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Crítica | Gladiador 2 “Justifica sua existência por direito de conquista”

Gladiador 2 conquista o seu direito a existência por conquista da ótima produção que se impõe seja nas atuações seja na grandiosidade do projeto.

Maria Laura
Por
Maria Laura
The time traveller, horse-loving pin-up.
8.5 Muito Bom!
Gladiador 2
VEJA NO CINESYSTEM

Existe uma canção chamada “Soldier, Poet, King” (soldado, poeta, rei) que narra como as diferentes formas de poder moldam a história, em Gladiador 2, Lucius Verus (interpretado por Paul Mescal) e os 3 arquétipos de forma brilhante e acachapante.

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Como soldado, o herdeiro perdido do trono do Império Romano é inescrupuloso e avassalador; como poeta, tem um olhar sensível e delicado para encontrar a arte nos detalhes do caos quase que paradoxal em contraste com sua língua de chicote que faz arder tanto quanto o corte de uma afiada espada.

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gladiador 2

Como “rei”, Lucius carrega consigo a revolta e raiva de uma vida de injustiça e crueldade infligida por aqueles que detém o poder, mas também carrega o forte idealismo de que move a luta por um futuro melhor construído por aqueles que sequer tiveram tempo de vislumbrar algo além da vida de exploração sob o regime imperialista romano.

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É quase paradoxal observar tantas nuances em arquétipos que são tão antagônicos entre si, porém, o que há de mais humano do que as nossas próprias contradições frente à frágil ideia de civilização que construímos com o sangue e sofrimento alheio?

Apesar de levar alguns conceitos e momentos da história antiga ao superlativo e beirar o fantasioso, Gladiador 2 consegue se utilizar dos absurdos para ilustrar o castelo de cristal, a criatura viva e reativa que Roma se tornou sob o governo dos imperadores gêmeos Caracalla e Geta (Fred Hechinger e Joseph Quinn, respectivamente).

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gladiador 2

Gladiador 2 de fato não se importa em não ser “historicamente correto”, mas sim em usar elementos bem estabelecidos e reconhecíveis pela audiência para contar uma história plausível sobre a corrupção do ser humano pelo poder e a fragilidade das instituições.

Os imperadores Caracalla e Geta governam o império com um punho de ferro, focado no expansionismo selvagem e na conquista de territórios pelo derramamento de sangue dos povos considerados inferiores.

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A total ausência de misericórdia e a violência brutal que permeiam cada canto daquela cidade estão personificadas na figura dos irmãos, que não são nem um pouco contidos no seu fascínio pela carnificina e brutalidade. Dessa forma, a Roma de Gladiador 2 é um espelho de seus regentes: desde a plebe miserável que ainda sim se sente poderosa o suficiente para tratar com completo desprezo os bárbaros, a máquina de moer soldados que é o poderoso exército romano, tudo isso culminando no bastião máximo da sociedade romana, o Coliseu. 

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É impossível falar de Roma sem abordar a violência recreativa na sua mais pura encarnação, tanto em carne e osso como em alicerces de concreto, que é o Coliseu. O coliseu de Ridley Scott abandona quaisquer restrições para escancarar o fascínio coletivo pela violência, e a quão sedutora a desgraça alheia pode ser a ponto de sustentar um dos maiores impérios da civilização humana. A arena transforma-se no maior picadeiro do entretenimento sádico, com uma “tecnologia” que pode ser equiparada, dada as devidas proporções, à indústria por trás das arenas de Jogos Vorazes. 

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Essa licença poética do diretor em montar as batalhas do Coliseu pode incomodar alguns espectadores, pois de fato algumas cenas são bem desgarradas da realidade histórica e até das batalhas do primeiro filme que parecem “pé no chão” quando comparadas à algumas decisões escalafobéticas que Scott utiliza para demonstrar o poderio sádico daquela nação.

Com exceção da batalha que abre o filme que é bem “tímida” e o que você esperaria da arte da guerra romana, todas as outras se transformam no suprassumo do “mais e maior” que tende a acompanhar sequências de filmes icônicos. Contudo, a pirotecnia da arena nos faz indagar “Será que a plausibilidade desses acontecimentos realmente importa?”. 

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Seja considerando os excessos valorosos pelo puro entretenimento de ver o Coliseu em seu apogeu, ou considerando como recurso narrativo para trazer o caráter epopéico da obra, você acaba sendo colocado no lugar da própria plateia: vendo um espetáculo que oprime os sentidos, a consciência e tentando encontrar o significado daquilo, a justificativa da sua existência.

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Não é à toa que o Império romano é o “Império Romano” do imaginário coletivo. Além do notório poderio armamentista, a própria fundação de Roma atravessa a antiguidade até a nossa realidade com a República, os senadores, as intrigas políticas, as arenas, os césares, a língua, a religião. Dessa forma, a escolha de representar a “História fora da história” apenas usando seus elementos para representar algo que pode ou não ter acontecido parece segura. Porém usar elementos tão cristalizados e imponentes assim
à revelia pode ser uma linha tênue entre a licença poética deliberada e a caricatura, mas isso definitivamente não é um problema para Gladiador 2.

Os louros devem ser dados a todos os que construíram a identidade visual do filme, se existe questionamento do quão verossímil são os acontecimentos do roteiro, essa dúvida é anulada pelo detalhamento que encontramos naquele mundo.

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Das ruas apertadas e claustrofóbicas minimamente pensadas para serem caóticas ao detalhe dos tecidos fluídos e coloridos das vestes dos ricos e poderosos, tudo ali conta uma história e sustenta as excentricidades narrativas. O filme é um banquete para os olhos, e os elementos visuais funcionam como alicerce para respaldar os aspectos doentios daquela sociedade. 

A opulência é tanto escancarada como sutil: vemos a corte e os ricos se esbaldado em festejos onde até um rinoceronte é servido, animal esse que atualmente é dificilmente visto pela maioria da população hoje em dia, e corre grave risco de deixar de existir, é mais um elemento recreativo. Se come a carne, se raspa as migalhas do marfim, se monta rinocerontes para matar. 

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Gladiador 2
Muito Bom! 8.5
Nota 8.5

A violência opressiva também é refletida nos animais, que possuem praticamente caráter unicamente bestial e sedenta por sangue. São tanto vítimas como algozes forçados da desgraça humana e se os próprios gladiadores não tem poder de escolha frente à carnificina brutal do império, o que será dos animais que são vistos como meros acessórios?

Outra escolha interessante na representação dos animais no filme está na escolha dos cavalos. O uso das cores das pelagens muitas vezes comunicam os valores e as virtudes de quem os monta, regularmente vemos cavalos tordilhos e de pelagens claras associados aos honrados e bons. A pelagem impecavelmente branca continua imaculada após o derramamento de sangue, enquanto os cavalos de pelagens escuras como alazões e castanho estão associados a quem a sociedade considera “do povo”, “sujos” e sem importância. Cavalos friesians, pretos e claramente mais altos, sempre presentes nas cenas em que a morte é pautada.

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Os personagens estão extremamente bem caracterizados, a maquiagem avermelhada nos olhos dos gêmeos contrastanto com a pele excessivamente alva transforma os monarcas em suas próprias estátuas que transcendem o tempo e o espaço.

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Os imperadores são a encarnação divina na terra, e sequer parecem humanos e não se dão o trabalho de remeter a humanidade. Essa atmosfera régia de todos os personagens ricos e poderosos é um recado claro: ninguém vai até Roma à passeio, todos que estão lá podem se dar ao luxo de parecerem inumanos, afinal a partir do momento em que se escolhe agir pelos interesses de Roma, sai-se da vida e se entra na história. 

Denzel Washington ilustra brilhantemente esse modelo de existência dos servos de Roma, com os conflitos e tribulações de Macrinus, um mestre de escravos ambicioso e inescrupuloso. Assim como ele, o restante do elenco está bem acertado e extremamente imponente. Esse definitivamente não é um filme de diálogos expositivos e falas prolixas. No melhor estilo sofista, todos sabem bem o que falar e quando falar. No geral falam pouco, mas dizem a que veio. 

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O filme consegue caminhar com os próprios pés, e contar uma história interessante e cativante sem se escorar demais em seu predecessor. Apesar de termos claros momentos de nostalgia deliberada e referências ao Gladiador original, os momentos em que isso ocorre são bem acertados pelo roteiro e não usam vulgarmente. As reverências e homenagem tem o peso necessário e pontual. 

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As reflexões acerca do caráter sedutor da violência e poder, e as consequência catastróficas nos mais poderosos impérios e suas sociedades são interessantes e inspiradas. O incômodo que fica é justamente a lembrança de que a nossa realidade não está tão distante da realidade romana, tanto para o bem quanto para o mau.

Em um mundo onde se coloca cada vez mais em xeque a produção de sequências, prequels, e spin-offs, Gladiador 2 justifica sua existência pelo direito de conquista.

Gladiador 2 estreia dia 14 de novembro nos cinemas.

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