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Crítica | “Toy Story 5” entende algo que talvez nós ainda estejamos aprendendo

A nova sequência da maior franquia da Pixar já está disponível nos cinemas.

Por
Maria Fernanda Santana
Estudante de jornalismo e fascinada por cinema
9 Muito bom
Toy Story 5

Existe um momento na vida em que você guarda um brinquedo pela última vez sem saber que aquela será a última vez.

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Você não faz uma despedida. Não existe uma cerimônia. Simplesmente acontece. Um dia ele fica esquecido em uma caixa, em uma prateleira ou no fundo de um armário, enquanto outras preocupações ocupam espaço. Fazer amigos, crescer, trabalhar, descobrir quem você é. E quando percebe, a brincadeira ficou para trás.

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Talvez seja justamente por isso que a franquia Toy Story continue funcionando depois de tantos anos.

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Ao contrário de muitas animações que insistem em permanecer iguais para preservar uma fórmula de sucesso, a série criada pela Pixar sempre aceitou uma verdade inevitável: as pessoas crescem. As crianças crescem. E os brinquedos precisam aprender a lidar com isso.

Toy Story 5 compreende algo que poucas continuações conseguem entender.
Woody e Buzz Lightyear em “Toy Story 5”. Foto: Reprodução.

Durante muito tempo parecia impossível imaginar a franquia sem Woody ou Buzz Lightyear ocupando o centro da narrativa. Mas Toy Story 5 compreende algo que poucas continuações conseguem entender. O coração dessa história nunca esteve em personagens específicos. Sempre esteve nas mudanças.

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Agora é Jessie quem assume o protagonismo. E, curiosamente, isso faz todo sentido. A vaqueira sempre foi uma personagem marcada pelo abandono, pela troca e pelo medo de ser deixada para trás. Não existe ninguém melhor para conduzir uma história que fala justamente sobre adaptação.

Desta vez, Bonnie enfrenta uma situação muito diferente daquela que conhecemos nos filmes anteriores. Não se trata mais de aprender a brincar ou de encontrar novos brinquedos favoritos. O desafio agora é fazer amigos. Enquanto as outras crianças parecem cada vez mais conectadas às telas, Bonnie começa a se sentir deslocada por ainda encontrar diversão em algo que não cabe dentro de um aplicativo. É um conflito extremamente contemporâneo.

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A chegada do tablet Lilypad poderia facilmente transformar o filme em uma crítica simplista à tecnologia, mas a narrativa evita esse caminho confortável. Em nenhum momento o roteiro sugere que o problema está nos dispositivos ou no mundo digital. Pelo contrário. O filme entende que a tecnologia não substitui relações humanas. Apenas evidencia a ausência delas. Essa talvez seja a discussão mais madura que a franquia já propôs desde Toy Story 3.

Porque o isolamento de Bonnie não nasce da presença de uma tela, mas da dificuldade de pertencimento. O tablet aparece apenas como consequência de uma tentativa dos adultos de resolver um problema emocional através de uma solução prática. E, como acontece tantas vezes na vida real, as coisas acabam sendo mais complexas do que parecem.

Enquanto Bonnie se afasta gradualmente dos brinquedos, Jessie embarca em uma jornada que acaba funcionando como um reflexo da própria protagonista humana. Ao retornar para ambientes ligados ao seu passado, ela encontra brinquedos de gerações diferentes, objetos esquecidos e novas formas de brincar que colocam em dúvida tudo aquilo que ela acreditava saber sobre seu próprio propósito.

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Longe da correria das cenas de ação e dos tradicionais resgates da franquia, o filme passa a refletir sobre convivência entre gerações. Os brinquedos mais antigos observam a chegada de novidades tecnológicas com desconfiança, enquanto os mais novos tentam encontrar seu espaço em um mundo que muda constantemente.

A relação entre Jessie e os novos personagens é construída com uma sensibilidade rara, especialmente porque o filme não procura estabelecer vencedores ou derrotados. O analógico não precisa derrotar o digital. Os dois apenas precisam coexistir. Essa percepção impede que a narrativa se torne datada ou moralista. Em vez de apontar culpado, ela procura entender por que determinadas transformações geram tanto medo..

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Afinal, quantas vezes nós mesmos não olhamos para mudanças tecnológicas, culturais ou sociais com a mesma insegurança dos brinquedos?

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Cena de “Toy Story 5”. Foto: Reprodução.

Visualmente, a Pixar continua impressionante. A evolução da animação de Toy Story é evidente em cada textura, cada iluminação e cada movimento dos personagens. Ainda assim, o aspecto mais interessante não está necessariamente no hiper-realismo gráfico. O estúdio demonstra uma vontade renovada de experimentar.

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Algumas sequências apostam em estilos visuais diferentes, discretos, mas suficientes para indicar que a Pixar parece novamente interessada em explorar caminhos menos seguros. São momentos breves, porém animadores para um estúdio que durante algum tempo pareceu confortável demais repetindo fórmulas.

Além disso, o humor também permanece afiado. Novos personagens como Lilypad, Rolinho e Atlas encontram espaço para existir além de suas funções narrativas. Eles possuem personalidade própria, piadas memoráveis e contribuem para que o universo continue parecendo vivo mesmo após três décadas de existência.

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Naturalmente, nem tudo funciona com a mesma força. Falta ao filme um momento de impacto emocional comparável à sequência da fornalha em Toy Story 3. Existe emoção, existe ternura e existe sensibilidade, mas raramente a narrativa alcança aquele mesmo sentimento devastador que transformou o terceiro filme em um marco da animação contemporânea.

Ainda assim, talvez seja injusto exigir isso. Porque Toy Story 5 não tenta repetir os grandes momentos do passado. Seu objetivo é outro. Ele está mais interessado em observar as pequenas mudanças da vida cotidiana do que em construir despedidas definitivas.

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E talvez seja justamente por isso que funcione tão bem. No fim, a história não fala sobre brinquedos competindo com tablets. Nem sobre tecnologia substituindo a imaginação. Fala sobre crescer. Sobre perceber que aquilo que amávamos continua importante mesmo quando já não ocupa o centro das nossas vidas.

Assim como Andy cresceu. Assim como Bonnie está crescendo. Assim como nós crescemos. Porque, no fundo, Toy Story nunca foi sobre brinquedos ganhando vida quando ninguém está olhando, e sim sobre o que acontece quando somos nós que seguimos em frente.

“Toy Story 5” já está em exibição nos cinemas de todo o Brasil.

Toy Story 5
Muito bom 9
Nota 9
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