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Crítica | Enola Holmes “traz um discurso superficial em uma jornada despretensiosa”

Davi Alencar
Davi Alencar
Estudante de rádio, tv e internet completamente apaixonado por cinema, literatura e qualquer outra forma de arte. Gosta de contar histórias e tem sérias dificuldades de...

Via de regra, filmes de investigação policial são sombrios, densos e macabros. Rompendo com esse estereótipo, Enola Holmes chega na Netflix com uma releitura revigorante do detetive mais famoso da Inglaterra. Ousado na proposta, o filme traz um discurso superficial em uma jornada despretensiosa enquanto tenta fundamentar as bases para o que pode se tornar a nova saga de filmes da plataforma.

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Baseada nos livros de Nancy Springer, a adaptação dirigida por Harry Bradbeer conta a trajetória da irmã de Sherlock Holmes após o sumiço de sua mãe. Sempre ofuscada por seus irmãos, Enola (Millie Bobby Brown) tem de lidar com seu descobrimento interno ao mesmo tempo que soluciona a charada deixada por Eudoria (Helena Bonham Carter). Uma história recheada de mistério que narra o embate da menina de 16 anos com a sociedade britânica fundamentalista do século XIX.

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ENOLA HOLMES (L to R) HENRY CAVILL as SHERLOCK HOLMES, MILLIE BOBBY BROWN as ENOLA HOLMES, SAM CLAFLIN as MYCROFT HOLMES. Cr. ROBERT VIGLASKI /LEGENDARY ©2020

O roteiro é muito criativo na hora de preparar o terreno para as personagens, ele articula bem a narrativa em prol da presença dos detetives, criando um jogo de “gato e sapato” interessante. Infelizmente, essa mesma perspicácia não está presente na hora de amarrar as pontas soltas e o filme termina sem o choque para o qual preparou sua audiência.

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Entregar a informação para o espectador é a sua maior dificuldade. Por isso, aloca essa função para os diálogos, sobrecarregando as falas com um teor expositivo que não só se repete como também se contradiz. Por mais que o discurso de igualdade de gênero seja constantemente dito, seu impacto nunca é sentido na mesma proporção e intensidade dentro do universo estabelecido. Nada que o desenrolar natural da jornada de Enola não a levasse sem voltar sempre na mesma tecla e sem correr o risco de pagar a própria língua.

O filme é melhor quando lida com ela como uma personagem cuja causa está embutida em sua trajetória do que quando quebra a quarta parede para anunciar um discurso vendável. Ainda assim, ele faz mais bem do que mal e, analisando a partir de um recorte social, consegue ser válido mesmo sem sustentar isso narrativa.

 A fotografia ganha destaque principalmente em cenas na zona rural. Com uma textura quase que “amadeirada”, ela consegue estabelecer uma personalidade própria mesmo em uma obra de época. Alinhada com o design de produção caprichoso e o figurino impecável, cada detalhe do filme ganha vida em uma construção bem rica do espaço. A trilha sonora aposta em uma aura mais divertida, mágica e instigante que, em diversos momentos, lembra a música do também britânico Paddington (Paul King, 2014).

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ENOLA HOLMES (L) MILLIE BOBBY BROWN as ENOLA HOLMES. Cr. LEGENDARY ©2020

Mesmo com boas performances coadjuvantes de Helena Bonham Carter, Henry Cavill e Sam Claflin, Millie Bobby Brown domina do começo ao fim. Com apenas 16 anos a atriz já demonstra um grande potencial. Ela traz para Enola uma veracidade que se mostra presente em cada situação, desde quando ela faz piadas diretamente com o espectador até quando ela encara um momento difícil. O ponto alto é a conversa na carruagem com seu irmão Mycroft (Sam Claflin), nessa cena ela entrega emoção e raiva de uma forma bem tênue. Poucos futuros soam tão brilhantes quanto o dela.

Se não fossem as inconsistências no roteiro e a baixa sustentação narrativa do discurso, Enola Holmes poderia ocupar, ao lado de Entre Facas E Segredos (Rian Johnson, 2019), um lugar na lista de filmes que desconstroem o detetive clássico. De qualquer forma, o filme tem um ar fresco e consegue ser animador. Uma aventura que, se seguir por um caminho comedido, pode render ótimos frutos.

Enola Holmes estreia na Netflix dia 23 de setembro.