
As vezes nós precisamos saber menos sobre as pessoas. E em “O Drama” a velha sensação da língua ser o chicote da bunda coloca o espectador em uma situação de constrangimento sufocante. Sabe quando você está em um evento e um casal começa a brigar, e aquele sentimento de “eu não deveria estar vendo isso?”. A primeira cena do filme já te joga de cara nesse cenário, e te obriga a assistir o trem descarrilhando ladeira abaixo sem poder fazer nada. A sensação sufocante de ansiedade não te abandona do ínico ao fim.
É importante ressaltar que esse é o tipo de filme que mil vezes melhor assistir no seco, sem saber de nada. Portando, os spoileres abaixo podem influenciar a sua experiência. Quanto menos você souber, melhor.
Emma (Zendaya) é uma metade do casal de noivos que está prester a se casar, e ali aos 45 do segundo tempo, em um jantar com o casal de padrinhos, fala demais. A pior coisa que Emma já fez foi planejar um tiroteiro escolar até os minímos detalhes, mas não foi até o fim. Charlie (Robert Pattinson), a outra metade do casal, nunca soube dessa informação e provavelmente iria casar sem saber, se não fosse esse fatídico jantar.
Sem sombra de dúvidas o tópico de atirador escolar é extremamente sensível nos Estados Unidos, e o filme aborda a questão por um prisma muito interessante: o do esvaziamento de pautas ao ponto de algo tão sério virar apenas um acessório estético e/ou moral. Essa reflexão fica bem clara através da noiva que quanto mais tenta se explicar, mais se afunda. As razões que a levaram a por pouco não comenter esse ato de extrema violência só piora a indignação de qualquer pessoa minimamente razoável.
Após a abertura deixa caixa de pandora, todos os elementos do filme formam uma sinfonia perfeita de constrangimento. Cada interação entre os noivos é um ritual de humilhação diferente, é quase como olhar nos olhos da medusa: você simplesmente não consegue se mexer, paralisado de vergonha e não tem mais como sair dali porque ficou cimentado na cadeira do cinema. A câmera ora acompanha a goleada de decisões péssima de Emma e Charlie como uma mosquinha na parede, ora colocando o espectador no lugar da terceira pessoa que está interagindo com eles: o fotógrafo, dj, professora de dança, é uma situação pior que a outra.
O filme realmente é uma grande torta de climão, que deve dividir opiniões. Os diálogos incodam tanto que as vezes dá vontade de enfiar a cabeça na parede só para parar de ver. O filme de trás pra tão perto do constrimento que durante o clímax eu pensei em fingir desmaio para aquela festa de casamento parar. Se você gosta de filmes que trazem desconforto, situações tão absurdas que não dá pra parar de olhar ou é fã de cidade alerta esse filme com certeza é pra você.
Quanto as performances do elenco, estão todos muito bem. As pequenas nuances no comportamento, na fala, na postura tornam a situação muito verossímil. Realmente parece que o público caiu de cabeça numa fofoca familiar, de gente que não tem medo algum de lavar roupa suja na frente de seja quem for.
“O Drama” traz um roteiro coeso e um elenco com atuações estupendas e profundamente humanas, que te obriga a assistir aquilo que você não quer ver de uma forma acachapante, colocando a audiência como refém da ansiedade e do constrangimento. Você pode até não gostar do filme, mas com certeza não vai esquecer que o assistiu.









