Connect with us

Colunistas

Editorial | Crivella, o dia que o “nazismo” invadiu a Bienal

A verdade é: enquanto falam e zombam de lacração, quem está querendo passar o lacre são eles.

Ana Carolina Barth

Published

on

Nota do Editor: Este texto é de autoria unicamente do seu autor, porém o editor responsável pelo site Cabana do Leitor, Edilson C. Rezende, assina a responsabilidade pelo conteúdo. Pois o mesmo representa a linha editorial do site.

Século VII a.C, 213 a.C., 325 d.C., anos 1244, 1409, 1560, 1640… O que essas datas têm em comum? Assim como em Alexandria no ano de 325 d.C., elas marcam quando livros foram queimados por não fazerem parte do que quem estava no poder na época acreditava.

Os artigos do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) citados por Crivella não autorizam a prefeitura usar um poder de policia para apreender qualquer material disponibilizado na Bienal. São decisões flagrantemente inconstitucionais.

Já ouviu falar em Fahrenheit 451? O livro do autor Ray Bradbury mostra uma distopia (que temo não estar tão distante, visto que no romance há a proibição de todos os livros publicados). Em 451 graus Fahrenheit, eles são queimados, assim como a liberdade do povo de pensar.

O que aconteceu na noite do dia 5 de setembro, quando o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, postou um vídeo falando sobre a HQ da Marvel ‘A Cruzada das Crianças‘ e defendendo que esta deveria ser recolhida por conter um beijo gay entre dois personagens (Wiccano e Hulkling) é um ato severo de censura que me lembra exatamente o que fizeram ao queimarem livros no passado e ao que Bradbury escreveu.

Na manhã do dia 6 de setembro, livreiros que estão na Bienal informaram que fiscais da prefeitura rondavam pela feira em busca de livros com conteúdo “impróprio” (assim chamado por eles). Várias editoras publicaram notas de repúdio e afirmaram ser contra o preconceito, além de que não lacrariam e nem sinalizariam os livros LGBTQIA+.

A desculpa seria também que crianças não podem ser expostas ao conteúdo desses livros, mas acho que o prefeito está confundindo seu papel de político com o de ‘babá’. Não concordo com a posição de Crivella e acrescento: os pais que cuidem de seus filhos.

Estamos vivendo em uma época com o fundamentalismo religioso em ascensão. No dia 21 de Agosto, o presidente Jair Bolsonaro suspendeu um edital com séries LGBTQIA+ voltadas para TVs públicas. Outra censura descarada.

1933: Grande queima de livros pelos nazistas

Enquanto isso vemos em bancas de jornais revistas com mulheres seminuas que estão expostas para quem sem querer der uma passada de olho. Conteúdos assim não são fiscalizados. Por quê?

Engraçado mesmo é ver suas “explicações” para os atos de censura. Não há razão; há discriminação e devo lembrar que homofobia é crime. O triste é vermos que pessoas no poder cometem tal crime mas não são punidas.

A verdade é: enquanto falam e zombam de lacração, quem está querendo passar o lacre são eles.

Jornalista, estudante de produção editorial, amante de ficção científica, futura escritora e redatora no portal Geek & Feminist. Colunista da Cabana do Leitor.

Comments