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cinema

Crítica “Praia do Futuro”

Diego Lanza

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LOJA DC 4

15af91003feb7702e5dbaacbf2f17e89_XLPraia do Futuro (Brasil/Alemanha – 2014 – Drama)

Direção: Aim K

Elenco:Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuíta Barbosa

Roteiro: Karim Ainouz e Felipe Bragança

 

Praia do futuro é um filme de silêncios, de ausências, de contrastes. Donato é um personagem fechado, em si, e aparece ao longo do filme com um quê de inadequação e isolamento. Ele as vezes parece fugir e se isolar. Mas isolar-se de que? Dividido em três capítulos, o filme parece divergir um pouco sobre a natureza do conflito do prórpio Donato. O filme inicia pelo desconforto do protagonista em não conseguir salvar um homem do afogamento – homem esse que é sugerido que seja um amante de Konrad, embora seja dito apenas amigo. Nos dois primeiros capítulos o conflito maior é o conflito da lei versus o desejo. Donato se aproxima de Konrad, e posteriormente, aceita passar uma pequena temporada na Alemanha, junto ao ‘parceiro’. Mas o pedido para ficar desencadeia um conflito interno entre o ficar e o partir (ou voltar). Seu desejo x suas obrigações. E é no silêncio que Donato revela sua escolha. No terceiro ato, contudo, a natureza dos conflitos e dúvidas do personagem ganham novas nuances, e o filme que até então poderia ser entendido como um romance gay torna-se um ensaio existencial sobre a identidade, a inadequação, o pertencimento e o não pertencimento, a identificação e a existencia. Divagações bem sutis, contudo.

A direção nos conduz ao longo do roteiro tocante de maneira segura e tranquila, permitindo certos arroubos aqui e ali – como o corte seco para a primeira transa de Donato e Konrad. As cenas de sexo, embora denotem extremo tesão no encontro daqueles amantes, são poucas e a nudez dos atores é explorada na medida, sem exageros. Um contraste entre conter e extravasar. Não é a toa que há duas cenas de boate envolvendo Donato e suas danças intensas, que não acompanhariam necessáriamente aquela musica (mesmo que em apenas uma das cenas a musica que ouvimos é a mesma que o personagem escute).

O sexo aliás, e também o carinho, estão retratados no filme lado a lado com a agressividade. No mundo de Donato (ou seria em sua família, em sua terra?), carinho está ligado à brutalidade. As cenas de sexo lembram uma luta, e em dois momentos que os personagens deveriam discutir temas importantes (o ficar, em uma cena, e o abandono, em outra) o que deveria ser dito quase não se diz, e as mãos agem, grosseiras e estúpidas. Fica claro que a violência surge quando se aproxima de emoções intensas e importantes – tanto para Donato, quanto para seu irmão, na segunda cena referida.

O diretor utiliza o mar, uma metáfora que é muito querida à natureza humana, para passar belas e amargas mensagens. Donato é quase um peixe, e em muitos momentos do longa está na água. E lá pelo final revela que se esconde no mar para se sentir em paz. O mar pode ser tranquilo ou revolto, tal como é o espírito humano. A água está na chuva, quando os amantes discutem a decisão de Donato ficar na alemanha ou não. A água está na praia do futuro, em todos os lugares, está na praia da alemanha que recua, está na névoa (em outro estado) na cena final. A vida é o mar, um mar de incertezas.

Donato está na alemanha mas a todo momento parece não estar. E logo fica claro que o personagem está se debatendoposter 2 internamente sobre ficar ali tão pouco tempo, pois já está com passagem de volta comprada. Na cena do basquete na escola, ele parece estar apenas de corpo presente, e logo sai dali, assistindo por um momento o filme através da porta, pela janela. A imagem já denota aquele conflito. Ficar e aproveitar? Ou se afastar e não se envolver mais? Em seguida, Donato vagueia pelas salas de aula e tenta entender mais do que está escrito, em alemão. Tenta se envolver mais por aquela cultura. Mas surge um funcionario, impedindo que ele fique ali. “O senhor não pode ficar aqui”, diz o inspetor/servente, e é a mesma mensagem que Donato diz para si mesmo, dentro de si. Lei x Desejo.

Acompanharmos a construção do personagem por Wagner Moura é sensacional, pois já de inicio o personagem surge com um olhar distante, com uma sensação vaga de inquietude. As mesmas posturas se mantem, mas por motivos diferentes e a atuação de Moura é complementada pelo contexto do filme – direção, trilha, fotografia. O mesmo pode-se dizer dos outros personagens. Ayrton surge como rebento do abandono, e carrega a mágoa em seu olhar. Konrad é o que surge mais seguro de si, mesmo que em alguns momentos apareca em cena tal qual os personagens dos quadros de Edward Hopper – sozinhos em meio ao vazio. Nesse ponto, a direção é belissima em por vezes filmar seus personagens oprimidos em um canto da tela enquanto há um cenário muito maior em sua volta. O vazio, a incompletude e o desejo representados.

A trilha, em determinados momentos melacólica, ajuda na construção do clima. Como já citado, quando decide ficar, Konrad e Donato ‘comemoram’ em uma boate, extravasando (ambos também extravasam em casa, dançando juntos, cantando, antes de fazerem sexo. É uma aproximação que vai quebrando aos poucos o contraste entre o viver contido e o viver o desejo). Mas na cena da boate, a trilha que ouvimos diz direto o sentimento que o coração do protagonista sente. Contraste.

Saindo da ensolarada e brilhante praia do futuro para a cinzenta e fria alemanha, as cores não só ambientam o cenário como coadunam as emoções. Mesmo na praia, um lugar de sol, Donato e Konrad se aproximam mais em uma cena no final do dia, quase escurecendo (tonalidades frias e escuras) próximos à rebentação do mar. E se à princípio, temos o entendimento que a tristeza de donato advem da possibilidade de não estar mais próximo do mar, e de suas raizes, é ao final que o personagem revela que ali, na alemanha, ele não precisa mais se esconder no mar para ficar em paz. O mar possui cores saturadas, embora mais claras, mas o clima permanece o mesmo. A adequação e inadequação do protagonista ficam sutilmente explicitas quando nos momentos finais, vemos Donato vestindo o uniforme azul de corrida, enquanto Konrad está com o vermelho que sempre vestiu. O azul contrasta com o vermelho que também era o vermelho do uniforme da antiga profissão de Donato. Agora ele veste azul, da cor do mar.

 

É no terceiro ato que o conflito entre lei e desejo ganha os contornos do acerto de contas com o passado, e o filme traz uma resolução tão tranquila quanto é possível estarmos tranquilos dentro do mar. A praia cujas águas recuam e se permite caminhar dentro do que seria o mar sugere uma aproximação e uma tentativa de reparação. E a corrida de moto rumo aos caminhos escondidos pela névoa serve de metáfora para os caminhos da vida, guiados pelo desejo, mas que contem grandes incertezas. Mas juntos, talvez, soe mais seguros.

Diego Lanza
Diego é escritor, possui contos publicados nas coletâneas da FLUPP Pensa (2012 e 2013), é amante de teatro (fez cursos de dramaturgia moderna e contemporânea) e ainda faz críticas de cinema (tendo estudado Teoria cinematográfica e crítica com Pablo Villaça). Na vida real é Psicólogo e trabalha com clínica e projetos sociais.
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