Trabalhar um gênero fora do seu habitat natural é uma ideia ao mesmo tempo complexa na execução e perigosa do ponto de vista mercadológico, mas oferece grandes oportunidades criativas e é uma forma de reinventar sua franquia em um mercado já saturado do lugar comum.
Alien: Earth arrisca alterar uma história de ficção científica espacial que tem como base ambientes claustrofóbicos, para paisagens terrestres paradisíacas e investindo no world building desse universo com mais de um tipo de antagonista alienígena. O resultado ? Uma excelente série que mantém a essência do original e engradece seus personagens.

A megacorporação Weyland-Yutani que aparece ao longo da franquia na busca dos xenomorfos, deixa de operar somente nas sombras para de fato receber tempo de tela como uma das grandes 5 corporações que comandam um mundo que falhou com a sua democracia.
Em uma realidade corporativista, o conceito de ¨humanos descartáveis¨ permeia toda a temporada, fazendo o espectador sentir que todo o desenrolar acontece graças aos caprichos e desejos dessa elite. Esse lado mais palpável de uma cúpula que comanda o mundo acrescenta peso as tensões políticas e preenche muito bem um espaço pouco aprofundado nos filmes.

O acréscimo de uma variedade de formas de vida alienígenas aumenta a tensão já natural nesse mundo, e serve como outro sopro de novidade que vai agradar fãs de Aliens pela sua inventividade ao trabalhar com o tema. Enquanto temos uma redução de locais onde o personagem se sentiria enclausurado, temos o aumento do perigo com mais adversidades biológicas. No fundo, como todo boa história de terror, podemos caracterizar o ser humano como um dos maiores antagonistas. A ganância dos líderes dessas empresas em conseguir mais poder através dos alienígenas é o que move a trama e faz com que os personagens não sejam mais do que meros peões no tabuleiro deles.
No fundo, como em toda boa história de terror, o ser humano continua sendo o maior antagonista. A ganância dos líderes corporativos em buscar mais poder através dos alienígenas é o motor da trama, relegando os personagens a meros peões nesse tabuleiro controlado pela elite. Nesse quesito, a escolha de crianças em corpos artificiais de adultos como protagonistas, serve como uma excelente metáfora a pureza que se perde após o contato com os piores traços dos adultos. As crianças são obrigadas a amadurecer em um mundo em que os adultos as usam com objetivos financeiros ou que as chantageiam para conseguir o que querem.

Importante dar destaque para a atuação da protagonista Wendy (Sydney Chandler) que sabe transitar entre a doçura e inocência da infância com a maturidade e dualidade da vida adulta. O elenco de apoio é forte com a presença do experiente Timothy Olyphant e da boa interpretação de Babou Ceesay como um funcionário disposto a fazer tudo pela Weyland-Yutani. Samuel Blenkin também deixa sua marca como o trilionário Boy Kavalier, líder da rival da Yutani, Prodigy. A temática da série em apostar em diferentes tipos de sintéticos, desde androides até híbridos entre máquina e ser humano adiciona uma camada filosófica interessante pra série ao trazer a pergunta de quando é o momento de virada para nos consideramos artificiais ?
Para os fãs de longa data, ainda existem momentos bem importantes que resgatam cenários e situações que se assemelham muito ao clássico ¨Alien – O 8.º Passageiro¨ e servem como uma grande homenagem a esse marco do cinema. Mas em nenhum momento a nova série usa essa celebração e nostalgia como muleta, e arrisca trilhar novos caminhos para entregar uma entrada importante e criativa na franquia Alien.



