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Analises

Crítica | Good Omens – 1ª temporada

Relação entre Céu e Inferno pode impedir o Apocalipse?

Thaís Rossi

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Good Omens é uma série de seis episódios adaptada pela Amazon Prime, baseada no livro Belas Maldições escrito por Terry Pratchett (1948-2015) e pelo multipremiado Neil Gaiman. O célebre criador de Sandman conquistou com esta obra o prêmio Eisner Awards de Melhor Escritor por quatro anos seguidos (1991 a 1994) e também o prêmio Fantasy World Award (1991). Com Deuses Americanos – livro que também foi adaptado pela Amazon – Gaiman obteve o Prêmio Hugo e o Nebula de Melhor Romance em 2002. E no ano posterior ganhou o Hugo de Melhor Novela (2003) com Coraline

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A série conta a história do anjo Aziraphale (Michael Sheen), e do demônio Crowley (David Tennant) que, embora sejam embaixadores de seus reinos, decidem desacatar a incumbência de organizar o Fim do Mundo e continuar vivendo na Terra com os humanos. A ideia deles deu início a uma relação repleta de falsa hostilidade que gerou algumas confusões, mas acabou se revelando uma amizade verdadeira, apesar da resistência de ambas as partes. 

“Amigos? Não somos amigos. Somos um anjo e um demônio. Não temos nada em comum. Eu nem gosto de você” 

A trama começa quando Crowley é escalado para entregar o Anticristo a um convento satanista, que por sua vez, deveria repassá-lo a uma família para ser criada e dar início aos preparativos do Armagedon. A situação começa a se complicar quando a dupla percebe, nas vésperas do Apocalipse, que o “bebê anticristo” foi entregue à família errada.  

Apegados à vida na Terra, a dupla começou a notar que a grande batalha final seria apenas uma queda de braço para escolher um vencedor – o Céu ou o Inferno – e não traria benefícios aos habitantes (muito pelo contrário).

“Afinal, a guerra foi feita para ser ganha e não evitada” 

Portanto, em vez de acatar a ordem “Divina”, eles combinam de sabotar o Armagedon. Assim começa uma corrida contra o tempo para localizar o verdadeiro Anticristo e convencê-lo de não destruir o mundo.

E o que seria do Apocalipse sem seus quatro Cavaleiros? Nada! Por isso, Gaiman nos trouxe os tão esperados quatro elementos da destruição, mas dessa vez totalmente modernizados, com direito a motos simbolizando a “montaria dos tempos modernos” e com visuais despojados. Embora tenham sido bem construídos, poderiam ter sido melhor aproveitados, afinal, quando pensamos nos Cavaleiros do Apocalipse, imaginamos os quatro desgraçando os lugares por onde passam, mesmo que exista a justificativa que eles só podem fazer algo com a ordem do Anticristo.   

Apesar da profundidade que Gaiman sempre atribui a suas obras, Good Omens é uma série divertida, envolvente, cheia de reflexões, que nos deixa ligado a cada cena e, quando menos percebemos, já estamos tristes por ela acabar.  

Quando a série se inicia, o telespectador imagina um enredo cheio de melancolia, reflexões profundas, muito drama e terror, mas o genial Gaiman conseguiu atribuir ao fim do mundo iminente um caráter cômico, repleto de “tiradas” sensacionais sobre as histórias da Bíblia, com suas típicas mensagens nas entrelinhas

É interessante observar como a série quebra os padrões, dissocia os demônios da sua face de terror e maldade e faz com que tenhamos “raiva” dos Anjos; estes que deveriam ser exemplo de caridade e benevolência, mas só enxergam a humanidade como um jogo de tabuleiro em que a finalidade é manter a supremacia de Deus sobre o Céu, a Terra e o Inferno. 

“Deus não joga dados com o universo” 

Outro ponto a ser destacado é o fato do Anticristo, o menino Adam Young, ser totalmente distante da imagem infernal, pois é comum ver esse personagem emblemático em diversos filmes como uma criança má, de olhar diabólico, praticando atos profanos. Em Good Omens, porém, Neil Gaiman acertou mais uma vez ao nos presentear com um Anticristo doce, explorando a ingenuidade infantil em relação à consciência ambiental e social. Adam, mesmo sem saber da existência dos seus poderes, os utiliza para resolver crises – como as baleias ameaçadas pela caça e poluição dos mares – nos fazendo refletir se o Armagedon seria, de fato, o fim do mundo ou a porta de entrada para um mundo melhor.  

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Inclusive os amigos de Adam, ao destruírem os Cavaleiros, sublinham a ideia que são as crianças que encerrarão os problemas sociais – como a fome, poluição, guerra – e evidencia o quão é importante a educação que elas recebem. Gaiman manifesta assim que são as crianças que impedirão o fim do mundo, construindo um em que todos possam viver em paz.

Em Sandman, por exemplo, podemos ver que Destruição (um dos irmãos do Sonho) tem um caráter diferente do que seu nome sugere. Ele não sai por aí destruindo as coisas, mas, longe disso, tenta se reinventar o tempo inteiro. O personagem chega a dizer que para algo novo surgir, o antigo precisa ser destruído. Esse é o mesmo pensamento que Neil Gaiman sublinha na construção do Apocalipse.  

O Armagedon não é o fim do mundo, mas um reinício. 

Um dos pontos mais fascinantes é o desenvolvimento dos protagonistas na série. No começo, Crowley e Aziraphale eram apenas peões no ‘jogo de Deus’, colocados na Terra com o trabalho de influenciar as pessoas para o bem ou para o mal, visando o Apocalipse. Porém, uma vez que estão entre os humanos, ambos começam a viver como mortais e descobrem que eles não dependem de lados – bem e mal, certo e errado, justo e injusto – são apenas pessoas levando as próprias vidas da forma que aprenderam a viver.  

Enquanto estão entre eles, os protagonistas se encontram de tempos em tempos, o que evidencia a química incontestável entre os dois. É possível ver que todo o trabalho que fazem juntos para salvar a humanidade é uma dança silenciosa e sincronizada. E, embora Gaiman não tenha deixado explícito, um dos motivos pelo qual esses dois se arriscaram a salvar o mundo é porque com o armagedon, além do mundo colapsar, sua relação “esquisita” teria fim.  

“Crianças! Começar o Armageddon pode ser perigoso. Não tentem isso em casa” 

Good Omens já está disponível no Amazon Prime Video.