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Crítica | A Longa Marcha “Respeita o legado de Stephen King”

A Longa Marcha, adaptação de Stephen King dirigida por Francis Lawrence, estreia em 18 de setembro com crítica social intensa e tensão brutal.

Matheus Camiña
6 Min Ler
8 Muito Bom
A Longa Marcha

Produções que visam adaptar uma obra de Stephen King como o filme A Longa Marcha para o cinema ou streaming já chegam ao imaginário popular cercadas de certo ceticismo. Isso porque muitas adaptações foram feitas de maneira puramente comercial, deixando de lado o que há de mais essencial em seus livros: contar uma boa história. Felizmente, esse não é o caso deste filme, em que o roteirista J.T. Mollner e o diretor Francis Lawrence (Jogos Vorazes) entregam um trabalho consistente, ressaltando a relevância de um dos primeiros textos do mestre do terror.

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Embora publicado em 1979 sob o pseudônimo de Richard Bachman, A Longa Marcha foi o primeiro romance escrito por King (entre 1966 e 1967) e já apresentava, em sua essência, uma crítica social que dialoga tanto com o contexto de sua época — marcado pela Guerra do Vietnã e pelo recrutamento de jovens — quanto com questões atuais, como a desumanização e o peso de sistemas que consomem indivíduos em nome de um espetáculo.

A Longa Marcha

O filme sabe trabalhar seu ritmo, aspecto essencial em uma narrativa que gira em torno de uma competição de resistência. Facilmente poderia se tornar monótono acompanhar a jornada dos participantes ao longo de 108 minutos, mas acontece justamente o oposto. Francis Lawrence demonstra firmeza na direção e segurança no gênero, fruto de sua experiência em Jogos Vorazes, enquanto JT Mollner adapta com respeito e sagacidade a exaustão dos competidores imaginada por King.

A base da história é simples, curiosa e macabra: cinquenta competidores devem andar a uma velocidade mínima de três milhas por hora até que reste apenas um. Quem não conseguir manter o ritmo é friamente executado. Ao fim, o vencedor recebe uma grande recompensa e um desejo como prêmio. Em um Estados Unidos distópico, marcado pela guerra e pela crise econômica, uma frase de um dos personagens resume bem o espírito daqueles que entram na disputa: “Eu não tenho muito a perder, mas tenho tudo a ganhar.”

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A frase vem do carismático personagem interpretado por David Jonsson, que reafirma sua excelente fase no cinema após Alien: Romulus. Ele é peça central de conexão entre os participantes, simbolizando como a coletividade pode fortalecer o indivíduo dentro de um sistema autoritário construído para moer seus competidores.

O longa trabalha bem a noção paradoxal da competição (e sua possível alusão ao capitalismo): para um vencer, outro precisa perder. Ainda assim, mesmo diante dessa realidade cruel, alguns competidores escolhem se apoiar mutuamente. Formar amizades significa criar laços com futuros “inimigos”, mas é justamente a união que os ajuda a atravessar as dificuldades dessa barbárie. A compaixão pelo próximo, aqui, se torna via de mão dupla — e pode ser a diferença entre a vida e a morte.

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Embora haja pequenas quebras de credibilidade em certas mortes — algumas parecem apressadas ou até exageradas, como se quisessem acelerar a eliminação de personagens —, o filme já havia estabelecido bem sua seriedade desde o excelente início: um ritmo leve e suave que culmina em uma primeira morte brutal, logo antes da apresentação do título. Mesmo com esses tropeços, A Longa Marcha consegue construir tensão e emoção, fazendo o espectador se conectar e até torcer por determinados personagens.

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Os cenários cumprem seu papel com eficiência, explorando a beleza dos ambientes naturais em contraste com o horror do evento macabro que se desenrola diante deles. Esse contraste se intensifica com a presença de Mark Hamill (Star Wars), que entrega mais uma atuação convincente — ainda que seu personagem seja pouco aprofundado. Seus discursos autoritários e quase caricatos ecoam em meio à natureza pacífica, reforçando sua imagem como símbolo de um espírito ultranacionalista endurecido. A performance se soma à sua galeria de vilões, que vai da voz insana do Coringa nas animações de Batman a figuras que encarnam o poder militar mais frio.

Apesar de um final que pende mais para o pessimismo — e que remete ao desespero econômico e social já explorado por obras como Round 6, Parasita ou O Poço —, A Longa Marcha também traz mensagens otimistas, quase idealistas, sobre como devemos encarar nossa própria experiência cotidiana. Valorizar cada momento com pessoas queridas, priorizar o coletivo em vez do individualismo e lembrar sempre de dar “um passo após o outro”. Só não podemos parar de andar.

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A Longa Marcha estreia dia 18 de setembro nos cinemas.

A Longa Marcha
Muito Bom 8
Nota 8
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