Em um 2026 repleto de grandes lançamentos disputando a atenção do público, admito que Mestres do Universo não estava entre os meus filmes mais aguardados.
Em determinados momentos, eu já conseguia visualizar um estúdio milionário que conseguiu os direitos de um desenho clássico dos anos 80 apenas para fazer dinheiro fácil. Com projetos recentes como Os Cavaleiros do Zodíaco: Saint Seiya – O Começo, lançado em 2023, e o “reboot” de Power Rangers em 2017, tentando modernizar o material original em vez de abraçar sua essência, era difícil não ficar com o pé atrás.
E tem algo mais brega que He-Man e os Mestres do Universo?

De tanquinho à mostra, loiro e empunhando a Espada do Poder, enfrentando um vilão com cabeça de caveira e encerrando suas aventuras com lições para a criançada, He-Man representa uma fantasia muito específica de sua época. Uma fantasia para a qual talvez o público moderno não estivesse preparado.
Mas, ao sentar para assistir à adaptação cinematográfica de Mestres do Universo, eu não pude acreditar no que estava vendo. Brega, cafona, divertido e esbanjando criatividade, a nova adaptação do desenho tem orgulho de suas origens enquanto moderniza seus mitos para uma nova geração de fãs.
Quando Esqueleto (Jared Leto) lidera um ataque brutal contra Eternia, o Príncipe Adam (Nicholas Galitzine) é forçado a fugir para proteger a lendária Espada do Poder.
Após 15 anos de exílio, o destino o chama de volta para casa. Ao lado de Teela (Camila Mendes) e Mentor (Idris Elba), Adam precisará abraçar seu verdadeiro legado, reivindicar sua força e lutar para libertar seu reino das forças do mal.
Logo na abertura, o diretor Travis Knight deixa claro que está aqui para te levar diretamente ao universo do clássico, com tudo o que tem direito. Em vez de promover mudanças drásticas, Knight prefere modernizar trajes, naves e criaturas, mantendo suas características fiéis ao material original, mas adicionando contornos que tornam sua presença crível em live-action.

E não havia diretor melhor para o trabalho – o cineasta já era conhecido por trazer outra franquia dos anos 80 de volta aos cinemas com Bumblebee, em 2018. O spin-off de Transformers deixou de lado os designs poluídos, as transformações excessivamente complicadas e as estranhas decisões criativas dos filmes de Michael Bay para apresentar uma visão muito mais próxima da clássica linha de brinquedos e da animação original.
Aqui, Knight encara o mundo de Eternia mais do que como um diretor: ele o faz como um fã. Ele entende que o carisma desse universo está justamente em seu material de origem, personagens atemporais, um mundo rico e uma mitologia simples, mas extremamente eficaz. Qualquer alteração radical nessa estrutura não seria uma modernização, mas sim uma quebra com o legado que tornou a franquia tão amada.
Claro que nada disso seria possível sem um elenco que entenda o recado.
Nicholas Galitzine encarna Adam, ainda no processo de se tornar o lendário He-Man, com um ar de infantilidade e inocência. Exilado desde cedo, Adam passa o tempo desenhando seus heróis favoritos enquanto aguarda o momento de finalmente lutar ao lado deles. Galitzine não apenas entrega a fisicalidade exigida nas cenas de ação, como também demonstra um excelente timing cômico.
Isso é potencializado pelo grupo de personagens principais. Roboto (Kristen Wiig) fica mais reservado às sequências de ação, enquanto é com Teela e Mentor que Adam protagoniza as melhores trocas do longa. Camila Mendes encarna a bela e letal guerreira responsável por servir como âncora emocional da narrativa, enquanto Idris Elba traz através de Mentor reflexões importantes sobre o papel de Adam e o peso de seu destino.
Claro, todos estão ótimos, mas acreditem se quiser: o verdadeiro destaque de Mestres do Universo é Jared Leto no papel do vilão Esqueleto.
Sim, eu sei.
Apesar da presença do ator ter sido praticamente nula na divulgação do longa (e eu nem consigo imaginar o porquê…), Leto encarna um vilão saído diretamente da série original: expressivo, carismático e extremamente divertido. Esqueleto é um tipo de antagonista que quase não existe mais hoje em dia.

Sem motivações complexas, traumas mal resolvidos ou dilemas morais, ele simplesmente ama ser mau. Faz isso por puro prazer, e Leto deixa isso transbordar em uma interpretação que parece se divertir a cada fala de efeito, a cada pose dramática e em cada momento em que o personagem rouba a cena para si.
Claro que, para um blockbuster na casa dos 200 milhões de dólares, a bilheteria sozinha de Mestres do Universo não seria suficiente para uma empresa como a Amazon. E aqui eu abro espaço para criticar algo que jamais imaginei que criticaria em um filme: o product placement.
Veja bem, em partes eu entendo. Quando um projeto milionário chega aos cinemas, é natural que exista o investimento de diversas marcas, que de alguma forma acabam aparecendo na tela, seja em um cartaz, um carro ou algum produto utilizado pelos personagens. No geral, isso costuma acontecer de maneira sutil. Mas a atenção que isso recebe no primeiro ato de Mestres do Universo, especialmente em dois momentos, é no mínimo questionável.
Alguns podem dizer que estou pegando no pé de algo trivial, e talvez até estejam certos. Entretanto, quando uma cena é abruptamente interrompida para que o público contemple um gigantesco símbolo do Amazon Prime ocupando a tela, fica a pergunta: em que momento a Amazon vai roubar o filme de mim para encaixar mais uma propaganda?
E isso não deveria acontecer.
Nada aqui chega ao nível de Guerra dos Mundos (2025), mas serve como um lembrete de que a Amazon dificilmente estará satisfeita quando existe espaço para vender mais um produto. Ainda assim, o mais impressionante é que Mestres do Universo consegue superar essas distrações.
O filme é exatamente o tipo de adaptação que grandes franquias deveriam buscar: uma obra orgulhosa de seu material de origem, divertida, cafona e épica na medida certa. Mais do que uma simples adaptação, Mestres do Universo funciona como o primeiro capítulo de algo que claramente pretende se tornar uma grande franquia cinematográfica.










