maior inspiração para criar “A Hora do Mal” foi “Magnólia (1999)”, dirigido por Paul Thomas Anderson, devido ao elemento narrativo em comum: múltiplas histórias interligadas. “A Hora do Mal” narra o desaparecimento enigmático de 17 crianças de uma sala de aula, com exceção de um menino. Todas elas despertaram no mesmo horário durante a madrugada e saíram no escuro por vontade própria, sem nenhum sinal de violência, e nunca mais foram vistas. A comunidade se questiona quem ou o que está por trás desse mistério.

A Hora do Mal

Podemos dizer que “A Hora do Mal” é a obra mais criativa e madura de Cregger até agora (e, possivelmente, seu melhor filme). O longa funciona como um conto de horror infantil contemporâneo, explorando os maiores pesadelos da infância e alternando entre fantasia e realidade, com diversos simbolismos ligados aos medos infantis mais primordiais.

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Aliás, o modo como as crianças desaparecem lembra muito o conto do Flautista de Hamelin, em que um músico se oferece para livrar a cidade de uma praga, mas, ao ser traído, vinga-se atraindo as crianças com sua flauta.

É incrível como Cregger evoluiu como contador de histórias, mostrando habilidade ao integrar diversos conceitos de maneira natural. “A Hora do Mal” tinha tudo para ser uma bagunça de ideias e estrutura, mas, felizmente, não é o caso. Cregger captura a atenção do público já nos primeiros dois minutos com uma narração perturbadora, e o núcleo investigativo do filme remete a “Os Suspeitos“, de Denis Villeneuve, já que ambos compartilham uma atmosfera sombria que permeia a cidade.

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Como já foi mencionado, o longa é fortemente influenciado pela obra de Anderson (o visual do personagem de Alden Ehrenreich, por exemplo, presta homenagem ao policial Jim Kurring). O uso de múltiplas histórias não é coincidência: essa técnica auxilia tanto na construção do mistério quanto na imersão do espectador no universo dos personagens.

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Cada um deles tem suas falhas, e suas escolhas os levam ao clímax (assim como acontece em “Magnólia”). Além disso, o diretor utiliza com frequência o movimento back shot (plano de costas) para provocar desconforto e criar intimidade com o espectador, já que seguimos de perto os personagens em suas jornadas.

O desaparecimento das crianças provoca medo e incertezas na comunidade. Os moradores estão ansiosos por respostas e enfurecidos na busca por um culpado. Infelizmente, a professora Justine Gandy (Julia Garner) se torna o alvo do ódio coletivo. Todas as crianças eram suas alunas, e os pais, certos de que ela é a vilã, insistem em culpá-la. Cregger retrata com habilidade a paranoia que consome tanto Gandy quanto a comunidade. A personagem não consegue sair de casa sem enfrentar ameaças, acusações ou agressões.

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Tudo isso é transmitido pela brilhante interpretação de Julia Garner (Ozark). Ela é a nossa heroína trágica, odiada por todos e crucificada como uma “bruxa”. Mesmo assim, Gandy tenta encontrar pistas em meio ao caos. Outra figura importante nessa trama é Archer Graff (Josh Brolin), um pai devastado que, aos poucos, perde a noção da realidade após o desaparecimento do filho (ele começa a dormir no quarto da criança e ignora a presença da própria esposa). É um homem que perdeu o propósito e busca desesperadamente recuperá-lo.

Além de Gandy e Graff, temos o policial Paul Morgan (Alden Ehrenreich) e o viciado James (Austin Abrams), que adicionam profundidade à narrativa por serem personagens patéticos (no melhor sentido possível). Ambos parecem desconectados na trama, mas seus caminhos inevitavelmente se encontram (e vale destacar que Ehrenreich e Abrams estão brilhantes em seus papéis). Quando tudo começa a se encaixar, o desfecho é incrivelmente satisfatório. Quem dera os filmes de estúdios sempre tivessem esse nível de qualidade.

Se “Os Suspeitos” e “Magnólia” tivessem um bebê, seria “A Hora do Mal”. Uma experiência aterrorizante com pitadas de humor, que consagra Cregger como uma voz criativa no gênero.

A Hora do Mal está em exibição nos cinemas.

A Hora do Mal
Perfeito 10
Nota 10
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