o morro dos ventos uivantes

Crítica | ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ foi feito para satisfazer as fantasias eróticas da diretora

'O Morro Dos Ventos Uivantes' desperdiça suas qualidades e esvazia pautas para satisfazer as fantasias eróticas da diretora.

Maria Laura
Maria Laura
The time traveller, horse-loving pin-up.
5.5 Ruim
O Morro dos Ventos Uivantes

Confesso que reescrevi essa crítica umas 3 vezes. Recentemente, poucas vezes saí do cinema com sentimentos tão contraditórios como nessa mais recente adaptação de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ dirigido por Emerald Fennell, estrelando Margot Robbie (Cathy) e Jacob Elordi (HeathCliff).

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Se formou um burburinho em torno das aspas no título do filme, burburinho esse aumentando a enésima potência quando o elenco do casal protagonista foi divulgado. Se essas benditas aspas sugeriram um caráter de “fanfic” à adaptação, a fanficagem foi confirmada com a escolha de elenco.

Não tem como tirar esses elefantes da sala, a escolha de Margot Robbie e Jacob Elordi é contraditória para dizer o mínimo. O romance clássico de Emily Bronte foi extremamente corajoso na época, mexendo em vespeiros que moldam a cultura britânica até hoje:o de classe e o racial.

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O classismo e o racismo são partes intrínsecas não só a personagem do Heathcliff como a narrativa inteira da obra. É uma força motriz, causa, consequência, juiz, júri e carrasco de todas as atitudes tomadas durante a história. Ao escalar Jacob Elordi para o papel é declarar uma adaptação anêmica antes mesmo da primeira cena ser gravada (isso também se aplica as demais adaptações com escalações de atores brancos para Heathcliff).

O Morro dos Ventos Uivantes

Por mais que Emerald não seja estranha a crítica de classe e isso seja amplamente abordado também em Saltburn, é simplesmente impossível, e eu diria até desonesto retirar o debate e a violência racial de O Morro dos Ventos Uivantes. Não há declaração dizendo que esse filme é uma “releitura” do romance original que apague a escolha deliberada de esvaziamento total da narrativa a partir do embranquecimento do Heathcliff, o que infelizmente mancha os aspectos incríveis do filme.

Visualmente o filme é um deleite. É uma aula de estilização e transmutação de estéticas modernas para o passado, onde o anacronismo não incomoda, muito pelo contrário, ele comunica. As mudanças rápidas em bruscas entre o ambiente do castelo úmido e decrépito, regado de névoa, chuva, aquele mofo que vai carcomendo e impregnando de fora pra dentro tudo e todos que moram ali, para a casa de boneca em tons pastéis, colorida delicada e sensível incorpora com maestria o balanço do pêndulo que é a vida de Cathy. A éstica de conto de fadas excêntrico lembra muito O “Drácula de Bran Stroker” e “Maria Antonieta” da Sofia Coppola

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Os figurinos são completamente anacrônicos, mas estilizados na medida. A rebeldia e obstinação da Cathy é vestida com saias e corsets a lá Vivienne Westwood, enquanto sua conformação ao padrão é decorada com fitas, rococós e rendas coquette.

O ar onírico de êxtase e ilusão da casa de bonecas de Edgar traz ainda a cereja do bolo: as maquiagens coloridas e expressivas com pedrinhas e strass que foi popularizada em “Euphoria” (outro trabalho de Jacob Elordi, além de saltburn). As referências claras a obras e estéticas contemporâneas marcantes com certeza vão sacramentar ‘O morro dos Ventos Uivantes’ como um clássico visual.

Porém, as coisas não existem em um vácuo, muito menos em um filme, e considerando que duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, quando analisamos a excepcional cinematografia e fotografia se tornam cínicas. É o paralelo entre o corset (sendo usado de uma forma que faz qualquer pessoa entendia de moda histórica querer infartar) ferindo Cathy da mesma forma que as chicotadas marcaram Heathcliff durante seus castigos físicos. Isso aliado ao erotismo sadomasoquista em tela faz com que fique cada vez mais difícil negar as acusações de tudo isso ser uma grande fanfic self insert da autora.

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Tudo parece ter sido perfeitamente arquitetado para chamar atenção de bolhas específicas, tanto que o filme pode ser descrito por “tropes” e termos chaves de subculturas populares na internet: dark romance, dark academia, cottagecore, coquette, enemies to lovers. No apagar das luzes, o filme parece ter sido feito para SEO.

Transformar uma história sobre obsessão, violência, vingança num thriller erótico e completamente fora do tom e chega a ser patético. O problema de forma alguma é abordar o desejo, o erotismo e a sexualidade feminina. Existe um mercado que cresce cada dia mais de obras que falem do erótico pelo olhar feminino e a diretora tem plena consciência disso.

Os popularmente conhecidos como “pornôs de época/ pornôs de fada” estão a todo vapor, e o projeto parece beber muito dessa fonte, em alguns momentos parece que você tá assistindo o crossover entre 50 Tons de Cinza e Bridgerton. A tentativa de mostrar que o desejo reprimido pode levar ao caminho da toxicidade e obsessão numa sociedade extremamente puritana, quando contada dessa forma passa a impressão de que Emerald Fennel queria muito que o Heathcliff fosse um Christian Grey de época, pegou dois atores atraentes e fez essa pornochancada com grife. Em termos de fanfiqueiras, ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ é uma fanfic Alternative Universe das muito mal feitas.

A sensação é que a diretora queria criar um thriller erótico de época, abordando elementos da sexualidade atual principalmente com a entrada de alguns elementos do BDSM no mainstream, o que poderia sim ser uma história interessantíssima de ser contada, e poderia sim contar com referências ao romance de Emily Bronte que só trariam mais riqueza a essa composição.

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Porém ao usar o santo nome “O Morro dos Ventos Uivantes” em vão, com tantas escolhas absurdas e pautas esvaziadas com uma campanha de marketing equivocada e tacanha, passa a infeliz e triste impressão de que esse foi o filme que sacramentou a idade do ragebait no cinema.

‘O Morro Dos Ventos Uivantes’ desperdiça a pintura cinematográfica que é para fatiar sua alma e vendê-la em pacotinhos muito bem embalados para bombar nos algorítmos, seja por bem ou por mal. Para causar burburinho e reações intensas a qualquer custo.

Na economia da atenção, quem joga com o ragebait faz muito mais barulho, mas a que custo? De total perda de credibilidade por uma cacofonia barulhenta e efêmera.

O Morro dos Ventos Uivantes estreia dia 12 de fevereiro nos cinemas.

O Morro dos Ventos Uivantes
Ruim 5.5
Nota 5.5