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Capitão América: Guerra Civil é melhor do que Batman vs Superman: Origem da Justiça

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O título do presente texto por si só já vai ser capaz de fazer pessoas se digladiarem ou, sem nem ao menos ler o texto, discordarem. Mas há um fato inegável: O novo filme da Marvel é superior a maioria de seus próprios filmes (inclusive aos filmes dos Vingadores, que oficialmente é a franquia que reúne todos os heróis, este aqui seria o terceiro filme solo do Capitão America) e, de quebra, consegue ser superior ao último filme da Warner-DC. Este artigo possui spoilers.

De forma didática, tentarei elucidar o porquê.

A comparação é, por motivos óbvios, inevitável. Ambos os filmes versam sobre o embate entre heróis e a consequência de seus atos; como, na tentativa de salvar as pessoas, acabam não salvando todas e pior – matando algumas. Além disso, o tempo entre os lançamentos é curto demais para que não comparemos um ao outro. E aqui já temos o primeiro 7×1 da Marvel sobre a DC: enquanto Batman Vs Superman soa um pouco mais raso na discussão do impacto das ações do Super na terra, principalmente por conta da frágil e mal construída senadora Finch (Holly Hunter), Guerra Civil consegue se aprofundar nessa discussão, tendo muito mais impacto com a escolha das vítimas, o peso de seus discursos sobre o acontecido (vide o discurso de uma moradora da vila no tribunal e o discurso do Rei de Wakanda) e mesmo na consequência da ação dos super-heróis. – Enquanto soa meio perdido o fato do Super ser acusado de matar pessoas para salvar Lois Lane, uma vez que o filme mostra-o apenas ferindo uma pessoa para isso; surge mais grave a cena em que, na tentativa de impedir uma explosão à bomba, a feiticeira escarlate acaba por quase detonar um prédio, matando diversas pessoas.

Ainda nesse ponto, é perceptível como ambos possuem um roteiro que precisa dar conta de inúmeras tarefas:

Relacionado: Crítica 1 – Capitão América: Guerra Civil 

Relacionado: Crítica 2 – Capitão América: Guerra Civil – Somente PC

Em Batman vs Superman, o objetivo era continuar a história do Super, dar continuidade ao Batman no cinema, introduzir a Mulher Maravilha, criar ganchos para a Liga da Justiça e ainda costurar isso tudo ao confronto dos heróis sob a manipulação do Lex Luthor. E, ao meu ver, é um roteiro que tem sucesso na maioria desses desafios. Faço ressalva por ter deixado a sensação de ‘coito interrompido’ com a forma pela qual exibe a Liga da Justiça – aqueles vídeos não me pareceram tão empolgantes e são definitivamente um fan service desnecessário à dramaturgia do roteiro (tire a parte da Mulher Maravilha vendo os vídeos e eles não farão a menor diferença para o roteiro do filme nem mesmo para a dupla citação aos metahumanos… Spider Man é sem duvidas um fan service no filme da Marvel, mas construíram bem a sua participação e é ele o grande responsável por vencer o Homem Formiga!), além disso, desde a primeira cena da kriptonita no mar, até a parte que Lois Lane joga a lança na água, inclusive, o filme da Warner deixa a sensação que teremos a presença do Aquaman no filme, ligado a essas cenas. E isso não ocorre.

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Outra expectativa infundada: a parte da manipulação do Lex também soa um tanto confusa, fica claro ao final que ele possuía um objetivo maior (chamar Darkside à terra, ao que parece) e tudo que acontece na história ocorre porque ele fez acontecer, mas ao longo do filme toda essa manipulação não consegue soar orgânica e em alguns pontos há certa “forçação”. É preciso fazer certo esforço de entender por que ele acaba tentado convencer oficialmente a senadora a lhe permitir construir a arma de kriptonita, mesmo já fazendo isso sem a autorização formal do governo quando ela a nega. E a culpa disso, principalmente, é a fragilidade na construção do personagem da Senadora. Aqui o roteiro soa raso na forma como a coloca como catalizadora da questão de discutir as ações do Super. Ela sempre parece perdida e sem opinião fechada no assunto. Ela não possui um lado definido quanto ao que defender. E ainda que com isso a ideia era ela ser uma peça mais manipulável nas mãos de Lex, acaba por soar como fragilidade da construção do personagem. E a direção tampouco ajuda a atriz no filme, mas esse ponto falaremos à frente.

O roteiro de Guerra Civil também possui tarefas semelhantes: diferente de BvS, que estava iniciando o Universo DC nos cinemas, Capitão América: Guerra Civil é um capitulo do meio. Ele é responsável por fechar as consequências da Fase 2 do Universo Marvel e construir os caminhos, iniciando a Fase 3, além de ser a continuação da história do Capitão América. Com isso, ele conta com as referências prévias da extensa lista de filmes anteriores e não perde muito tempo em contextualizar seus acontecimentos. Isso, para alguns, pode ser um ‘defeito’ pois o filme não dá a sensação de ter início, meio e fim, mas acho bobagem pensar assim.

O filme possui um roteiro específico, com uma história própria estilo thriller, mesmo que essa história, mais do que a dos anteriores filmes da Marvel, seja parte de um todo maior. Mas, além disso, é um roteiro que tem como objetivo unir 12 personagens importantes, 12 heróis. O que, nas mãos de qualquer um facilmente cairia no complexo de X-Men, que reúne um número sem fim de mutantes sem quase nunca conseguir desenvolvê-los em tela. E isso jamais ocorre em Guerra Civil. Entendemos perfeitamente a motivação de todos os personagens, sabemos porque cada um deles está em cena – todos têm funções bem definidas no conflito e na ação dramática, e mais: nos preocupamos com eles. Em nenhum momento a ação dos personagens soa injustificada. E mesmo seus argumentos. Nenhum deles parece estar com a razão definitiva e o roteiro do filme não é maniqueísta, soando então mais complexo.

A duração de ambos os filmes é bem longa – BvS com 151 minutos e Guerra Civil com 146. E ambos tentam usar todos os seus minutos para contar suas histórias ambiciosas. E apesar da montagem e edição comprometedoras do filme da Warner, o ritmo e andamento dos filmes é bom. BvS vai paulatinamente construindo a ideia do confronto dos heróis, Capitão América: Guerra Civil vai de forma mais dinâmica fazendo com que o confronto surja como consequência da ação dramática. Eis mais uma diferença fundamental: a razão de BvS existir é fazer os heróis brigarem; em Capitão América: Guerra Civil, eles brigam em consequência da história contada no filme.

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Ambos os filmes introduzem novos personagens: BvS nos traz a Mulher Maravilha, Capitão América: Guerra Civil traz de volta o Homem-Aranha e apresenta o Pantera Negra. Embora os três personagens surgem maravilhosos em cena, a contextualização da participação do Spider e do T’Challa são melhores. Eu gostei bastante da função “mulher gato de TDKR” que a Wonder Woman possui no filme da Warner, mas é fato que guardaram muito mais mistério sobre quem ela é do que revelaram sobre sua história. Dirão que é para o seu filme solo e, de fato saímos, aguçados sobre ela, esperando seu filme. Mas nós esperamos para descobrir mais sobre ela do que apenas para ver mais Mulher Maravilha em ação. Já com os personagens da Marvel, em poucas cenas e diálogos, a origem e essência de Peter Parker já ficaram explicitas, livrando do seu próximo filme a necessidade de mostrar sua origem. Quase o mesmo do Pantera Negra. Ou seja, queremos ver seus filmes solos para vê-los mais em ação e não porque precisamos saber mais sobre o personagem, para entendê-lo. Percebem a diferença?

Já foi dito acima como o Guerra Civil trabalha com habilidade com 12 importantes personagens em cena, mas isso fica ainda mais bem realizado por conta da direção precisa dos irmãos Russo. Construindo cenas de ação impecáveis, a mise en scène[1] é bem orquestrada, principalmente na já icônica cena no aeroporto, por isso sabemos bem onde está cada personagem, quem está lutando com quem, onde, como, de que forma, com qual poder. Em nenhum momento ficamos confusos sobre o que está acontecendo em tela. Se há um senão é pelo uso excessivo de CGI, algumas cenas poderiam ficar ainda mais legais se houvessem mais corporificação ou mais dublês e confrontos reais.

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1- Mise en scène é uma expressão francesa que está relacionada com encenação ou o posicionamento de uma cena. O mise en scène também está relacionado com a direção ou produção de um filme ou peça de teatro. Mise en scène é tudo aquilo que aparece no enquadramento, como por exemplo: atores, iluminação, decoração, adereços, figurino, etc. Não ficando limitado apenas à parte técnica da produção.

Já em Batman Vs Supermen, a direção de Zack Snyder soa confusa em alguns momentos, prejudicada pela montagem e edição do longa (e esses problemas de montagem e edição já ficavam explícitos no trailer que resumiu todo o filme, praticamente. Uma boa montagem se preocuparia de fazer o que ocorreu com os trailers de Guerra Civil, que tinham cenas do início, do meio e do fim do filme sem, contudo, entregar nenhum detalhe dos mistérios da trama). Apesar de Snyder nos brindar com belas cenas e tomadas, como as que emulam Super-Homem como um Deus ou Messias, e mesmo toda a sequência bem orquestrada do confronto dos heróis e as sequências de luta do Batman no pesadelo e no resgate de Martha (e não há como não citar a magnífica sequência da morte dos pais de Bruce, em planos-detalhes, retratando as HQs fielmente quadro a quadro, como o diretor já havia feito em 300 e Watchmen), a coreografia da cena de perseguição do batmovel é horrorosa. Confusa, em determinados momentos, você não consegue entender o que se passa na tela. Como disse Pablo Villaça.

“Um verdadeiro caos visual, [as sequências de ação] sendo construídas através de movimentos de câmera abruptos e de uma montagem que não compreende que cortes tão rápidos e numerosos exigem ao menos alguma organização cuidadosa da mise-en-scène para que o espectador consiga acompanhar o que está acontecendo”.

As cenas contra o Doomsday no final também carecem de melhor coreografia e são prejudicadas pelo excesso de efeitos de CGI ainda mais artificiais que os empregados em Guerra Civil. A escolha do diretor por uma paleta de cores cinza, escura e dessaturada transforma o filme em 3D em algo horroroso de ver (e aí a culpa é mais da distribuição do longa em insistir em fazer mais dinheiro com as dispensáveis copias 3D, coisa igual ocorre com todos os filmes Marvel). Ao escolher também nunca focar as consequências das ações violentas dos heróis (as mortes que Batman causa nunca são focadas de fato), o diretor trai o próprio subtexto do início do filme. Apesar disso, todas as cenas que trabalham a ideologia de cada herói funcionam bem para estabelecer as bases do pensamento e posições de cada um, isso auxilia na motivação da batalha dos heróis, ainda que em parte ela não soe tão orgânica na trama (as motivações existentes na HQ original funcionavam melhor), o esforço do roteiro e do diretor em fazer sentido para a contenda é louvável.

A noção de destruição também é redimensionada. Se em Guerra Civil, ela é o fio condutor da trama e a grande sequência de batalha ocorre num aeroporto propositalmente abandonado, em BvS toda a discussão sobre as consequências da destruição nas batalhas dos heróis é jogada no lixo quando Doomsday produz tanta destruição quanto o General Zodd. Contudo, ainda é curioso o fato que em Man of Steel havia um peso, uma urgência e um temor na ameaça de Zodd. Na luta contra Doomsday, ele parece ser somente mais uma ameaça qualquer. O Filme não consegue nos fazer nos preocupar com os personagens ou mesmo temê-lo enquanto vilão. Culpa da direção, da montagem e edição e da má construção em CGI do vilão.

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Mas Guerra Civil também merece ressalvas: apesar de ser um excelente filme, na questão de adaptação perde para BvS. O filme da Warner é mais feliz no quesito adaptação das HQs com referências visuais e contextuais ao material da HQ. Guerra Civil possui duas ou três referências diretas à HQ que originou o argumento da história, mas toma total liberdade nas referências e o nome Guerra Civil não parece bem empregado ao que de fato ocorre no filme – há um grande confronto que é responsável pela destruição, repartição, divisão e extinção da iniciativa Vingadores tal como ela era até o filme anterior. E há duas grandes lutas que simbolizam isso, mas não é uma Guerra de fato. Mas ok, isso não é exatamente um defeito no filme, já que a película consegue contextualizar muito bem em seu roteiro essa destruição interna da superequipe, de forma orgânica, funcional e coesa. E só mesmo uma reclamação quanto à deturpação da obra a qual o filme pega emprestado o nome e alguns elementos.

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o mise en scène possui uma característica marcante em cada “cineasta-autor” pelo teor dramático que transmite, ao mesmo tempo que utiliza de modos não convencionais de construir a cena.

Capitão America: Guerra Civil é o melhor filme da Marvel até agora: ação invejavelmente bem construída, em um roteiro que faz muito sentido e humor cirúrgico, alívios cômicos que funcionam melhor do que no primeiro Vingadores e jamais destituem o tom sério e urgente do filme.  É um thriller muito bem construído. O desafio da Marvel agora é manter esse nível, já que nem todos os seus filmes partilham de tal status de qualidade.

Já a Warner e a DC apresentam um filme num tom sombrio e sério, pegando carona na trilogia do Batman de Nolan. Escolhem um caminho igualmente interessante, mas acabam falhando um pouco na execução do filme, principalmente porque a partir do terceiro ato o filme abandona sua tentativa instigante de ser um filme mais aprofundado que discute violência, responsabilidades, identidade e a relação mãe-filho para abraçar um filme de fã, com poderes e lutas sem muita preocupação. Contudo, espera-se que o tom sério permaneça no filme da Liga, que, se julgarmos pelas referências e ganchos implementados em BvS, tem tudo para ser épico se conseguir corrigir os erros deste filme.

 

No fim das contas, como bem ilustrou Felipe Germano (SuperinteressanteSim, Guerra Civil é melhor do que Batman vs Superman”), Marvel e Warner querem mais é que os fãs se digladiem. A luta não é do Batman vs Supermen ou Capitão América contra Homem de Ferro: é entre as maiores produtoras de HQs de Super Heróis. A pouca distância entre a estreia dos filmes sempre foi proposital. Em 2013, quando a Warner anunciou que seu filme teria o Homem de Aço e o Homem Morcego, resolveram que o lançamento seria no mesmo dia do, então intitulado, “Capitão America 3” – apenas por pura provocação. E aí que, semanas depois, começaram a rolar os boatos de que o novo filme do Capitão era uma adaptação de Guerra Civil. Ou seja, Marvel também ia por seus heróis para brigar. Depois houve os rearranjos de datas e as estreias acabaram por ser nessas datas (e vale lembrar que nos EUA Guerra Civil só estreia dia 06/05).

Por isso, Nerds e Geeks, ao invés de digladiarmo-nos sem sentido, assumamos os fatos, os defeitos e qualidades de cada obra e curtimos o que o cinema pode nos proporcionar.

Revisado por: Bruna Vieira.

Diego é escritor, possui contos publicados nas coletâneas da FLUPP Pensa (2012 e 2013), é amante de teatro (fez cursos de dramaturgia moderna e contemporânea) e ainda faz críticas de cinema (tendo estudado Teoria cinematográfica e crítica com Pablo Villaça). Na vida real é Psicólogo e trabalha com clínica e projetos sociais.

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Pagina desrespeita legado de Chadwick Boseman criando noticia falsa

Pagina cria noticia falsa de que fãs da Marvel querem substituir Chadwick Boseman por Ryan Gosling como Pantera Negra.

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Bom, algumas noticias embrulham o estomago, não porque existem mas pela falta de sensatez dos criadores de noticias falsas.

Não é a primeira vez que falamos da referida pagina aqui, o Cinematologia Nerd no dia 18 de abril de 2019 resolveu então publicar uma primeira impressão/critica sobre o filme Vingadores: Ultimato sem ter visto ainda o filme.

Na época entramos em contato com a Disney que negou qualquer cabine de imprensa realizada para qualquer veiculo naquele dia ou antes disso no Brasil e até mesmo no exterior, isso não impediu que a pagina que tem um numero elevado de seguidores, mantivesse as publicações e bloqueado todos os que questionaram a eles sobre isso.

Agora, um pouco mais de um ano depois, eles publicam uma postagem ao qual falam que fãs da Marvel nos EUA criaram uma petição pedindo que o ator Ryan Gosling substitua o ator, Chadwick Boseman, como Pantera Negra.

“Fãs” da Marvel nos EUA iniciam petição online no Twitter pedindo Ryan Gosling no papel de Pantera Negra e acabam gerando revolta na internet!

Posted by Cinematologia Nerd on Saturday, August 29, 2020

A pagina então cria duas demonizações com a postagem (até agora ele teve quase 9.5 mil compartilhamentos e quase 17.5 mil curtidas), uma dos fãs da Marvel que jamais criaram tal petição e outra do ator que já foi associado a uma brincadeira quanto a isso no Twitter no ano passado e que não tem qualquer relação com o contexto atual da morte de Chadwick Boseman.

https://twitter.com/DrTahha/status/1155744099577806848

Vi amigos no meu Facebook criticando indignados a suposta atitude dos fãs da Marvel, porém o único grupo que desrespeitou o legado de Chadwick Boseman foi a pagina que criou a noticia falsa. Uma busca rápida já mostra que não existe qualquer discussão ou pedido quanto a isso.

Na verdade os fãs da Marvel tem um respeito tão imenso por Chadwick Boseman que a discussão hoje entre eles é que não desejam que nenhum outro ator substitua T’challa no cinema.

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Chadwick Boseman | Obrigado por me tirar do ‘Umbral’

Foi somente em Pantera Negra que eu me descobri negro, somente neste filme (demorou anos, mas aconteceu).

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Eu demorei a entender o que queria falar aqui neste espaço, pois o legado de Chadwick Boseman significa pra mim uma coisa além da capacidade de transmitir isso em palavras.

Pantera Negra, foi a primeira produção de grande orçamento do cinema a colocar no banco dos realizadores somente pessoas negras. Fui a cabine de imprensa no ano de seu lançamento, não esperava muita coisa, mas ao fim da sessão, eu e Karolen Pasos (jornalista do site CinePOP e fundadora do site LesB Out! ) estávamos com os olhos cheios de lagrimas.

Foi somente em Pantera Negra que eu me descobri negro, somente neste filme (demorou anos, mas aconteceu). Antes, eu tinha certas linhas de pensamento completamente destoantes da minha realidade social. Apesar de ser dono de um site com determinada relevância, ter diversos colaboradores maravilhosos, ter parcerias com diversas empresas, pouca gente sabe que eu moro em comunidade (morro) na zona norte do Rio de Janeiro. Já conversei com representantes de empresas por telefone e ao fundo os tiros eram ouvidos. E mesmo diante de uma realidade tão destoante destas empresas, e até mesmo da maioria dos meus colaborares, eu olhava o movimento negro como algo que não me representava.

Em resumo, eu era preconceituoso com minha própria origem. Eu quando mais novo comprava produtos químicos para cabelo (não era formol) para deixar o cabelo liso, pois cresci ouvindo da minha família que “cabelo liso que é cabelo bom”, que tinha que casar com mulheres brancas para “clarear a família”. Certa vez estava vendo a série 24 horas e ela tinha como um dos principais personagens um presidente negro, chamado David Palmer (isso antes das pessoas saberem que Obama existia) interpretado pelo grande ator Dennis Haysbert, e na tentativa de convencer meu pai a ver a série, ele então me disse “Um presidente preto, nunca vi isso”. Minha família e eu éramos vitimas do racismo estrutural, assim como hoje sou vitima do machismo (mulheres muito mais, sem comparação, mas homens também são vitimas pois isso afeta as suas relações interpessoais, ou seja, ninguém ganha), que cada dia eu luto para minar isso de dentro de mim.

Porém Chadwick Boseman veio com seu Pantera Negra, e me resgatou do vale da sombra da morte, do Umbral, como se ele fosse um anjo enviado pelo criador para me salvar. Chorar em Pantera Negra, foi como se ali começasse o meu ponto de partida. Antes, eu não tinha objetivos de melhorar, ou de tentar ser uma pessoa melhor para as meus amigos, antes eu era cego, hoje posso dizer que enxergo, porém como no mito da caverna, a luz muito forte pode deixar a visão um pouco embasada e tropeços são comuns mas não devem ser repetidos na mesma pedra.

Este artigo não foi para dizer que Chadwick Boseman é um ótimo ator, até porque isso é notório, mas sim para dizer que o Rei de Wakanda me salvou. Mas, o maior símbolo da minha virada como pessoa se foi, o meu Rei.

Porém, neste momento eu lembro de uma ordem. O Rei grita para seu povo e suas tropas, “YIBAMBE!” Que significa:

MANTENHA-SE FIRME!

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cinema

Entre Facas, Segredos e Ganância

Conheça as analogias sobre reparação histórica neste filme de mistério.

Fernanda Fernandes

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Melancólico e misterioso, o filme dirigido e roteirizado por Rian Johnson – conhecido por Star Wars: Os últimos Jedi – foi um dos indicados ao prêmio de Melhor Roteiro Original do Oscar 2020. “Entre Facas e Segredos” em um primeiro momento se trata de um filme de mistério acerca da família Thrombey. Ricos, problemáticos e cheio de segredos que podem ser mais perigosos do que imaginam. Um dos pontos mais interessantes do filme é como ele te entrega rapidamente o final da história sem retirar o fator surpresa do espectador.

A trama inicia quando Harlan Thrombey (Christopher Plummer), milionário e escritor de romances criminais, é encontrado morto em seu escritório por Fran (Edi Patterson), a governanta da grande e afastada mansão do personagem. No entanto, toda a família Thrombey havia sido reunida na casa para a comemoração do aniversário de 85 anos de Harlan, na noite anterior ao falecimento dele. Deste momento em diante, toda a família é interrogada pelo detetive tenente Elliot (Lakeith Stanfield) e o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), este contratado anonimamente. As suspeitas são de suicídio do personagem e uma reconstituição da noite anterior começa a ser feita. É neste momento que os personagens são apresentados.

Vale destacar que o longa-metragem conta com um elenco vasto e que entrega bem os personagens da trama. 

Harlan tem três filhos: Linda, Walter e Neil, o último faleceu alguns anos antes do pai. Linda (Jaime Lee Curtis) é casada com Richard Drysdale (Don Jonhson) e os dois são pais de Hugh Ramson (Chris Evans). Walter Thrombey (Michael Shannon) casou-se com Donna Thrombey (Riki Lindhome) e são pais de Jacob Thrombey (Jaeden Lieberher). Enquanto, Neil casou-se com Joni Thrombey (Toni Collette) e tiveram uma filha chamada Megan – ou Meg (Katherine Langford). Joni e Meg permaneceram próximas da família. Cada um deles depende de alguma forma da fortuna do Harlan, seja Linda e Richard por conta do investimento para que construíssem a empresa imobiliária que cuidam juntos. Walter comanda a editora dos livros do pai, a Blood Like Wine. Harlan pagava a faculdade da filha de Joni. Ransom tinha a vida bancada pelo dinheiro do Harlan.

Nos últimos anos, Harlan contratou Marta Cabrera (Ana de Armas) para ser cuidadora dele, o que acabou os tornando amigos também, já que ele era solitário. Ela também é interrogada pelos detetives Elliot e Blanc e o que mais traz um ar interessante a personagem é que ao mentir, a garota literalmente vomita. Ou seja, ela é praticamente obrigada a contar a verdade o que a torna interessante para Elliot e Blanc. Então, ela acaba revelando de alguma forma os segredos, já percebidos por Blanc durante os interrogatórios, da família Thrombey. Exceto Ransom, que não compareceu. Richard estava traindo Linda, Joni recebia o dobro do dinheiro para a faculdade da filha e vivia às custas de Harlan e Walter vivia discutindo com o pai para tornar vender os direitos dos livros para produção de filmes e séries. 

Conforme a noite da festa é reconstituída, nota-se que Harlan pretendia “cortar as asas”, nas palavras dele, de todos. Ele demitiria Walter, cortaria os pagamentos para Joni e Meg e contaria para Linda sobre a traição do esposo. Porém, ele não contaria a eles sobre a mudança em seu testamento de óbito, no qual deixaria tudo para Marta. Ransom estava lá naquela noite e na discussão com Harlan descobriu sobre o testamento, o que o enfureceu.

O mais interessante é que Marta será a primeira suspeita do crime, já que, antes de ir embora, ela acidentalmente trocou as medicações de Harlan e a dose de morfina dada a ele era fatal. Infelizmente, ela não encontra o antídoto e o velho a faz fugir dali, na intenção de salvar ela e a família – imigrantes ilegais –  da prisão e de serem deportados. 

No final, é descoberto o verdadeiro responsável pela tentativa de homicídio de Harlan e Marta não havia cometido crime algum. Ransom, em sua raiva e ganância, pega o antídoto da bolsa médica de Marta e troca o conteúdo dos frascos da medicação. Logo, quando Marta os troca novamente ela está dando as doses certas da medicação e Harlan não morreria, se não fosse o corte que ele mesmo faz na carótida para provar a tese de suicídio e livrar a jovem do julgamento. 

O ápice da trama só se apresenta quando a família Thrombey descobre que Harlan deixou tudo para Marta e tentam coagir a garota a renunciar a herança. Em diversos flashbacks da família Thrombey, surgem muitos comentários xenofóbicos e preconceituosos com a garota. Joni e Meg são as únicas que buscam entender melhor a realidade de Cabrera, embora, acabaram coagindo-a também. 

É possível sentir no ato de Harlan deixar a herança para Marta uma tentativa de reparação histórica e uma crítica a má distribuição de renda existente no mundo. Principalmente quando a maior parte dos xingamentos direcionados a ela pela família dele envolvem a nacionalidade da personagem. Dessa forma, a obra também satiriza a figura dos ricos com este comportamento bastante forçado e agressivo vindo deles de “não tirar o que sempre pertenceu a eles”. 

Historicamente falando, eles tiraram o que pertencia a ela anos atrás durante a colonização por exemplo. Há um paralelo aqui, com o filme Parasita do diretor Bong Joon-Ho, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2020, que é o comportamento parasitário que os personagens da família apresentam em relação ao Harlan Thrombey. Ainda mais quando se consideram livres e bem sucedidos por conta própria, o que não é real. A partir disso, há uma relação deste comportamento com o conceito de meritocracia por conta da crença de conseguir ser bem sucedido, mas não reparar que é por causa de diversos fatores conspirando para isso. 

A cena final traz um dos momentos mais marcantes da história, Marta na varanda da casa segurando a xícara de Harlan com a seguinte frase: Minha casa, minhas regras, meu café; com toda a família Thrombey a encarando do lado de fora. Trazendo uma retomada do que antes foi tirado dos ancestrais dela metaforicamente e que deve ser redistribuído.

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