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Livros

Histórias também são presentes: confira 15 opções de leitura para crianças

Livros de terror, ficção científica e aventura para crianças de 0 a 100 anos.

Mylla Martins de Lima

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O hábito de ler nunca esteve tão fora de moda como hoje, tanto entre os pequenos quanto adultos. Dentre inúmeras desculpas, os pais costumam reclamar da exaustão por um longo dia de trabalho e, por não aderir a leitura em seu dia a dia, não tendem transmiti-la às crianças, que só vão ter contato com ela quando chegam na escola – o que muitas vezes se prova experiência nada agradável.

A importância da relação entre criança e leitura desde a primeira fase está acima de qualquer “perda de tempo”. Além do desenvolvimento criativo, que dá oportunidade aos pequenos deixares suas casas um pouco e viajarem para outros países, mundos ou dimensões – sem sair do lugar –, a leitura também ajuda no enriquecimento do vocabulário, fazendo-os conhecer novas palavras. Além da questão léxica, os livros ajudam a promover autoconhecimento, aguçar a curiosidade e reforçar o vínculo familiar.

Pensando em trazer uma lista diferenciada, sem muito do costumeiro “felizes para sempre”, mas com muita aventura, comédia misturado a temas que, de fato, trazem uma bagagem cultural e didática às crianças, o Cabana destacou os 15 melhores livros infantis de faixa etária 0 à 100 anos.

1. A cor de Coraline

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Indicado em 2018 ao Prêmio Jabuti na categoria Livro Infantil e Juvenil, ele foi escrito e ilustrado por Alexandre Rampazo e publicado pela editora Rocco.

A história começa quando um amigo da escola de Coraline pede o lápis “cor de pele” emprestado. A partir disso, a curiosa menininha inicia uma reflexão sobre o que é uma cor da pele de fato, explorando a beleza da multiplicidade.

2. Hilda e o Troll

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A HQ faz parte da literatura fantástica e é um sucesso dentro e fora do Brasil. Escrito e ilustrado pelo cartunista Luke Pearson, que também já trabalhou em produções como Hora de Aventura, ele foi trazido pela editora Companhia das Letras, pelo selo Quadrinhos na Cia.

O quadrinho conta sobre as aventuras de Hilda, uma menininha muito corajosa que ama ajudar animais e criaturas moradoras das montanhas, lugar onde ela também vive solitária com sua mãe.

3. Série Deltora Quest

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Dividida em 3 arcos – 8 livros o primeiro, 3 o segundo e 4 o terceiro – e publicado por Emily Roda entre 2000 e 2004, a saga chegou ao Brasil em 2005 através da editora Fundamento.

Nesta série são narradas as aventuras de Lief, Barda e Jasmine para salvar o Reino de Deltora das garras do Senhor das Sombras. O livro é cheio de enigmas misteriosos, pegadinhas e jogos interativos, como quebra-cabeças e adivinhação.

4. O Yark

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Escrito por dois autores – Bertrand Santin e Laurent Gapaillard – este livro infantil foi publicado pela editora Zahar em 2015.

A obra é um misto de medo, alegria e tristeza. O Yark é um bicho papão de grande porte e dentes afiadíssimos que espera devorar uma criança fofa. Uma pena que não possa ser qualquer criança, as mal educadas dão gases no pobrezinho e, como são tempos difíceis e de crianças levadas, o bicho está quase morrendo de fome.

5. O BGA

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Ilustrado pelo tão famoso Quentin Blake e escrito pelo inesquecível Roald Dhal, o livro teve sua primeira publicação em 1982. Aqui no Brasil, foi impresso pela antiga Editora 34.

O livro tem Sophia como personagem principal, uma orfã que deveria estar dormindo como as outras crianças, mas como é curiosa, pula da cama para ver o que acontece na rua à noite. Dando de cara com o Bom Gigante Amigo, é sequestrada pelo mesmo e levada até a Terra dos Gigantes. Para quem não sabe, crianças inglesas são as mais apetitosas para os gigantes, portanto Sophia está correndo grande perigo.

6. O menino de vestido

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Mais uma vez Quentin Blake dá as caras com um trabalho excepcional, agora com David Walliams, um autor indispensável na sua estante. Atualmente o volume está sendo publicado pela editora Intrínseca.

O enredo gira em torno da péssima vida de Dennis, que não tem mãe e possui um pai e um irmão completamente distantes, sem previsão para mudanças. O que ainda lhe dava forças era o futebol, aliás, Dennis era o melhor jogador do time de sua escola. Mas além da atividade, o menino tinha uma outra paixão em segredo, ele era louco pelos vestidos que saíam na revista VOGUE. Um dia, Lisa, que sonhava em ser estilista, descobre esse segredinho e mostra ao menino e ao próprio leitor que jamais deve-se julgar as pessoas pela aparência, muito menos pelo que vestem.

7. A vida não me assusta

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Criado por Maya Angelou, Jean-Michel e Sara Jane Boyers, A vida não me assusta chegou ao Brasil em 2018 pela DarkSide Books.

Este livro de arte infantil encoraja crianças há 26 anos, por isso o resultado não poderia ser outro quando se leva em consideração a história da infância dos autores, que foi bastante problemática.

8. O triste fim do pequeno menino ostra e outras histórias

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Escrito e ilustrado pelo grande cineasta Tim Burton, o livro teve sua primeira publicação em 1997. Aqui no Brasil foi trazido pela editora Girafinha.

Com ilustrações trágicas e ao mesmo tempo divertidas, esta história possui um humo muito peculiar, que puxa um pouco o lado negro existente nos corações de seus fãs. Aqui fica um convite para olhar pela perspectiva “Tim Burton” das coisas.

9. Mortina

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Escrito e ilustrado por Barbara Cantini, esta obra de horror infantil foi publicada pela Companhia das Letrinhas.

Aqui tudo surge do desejo de uma zumbizinha de fazer amigos como qualquer criança. Até chegar o Halloween. A ocasião é perfeita para que ela tenha chance para brincar com as crianças da sua idade, pois durante a celebração a menina-zumbi não terá problemas algum quanto a sua aparência.

10. As bruxas

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De volta ao britânico de renome quando se trata de livros infantis. Roald Dhal, acompanhado por seu mais leal ilustrador, Quentin Blake, traz uma nova história que cativa e impressiona. O livro foi publicado no Brasil pela editora Martins Fontes.

As bruxas estão à solta, mas ninguém percebe. Esqueça toda aquela aparência de arrepiar, elas se camuflam. Essa história é sobre um menino que, de tanto entrar em conflito com elas, sabe diferenciar facilmente quem é quem não é bruxa.

11. Série Diários de Pilar

Foto: reprodução/Diários de Pilar

Escritos por Flávia Lins e Silva, que também é roteirista, a série toda foi publicada pela editora Zahar.

Pilar é uma menininha muito aventureira que está sempre viajando pelo mundo. Consigo está sempre seu diário, onde anota e mostra aos seus leitores a diversidade que é esse mundo grandão.

12. Série Os guardiões da infância

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O escritor e ilustrador desta série nada mais é que William Joyce, vencedor do Oscar em 2012 e que trabalhou em grandes produções como Toy Story e Vida de Inseto da Disney/Pixar. Ela foi impressa pelo selo Rocco pequenos leitores.

O autor pega personagens do folclore e imaginário infantil e transforma numa brilhante aventura para que nenhuma criança perca sua inocência. Dentre esses personagens são apresentados o Papai Noel, Fada dos Dentes, Coelho da Páscoa e muito mais.

13. O Dragão de Gelo

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Desde 1980 aquecendo corações dos seus leitores, George R. R. Martin é o autor desta linda história primeiramente publicada pela editora Leya, agora com direitos comprados pela Suma de Letras.

Uma criatura lendária e muito temida pelo povo daquela cidade tem um encontro emocionante com Adara, a menina que nasceu no inverno mais intenso de todos os tempos. Ambos formam uma dupla encantadora, mas os encontros precisam acontecer no mais alto sigilo.

14. Os piores pirralhos do mundo

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Mais uma vez trazemos de volta David Walliams com Quentin Blake para contar várias histórias muito engraçadas sobre as piores crianças do mundo numa edição com capa dura e totalmente colorida da editora Intrínseca.

Ao longo de 10 histórias divertidas e criativas, os autores criam um laço com os pequenos leitores que morrem de rir com o que cada pirralho apronta. É um livro para a família toda!

15. Sr. Bliss

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Este livro pertence ao brilhante Tolkien, mais conhecido pela série O Senhor dos Anéis. Aqui no Brasil, foi publicado pela Martins Fontes, com uma edição ilustrada pelo próprio autor, capa dura e com seus manuscritos em inglês. Agora os direitos de publicação pertencem a HaperCollins.

O desastrado Sr. Bliss, conhecido pelo seu engraçado chapéu enorme e seu animal de estimação, giracoelho, compra um carro e resolve visitar seus amigos. Sua primeira saída é marcada por grandes desastres pelo caminho.

Já escolheu qual desses dar de presente no dia das crianças?

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Darkside Books lança Prêmio Machado durante quarentena

Editora vai distribuir R$ 100 mil em prêmios aos vencedores.

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A editora Darkside Books divulgou o 1º Prêmio Machado Darkside de Literatura, Quadrinhos e Outras narrativas nesta quarta-feira (8) em seu próprio site. O intuito do prêmio é reconhecer o esforço dos escritores, dos pensadores e dos criadores de conteúdo que estão trabalhando em plena pandemia do Covid-19.

“Mesmo no silêncio e no distanciamento desta quarentena, estamos juntos, prontos para ouvir e sonhar com cada mente que busca o conhecimento, o novo olhar e a transformação“, explicou a editora.

O prêmio vai selecionar textos, quadrinhos e até projetos em desenvolvimento, contanto que sejam histórias originais e inéditas. As categorias são Romance/Contos, Quadrinhos, Não Ficção, Outras narrativas e Desenvolvimento de projeto.

O vencedor de cada categoria será contemplado com um contrato de edição de R$ 20.000, totalizando R$ 100 mil.

A inscrição deverá ser feita através do site da editora a contar da data de hoje até à meia-noite do dia 29 de setembro. O resultado será divulgado no dia 13 de novembro de 2020.

Para mais detalhes acesse o site oficial da editora.

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Livros

Coraline

Um ensaio sobre a morte? Uma fábula sobre a pré-concepção de mundo? Ou uma história que ensina crianças sobre o perigo da tentação? A obra de Gaiman pode ser tudo isso.

Rodrigo Roddick

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O outro mundo, o outro lado, submundo, além… Quantos nomes inventamos para intitular o lugar mítico de onde ninguém voltou? Quantas perguntas nos fazemos sobre o que vem após a morte? Quantas vezes fantasiamos sobre ela? Coraline é uma fábula que não apenas levanta essas questões, como também propõe uma resposta: o outro mundo pode ser um espelho do nosso mundo.

Coraline é um livro escrito pelo autor multipremiado Neil Gaiman e publicado originalmente em 2002. No ano seguinte a editora Rocco trouxe uma edição deslumbrante para o Brasil com desenhos de Dave Mckean. Mas no mês passado a bola passou para a editora Intrínseca, que conseguiu se superar e trazer uma belíssima edição em capa dura com desenhos de Chris Riddell, ilustrador que já trabalhou em mais dois livros de Gaiman: O Livro do Cemitério e A Bela e A Adormecida.

O romance de Gaiman conquistou dois importantes grandes prêmios, o Hugo (2003) e o Nebula (2004). Mas o autor já está muito a acostumado a ser premiado, pois já escreveu obras inesquecíveis como Deuses Americanos, Os Filhos de Anansi, Lugar Nenhum, O Oceano no Fim do Caminho, O Livro do Cemitério, Orquídea Negra, Os Livros da Magia e, seu trabalho mais sublime e notoriamente artístico, Sandman.

O livro ganhou uma adaptação para o cinema em 2009 chamado de Coraline e o Mundo Secreto, que foi bem recebido pela mídia e pelos cinéfilos. Ele também foi adaptado para um grafic novel em 2002 com os traços do ilustrador Craig Russell, impresso no Brasil como a primeira HQ da Rocco.

Coraline é o nome da protagonista da história que tem uma necessidade intrínseca de explorar os ambientes, ou seja, é uma aventureira. Quando ela se muda para sua nova casa, descobre uma porta trancada que dá para um corredor misterioso que a conduz para uma casa exatamente igual à sua. A única diferença era que tudo ali era perfeito! Contudo havia algo estranho: todas as pessoas tinham botões negros no lugar dos olhos.

“Então a mulher se virou. Seu olhos pareciam grandes botões pretos”

A primeira experiência positiva do leitor, antes de começar a ler a história, é com a edição. A Intrínseca presenteou os fãs de Gaiman com um livro muito bonito e bem finalizado. Coraline vem com uma capa muito bem desenhada, com fitilho, com as extremidades das páginas pintadas em roxo, com ilustrações e com uma perfeita diagramação. O livro não deixa nada a desejar no quesito editorial. E com a história não é diferente.

Apesar de evocar um sentido sobre o além, o romance propicia múltiplas interpretações. Durante essa resenha trataremos sobre quatro, que serão a rasa, a profunda, a metafórica e a subliminar.

Interpretação Rasa – Premissa

A premissa de Coraline expõe um ensinamento punitivo sobre o perigo da curiosidade. A protagonista concentra três características que geralmente estão presentes em várias crianças; são elas a coragem, a inquietude e a curiosidade. Ela é uma pessoa aventureira que não consegue ficar parada e precisa descobrir novos lugares, novas pessoas ou novas histórias para se entreter, como muitas crianças. Porém essa conduta pode levá-la a lugares perigosos.

“Ser corajoso significa estar com medo, muito medo, mas mesmo assim fazer o que é certo”

Ao sair por aí se aventurando, os pequenos podem se perder, conhecer pessoas mal intencionadas, se machucar ou até mesmo sofrer um acidente fatal. Tal como na vida real, Coraline se depara com o perigo ao encontrar uma outra mãe esquisita que quer convencê-la a ficar ali para sempre, ou seja, sequestrá-la.

Nesse sentido, o romance se transforma em um alerta ao pais para que eles fiquem sempre conscientes de onde seus filhos estão.

Interpretação Profunda – Mundo pré-construído

Também em relação à premissa da história, Gaiman escreveu uma situação fabular que abarca todos os seres humanos. Seguindo essa ideia, Coraline representa a mentalidade infantil humana ante a descoberta e exploração da vida. Todos nós temos uma curiosidade de conhecer o mundo e seus múltiplos caminhos. Quando a protagonista entra em uma nova casa, o evento pode ser entendido como o ser humano adentrando o novo mundo, chegando à vida.

Entretanto este mundo já existia antes de nascermos, e essa verdade é lembrada quando Coraline encontra o mundo secreto. À primeira vista, ele é perfeito, contendo tudo daquilo que ela mais gosta, ou seja, é convidativo. O fato dela explorar seu novo mundo perfeito representa o crescimento de uma pessoa, quando ela vai sendo paparicada pelo mundo, convidando-a a fazer parte dele.

“É assombroso que aquilo de que somos feitos esteja tão ligado à cama que acordamos pela manhã, e o mais assustador é a fragilidade disso”

O encanto é tão sedutor que as pessoas, tal como Coraline, quase não percebem que terão que pagar um alto preço por tudo aquilo. Para nós, o preço é nos inserirmos no sistema, e isso é simbolizado nos botões em vez de olhos. O custo para entrarmos neste mundo pré-concebido que é empurrado a nós é ficarmos cegos para o que realmente queremos, só enxergar aquilo que faz o mundo girar.

Vocês, pessoas, têm nomes. É porque vocês não sabem quem são”

No momento que Coraline tivesse os botões costurados nos olhos, a Outra Mãe seria sua deusa e manipularia todos os seus passos. O mesmo acontece conosco quando decidimos abandonar nossa visão verdadeira para pertencer ao mundo, passamos a ser controlados por um mundo que estava aqui antes de nascermos; um mundo que coíbe e impede a criação da nossa própria realidade.

“Ela vai roubar sua vida e tudo de que é feita. Vai roubar tudo que é importante para você, para que só reste névoa e vapor. Ela vai levar sua alegria. Um dia, você vai acordar sem alma e sem coração. Você será apenas casca, trapo, um sonho, a memória de algo que se perdeu”

A ideia de um universo pré-construído fica bastante clara quando a Outra Mãe começa a desfazer o mundo secreto de Coraline, revelando o pano de fundo branco onde nada existe; uma tela em branco para nós pintarmos a vida que quisermos.

Interpretação Metafórica – Limiar

Outra interpretação que se pode ter lendo Coraline se relaciona com o limiar. Gaiman parece ser uma pessoa muito interessada neste assunto, pois tanto em Sandman quanto em Stardust – O Mistério da Estrela, Coraline também apresenta questões sobre uma barreira mítica que evidencia o contraste das coisas.

O limiar de Coraline é o portal que conecta os dois mundos, o real e o secreto. Ele permite que o leitor desenvolva questões sobre o que estes dois universos representam. Como a história se concentra no ensinamento de limites para as crianças, o limiar tem o papel de evidenciar que o cenário é a mente humana, concentrado precisamente no embate entre os desejos infantis e as regras.

O mundo real de Coraline simboliza o mundo de regras, onde ela tem que aprender a se comportar como uma cidadã. Este mesmo lugar restringe e implica com a personalidade dela que quer o tempo todo explorar os ambientes desconhecidos.

Já o secreto seria o lugar fantasioso imaginado pela criança, onde ela poderia fazer e ter tudo o que seus pais nãos deixam ou não lhe dão.

“Você não entende, não é? — disse ela — Eu não quero ter tudo. Ninguém quer. Não necessariamente. Que graça existira em ter tudo o que eu sempre quis? Assim, do nada, não teria o menor sentido. E depois?”

De acordo com esse pensamento, a história ensina como é perigoso viver no universo fantástico em que todos os seus desejos se realizam: a pessoa pode virar escravo dele para sempre, o que representa a perda da identidade.

Interpretação Subliminar – Morte

Enfim chegamos à questão do além. Assim como as interpretações acima, o romance de Neil Gaiman pode ser encarado como uma tentativa de compreender o que vem após a morte. Logo de cara, o leitor é contemplado com a ideia de um mundo secreto, uma outra casa onde estão outros pais… Essa construção faz clara referência ao universo desconhecido por todos os seres humanos que ironicamente é o lugar para onde todos irão. Lá, conjectura-se, que as pessoas poderão rever seus parentes, mas eles serão diferentes de como os conhecia em vida.

“Não há nada além daqui. Tudo que ela fez foi a casa, os pisos e as pessoas da casa. Ela fez e aguardou”

Dois símbolos fazem alusão clara à morte. O primeiro são os botões negros. O leitor vai perceber que os botões são o que prendem as pessoas naquele universo, são como elas conseguem enxergá-lo, assim como também são o ponto que as conquista. Ou seja, os botões representam o momento da morte e a permanência do morto no além. Todavia o que torna essa ideia mais evidente é a referência ao costume grego de colocar dois dracmas (moeda grega) sobre os olhos do morto, para que ele consiga pagar o Caronte (barqueiro) no além e chegar até seu destino final.

“Os nomes são as primeiras coisas a desaparecer depois que a respiração cessa e o coração para de bater. Nossa memória dura mais que nossa nome”

A Outra Mãe

O outro símbolo é a Outra Mãe representando a própria Morte, como uma figura antropomórfica. É possível perceber que esta personagem é responsável por vigiar, construir e comandar o universo secreto descoberto por Coraline. Ela é quem costura os botões nos olhos, captura as pessoas (os três anjinhos são um exemplo) e as mantêm em seu mundo para sempre. Entretanto o que emancipa essa figura como a Morte é o fato dela precisar consumir novas vítimas para viver, o que é uma maneira subliminar de dizer que a Morte não existe sem os mortais.

“Ela roubou nossos corações e nossas almas, acabou com nossas vidas e então nos jogou aqui. Ela nos esqueceu na escuridão”

Quanta coisa um livrinho para criança pode dizer! A partir dessas quatro intepretações é possível perceber que Neil Gaiman não é apenas um autor que escreve histórias, mas sim um artista que presenteia o mundo com suas maravilhosas obras de arte.

Coraline pode até ser infantojuvenil, mas vai explodir a mente de muito adulto.

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Resenha

Resenha | Mistborn – O Império Final

Primeiro livro da saga evoca críticas contra o sistema ditatorial e o escravismo.

Rodrigo Roddick

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A escravidão é um tema muito recorrente dentro da fantasia porque sempre suscita questões acerca dos sistemas ditatoriais. Mistborn é uma série que leva a questão para o mundo da magia: se o que faz pessoas escravizarem outras é o poder, em um mundo fantástico, quem possui magia é ditador? O Império Final vem levantar essa e outras discussões.

Mistborn – O Império Final é o primeiro livro da série dividida em duas eras, sendo este volume correspondente a primeira. Ele foi escrito por Brandon Sanderson e lançado no Brasil pela editora LeYa em 2014. Sanderson ainda escreveu o livro Elantris pela mesma editora, a série Coração de Aço pela Aleph e o livro Skyward pela Planeta.

Infelizmente, a LeYa comunicou na semana passada que os livros do autor deixarão a casa devido à baixa vendagem nos últimos anos.

O Império Final não é apenas o começo de uma série, ele narra uma história em padrão teleológico (início, meio e fim). Neste primeiro volume, Kelsier, um homem nascido das brumas (quem possui habilidades mágicas relacionadas à queima de metais), encontra outra pessoa com esta mesma característica. Ensinando-a a usar seus poderes ao mesmo tempo que reúne aliados para sua causa, Kelsier dá início ao seu plano de derrotar o Senhor Soberano, o ditador daquela terra.

À primeira vista, o epílogo já dá a premissa que abarca a narrativa inteira. O leitor é apresentado a Kelsier, um atrevido ladrão que derrota um dos senhores de terra que faz parte do sistema ditatorial governado pelo Senhor Soberano. Já no início, Sanderson faz uma crítica ao comportamento dos marginalizados, que sempre estão receosos, afugentados, conformados ou até mesmo apáticos com a realidade que vivem.

“Não tinham queixa. Não tinham esperança. Mal ousavam pensar. Era assim que deviam ser, pois eram skaa. Eram…”

Kelsier livra os cidadãos do domínio desse senhor na tentativa de fazê-los se mexerem e buscarem a própria liberdade. Essa motivação do protagonista já indica sua meta de libertar as pessoas da escravidão, porém com a participação delas.

O autor brilhantemente imprime essa crítica para mostrar com clareza que nenhuma mudança real virá se não for pelas mãos dos oprimidos. Apesar do Senhor Soberano deter um poder mágico, Kelsier mostra que ele não é invencível e, como qualquer um, depende de recursos para manter seu império. É assim que ele vai desmistificando os medos do povo, lembrando-os que são eles o verdadeiro poder do imperador.

“Quando se lê, pode-se aprender muito, sabe?”

A ideia da escravidão está até na própria palavra “skaa”, que define os oprimidos. Ela sugere um sentido fonético para a palavra em português “escravo”. Não se pode afirmar com certeza se Sanderson pensou nisso, pois a palavra para escravo em inglês é “slave”. Entretanto pode ser que ele tenha desenvolvido essa ideia, afinal J. K. Rowling foi uma autora que fez muitos trocadilhos com verbetes em português em Harry Potter.

A reunião de vários setores, incluindo pessoas que também são como Kelsier, revela o pensamento político por trás da luta contra a ditadura. O protagonista não apenas pensa em derrotar o sistema, mas envolve a crise das classes sociais em seu esquema para garantir uma determinação coletiva que enfrente quaisquer tentativas de surgimento de um novo ditador.

“Manipulação está no âmago das nossas interações sociais”

Kelsier

O personagem Senhor Soberano é outro detalhe muito acertado em Mistborn. Durante a narrativa, alguns capítulos trazem as impressões dele antes dele se transformar no ditador temido que governa o império. Essa situação cria uma dúvida no leitor a respeito da transição de caráter dele; dúvida que é respondida brilhantemente pela trama. O autor relembra ao leitor que, em muitas vezes, a aparência de um governante ao público nem sempre corresponde à sua identidade real. Essa reflexão se aplica facilmente aos políticos.

“Até mesmo a blasfêmia o honra. Quando amaldiçoa usando o nome dessa criatura, você o reconhece como seu deus”

Outro ponto interessante do livro é um olhar mais delicado sobre as religiões. Ao criar os feruquemistas — pessoas que conseguem armazenar força, juventude e conhecimento em adereços metálicos — Sanderson faz um desfile de religiões de seu próprio universo. No meio dessas dissertações, ele imprime outra crítica sobre a ditadura, desta vez, mental. Assim o autor revela que quando uma religião é imposta a outra pessoa, ela está sendo escravizada mentalmente por quem a impôs. O mais justo é deixá-la escolher aquela que melhor lhe convier, que lhe faça sentido.

“A crença certa é como uma boa capa, penso eu. Se lhe servir bem, a manterá aquecida e segura. Se lhe cair mal, no entanto, pode sufocar”

A despeito das críticas e pensamentos sociais que o livro traz, Brandon Sanderson também foi um hábil escultor de histórias, no sentido do entretenimento mesmo, quando inventou um novo método de execução de magias.

Em Mistborn, as pessoas que possuem essas habilidades conseguem queimar metais em seu corpo e usar a combustão para realizar um determinador poder, como flutuar, prever o futuro próximo, aumentar a força e outros. Os que possuem essa característica, conseguem queimar apenas um tipo de metal, o que lhes dá apenas um tipo de poder. Mas os nascidos das brumas conseguem queimar todos.

Dessa forma, a magia dentro da história instiga o leitor a investigar sobre seu funcionamento e limitações, porém o mais interessante é que ela não resolve a trama, apenas contribui para que certos desafios sejam vencidos. O que é um ponto bastante positivo em livros fantásticos, que o diferencia, pois muitas literaturas semelhantes recorrem à magia para solucionar todos os impasses, o que fica chato.

Todavia o sentido mais interessante que se encontra na história é sobre a sanidade. Kelsier é interpretado o tempo inteiro como um louco visionário que sonha com coisas impossíveis. Brandon Sanderson não criou essa situação levianamente. Ele usou este artifício para discutir a alienação do cidadão. Ao colocar a sobriedade em um personagem apontado como louco, ele critica como a visão das pessoas está tão deturpada a ponto de considerar loucura aquilo que, na verdade, elas também almejam. Desse modo ele brinca com a superestimada “sanidade” que todo “cidadão-modelo” se orgulha de possuir.

“Pessoas sãs estão dormindo quando as brumas saem”

E por falar em alienação, Sanderson faz uma observação rápida sobre o elemento que comunica todos os setores do sistema: o dinheiro.

“Mas, o que é dinheiro? Uma representação física do conceito abstrato do esforço”

Mistborn – O Império Final é um livro que possui suas excentricidades, mas jamais esquece o real interesse de quem lê: o ser humano. Uma característica recorrente nas narrativas de Sanderson.

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