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Fandom

Game of Thrones “Abriu mão da coerência em favor do choque”

Começo esse texto com um pesar no coração, pois assim como muitos de vocês, eu dediquei 8 anos da minha vida a Game of Thrones.

Rafaella Rey

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Começo esse texto com um pesar no coração, pois assim como muitos de vocês, eu dediquei 6 anos da minha vida a Game of Thrones.

Assim como para muitos Senhor dos Anéis foi a grande saga de suas vidas, Game of Thrones vinha sendo a minha desde 2013.

Eu comecei a ver a série tardiamente, mas me apaixonei e devorei todas as 3 temporadas que estavam disponíveis em um tempo recorde de duas semanas. Fiquei tão apaixonada e encantada por aquele universo, e por Daenerys Targaryen, que não demorou muito até que eu devorasse também os cinco livros.

Terminei o Dança um pouco antes de começar a quarta temporada, e por conta disso a gastrite nervosa já estava atacada e eu estava extremamente ansiosa para poder assistir todos aqueles momentos épicos que eu havia lido. Queria muito assistir ao Purple Wedding, ao julgamento do Tyrion, a luta entre Oberyn e Montanha, o treinamento de Arya em Braavos, e principalmente, Daenerys Targaryen domando o mais temível de seus três filhos com apenas um chicote.

Confesso que depois de ler os livros eu fiquei um pouco decepcionada com alguns momentos na série, um exemplo é a Casa dos Imortais, eu entendo o motivo pelo qual eles não poderiam colocar a visão que Dany têm do Red Wedding – pois isso estragaria a surpresa para aqueles que acompanhavam apenas o seriado. Mas tinham outras visões interessantes que poderiam ter sido adaptadas.

O segundo livro é um dos mais imersos em profecias, magia e misticismos, e por conta disso eu não gostei tanto de como foi adaptado. Mas era um detalhe, e um detalhe pode ser relevado. Até aí tudo bem, acho que todos entendemos que uma adaptação nunca irá ser 100% fiel aos livros, inclusive houveram mudanças que eu gostei, como o encontro da Arya e do Tywin em Harrenhall. A série faz um ótimo trabalho ao introduzir Charles Dance antes do tempo.

Mas é evidente que quando o material original acabou e os produtores tiveram que tomar as rédeas do show, Game of Thrones começou a desandar, de uma forma que da quinta temporada em diante o seriado se tornou completamente alheio a obra. É quase como se Game of Thrones tivesse acabado na quarta temporada, e da quinta temporada em diante tenha se transformado em outra coisa. O roteiro começou a simplificar questões complexas utilizando resoluções fáceis e cometendo erros amadores ao tentar amarrar as pontas. Existem diversos momentos no show ao longo desses últimos 4 anos que embasam a minha visão, mas irei tentar focar no arco da Daenerys

Toda a passagem de Daenerys por Essos, após a tomada de Meereen, foi extremamente simplificada no seriado – E que fique claro aqui que eu não estou reclamando apenas do fato de Belwas e cabeça raspada não terem sido adaptados, ou de Barristan Selmy ter sido descartado antes do tempo.

Daenerys é consolidada como uma conquistadora depois de ter tomado Astapor, Yunkai e Meereen. Ela foi a mente por trás dos cercos, infiltrações e ataques (E destes três, em apenas um deles ela usa um dragão). Mas o grande plot nos livros é a transição de Dany de conquistadora para governante, e todos os obstáculos que ela encontra ao longo do caminho quando tem que lidar com as questões políticas de um sistema escravagista que ela vem tentando “quebrar”. Este é um dos pontos mais delicados dos livros, e que demonstra até que ponto ela abnegou de seus desejos mais profundos por conta da sua responsabilidade com aqueles que libertou.

Pela paz, Daenerys acorrentou seus dragões, restringiu seus impulsos vingativos e violentos, concordou em se casar com um homem que não amava, concordou em abandonar um homem que amava, concordou em dividir o poder com pessoas que detestava, concordou em permitir a escravidão fora das muralhas de Meereen, concordou em ceder a várias práticas culturais que a desagradavam, e deixou passar sua melhor chance de ir pra Westeros, seu corpo, e fatalmente sua própria felicidade – e, o mais dificil de tudo, concordou em deixar milhares de astaporis famintos fora de seus portões.

Ela não é um personagem perfeito, longe disso, tendo pensado em abandonar e arriscando a paz algumas vezes, mas o curso global de suas ações é impressionante: uma série de auto-sacrifícios e submissões para poupar “seu povo”. E se o arco de Daenerys no livro terminasse com seu casamento, eu o resumiria em como ela invocou imensa coragem e autocontrole para fazer tantos sacrifícios.

Martin nos mostra que a paz é frequentemente idealizada como um feliz raio de sol – por uma situação na qual tudo fica bem e todo mundo dá as mãos. E no entato nos apresenta uma visão muito mais realista – ele mostra que a paz é incrivelmente difícil de alcançar, frequentemente insatisfatória, nunca se sabe se ela vai durar, e que requer muitos esforços para ser mantida. Sempre haverá questões, e pessoas que tem a guerra como algo de seu interesse. E, decisivamente, paz frequentemente envolve permitir que muitas injustiças continuem, ao invés de tentar consertar todos os erros do mundo. Com a paz, você nunca consegue tudo o que quer. É por isso que a guerra é uma opção tão sedutora.

Em comparação com a paz, a guerra é simples. A guerra esclarece as coisas. A guerra significa que você pode tentar tomar tudo o que quer pela força das armas, ao invés de desistir de coisas que você quer. E Dany descobre que detesta permitir que a injustiça continue, quando a paz necessariamente envolve que isso continue.

A série falha em entregar um arco complexo em Meereen. Não sabemos quem é a Harpia, ou quais são seus objetivos e motivações. Enquanto nos livros é evidente que a Harpia é formada pelas famílias nobres de Meereen, na série nós vemos a organização matando outros nobres. O próprio ataque a arena Daznak não faz muito sentido. Qual seria o objetivo daquilo? Por que eles não estão matando apenas os libertos de Dany, mas também os nobres? Nenhuma dessas questões foi respondida. O arco se finaliza com Dany quebrando o cerco com seus dothraki e queimando a frota dos escravagistas, abolindo a escravidão de uma vez por todas através de fogo e sangue – Mesmo que nos livros Martin nos mostre que essa fórmula não deu certo, e para que houvessem mudanças significativas, isso demandaria tempo, paciência e muito esforço para desconstruir aquela realidade. Mais uma vez o roteiro entrega uma solução fácil para uma questão complexa.

Não estou negando que nos livros Daenerys tenha um lado sombrio. Na verdade, seus impulsos violentos é o que a tornam um personagem cinza e não apenas uma heroína blockbuster (como foi vendido no seriado durante seis temporadas). E quando a série decide explorar esse lado cinza, acaba errando a mão e transformando a personagem em uma vilã unidimensional que sucumbiu a loucura. Não houve uma construção consistente que justificasse uma reviravolta tão abrupta na storyline que o próprio seriado construiu.

Todos os atos de violência de Daenerys ao longo de sua trajetória foram justificados – ou seja, existem motivos racionais por trás de suas ações. E todos foram canalizados e direcionados para escravagistas e assassinos.  Mesmo em Westeros esses impulsos são direcionados aos seus inimigos – e ocorrem durante sua campanha pelo Trono de Ferro. Por mais que ela tenha executado seus inimigos de maneira brutal, ela ofereceu anteriormente a possibilidade de perdão e misericórdia caso eles se submetessem e a reconhecessem como sua legítima soberana.

Daenerys poderia abraçar seu lado Targaryen e voar até a Fortaleza Vermelha e matar Cersei, sem se importar com as vidas inocentes que seriam ceifadas como consequência de sua escolha.

Ela poderia desencadear com esse impulso a explosão de toda a cidade, pois como vimos durante o quinto episódio, haviam vários estoques de fogo vivo embaixo da cidade – explodindo. E como nós sabemos, o plano de Aerys II era destruir Porto Real para que não sobrasse nada além de cinzas para seus inimigos conquistarem. Provavelmente o maior estoque de fogo vivo residia embaixo da Fortaleza Vermelha. Não era preciso fazer com que Daenerys mirasse em civis desprotegidos e queimasse propositalmente a cidade que veio libertar e governar.


Para fecharmos a nossa análise, eu endosso que não houveram indícios consistentes que justifiquem o rumo que o roteiro tomou em seus momentos finais. O que fez com que o lado sombrio de Daenerys viesse á tona da pior forma possível? O que fez com que ela traísse os seus princípios e se tornasse alguém capaz de massacrar inocentes? Em que momento Daenerys traiu o seu código moral dessa forma? O que aquelas pessoas fizeram para merecer toda a sua fúria?

Nos livros é estabelecido que Daenerys se sacrifica pela paz em Meereen – e consegue estabelece-la – mas se torna miserável quanto a isso. Esta é a tragédia de Daenerys. Ela conseguiu a paz. E então percebeu que a guerra era melhor para ela. Mas abraçar seus impulsos violentos, e parar de reprimir a todo custo uma parte de sua personalidade, não invalida todas as outras características que a fazem ser quem ela é.

Por conta disso, Game of Thrones erra a mão em sua última temporada e abre mão do último suspiro de coerência em favor do choque.

A questão nunca foi a Daenerys enlouquecer ou não, mas sim o caminho que eles usaram para chegar a isso.

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