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Luke Cage | A série flerta com o heroísmo e a política

Saulo Lima

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Ao assistir Luke Cage, é inevitável a vontade humana de fazer comparações com outras séries de heróis, especialmente as do Universo Marvel produzidas pela Netflix. Quando Demolidor estreou há cerca de um ano e meio, foi fácil ficar perplexo com as cenas de ação fantásticas e ao teor sombrio dado a um personagem da Marvel – algo não visto nos cinemas. – E o que mais faltava a Marvel, um vilão incrível: Wilson Fisk. Alguns meses depois foi a vez de Jessica Jones chegar ao público, porém sendo totalmente oposta a sua antecessora. Demolidor é uma série sobre um herói que não sabe ao certo que tipo de herói é, mas quer ser um, assim como sobre um vilão que achava ser um herói. Essa jornada de ambos os personagens  que deu a química certa para o sucesso de Demolidor, não foi vista em Jessica Jones, ao contrário, vimos uma heroína que não se via como uma e tampouco demonstrava vontade de ajudar alguém, além de um vilão que sabia exatamente o que era.

A Netflix então teve de fazer uma escolha sobre o que fazer com Luke Cage. Corajosamente, ela optou por equilibrar a ação suja do Demolidor e o estilo investigativo de Jéssica Jones. Desse modo, ficou fácil avaliar o conflito interno do personagem principal que não sabia ao certo se era um herói ou se deveria ser.

No primeiro episódio, encontramos um Luke que ainda fugia de seus demônios passados, da morte de sua mulher e do mundo como um todo, utilizando a Barbearia do Pop como um refúgio seguro – um lugar neutro entre o crime e a lei. – E é justamente aí que se inicia a parte mais vibrante de Luke Cage, suas metáforas visuais e enredo. A série inicia de forma monótona para aprofundar os personagens – novamente, uma escolha corajosa por parte da Netflix, pois que muitos esperavam um novo “Demolidor”, acabaram desistindo da série nos três primeiros episódios.

Embora durante o início da temporada é Boca de Algodão quem se destaca, movimentando a série e construindo um vilão a altura do Universo Marvel na Netflix, fica a sensação de que Luke poderia ter acabado com o vilão em apenas um  episódio  – o que pode ter feito alguns desistirem da série sem ao menos chegarem na metade da mesma. – Entretanto, há um bom motivo para tal. Como já dito, Luke não é um herói, é apenas um homem com um passado difícil tentando fugir e se esconder do mundo. Pouco a pouco ele percebe que não pode ficar alheio ao que está acontecendo, sendo a destruição da barbearia o grande início da ação da série.

Quando o “lugar neutro” entre o crime e a lei é destruído, Luke também passa a não ser mais neutro, iniciando sua saga contra Boca de Algodão. No futuro, há uma nova tentativa de reconstruir a barbearia, justamente em um momento em que nosso herói negro pensa em fugir de novo. Outra rima visual interessante fica a cargo do Harlem’s Paradise e do quadro de Notorious B.I.G. usando uma coroa e sua relação com Boca de Algodão.

Mas em uma série com personagens intrigantes como os dois, há ainda mais a se explorar. A detetive Misty e seu parceiro Scarf dão ao enredo um clima investigativo. Há uma forte tensão entre Misty e Luke, principalmente após o primeiro encontro de ambos, além de uma relação de confiança entre os dois, que será construída aos poucos. Ela é uma forte personagem negra na Marvel, embora nos sintamos frustrados pela inaptidão da lei em capturar os verdadeiros culpados.

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Com poucos mocinhos, são os vilões quem se destacam na trama. A vereadora Mariah nos lembra Fisk, por ser uma personagem que quer ajudar sua comunidade,e ao mesmo tempo se afastar de sua infância violenta, mas pouco a pouco acaba aceitando seu lugar como vilã. Shades, o silencioso personagem que acaba sendo mais uma promessa do que uma realização em si, e Cascavel, o grande vilão central dessa saga a quem só somos apresentados no final da primeira metade da série. Seu estilo incisivo e sua psicopatia aumentam a tensão da mesma, que tem na sua segunda metade seus pontos mais fortes.

A trilha sonora da série é sem dúvida a melhor coisa oferecida, valorizando a história negra e suas batalhas diárias – com sutis comentários sobre os problemas contemporâneos como racismo, violência, corrupção e o surgimento de falsos líderes. – A série flerta com o heroísmo e a política, no qual funcionam muito bem. A fotografia também é incrível, principalmente nas cenas noturnas e nas que se passam no Harlem’s Paradise – ironicamente, o lar dos vilões. – O enredo também flerta bastante com histórias bíblicas. Na primeira metade, é possível tecer uma comparação com a história de Sansão contra os filisteus, sendo Sansão um herói dotado de super força que não se aceitava como herói, apenas querendo ter uma vida tranquila, embora após a morte de sua primeira esposa, se vê forçado a fazer algo a respeito.

Assim é Luke Cage, um herói que não deseja ser herói, mas é forçado a agir após a morte de Pop. A segunda metade da série nos traz o conflito clássico entre Caim e Abel.

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Se a série tem como grande força a vantagem de, por ser exibida na Netflix, não ter de atrair público com histórias como a do vilão da semana, o que deixa espaço para um maior desenvolvimento e aprofundamento dos personagens, ela tem como grande ponto fraco suas cenas de ação. As mais leves são carregadas com um teor cômico, e funcionam bem. Porém, as lutas sérias acabam sendo extremamente decepcionantes. Sim, é fácil entender que Luke é um homem que não quer ferir ninguém e portanto se segura ao máximo durante as lutas,  o exemplo mais nítido de que as cenas de ação não funcionam é a grande cena primária no episódio 3, na qual ele invade o “cofre” de Boca de Algodão. Pela primeira vez na série vemos Luke agindo, e a cena… Simplesmente não funciona. Até mesmo o enfrentamento final entre ele e Cascavel se mostra fraco. Outro ponto, é a forma como o enredo faz Luke escapar de certas coisas. Por vezes, vemos Cascavel prestes a matá-lo e simplesmente não o fazendo. A impressão que fica, é de que Luke poderia perfeitamente ter morrido no episódio 7 da série. A monotonia inicial da mesma, embora perdoável, acaba atrapalhando um pouco. Ainda assim, mesmo que esta demore muito para pegar ritmo, quando o faz, faz muito bem.

Luke Cage, no final é uma série diferente de todas as outras de heróis que já foram produzidas, e tem a coragem de fazer um final realista que decepcionará boa parte dos que acompanharam a saga de Cage. Corajosa do início ao fim, Luke Cage é uma ótima experiência, especialmente por ter três grandes vilões – dando grande mérito a Boca de Algodão, que consegue roubar cada cena em que está. – Algo que é ótimo e mostra que a Netflix está pronta para juntar múltiplas ameaças de uma vez, como farão em Defensores. – Mostrar a relação de organizações governamentais com atos heroicos, um assunto já explorado esse ano em Guerra Civil, e trazer grandes referências do Universo Marvel, finalmente dando um grande papel a Claire, a enfermeira que une Demolidor, Jéssica Jones e Luke Cage, de uma maneira única. Uma série perfeita para refletir sobre o papel do negro na atualidade, se entreter e tomar um café.

Revisado por: Bruna Vieira.

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