Uma boa direção pode ser vista como a capacidade de um autor transmitir sua mensagem a diferentes grupos de espectadores. Mesmo que tenha uma audiência alvo em mente, o diretor precisa imaginar que perfis diversos assistirão a Uma Batalha Após a Outra. A clareza com que a história é absorvida por esse público mostra sua competência, e nesse quesito, não surpreende que Paul Thomas Anderson dê mais uma aula de cinema em seu novo filme.
Assumindo as funções de roteirista e diretor, PTA sustenta quase três horas de narrativa com fluidez e inventividade, mantendo um sincronismo preciso entre subtexto e imagem. Sua habilidade em conectar elementos que pareciam frívolos a cenas de alta intensidade e crescimento de personagem é um prazer para os olhos.

A trama acompanha Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), ex-revolucionário do grupo French 75, que tenta proteger a filha Willa (Chase Infiniti) de um antigo inimigo, o coronel americano Steven J. Lockjaw (Sean Penn). Qualquer detalhe adicional já esbarraria em spoilers, e esta é uma experiência que se beneficia do fator surpresa.
O filme não esconde sua vertente política ao abordar o tema da imigração. O lema do grupo de Bob — “fronteiras livres, escolhas livres e livres do medo” — permeia toda a narrativa, refletindo o drama das famílias presas em centros de detenção para deportação ou vítimas de abusos militares disfarçados de combate às drogas. Ao mesmo tempo, o diretor sugere a ambiguidade de parte do movimento revolucionário, revelando que certos personagens podem ser movidos mais por adrenalina, prazer ou desejos egoístas do que pelos ideais de liberdade. Esses desvios marcam o primeiro ato do longa.

O apoio das minorias ao longo da história é retratado de duas formas. De um lado, a solidariedade mútua diante da brutalidade do exército americano. De outro, a traição forçada, resultado da tortura e da chantagem do sistema. A mensagem de que a sobrevivência individual pode se sobrepor aos ideais coletivos reforça a opressão que recai sobre essas comunidades.
O elenco sustenta o peso da narrativa. Leonardo DiCaprio se destaca ao retomar o tom cômico que já explorou em O Lobo de Wall Street, agora transformado em uma comédia do desespero. Suas tentativas de lembrar antigos códigos do grupo revolucionário enquanto está discutindo no telefone arrancam risos inesperados. Sean Penn, por sua vez, encarna um coronel xenofóbico e racista, preso às contradições de um estilo de vida rígido e militar.

Chase Infiniti dá força e sensibilidade a Willa, equilibrando responsabilidade e pureza com amadurecimento. Sua melhor cena vem em uma sequência de ação que retoma um conceito introduzido na apresentação da personagem, agora explorado em um jogo de câmera esperto que sabe utilizar o cenário.
Com um histórico de excelência, Paul Thomas Anderson acerta novamente ao trazer temas relevantes para o cenário cultural e político atual. Ele alterna planos longos e câmeras caóticas para transmitir o estado emocional dos personagens, apoiado por uma trilha sonora que guia o tom de cada situação. Sendo seu primeiro projeto com orçamento acima dos 100 milhões de dólares, Uma Batalha Após a Outra confirma que a verdadeira revolução de Anderson acontece tanto dentro quanto fora das telas.




