A vida e a morte são dois estágios da existência que todo indivíduo está destinado a encarar. Mas o que acontece quando a vida é ceifada de forma tão precoce? A cineasta Chloé Zhao (“Nomadland”) responde com um belíssimo melodrama sobre a tragédia pessoal de um dos maiores escritores do mundo, Hamnet.
Baseado no romance de 2020( do mesmo nome) da autora Maggie O’Farrell, “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” acompanha o escritor William Shakespeare (Paul Mescal) e sua esposa Agnes (Jessie Buckley) ao enfrentarem a maior das tragédias: a perda do filho de 11 anos, Hamnet. Com isso, somos inseridos na jornada de luto do casal.

É poético como Zhao inicia sua obra com um plongée (técnica que a realizadora utilizará com maestria ao longo do filme), mostrando Agnes deitada sob uma árvore, em uma posição que remete a um bebê no ventre materno. São constantes os paralelos visuais entre a natureza e a personagem (inclusive, Jessie Buckley está sensacional e entrega sua melhor interpretação). “Hamnet” constrói Agnes como uma progênie do verde, alguém que se sente profundamente acolhida nesse ambiente. A fotografia explora com beleza a paisagem natural (em um trabalho belíssimo) e imprime uma aura “mística” ao lugar.
Outro uso notável do plongée é a maneira como “Hamnet” demonstra os três ciclos fundamentais da vida: a concepção, o nascimento e a morte. A conexão entre Shakespeare e Agnes é genuína e forte (a química entre os atores contribui muito), ele é o artista e ela, o coração. São dois estranhos que encontraram o amor na monótono.

Há uma delicadeza na forma como a cineasta constrói o drama, de modo teatral e íntimo. “Hamnet” poderia ter sido artificial, onde as atuações exageradas e artimanhas “baratas” para comover o público. Felizmente, isso não acontece. Zhao equilibra o tom com excelência e confere naturalidade à história. A teatralidade se manifesta no uso da câmera subjetiva, que aproxima o espectador dos personagens, nas interpretações do elenco e nas imagens que beiram o surrealismo.
Em tempos de felicidade, a tragédia aguarda sua vez. Zhao prepara o espectador para uma experiência melancólica e bela: a morte de Hamnet. É admirável a abordagem da realizadora para criar esse momento frágil, em que a fantasia assume o papel de encenar uma fatalidade que se torna nobre. O astro mirim Jacobi Jupe traz uma performance marcante e poderosa; sem dúvida, o público irá derramar lágrimas. Zhao poderia ter escolhido uma direção “covarde” para extrair emoções artificiais, mas esse não foi o caso.

Em meio a esse luto, vemos duas pessoas (Shakespeare e Agnes) tentando lidar com a infelicidade. Enquanto Agnes se culpa pelo acontecido, por ter “quebrado” sua promessa ao conceber o terceiro filho, o patriarca da família, Shakespeare (um excelente Paul Mescal no papel), culpa-se por não ter estado presente no momento crucial. Ele tenta processar seu sofrimento através da arte, e os últimos minutos do filme são de partir o coração.
“Hamnet” é um belíssimo melodrama sobre a perda e sobre celebrar a vida e o amor. Chloé Zhao entregou sua melhor obra. Buckley e Mescal dão a alma em performances que estão entre as melhores de suas carreiras.

