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Deuses Americanos “Existe um toque irônico, sagaz e intrínseco nas entrelinhas do livro”

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Deuses Americanos, do aclamado autor Neil Gaiman, é um livro obrigatório na lista de qualquer bom leitor. Super recomendado, ganhador de quatro prêmios importantes em três gêneros diferentes da literatura, a obra tornou-se essencial desde seu lançamento, não apenas porque Neil conseguiu reunir em um único livro história, ficção científica, fantasia, com nuances de “terror”, em um baile de palavras que mesclam o fantástico com a realidade, mas também porque tem a incrível capacidade de guiar sua mente em uma viagem um tanto quanto psicodélica, sublime e sombria.

O livro que completou 16 anos, passou por inúmeras edições, ganhou várias capas e reformas. Até a sua recente, belíssima e mais completa edição de aniversário publicada em 2010 (no Brasil publicado pela editora Intrínseca em 2016) denominada “edição preferida do autor”, que funciona basicamente como uma versão estendida da obra.

Gaiman teve a oportunidade de publicar na íntegra tudo o que escreveu, acrescentar mais detalhes, explorar outras ideias, realizar suas próprias correções, propor extras e por fim elaborar junto com seus parceiros uma edição fenomenal que atende todo o seu público, os que já leram ou pretendem ler.

A edição de aniversário possui 574 páginas incluindo os extras que são um compilado com entrevista do autor, posfácio, apêndice, entre outros. As Epígrafes (frases de abertura) utilizadas em cada capítulo são muito interessantes. Durante a leitura você encontrará pequenos contos chamados de “Vinda à América”, uma das partes mais legais do livro, pois contam histórias muito antigas de como as mitologias e as crenças vieram para a América. É como fazer um passeio bizarro, mas repleto de conhecimento pelo mundo e pelo tempo.

A abordagem do livro é por camadas: temos a história criada pelo autor como um todo, depois os deuses e suas lendas pessoais, depois o processo histórico real e o processo de desenvolvimento social, cultural e religioso. De alguma forma ou de outra, essas camadas se encontram em praticamente todos os momentos, diálogos, páginas, etc. e compõem o enredo que exprime o American Way Of Life (estilo de vida Americano) e o ponto de vista dos deuses ao observarem a essência humana.

Quando Neil Gaiman escreveu Deuses Americanos, ele tinha em mente um romance excêntrico mitológico e grandioso que ao mesmo tempo pudesse trazer à tona a essência dos Estados Unidos. De críticas positivas a negativas, de boa a péssima aceitação do público, extraiu-se do conjunto um resultado controverso e respeitado.

A história começa bem modesta e é difícil esperar alguma coisa com mais de 30 páginas de mistério e um começo parado, porém intrigante. Ele introduz toda a personagem principal, Shadow Moon, o seu contexto, promovendo uma reviravolta em sua vida que por sua vez, reverbera em tudo o que vem em seguida. Shadow por ser um presidiário está louco para recomeçar após sair da prisão, no entanto o rumo de seu destino muda drasticamente e ele acaba se envolvendo com os deuses velhos e novos, seres mitológicos ou apenas objetos do nosso século, como a televisão e a internet, que perambulam pelos Estados Unidos e querem declarar guerra uns contra os outros em busca de não caírem em eterno esquecimento.

Shadow é um personagem simples de modo geral; desenvolvido, creio eu, não para atrair o leitor, mas para que seja uma “ponte” que nos liga ao cerne da narrativa e que por vezes acaba por fazer o nosso próprio papel, já que ele se mostra um pouco perdido em meio às suas missões secretas e enigmáticas. Ele é só um cara prestando um serviço do qual ele nem imagina o objetivo e os seres que estão por trás de tudo.

É nesse mundo, nesse século e na America do Norte que ele e todos nós nos encontramos com os deuses. Eles estão por aí disfarçados de senhores sábios e trabalhadores, mafiosos traiçoeiros, varrendo ruas, pescando, ou fazendo qualquer outra coisa. ELEs nos cercam e disputam pela nossa fé.

A jornada do protagonista passa por várias cidades dos EUA: Minessota, Wisconsin, Nova York, Las Vegas, Ohio, desde as grandes metrópoles até o interior pacato. A personagem vive aventuras enquanto “trabalha” e se mete em grandes perigos e estranhos mistérios.

O autor mistura pontos locais reais e fictícios, por isso vale pesquisar um nome ou outro para ter certeza se o lugar existe ou não, e tornar a experiência da imaginação ainda mais verossímil. Um exemplo é a icônica e estranha House on the Rock citada em uma cena emblemática.

Diálogos fortes dão o tom crítico a obra, de modo quase metafórico e reflexivo. Poder, religião, morte, liberdade, atrações capitalistas americanas, hábitos da sociedade são alguns dos assuntos que fazem parte das discussões. Existe um toque irônico e sagaz intrínseco nas entrelinhas em muitas partes do texto, quando não enraizados nas personagens que são tão deuses quanto humanos, mas parecem estar além da descrição.

Shadow por fim conhece alguns deuses ou quase todos, bem como outros seres místicos: Odin, Eostre, Rainha de Sabá (Bilkis), Allvís, Leprechauns, Gwydion, Loki, Hórus, entre os muitos que cruzam seu caminho. E acaba por descobrir que sua vida e seu destino estão mais conectados com os deuses do que ele imagina.

É interessante que você inicie o livro com o mínimo de conhecimento sobre mitologia ou faça pesquisas durante a leitura, dessa forma a compreensão da obra será melhor e mais concreta, já que a sua abordagem ampla mistura inúmeras crenças de muitos povos ao redor do mundo; desde egípcios, indus até celtas e gregos. A Jornada histórica do personagem também nos guia em um passeio pelas linguagens abordadas pelo autor, a leitura gostosa está repleta de trocadilhos engraçados e inteligentes. Sarcasmos, razões, política, questionamentos, filosofia, são partes importantes da peça.

Durante a trama, várias musicas tocam em ambientes ou são apreciadas pelas personagens; eu escutei todas, e a imersão dentro foi ainda mais realista e profunda, pois elas foram pensadas para aqueles momentos e os tornam vívidos na mente. O final não me cativou, achei fraco, parado e nada emocionante ou surpreendente, infelizmente Neil Gaiman economizou palavras no momento mais importante do livro. A sensação é de que a historia por si só não se encerra e, talvez isso atenda ao propósito da obra, mas é muito normal e simples para o que ela promete em suas páginas anteriores.

Confesso que me decepcionei, no entanto isso não tira a credibilidade da obra em seu conjunto. O livro se tornará um seriado, algo que confesso ter sido difícil de visualizar enquanto lia. Espero que façam um bom trabalho e principalmente que elaborem um roteiro que faça jus ao conteúdo e a magnitude da obra literária.

A experiência de ler “Deuses Americanos” vai além da história, você obtém muito conhecimento enquanto faz a leitura e esse é um grande diferencial. Deuses Americanos é um épico modernizado que de modo genial expõe a essência cultural e histórica dos Estados Unidos da América.

Você pode adquirir o livro Deuses Americanos no Amazon

Lorena S. Ávila, é sonhadora, mas principalmente realizadora. Futura Jornalista (e sabe-se lá as profissões que a vida lhe reserva). Ama o mundo das possibilidades. Nerd, fã de Tolkien, cinéfila, seriática e maníaca por livros. Blogueira no Penso, Logo Assisto. https://www.facebook.com/Pensologoassisto/

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Livros

J. K. Rowling anuncia ‘The Ickabog’ como primeiro livro infantil após Harry Potter

Autora disponibiliza primeiros capítulos em plataforma online devido ao coronavírus.

Rodrigo Roddick

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Harry Potter não é o único romance infantojuvenil de J. K. Rowling. Não mais. Agora a autora está lançando o conto The Ickabog, uma história romanceada que está sendo disponibilizada em site próprio. Apesar de estar vindo a público agora, o livro já estava sendo escrito na época de Harry Potter, há mais ou menos uma década atrás.

A autora explica o motivo de ter deixado The Ickabog para trás e também comenta por que resolveu trazê-lo agora.

“Algumas semanas atrás, durante o jantar, discuti provisoriamente a ideia de tirar The Ickabog do sótão e publicá-lo gratuitamente, para crianças em confinamento. Meus agora adolescentes estavam emocionadamente entusiasmados, então lá embaixo veio a caixa muito empoeirada e, nas últimas semanas, estive imersa em um mundo fictício que pensei em nunca mais entrar”

Ela ainda ressalta que sua família já tinha conhecimento do livro e, por se lembrarem de como ele fora contado, participou da montagem desta história.

“Enquanto trabalhava para terminar o livro, comecei a ler capítulos todas as noites para a família novamente. Essa foi uma das experiências mais extraordinárias da minha vida de escritora, pois os dois primeiros leitores do The Ickabog me contaram do que se lembram quando eram pequenos e exigiram a reintegração de partes de que gostaram particularmente (eu obedeci)”

Joanne Rowling explica que The Ickabog é uma história sobre o abuso do poder e adianta que ela não se refere a nenhum regime atual em particular, lembrando que o livro foi escrito há mais de uma década.

The Ickabog é uma história sobre a verdade e o abuso de poder. Para evitar uma pergunta óbvia: a ideia me surgiu há mais de uma década, por isso não pretende ser lida como uma resposta a qualquer coisa que esteja acontecendo no mundo no momento. Os temas são atemporais e podem se aplicar a qualquer época ou país”

The Ickabog será publicado na íntegra exclusivamente online nas próximas semanas devido à pandemia do coronavírus, mas receberá uma versão em e-book e outra impressa em novembro. Rowling revelou que os direitos autorais angariados com a história serão destinados a grupos impactados pelo Covid-19.

J. K. Rowling chegou a brincar que escrevia um livro infantil em 2018, assim que terminou Animais Fantásticos 3, mas não ficou claro se este era The Ickabog.

Os dois primeiros capítulos da história estão disponíveis no site TheIckabog.com. Lá também é possível colorir as ilustrações.

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Resenha

Resenha | Guerras Secretas

Livro reúne X-men, Quarteto Fantástico, os Vingadores e os vilões em um mundo criado para eles se confrontarem.

Rodrigo Roddick

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E se você fosse transportado para um lugar em que seu maior desejo pudesse ser realizado? Só que para isso, você precisaria vencer seus concorrentes? É a partir deste cenário que nasceu Guerras Secretas. Apesar de o livro reunir distintos heróis Marvel, a premissa trabalha o conflito interno do ser humano.

“O Mundo de Batalha era feito de desejos”

Guerras Secretas é uma adaptação de um quadrinho homônimo escrito por Alex Irvine e publicado pela primeira vez em 1984. Ele ganhou a versão literária pela editora Novo Século em 2015, que já publicou diversas narrativas oriundas de histórias em quadrinhos.

O livro se inicia com diferentes heróis sendo transportados para o Mundo de Batalha, um planeta peculiar que ninguém conhecia. X-men, Quarteto Fantástico e os Vingadores, bem como os vilões Magneto, Ultron, Galactus e Doutor Destino precisam guerrear entre eles para atingir o maior prêmio que poderiam almejar: a realização de seu maior desejo.

A princípio, o leitor pode começar a questionar sobre o que um super-herói poderiam querer, se ele já possui poder, o que qualquer pessoa ordinária desejaria ter. Mas Alex Irvine brilhantemente se concentra nas limitações desses personagens, encontrando no poder delas o motivo de suas frustrações. Um exemplo é quando o Charles Xavier, que é paraplégico, começa a andar; outro é quando o Coisa passa a controlar sua transformação em pedra. Ou seja, mesmo sendo pessoas superpoderosas, elas também são humanas e, por isso, acabam tendo limitações e desejos.

Depois de estabelecer a premissa da narrativa, discretamente, por debaixo da trama, surge uma pergunta: o que você estaria disposto a fazer para realizar o seu desejo? E assim, a narrativa impele os leitores a uma análise íntima sobre suas limitações e escrúpulos, convidando-os às suas próprias guerras secretas.

Em um determinado momento, os personagens descobrem que existe uma entidade naquele mundo. Ele é chamado de Beyonder e é encarado como o ser que os levou para o Mundo de Batalha. Ao inseri-lo na história como uma entidade cósmica onipotente, Alex Irvine está metaforizando Deus. Essa provocação do autor propõe uma reflexão mais profunda.

“A verdadeira beleza reside no espírito e nas ações, na combinação da perfeição física com os atos divinos”

É possível observar isso no panorama: Beyonder leva os super-heróis àquele mundo, onde são incitados a digladiarem entre si para que o vencedor seja contemplado com a realização de seu desejo. Essa estrutura pressupõe então que seja esta a finalidade de Deus ao criar nosso universo: entreter-se.

“Ele nos colocou em guerra uns contra os outros para seu próprio divertimento”

E não por acaso, Irvine concentrou na postura do Doutor Destino o constante questionamento humano para com seu criador: ninguém deve controlar o próprio destino senão ele mesmo.

Saindo do campo teológico, Guerras Secretas também permite uma inferência social, questionando a atitude que coletivamente tomamos. É possível ver uma clara crítica ao sistema, que impõe ao ser humano — desde o momento que ele nasce — que ele se municie de ferramentas para realizar seu sonho. Porém, o prêmio é destinado a poucos, e isso gera um conflito de interesses, uma vez que todos querem realizar seus desejos, mas apenas os vencedores são contemplados com este benefício. Que vença o melhor!

Sintetizando este conflito de interesses na criação do Mundo de Batalha, o autor propõe ao leitor que ele é um indivíduo superpoderoso inserido em um mecanismo criado para sabotá-lo. Esse pensamento predispõe um jogo, portanto existe uma tentativa de fazer o interlocutor enxergar sua vida cotidiana como um jogo que ele não precisa jogar. Ao mesmo tempo, ele esclarece que o indivíduo tem o poder de criar qualquer realidade que desejar.

“No Mundo de Batalha, a realidade pode mudar”

Alex Irvine também se preocupou com o pensamento altruísta, geralmente remetidos aos heróis. Charles Xavier é o símbolo dessa ideia, propondo aos demais que eles não lutem, não façam aquilo que o Beyonder tanto incitou a fazê-los. Ele reflete que ninguém queria se levado para lá, então por que não se empenham e sair dali, em vez de jogar o joguinho daquela entidade?

Após essa elucidação, Guerras Secretas faz o leitor compreender que ele deveria usar o jogo a seu favor e não se tornar um escravo dele; que essa conduta faz parte da natureza humana.

“O animal humano é extremamente adaptável. Mesmo algo caótico e imprevisível como o Mundo de Batalha logo se torna navegável, uma vez que a inteligência humana tem a oportunidade de se aclimatar”

Guerras Secretas então acaba sendo um ensaio fictício sobre nosso próprio Mundo de Batalha.

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Resenha

Resenha | Morte no Verão

Uma investigação sobre o lado oculto — escuro — do ser humano.

Rodrigo Roddick

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Noir sempre despertou curiosidade sobre o que as pessoas fazem quando estão no escuro. O que suas sombras contariam se pudessem falar? O gênero geralmente investiga esses critérios e tende levar a julgamento essas ações cometidas no escuro. Mas é uma narrativa que se repete. Morte no Verão tem elementos claros do gênero, apesar de não ser tão original quanto se espera.

Morte no Verão é um livro escrito por John Benville através do pseudônimo Benjamin Black — talvez escolhido para incitar o noir — e foi publicado pela editora Rocco em fevereiro. O autor é premiado, recebeu o Man Booker Prize com a obra O Mar e coleciona vários elogios de respeitados jornais internacionais na contracapa.

“As pessoas desaparecem quando morrem (…) Elas ainda estão ali, o corpo ainda está ali, mas e elas se foram”

A história gira em torno de Richard Jewell, um magnata que é encontrado morto segurando a arma do crime, uma espingarda. A hipótese preliminar é que fora suicídio, mas Quirke, o legista, indica que fora assassinato e então se inicia uma investigação para descobrir o autor do crime. Apesar desse ser o ímpeto inicial, o leitor vai descobrir que o romance se foca mais nas descobertas da vida particular da vítima que na acusação de um culpado.

A proposta superficial do livro é fazer o leitor descobri quem é o assassino, afinal é um romance policial. E isso se prova algo extremamente fácil. Quem lê ou assiste obras noir, ou quem pelo menos conhece o gênero, não vai encontrar dificuldade alguma em identificá-lo. Portanto o autor se concentra em rechear a narrativa com a vida obscura de Richard Jewell. E apesar de ser uma situação interessante, não é lá tão original.

O romance é muito bem escrito e apresenta alguns elementos nas falas dos personagens que convencem o leitor a lhes dar uma atenção especial, entretanto eles não possuem muita profundidade quanto esperado, nem mesmo os personagens do ciclo principal.

“Talvez ninguém jamais fique sinceramente triste quando alguém morre, apenas finja. Não dizem que não é pela pessoa que morre que nos lamentamos, mas por nós, porque vamos morrer também?”

O mais interessante, porém, é a vida particular da vítima. Até o final, Benville propõe uma discussão encontrada algumas vezes em outros livros: em alguns casos, o crime é justificável? Até que ponto um crime pode ser considerado errado? É uma reflexão delicada, afinal crime é crime, mas que enriquece bastante o ser humano e o coloca na busca de suas próprias opiniões sobre os “certos e errados” da vida.

Apesar de ser um bom representante do gênero, não espere de Morte no Verão um livro empolgante e intrigante. É uma narrativa lenta, que procura levar o leitor para dentro da época mais do que seduzi-lo com jogos inteligentes.

Com algumas tiradas inteligentes e favorecendo os elementos noir, Morte no Verão consegue ser uma leitura calma e tranquila, adequada para uma tarde de domingo — preferivelmente quente para se inserir no enredo.

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