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Livros

Histórias também são presentes: confira 15 opções de leitura para crianças

Livros de terror, ficção científica e aventura para crianças de 0 a 100 anos.

Mylla Martins de Lima

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O hábito de ler nunca esteve tão fora de moda como hoje, tanto entre os pequenos quanto adultos. Dentre inúmeras desculpas, os pais costumam reclamar da exaustão por um longo dia de trabalho e, por não aderir a leitura em seu dia a dia, não tendem transmiti-la às crianças, que só vão ter contato com ela quando chegam na escola – o que muitas vezes se prova experiência nada agradável.

A importância da relação entre criança e leitura desde a primeira fase está acima de qualquer “perda de tempo”. Além do desenvolvimento criativo, que dá oportunidade aos pequenos deixares suas casas um pouco e viajarem para outros países, mundos ou dimensões – sem sair do lugar –, a leitura também ajuda no enriquecimento do vocabulário, fazendo-os conhecer novas palavras. Além da questão léxica, os livros ajudam a promover autoconhecimento, aguçar a curiosidade e reforçar o vínculo familiar.

Pensando em trazer uma lista diferenciada, sem muito do costumeiro “felizes para sempre”, mas com muita aventura, comédia misturado a temas que, de fato, trazem uma bagagem cultural e didática às crianças, o Cabana destacou os 15 melhores livros infantis de faixa etária 0 à 100 anos.

1. A cor de Coraline

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Indicado em 2018 ao Prêmio Jabuti na categoria Livro Infantil e Juvenil, ele foi escrito e ilustrado por Alexandre Rampazo e publicado pela editora Rocco.

A história começa quando um amigo da escola de Coraline pede o lápis “cor de pele” emprestado. A partir disso, a curiosa menininha inicia uma reflexão sobre o que é uma cor da pele de fato, explorando a beleza da multiplicidade.

2. Hilda e o Troll

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A HQ faz parte da literatura fantástica e é um sucesso dentro e fora do Brasil. Escrito e ilustrado pelo cartunista Luke Pearson, que também já trabalhou em produções como Hora de Aventura, ele foi trazido pela editora Companhia das Letras, pelo selo Quadrinhos na Cia.

O quadrinho conta sobre as aventuras de Hilda, uma menininha muito corajosa que ama ajudar animais e criaturas moradoras das montanhas, lugar onde ela também vive solitária com sua mãe.

3. Série Deltora Quest

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Dividida em 3 arcos – 8 livros o primeiro, 3 o segundo e 4 o terceiro – e publicado por Emily Roda entre 2000 e 2004, a saga chegou ao Brasil em 2005 através da editora Fundamento.

Nesta série são narradas as aventuras de Lief, Barda e Jasmine para salvar o Reino de Deltora das garras do Senhor das Sombras. O livro é cheio de enigmas misteriosos, pegadinhas e jogos interativos, como quebra-cabeças e adivinhação.

4. O Yark

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Escrito por dois autores – Bertrand Santin e Laurent Gapaillard – este livro infantil foi publicado pela editora Zahar em 2015.

A obra é um misto de medo, alegria e tristeza. O Yark é um bicho papão de grande porte e dentes afiadíssimos que espera devorar uma criança fofa. Uma pena que não possa ser qualquer criança, as mal educadas dão gases no pobrezinho e, como são tempos difíceis e de crianças levadas, o bicho está quase morrendo de fome.

5. O BGA

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Ilustrado pelo tão famoso Quentin Blake e escrito pelo inesquecível Roald Dhal, o livro teve sua primeira publicação em 1982. Aqui no Brasil, foi impresso pela antiga Editora 34.

O livro tem Sophia como personagem principal, uma orfã que deveria estar dormindo como as outras crianças, mas como é curiosa, pula da cama para ver o que acontece na rua à noite. Dando de cara com o Bom Gigante Amigo, é sequestrada pelo mesmo e levada até a Terra dos Gigantes. Para quem não sabe, crianças inglesas são as mais apetitosas para os gigantes, portanto Sophia está correndo grande perigo.

6. O menino de vestido

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Mais uma vez Quentin Blake dá as caras com um trabalho excepcional, agora com David Walliams, um autor indispensável na sua estante. Atualmente o volume está sendo publicado pela editora Intrínseca.

O enredo gira em torno da péssima vida de Dennis, que não tem mãe e possui um pai e um irmão completamente distantes, sem previsão para mudanças. O que ainda lhe dava forças era o futebol, aliás, Dennis era o melhor jogador do time de sua escola. Mas além da atividade, o menino tinha uma outra paixão em segredo, ele era louco pelos vestidos que saíam na revista VOGUE. Um dia, Lisa, que sonhava em ser estilista, descobre esse segredinho e mostra ao menino e ao próprio leitor que jamais deve-se julgar as pessoas pela aparência, muito menos pelo que vestem.

7. A vida não me assusta

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Criado por Maya Angelou, Jean-Michel e Sara Jane Boyers, A vida não me assusta chegou ao Brasil em 2018 pela DarkSide Books.

Este livro de arte infantil encoraja crianças há 26 anos, por isso o resultado não poderia ser outro quando se leva em consideração a história da infância dos autores, que foi bastante problemática.

8. O triste fim do pequeno menino ostra e outras histórias

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Escrito e ilustrado pelo grande cineasta Tim Burton, o livro teve sua primeira publicação em 1997. Aqui no Brasil foi trazido pela editora Girafinha.

Com ilustrações trágicas e ao mesmo tempo divertidas, esta história possui um humo muito peculiar, que puxa um pouco o lado negro existente nos corações de seus fãs. Aqui fica um convite para olhar pela perspectiva “Tim Burton” das coisas.

9. Mortina

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Escrito e ilustrado por Barbara Cantini, esta obra de horror infantil foi publicada pela Companhia das Letrinhas.

Aqui tudo surge do desejo de uma zumbizinha de fazer amigos como qualquer criança. Até chegar o Halloween. A ocasião é perfeita para que ela tenha chance para brincar com as crianças da sua idade, pois durante a celebração a menina-zumbi não terá problemas algum quanto a sua aparência.

10. As bruxas

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De volta ao britânico de renome quando se trata de livros infantis. Roald Dhal, acompanhado por seu mais leal ilustrador, Quentin Blake, traz uma nova história que cativa e impressiona. O livro foi publicado no Brasil pela editora Martins Fontes.

As bruxas estão à solta, mas ninguém percebe. Esqueça toda aquela aparência de arrepiar, elas se camuflam. Essa história é sobre um menino que, de tanto entrar em conflito com elas, sabe diferenciar facilmente quem é quem não é bruxa.

11. Série Diários de Pilar

Foto: reprodução/Diários de Pilar

Escritos por Flávia Lins e Silva, que também é roteirista, a série toda foi publicada pela editora Zahar.

Pilar é uma menininha muito aventureira que está sempre viajando pelo mundo. Consigo está sempre seu diário, onde anota e mostra aos seus leitores a diversidade que é esse mundo grandão.

12. Série Os guardiões da infância

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O escritor e ilustrador desta série nada mais é que William Joyce, vencedor do Oscar em 2012 e que trabalhou em grandes produções como Toy Story e Vida de Inseto da Disney/Pixar. Ela foi impressa pelo selo Rocco pequenos leitores.

O autor pega personagens do folclore e imaginário infantil e transforma numa brilhante aventura para que nenhuma criança perca sua inocência. Dentre esses personagens são apresentados o Papai Noel, Fada dos Dentes, Coelho da Páscoa e muito mais.

13. O Dragão de Gelo

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Desde 1980 aquecendo corações dos seus leitores, George R. R. Martin é o autor desta linda história primeiramente publicada pela editora Leya, agora com direitos comprados pela Suma de Letras.

Uma criatura lendária e muito temida pelo povo daquela cidade tem um encontro emocionante com Adara, a menina que nasceu no inverno mais intenso de todos os tempos. Ambos formam uma dupla encantadora, mas os encontros precisam acontecer no mais alto sigilo.

14. Os piores pirralhos do mundo

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Mais uma vez trazemos de volta David Walliams com Quentin Blake para contar várias histórias muito engraçadas sobre as piores crianças do mundo numa edição com capa dura e totalmente colorida da editora Intrínseca.

Ao longo de 10 histórias divertidas e criativas, os autores criam um laço com os pequenos leitores que morrem de rir com o que cada pirralho apronta. É um livro para a família toda!

15. Sr. Bliss

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Este livro pertence ao brilhante Tolkien, mais conhecido pela série O Senhor dos Anéis. Aqui no Brasil, foi publicado pela Martins Fontes, com uma edição ilustrada pelo próprio autor, capa dura e com seus manuscritos em inglês. Agora os direitos de publicação pertencem a HaperCollins.

O desastrado Sr. Bliss, conhecido pelo seu engraçado chapéu enorme e seu animal de estimação, giracoelho, compra um carro e resolve visitar seus amigos. Sua primeira saída é marcada por grandes desastres pelo caminho.

Já escolheu qual desses dar de presente no dia das crianças?

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HQs

Resenha | Daytripper

Se morremos a cada dia, quando teremos tempo para viver?

Rodrigo Roddick

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O que você faria se não precisasse fazer o que está fazendo agora? Agora. Uma palavrinha pequena que muitos valorizam, mas poucos entendem seu valor ou sequer exercem-no. Daytripper vem contar como a “nossa vida inteira” é feita de vidas e mortes, de como cada momento vivido pode ser o último.

Dos premiados irmãos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá – que ficou mais evidente agora devido à série The Umbrella AcademyDaytripper foi publicada pela primeira vez em 2010 pela DC Comics através do selo Vertigo. Aqui no Brasil, a Panini é a responsável por imprimir as edições da DC. Logo no ano seguinte, a obra levou três importantes prêmios: o Eisner, na categoria Melhor série limitada; Harvey, em Melhor edição única; Eagle, em Novo comicbook favorito.

Daytripper percorre a vida Brás de Oliva Domingos, um escritor de obituários que sonhava em escrever um romance de sucesso. Todo o enredo tem como palco nosso maravilhoso país. O livro é separado em nove capítulos que recorta momentos distintos da vida de Brás intercalados fora de ordem cronológica e revelando suas diferentes idades. Ao final de cada capítulo, Brás morre de maneira diferente, e como nos desenhos animados, a história continua como se ele não tivesse morrido. 

Esta é a primeira coisa que chama atenção do leitor porque revela o tema da história. O dia a dia que nos mata. A discussão que a HQ propõe é fazer o leitor levar sua atenção ao que lhe faz viver de verdade. A vida não é esta rotina urbana que os adultos sustentam com afinco, a vida é muito mais e muito menos que isso. A vida é viver. Mas, dentre os milhares de significados que podemos dar à vida, viver é fazer aquilo que amamos. E quanto tempo perdemos para fazer o que a gente quer? Quanto tempo levamos para apenas descobrir o que a gente ama?

Viver o momento não é apenas uma questão de estar presente em um lugar. Isso você pode conseguir indo em um hospital. A diferença no viver está no optar por estar ali e querer gastar seu tempo naquele momento. E o mais interessante é que sequer damos importância para a palavra tempo quando estamos realmente vivendo. Porque viver é infinito em cada momento.

Além de relembrar com bastante propriedade aquilo que falta para preencher nosso vazio (viver?), Daytripper propõe uma maneira da pessoa estar no constante movimento da vida: sonhar. Não se engane. Mesmo analisando planilhas no décimo andar de uma torre empresarial ou deitado em uma rede ao sol brilhante de uma ilha, todos nós temos sonhos. Todos nós queremos realizar esses sonhos. Os sonhos são a nossa vida. São eles que realizamos (ou deveríamos) a cada batida do coração.

Impossível não construir um paralelo dessa dialética com Sandman, que trata das várias manifestações do sonho. Ambas as obras ressaltam que tentar realizar os sonhos, correr atrás deles e realizá-los é o que significa viver para seres como nós, que possui a capacidade de raciocinar.

O trabalho gráfico e as cores acompanham a linha de pensamento da história, pois os recortes de quadro a quadro focalizam expressões necessárias para apoiar o tema. O tom meio “desbotado” das cores faz o leitor perceber em quais momentos a vida de Brás era sem graça e em quais ela foi colorida

Os gêmeos souberam trabalhar em equipe, pois o desenho de Bá dava às palavras de Moon a densidade que elas evocavam. Assim como há quadros em que o holofote está nas palavras, também há outros em que Bá continua a narrativa sem dizer uma palavra sequer, apenas com seus traços.

Sonhar é viver. Viver é agora. Não há nada para nós no futuro, exceto a morte certa.

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Resenha

Resenha | Para Toda Eternidade

Vida é a dádiva da morte: assim vivemos o presente.

Rodrigo Roddick

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A Morte não é uma entidade. A morte não é assustadora. E, ainda, a morte jamais foi vilã ou contrária à humanidade. A morte é apenas um ponto crucial na transformação por qual toda forma de vida passa. Para Toda Eternidade vem mostrar ao público, através de culturas distintas sobre funerais, como esta palavra que assombra o ser humano em particular é, na verdade, um presente.

Publicado no Brasil pela Darskside Books, o livro Para Toda Eternidade compreende-se em várias viagens ao redor do globo sobre diferentes maneiras de conduzir um funeral adequado e respeitoso ao falecido. A autora Caitlin Doughty é também uma agente funerária e, através de seu canal no Youtube, fala sobre o tema morte com um incomum humor descontraído. O volume contém ilustrações de Landis Blair, que dá traços e contornos à imaginação do leitor.

É possível observar como Caitlin trata a morte com naturalidade nas primeiras linhas de seu livro. Gisele Adissi (que é presidente da Sincep e Assembra – Sindicato e Associação dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, além de cofundadora do projeto “Vamos falar sobre luto?”) ao prefaciá-lo, contribui para destacar o tom que a narrativa vai seguir até sua conclusão.

“Sonho com o dia que frases como ‘ah, esse foi o melhor funeral da minha vida’ serão corriqueiras” inicia Gisele.

A partir disso, a autora começa provocando o leitor com uma diferente cremação: a única pira comunitária nos Estados Unidos e no mundo ocidental. Trata-se de um costume praticado em Crestone, no Colorado, que convida os parentes e familiares a assistir à cremação do ente falecido ao ar livre no meio de um círculo formado por lenhas. 

A simplicidade do processo pode chocar o leitor, mas traz mais naturalidade ao funeral, além de dar mais tempo aos parentes para se despedir do ente querido. Revelando esta prática um tanto mais artesanal, Caitlin critica os processos industriais, como eles costumam cobrar valores exorbitantes por apenas algumas horas e como ainda colocam os familiares a metros de distância do falecido.

“Na minha função de agente funerária eu descobri que tanto limpar o corpo quanto passar tempo com ele exercem um papel poderoso no processamento da dor. Isso ajuda as pessoas a verem o cadáver não como um objeto amaldiçoado, mas como um belo receptáculo que já abrigou seu ente querido”

Do outro lado do globo, a autora aumenta a provocação. Em uma das ilhas da Indonésia, os nativos celebram a morte de outra maneira. Celebrar é a palavra, pois em vez de chorar pelo falecimento do parente, as pessoas mumificam seus mortos e após algum tempo eles o retiram do túmulo e o vestem com suas roupas

Ritual Ma’nene na Indonésia | Foto: reprodução/Darkside Books

Na cultura deles, quando a pessoa morre, ela não está morta de fato, apenas doente. A morte só vai ocorrer quando eles realizarem um ritual em que alguns animais são sacrificados, geralmente porcos. Só então, junto da morte do animal, a alma se desliga do corpo cadavérico e morre. Inclusive, levar um porco para o funeral é sinal de respeito à família.

Entre o desenterro e o funeral, os familiares levam o morto para casa ou o colocam em uma “casa-túmulo” e o tratam como se estivessem vivo. Eles trocam suas roupas, levam comida e até conversam com os falecidos, acreditando que isso é uma forma de se conectar aos seus espíritos. Todo esse tempo é compreendido como o ritual Ma’nene.

Para Toda Eternidade perpassa as câmaras funerárias modernas do Japão e visita as ñatitas na Bolívia. Desse modo, Caitlin Doughty vai desmistificando a personagem que apavora muitas pessoas no mundo ocidental. Além disso, ela explica através de sua experiência nessas viagens como os funerais em que o cadáver é aberto e seus órgãos são expostos para urubus comerem são mais naturais que colocá-lo em um caixão debaixo da terra, como geralmente fazemos por aqui.

A autora ainda conta como o festival de “O Dia dos Mortos” realmente surgiu no México. Este é um caso legítimo de como a vida imitou a arte, pois foi o filme 007 contra Spctre (2016) – em que o protagonista aparece em um festival no Días de Los Muertos – que incitou o governo da Cidade do México a criar a celebração por lá. O receio do governador era que as pessoas começassem a procurar por um cortejo que não existia.

Costurando Para Toda Eternidade com todo cuidado, Caitlin vai atando uma cultura na outra para mostrar ao público, principalmente ao ocidental, que nós devíamos seguir o exemplo de outros países e buscar um funeral mais humano e mais feliz. Afinal, quando uma pessoa sai da escuridão da morte para vida, ela é recebida com muita alegria e todo o conforto que um nascimento deve ter, mas na morte não fazemos igual. 

“As páginas deste livro são feitas da polpa de madeira de uma árvore derrubada no ápice de sua vida. Tudo que nos cerca vem da morte, todas as partes de todas as cidades, e todas as partes de todas as pessoas”

Hoje, em pleno dia de Finados, que também é um dos festejos mais importantes na extinta cultura celta, os espíritos dos mortos estão caminhando pela terra. É o momento para pensarmos se queremos que eles nos vejam tristes por sua partida ou felizes por estarem em um lugar melhor.

A verdade, intrínseca nas páginas de Para Toda Eternidade, é que a morte é uma dádiva para vida, pois tonifica a necessidade de viver o momento; é por isso que se chama presente.

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cinema

Mês do Horror | A Origem do Halloween

Como as fantasias, decorações, bailes, “gostosuras ou travessuras” e as abóboras surgiram?

Rodrigo Roddick

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Cuidado! Chegou o Halloween! E neste dia as almas dos mortos podem caminhar pelo mundo dos vivos! A festa como hoje é conhecida compreende em se fantasiar de criaturas sombrias e sair de porta em porta caçando doces – em países de colonização inglesa. Aqui no Brasil a tradição, chamada de Dia das Bruxas, não se estabeleceu dessa forma devido ao processo histórico que formou o país. 

A Celebração da Morte ganhou um contorno bastante lúdico nos dias de hoje, porém nasceu de diversas origens europeias. As mais conhecidas delas se remetem à cultura celta e aos costumes cristãos. O que o Halloween tem a ver com o cristianismo? Tudo. Na verdade, até mesmo o nome “halloween” se origina desta vertente.

Nesta matéria, o leitor vai conhecer essas duas origens, a relação do festejo com as bruxas, a origem do nome e das fantasias, até mesmo da expressão “gostosuras ou travessuras”

Halloween: o Dia das Bruxas?

A palavra Halloween é o resultado do processo por qual passou a expressão “All Hallows’ Eve”, que significa véspera do Dia de Todos os Santos. O termo compreende uma das datas programadas pela igreja católica do cortejo aos mortos que se encerra no Dia de Finados (2 de novembro). Ele passou pelas formas  “All Hallowed Eve” e “All Hallow Een”, antes de chegar ao nome que conhecemos hoje. Pela contração, a expressão utilizada para definir a véspera se transformou em “halloween”, aparecendo pela primeira vez em cerca de 1745.

O outro nome do Halloween é Dia das Bruxas, mas não tem muito a ver com bruxas. O mesmo preconceito difundido pelo olhar cristão sobre as tradições célticas – um dos povos que eles suprimiram – acerca do nome “bruxa” envolve a razão de chamar esta data dessa forma. Bruxa, de acordo com o cristianismo, era toda e qualquer mulher que se deitava com o diabo, e como a igreja – principalmente a protestante – demonizava tudo que não era cristão, passou a traduzir a data como Dia das Bruxas.

Origem Celta

Quando a Europa era dividida por povoados e não por fronteiras de países, os povos não tinham terras definidas e, por vezes, mudavam de território. Embora a cultura celta tenha percorrido grande parte do continente, eles foram sendo reduzidos e passaram a se concentrar nas ilhas do Reino Unido – o que já aponta como as tradições de Halloween foram parar nos Estados Unidos

Os celtas comemoravam a passagem do verão para o inverno com um festival chamado Samhain – que significa literalmente “fim do verão”, ou como os celtas gostavam de chamar “morte do verão”. Ele era celebrado entre 30 de outubro e o início de novembro, podendo ocorrer até o dia 5 ou 7, quando era comemorada a passagem de ano deles (os anos na época era marcados pela mudança cíclica). 

O Samhain também tinha o objetivo de cultuar os mortos e a deusa YuuByeol, que era o símbolo da perfeição celta. Em cada dia acontecia uma festa específica. A “festa dos mortos” era uma das mais importante porque celebrava a comunhão entre o céu e a terra. ⠀

Nas tradições celtas originais não existiam os conceitos de céu, terra e inferno; eles chegaram mediante às invasões romanas. Para os celtas, os mortos viviam em um lugar de felicidade perfeita, onde não havia sofrimento. Os druidas presidiam as festas como médiuns, realizando a comunicação entre os mortos e seus entes queridos. Inclusive, em tempos imemoriais – que formaram as civilizações no início dos tempos – a palavra “bruxa” significava “aquela que fala com espíritos”, tal como os médiuns. 

Na cultura celta acreditava-se que no Halloween os mortos podiam caminhar pela terra, voltar aos seus lares antigos, visitar parentes e guiar os que morreram recentemente ao lugar perfeito onde “vivem”.

Por isso, muitas pessoas deixavam espaços em suas mesas para serem ocupadas pela alma dos familiares que morreram. Justamente por eles acreditarem em um além-morte de perfeição, o Samhain não tinha uma conotação sombria. Isso só aconteceu com o choque de culturas devido aos romanos invadirem as terras célticas e introduzirem o cristianismo.

Origem Cristã

Apesar do encontro entre as duas culturas, o catolicismo, desde o século IV, tinha seu próprio dia para celebrar “Todos os Mártires” da igreja. Uma data dedicada a comemorar e lembrar das pessoas que tiveram a vida transformadas pela fé, mas ela até então não era celebrada no dia 31 de outubro, e sim no dia 13 de maio.  

31 de outubro foi estabelecido como principal data do Halloween devido às atividades de três importantes papas. 

Primeiro, o papa Bonifácio IV assumiu um dos templos em honra a todos os deuses pagãos e o transformou, dedicando a “Todos os Santos” da igreja católica e escolhendo o 1º de novembro para homenagear à capela. 

Posteriormente, o papa Gregório III conciliou a comemoração de Todos os Mártires (13 de maio) com a homenagem da Capela de Todos os Santos (1 de novembro), fechando esta última como data oficial. Contudo a comemoração ainda era algo isolado naquela região. Somente em 840, o papa Gregório IV ordenou que a data fosse comemorada universalmente. Mas o que tudo isso tema ver com dia 31 de outubro do Halloween?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Como o Dia de Todos os Santos era uma data muito importante para a igreja, o cortejo ganhou mais duas festas – uma de véspera e outra posterior – e ficou organizada da seguinte forma:

  • 31 de outubroAllhallowtide, a Noite de Todos os Santos; nesta noite de véspera, os fiéis rezavam por todos os mortos, sem distinção. (Nota: All Hallow’s Eve = Halloween; pelo sincretismo religioso, algumas tradições celtas foram mantidas). 
  • 1 de novembroHallowtide, Dia de Todos os Santos; este era dedicado apenas aos santos da igreja católica.
  • 2 de novembroAllsaintstide, Dia de Todas as Almas; já este era dedicado a todos os cristãos fiéis e parentes convertidos na hora da morte.

Com a invasão romana nas ilhas da Grã-Bretanha, as tradições católicas e célticas de celebração dos mortos se misturaram. Como os celtas transmitiam sua cultura oralmente, ela passou a ser esquecida e modificada pela igreja. Muito do que se conhece hoje sobre o Halloween, inclusive, sobreviveu graças à absorção da cultura celta pela cristã, que desenvolveu o costume de documentar tudo o que aprendia.

O Halloween no século XXI

Como nasceu o costume de usar fantasias sombras, decorar a casa e sair por aí recolhendo doces gritando “gostosuras ou travessuras”? Tudo isso foi se estabelecendo como celebração do Halloween através do passar dos anos devido às comemorações particulares de cada povo.

Por exemplo, de acordo com a origem celta, o véu entre os dois mundos estava frágil, por isso os mortos podiam caminhar no mundo dos vivos na época do Halloween – os católicos também acreditavam nisso – entretanto os cristãos achavam que não apenas os bons espíritos caminhariam pela terra (os protestantes os encaravam como demônios) então, para assustá-los e impedir que um espírito reconhecesse um vivo, costumava-se usar máscaras ou pintar o rosto, ocultando assim sua identidade. 

De acordo com os celtas, os espíritos quando reconheciam seus familiares ficavam acompanhando-os e não queriam voltar para o mundo perfeito da morte.

Outro fator que contribuiu para o imaginário acerca do Halloween foi a peste negra (XIV e XV). Ela matou metade da população europeia, criando nos católicos um grande temor da morte e consequentemente o aumento dos cultos religiosos. Estes eram seguidos por encenações e danças com pessoas fantasiadas, inclusive da personagem Morte, a quem todos um dia chegaria. Alguns fiéis, na data, enfeitavam cemitérios com diabos puxando uma série de criaturas para o inferno; papas, reis, padres, leprosos, damas, camponeses etc.

Possivelmente, a evolução destes costumes originou os bailes de máscaras, a tendência de se fantasiar e decorar as casas. Mas e quanto aos doces?

Na idade média, o dia de finados era conhecido como o Souling (“soul” = “alma”). As crianças iam às casas alheias pedindo um “bolo das almas” em troca de uma oração pela alma dos parentes mortos da pessoa. A tradição se manteve durante a idade moderna, quando a expressão “trick or treat” (“gostosuras ou travessuras”) surgiu. Ela teve origem na Inglaterra entre 1500 e 1700 em meio ao protestantismo e teve um marco icônico retratado pela DC Comics nas novelas gráficas “V de Vingança”: o 5 de novembro de Guy Fawkes.

A Gunpowder Plot (Conspiração da Pólvora) era o plano de Guy para explodir o Parlamento inglês e matar o rei protestante Jorge I, restituindo a glória dos católicos oprimidos. Mas o plano foi descoberto no dia 5 de novembro de 1605, quando encontraram pólvora na casa de Guy Fawkes, culminando em seu enforcamento logo em seguida. 

Devido ao seu heroísmo – como é considerado pelos católicos – a data de sua morte passou a ser celebrada e existe até hoje, mas muitos protestantes a usavam na época para visitar a casa de católicos e exigir cerveja e pastéis sob a alegação de provocar travessuras; assim nasceu o “trick or treat”. Quando os ingleses chegaram na América do Norte, eles levaram a celebração de Guy Fawkes, mas como os irlandeses já tinha introduzido o Dia de Todos os Santos, os colonos conciliaram a data – já que era próxima – com o Halloween, incorporando a expressão “gostosuras ou travessuras” à festa.

Abóbora: o Símbolo do Halloween

O adereço conhecido como Jack’s Lantern, que é uma abóbora caricata com interior iluminado por uma vela, surgiu da lenda de Jack O’ Lantern (Lanterna de Jack), por isso o nome Jack.

A lenda também fazia parte dos festejos de Samhain na Irlanda – provavelmente pós sincretismo com o cristianismo – e versava sobre Jack, um alcoólatra que em seus porres cruzava com o Diabo, geralmente no dia 31 de outubro, que vinha recolher sua alma ao inferno. Mas Jack era esperto e sempre enganava o Diabo e voltava a viver por mais tempo. 

A princípio ele tentava levar uma vida correta para ir ao Céu quando morresse, mas sua determinação falhava e ele voltava a ser o incorrigível cachaceiro e espertalhão. Por isso sua alma foi recusada no Céu. Como estava morto, seu único caminho era o inferno, mas o Diabo, sentindo-se muito humilhado por suas peripécias, o expulsou de lá, porém lhe presenteou com uma brasa capaz de iluminar o limbo, o caminho para fora do inferno. Para que o fogo durasse mais tempo, o Diabo aprisionou a brasa em uma raiz. 

Portanto em todo dia 31 de outubro, Jack O’ Lantern passeia entre mundos guiando as almas perdidas com sua lanterna. 

Na Irlanda, o costume era usar nabos e beterrabas (que são raízes) com uma luz dentro. Mas com a chegada dos imigrantes na América, eles perceberam que havia muito mais abóboras lá que as raízes tradicionalmente utilizadas, então passaram a usá-las, construindo assim o símbolo do Halloween.

Essas tradições foram difundidas pelo mundo com a colonização e a descoberta das Américas, resultando em uma festa multicultural atendendo pelo nome popular Halloween, ou como é conhecido no Brasil, Dia das Bruxas.

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