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Crítica | ‘Pluribus’ prova que criador de Breaking Bad tem mais a oferecer

Vince Gilligan troca respostas por perguntas em Pluribus e entrega uma produção que confia no espectador.

Matheus Camiña
6 Min Ler
10 Perfeito
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Uma sociedade livre de conflitos e sensações desagradáveis já se classifica como utópica? A utopia pode existir sem o custo da subjetividade e do desejo humano? A Carol precisava mesmo puxar o pino da granada ? Vince Gilligan oferece esse banquete de perguntas filosóficas e existenciais — sem qualquer promessa de respostas fáceis — em sua nova série Pluribus, da Apple TV.

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Em um universo de entretenimento onde diretrizes são criadas para mastigar conteúdo (palavra que já indica que não estamos falando necessariamente de arte), o espectador é frequentemente tratado como alguém que sequer desenvolveu o conceito de permanência de objeto. Por isso, é reconfortante — e raro — encontrar escritores que atribuem o devido valor à inteligência do seu público.

The Leftovers criou uma casca que é sempre útil ao lidar com uma série como Pluribus. Assistir a algo que não te pega pela mão — e que muitas vezes não entrega o que você queria, da forma que você queria — é um exercício difícil, tanto para quem assiste quanto para quem produz. Os riscos de insatisfação do público e de não retorno financeiro são apostas altas, que raramente compensam.

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Mas quando a obra fala por si, tem um propósito claro e se mantém fiel ao próprio objetivo, não estamos apenas “consumindo conteúdo”. Estamos crescendo como pessoas ao presenciar arte sendo feita. Pluribus se apropria do espetáculo que uma premissa de ficção científica inevitavelmente carrega para fazer aquilo que Gilligan domina como poucos: estudo de personagem. Eu não sei o que vai acontecer com esse mundo, mas sei que vou me surpreender com a jornada de Carol.

Vamos à premissa: um sinal alienígena é interceptado e decodificado como uma sequência viral que, ao vazar, unifica a mente de todos no planeta, criando uma consciência coletiva que elimina sofrimentos, disputas e conflitos pessoais. A protagonista é uma das poucas pessoas imunes ao “Joining” e inicia uma jornada para tentar trazer o mundo de volta ao que conhecemos como normalidade.

De maneira resumida — e nas palavras do próprio Vince Gilligan —:

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“A ideia de uma mulher que é a pessoa mais triste do mundo e que decide que precisa salvar o mundo da felicidade me interessou.”

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E, com essa ideia — somada a uma equipe talentosa que já provou seu mérito com Breaking Bad e Better Call Saul — temas como a valorização do coletivo acima do sofrimento individual batem à porta.

Carol, interpretada pela excelente Rhea Seehorn, está longe de ser o vilão que Walter White se tornou, mas tampouco é uma heroína que preza pelo bem de todos. Seu interesse está em manter sua própria percepção de realidade, não em salvar a humanidade por motivações altruístas. Seus sentimentos de remorso e raiva são completamente válidos e bem trabalhados para serem compreendidos dessa forma, mas rapidamente apresentados como inconsequentes diante da nova realidade que ela passa a habitar.

O caminho percorrido pela personagem é brilhante ao exercitar nuances de solidão, egoísmo, felicidade e, principalmente, raiva pela tristeza. O mundo está feliz — mas não deveria. O coletivo alcançou um nirvana às custas da subjetividade humana e, aparentemente, às custas da surpresa da criação. Seehorn constrói uma Carol que transita de forma verossímil por todos os sentimentos que qualquer um de nós poderia experimentar nessa situação. O elenco de apoio reforça essa veracidade, auxiliando e movimentando a trama adiante (com destaque para o trabalho de Karolina Wydra como Zosia, que sintetiza com precisão a plenitude vivida pela mente coletiva).

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A direção, a paleta de cores e a fotografia são sempre um show à parte. Quem acompanha o trabalho de Gilligan sabe que ele não tem pressa de chegar ao destino, mas possui um enorme cuidado em tornar a jornada da câmera e da narrativa o mais suave e completa possível. Suas escolhas cromáticas para simbolizar personagens e ambientes surpreendem pelo esmero, e, como de costume, quando o clímax finalmente acontece, ele carrega todo o peso de um roteiro meticulosamente construído.

Pluribus foge do lugar comum — o que, por si só, não garante qualidade — e felizmente faz isso com experiência e uma mensagem clara a transmitir. Não oferece respostas diretas nem julgamentos definitivos sobre o que é certo ou errado, mas convida o espectador a refletir e construir suas próprias percepções. A promessa sedutora de felicidade irrestrita às custas da individualidade não é inédita no audiovisual, mas, como sempre, uma boa ideia bem executada encontra espaço para existir novamente. Resta agora aguardar uma segunda temporada para ter o prazer de repetir, junto ao resto do mundo: “Hi Carol, it’s us.”

 A primeira temporada de Pluribus está disponivel somente na Apple TV.

Pluribus
Perfeito 10
Nota 10
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