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Crítica | A Mulher na Janela

Davi Alencar
Davi Alencar
Estudante de rádio, tv e internet completamente apaixonado por cinema, literatura e qualquer outra forma de arte. Gosta de contar histórias e tem sérias dificuldades de...

Imagine um grande arquiteto, um que tenha seu nome assinando castelos, pontes, casarões, galerias, museus e muitas outras obras arquitetônicas feitas com muito esmero e seguindo rigidamente seus protocolos e particularidades. Agora pense que, em algo que parece uma tentativa de usurpar ou homenagear seu trabalho, um outro profissional pegue um tijolo de cada uma de suas obras.

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Eles são montados pelos melhores construtores, grandes nomes os manuseiam e empilham um sobre o outro, mas, como havia de acontecer, o produto final não é nem um pouco agradável. Afinal de contas, cada parte dessa  estrutura foi feita com unidades que não se conversam, não se interligam e foram pensadas para operar dentro de uma lógica de produção própria.

A Mulher na Janela, novo lançamento de Joe Wright pela Netflix, se resume a isso: uma insistentemente tentativa de referenciar Alfred Hitchcock que acaba transpondo para a tela um grande conglomerado de insinuações sem saber construir uma unidade ou narrativa própria. 

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De fato, essa não é a primeira e nem será a última vez que o diretor inglês é referenciado. Psicose de Gus Van Sant e Rebecca de Ben Weathley, por exemplo, são obras que se propõe, mais ou menos intensamente, a “plagiar” sua filmografia em alguma esfera. Seja a experimentação de copiar plano por plano de um filme ou a readaptação de uma história com recursos modernos, ao contrário do trabalho de Wright, existe uma proposta basilar em sua realização.

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Assim sendo, quando o espectador se vê diante dessa colcha de retalhos, a direção quer  induzi-lo a reconhecer cada uma de suas referências ao invés de usá-las para movimentar a história. Apoiando toda a articulação cinematográfica em um jogo de câmera que decai sempre para o susto, também falha no desenvolvimento de um tema e flutua entre propostas a partir da necessidade de roteiro e não pela idealização do diretor sobre sua história.

Logo, quando lhe convém, é um suspense clássico que envolve a personagem em uma trama de mentiras como em Disque M Para Matar, mas na catarse de seu terceiro ato, transmuta-se para um slasher gore sem motivação e que só existe pelo ponto de virada. Nessa bagunça que nem consegue olhar para a protagonista no âmago de sua luta contra seus medos e nem especular de fato sobre os coadjuvantes misteriosos que a cercam, é como se tentasse ser Vertigo e Janela Indiscreta, dois dos melhores filmes já feitos, ao mesmo tempo.

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O filme todo é uma grande presunção na esperança de conglomerar toda profundidade de um dos maiores formalistas que o cinema já viu em uma única obra. Apenas na esperança de que esses recortes agradarão alguém somente por sua origem, se parece muito com a adoração que a unidade estática do quadrinho ganha quando transposto para tela de um filme. A grande diferença é que, aqui, essa ponte é traçada dentro da mesma mídia.

Pode-se dizer que, ao deliberadamente subir seu nível ao se propor a dialogar com uma das filmografias mais consistentes de Hollywood, o filme não acompanha sua proposta. Sem se parecer nem uma homenagem propriamente dita nem conseguir caminhar com as próprias pernas, A Mulher na Janela termina ficando em um limbo desinteressante de sucessos da locadora vermelha que só se destaca pela sua sinopse e ficha de elenco.

A Mulher na Janela está disponível na Netflix