Connect with us
Rodrigo Roddick

Published

on

Tem livros que o título é autoexplicativo, mas há aqueles que utilizam a sutiliza poética para agregar mais valor na obra. O Menino na Ponte parece fazer uso da segunda opção, porém é tão sutil que fica difícil entender a conexão do título com a narrativa. Mas o leitor consegue criar uma se estiver disposto.

O Menino na Ponte é um livro de ficção-científica escrito por M. R. Carey, um dos roteiristas de X-men e Hellblazer. O autor também trabalhou na série Lúcifer, da Netflix. O livro foi publicado no Brasil pela editora Rocco, através do selo Fábrica 231.

O livro conta a história de um grupo de cientistas que estão a bordo de um trem chamado Rosalind Franklin com destino a um ambiente hostil repleto de zumbis. Lá eles deverão estudar o patógeno que está contaminando as pessoas e achar uma possível cura. E no cerne disso está um gênio precoce, um cientista com 15 anos, o menino na ponte.

Por ter trabalhado em obras de peso, Carey acaba atraindo as pessoas para suas obras. Não é negável sua maestria com as técnicas da escrita e narração de histórias, mas é uma narrativa com flutuações de interesse. Em alguns momentos, o leitor vai ficar muito conectado ao que está acontecendo porque a situação é bastante humana e causa incômodo (bom) e raiva. Mas em outros, vai despertar sono.

A escolha por um mundo apocalíptico, ainda mais sendo a causa zumbi, já apresenta um leve cansaço ao iniciar a leitura, pois é um assunto tão comentado e já visto na mídia que é impossível alguém ter predisposição empolgada para isso. Só quem gosta muito de zumbi.

“Na metade das vezes, eles não parecem perceber que estão mortos”

Porém, o interessante é que dessa vez a culpa não é de vírus, mas sim de um fungo. E a forma como Carey evolui o fungo, passando-o dos animais para os humanos, é bastante científico e coerente. E isso torna a leitura um tanto investigativa e atrai a atenção.

Histórias de zumbi sempre apontam para o mesmo alvo: o homem. E deve. Realmente é o alvo de todo livro, e as temáticas nesse universo maximizam essa tática. Contudo isso traz a mesma discussão em todas as obras do gênero: a perda da humanidade, como ela vai se desintegrando junto com o mundo criado por ela.

“Costumava haver um mundo no qual as coisas faziam algum tipo de sentido, tinham algum tipo de permanência, mas a espécie humana acabou com esse mundo em algum lugar”

A maioria dos personagens não conseguem apelar para empatia do leitor e acabam sendo apenas articuladores da história em vez de ser as pessoas que sofrem o conflito da mesma. Alguns em maior escala que outro. Há momentos que o leitor vai se conectar e outros que ele simplesmente vai dormir.

Apesar da linguagem técnica ser necessária nesta narrativa, ela tende a cansar demais. Acaba trazendo um desconforto ruim ao interlocutor que quer, na mais primitiva necessidade de ler um livro, se entreter. Mesmo com o ponto de vista técnico cansativo, a leitura tende a ser fluída.

O livro critica que o olhar tradicional da ciência pode ser o principal motivo para a humanidade perder a luta contra um novo patógeno, e o autor consegue exprimir bem essa ideia ao criar um cientista com 15 anos de idade. Sua nova visão e seus métodos subversivos tornam-no uma pessoa insubstituível no enfrentamento do apocalipse. E daí vem o significado do menino na ponte.

O Menino na Ponte remonta a velha discussão sobre quando o humano perde a humanidade.

Advertisement
Comments

Resenha

Piano Mecânico

O autor nos convida para investigar os conflitos do ser humano após ele realizar sua utopia.

Paulo H. S. Pirasol

Published

on

capa piano mecanico pro site

Kurt Vonnegut nasceu em 1922, na cidade de Indianópolis – Onde está localizado o Museu Kurt Vonnegut – e morreu em 2007, Manhattan, devido a lesões no cérebro causadas por uma queda.

Em março de 1943, o escritor se alistou no exército e batalhou na Segunda Guerra Mundial; um dos eventos ocorrido durante esse tempo o fez escrever Matadouro 5.

Após a guerra, começou a escrever e lecionar. Em 1952, ele publicou seu primeiro romance que chegou ao Brasil em 1973 com o título Revolução do futuro. Reeditado durante um tempo também como Utopia 14. Em setembro, no entanto, ele chegou às livrarias do Brasil através da Intrínseca, traduzida por Daniel Pellizzari, numa bela reedição intitulada Piano Mecânico.

capa do livro piano mecânico

A obra narra um futuro pós-Terceira Guerra Mundial. O mundo agora está passando por uma nova revolução industrial que não substituí o trabalho manual, nem o rotineiro, mas o intelectual. Nosso protagonista é o doutor Paul Proteus, a pessoa mais importante e inteligente das grandes Indústrias Ilium, cujos pensamentos a respeito da vida são confrontados pelo desconforto que sente em sua atual sociedade.

“Nesse momento da história, em 1952 d.C., nossas vidas e nossa liberdade dependem muito da habilidade, da imaginação e da coragem de nossos gerentes e engenheiros, e espero que Deus os ajude, para que eles possam nos ajudar a permanecer vivos e livres.”

O futurismo é um movimento artístico, em sua grande parte literário, surgido oficialmente em 1909 com a publicação do Manifesto Futurista, pelo poeta italiano Filippo Marinetti.

texto manifesto futurismo

No início do século XX, a humanidade experimentou revoluções tecnológicas surpreendentes que tomaram um desenvolvimento bastante acelerado. Haviam aqueles que glorificavam a tecnologia, saudando as novas invenções assim como haviam aqueles que temiam a tecnologia e faziam alertas quanto às novas invenções.

Um artigo de Francisco Rüdiger intitulado de “Antropologia na era da máquina, ficção científica como sociologia aplicada” possuí um texto sobre Kurt Vonnegut, Piano Mecânico e o triunfo do fetichismo tecnológico no século 20.

O texto propõe mostrar como o Piano Mecânico possuí uma visão de pesquisa fortemente expressada nas ciências sociais, afirmando que Vonnegut analisa a forma como as transformações históricas afetam a intimidade do ser humano na era da tecnologia, uma análise honesta a respeito da sua própria atualidade.

“Durante a Grande Depressão, a única religião da minha família foi o entusiasmo para com a eventual cura tecnológica para todas as formas de insatisfação humana.”

Após a guerra, com o avanço da tecnologia em tempos de paz, criou-se uma razão para nos perguntarmos se a fé na tecnologia tinha a ver com a alma humana.

O artigo analisa profundamente a faceta honesta na obra de Kurt e a explora da forma mais sociológica possível. Contudo, o próprio livro já cria uma experiência capaz de lhe transmitir a angústia individual na sociedade utópica proposta pelos adoradores da tecnologia.

“Os engenheiros se aglomeraram em torno de Carlito Damas, e os que estavam na primeira fila inspecionaram as cinzas, as válvulas derretidas e a fiação carbonizada. Em cada rosto havia uma tragédia. Algo belo tinha morrido.”

O autor não tenta esmagar de fúria e críticas a idolatria humana pela tecnologia, ela por si só já é o bastante para se mostrar ridícula, segundo sua narrativa.

capa antiga de piano mecânico

Diferentes de muitas ficções que falam da tecnologia como uma ameaça mortal, a grande dificuldade que a humanidade sofre em Piano Mecânico é em se descobrir.

Paul Proteus não liga muito para sua vida no trabalho, embora seja alguém tão importante; sua mente se distraí com qualquer coisa que esteja um pouco fora da sua rotina; em certos momentos pensamos que ele é infeliz, em outros achamos que quer apenas descobrir se existe valor no que faz.

Todos os personagens são meramente bem elaborados psicologicamente. Uma das oito dicas de Vonnegut sobre como escrever um texto curto é: Dê ao leitor pelo menos um personagem para que ele possa torcer. E outra é: Cada personagem deve querer algo, mesmo que seja apenas um copo de água.

A esposa do protagonista, chamada Anita apresenta-se como intrometida quando conhecemos suas ações pelos efeitos que elas causam em Paul, se ele estiver passando por algo pessoal, a intromissão que ela causa é de discutir sua saúde mental ao ponto em que ele deixe claro não querer mais falar disso. Mas agora se existe outra pessoa envolvida, a intromissão dela é cruel e exagerada, a ponto de acompanhar e querer saber de tudo que esta pessoa está causando ao seu marido, independente do quanto ele peça para ela deixar pra lá.

Todos os personagens que surgem durante a história sabem como se comportar de maneira especifica perto de alguém que já sabemos como reage a certos comportamentos específicos. O autor nos torna tão íntimos da forma como todos agem e pensam que já acreditamos conhecê-los.

Seus diálogos e ações são bem diretos. Outra dica dele é: Dê aos seus leitores o máximo de informações possíveis, o mais rápido quanto. Utilizando-se disso em Piano Mecânico, não temos dificuldade para conhecer aquele mundo e seus personagens. Logo, não é apenas o quanto interessante elas são, mas como se torna fácil de conhecer essas características.

“De algum modo, ele tinha transmitido uma ideia surgida inesperadamente em sua mente: que a força e a elegância de Anita eram um reflexo de sua própria importância, uma imagem do poder e da arrogância dignas do gerente das Indústrias Ilium se ele as desejasse. De um segundo para o outro, Anita se tornou aos olhos de Paul uma garotinha indefesa e esforçada, e ele conseguiu sentir uma ternura genuína por ela.”

frase sobre Piano Mecânico

A história não conta com personagens bons e maus, todos apresentam muito bem suas formas de pensar. Não é sobre como as máquinas levaram o ser humano para o fim de seu tempo ou das consequências da pós-guerra.

Em Piano Mecânico, a humanidade chegou a um ponto em que tudo deveria estar bem.

“E ele tem uma casa para morar e roupas quentes. Tem as mesmas coisas que teria se estivesse cuidando de uma máquina idiota, xingando, cometendo erros, entrando em greve, todo ano, brigando com o supervisor, chegando de ressaca no nosso trabalho.”

A tecnologia chegou a um grau de produção em que quase ninguém mais terá de trabalhar, mas continuaram a se alimentar e ter onde morar, para a humanidade este era o plano de perfeição, de vida boa. É ai que Kurt entra para perturbar ainda mais seus personagens, é assim mesmo que a vida se torna boa?

TRABALHO

Karl Marx, sociólogo, abre um leque de questões sobre como o trabalho humano à medida que se afastava da relação homem e natureza deixava de ter os princípios mais importantes do resultado de um trabalho, passando apenas a ser uma forma instrumental, um meio de atingir como objetivo o próprio fim do trabalho.

Os adoradores da tecnologia queriam trabalhar nela, usando-a de meio para ter menos trabalho, assim uma vida melhor.

Para o autor, o trabalho pode ter um valor um tanto mais significativo e por isso a crise de Paul Proteus a respeito do significado de valor que seu trabalho possui, dos seus estudos, rituais de ricos e relações pessoais é bem elaborada.

Kurt Vonnegut está disposto a investigar o que vem após a perfeição através de seus personagens, lutando não por uma humanidade não futurista, mas por uma que queria cuidar das suas angústias, de fato.

Existe algo que vai além da facilidade e conforto para que a vida possa ser vivida em sua plenitude.

Continue Reading

Resenha

Árvore dos Desejos

Fábula narra sobre a amizade ser o maior desejo da vida humana; desejo que nem sempre é compreendido e muito menos revelado.

Rodrigo Roddick

Published

on

Capa Cabana do Leitor

O que é desejo? O desejo é o assunto que dá título à narrativa, mas ele muitas vezes fica subliminar quando a protagonista, que é uma árvore, está contando sua história. Árvore dos Desejos nos lembra que a vida está presente em vários elementos da natureza, não apenas em nós humanos.

“É uma tremenda dádiva amar ser quem você é”

Árvore dos Desejos é uma fábula romanceada escrita por Katherine Applegate e publicada no Brasil pela editora Intrínseca. Ela compôs a caixa comemorativa de 2 anos do Clube Intrínsecos e vai ser publicada oficialmente em 27 de outubro deste ano. Não é à toa que a edição está muito bem feita; com capa dura de efeito brilhante e excelente diagramação com ilustrações.

Apesar do foco ser nos desejos, o livro fala sobre amizade. Red, um carvalho centenário, é a Árvore dos Desejos amiga de uma corvo chamada Bongô. Sua amiga é fiel a ela e fica o tempo inteiro tentando ajudar Red em suas peripécias. Red é alvo de uma tradição dos humanos, que atam fitinhas e papéis com pedidos aos seus galhos na esperança que eles se realizem.

Red escuta pacientemente os pedidos dos seres humanos durante seus mais de duzentos anos de vida sem se intrometer nas deles, mas um dos desejos a faz violar uma das regras mais importantes e sagradas das árvores: nunca fale com um ser humano.

A fábula é narrada em primeira pessoa por Red, conferindo ao interlocutor outra visão sobre o que é ser uma árvore: ter muito tempo de vida, mas estar sujeita às ações animais. Esta escolha da autora é primordial para que o leitor se sinta na pele dela e compreenda como a humanidade é agressiva com a natureza, principalmente com as árvores.

Red, no entanto, não demonstra raiva nem rancor para com a humanidade. Ela é sábia, vive em harmonia, mas também tem traços ingênuos em alguns momentos. Por isso que a amizade com Bongô, a corvo, é muito bom pra ela, uma vez que a ave é bastante esperta e livra a amiga de apuros.

A árvore diz o tempo inteiro que não é boa piadista, mas que sabe contar boas histórias, porém é impossível não perceber a maior piada que a história dela nos revela. Red é uma árvore; árvore tem vida, e o leitor está lendo um livro em papel, que é feito do cadáver de uma árvore. Inclusive, tem uma passagem que ela chega a mencionar isso.

“Na verdade, eu poderia até ser um livro”

Não é uma piada para rir, porém. É bem triste. Mas a sutileza de Katherine é tamanha que, mesmo envergonhados em lermos sobre um cadáver da árvore, conseguimos avançar na leitura.

O bom humor de Red ajuda o leitor a desenvolver empatia pela árvore. Mesmo ela não contando boas piadas, ela acaba dizendo algumas coisas engraçadas, se não fossem tristes.

A fábula se foca principalmente no desejo e na amizade porque este é o maior desejo de Red: ser amiga da humanidade, devolvê-la à comunhão natural. Esse desejo não é revelado, mas dá pra perceber no modo como ela encara a vida ao seu redor.

“Ah, quanta coisa eu queria poder dizer àqueles dois. Queria dizer que a amizade não tem que ser complicada. Que às vezes nós é que permitimos que o mundo a transforme em uma coisa difícil”

Além dessa perspectiva, Árvore dos Desejos também funciona como uma metáfora do planeta Terra. Red comenta sobre os moradores de seus ocos; os gambás, as corujas, o corvo, os guaxinins e outro animais; quando ela é ameaçada em ser cortada, eles se unem para protegê-la.

O ser humano mora em uma árvore. Uma árvore gigantesca chamada Terra. Ela está sendo cortada a cada dia que passa. Nós vamos protegê-la? Ou a deixaremos morrer?

Continue Reading

Resenha

João e Maria

Livro: o prestigiado Neil Gaiman e o incrível Lorenzo Mattotti se encontram para recontar um clássico.

Mylla Martins de Lima

Published

on

Capa Cabana do Leitor

João e Maria é uma adaptação de um dos contos dos Irmãos Grimm feita por Neil Gaiman e ilustrada por Lorenzo Mattotti. O livro foi trazido para o Brasil através da editora Intrínseca em 2015.

Embora todos conheçam a história, revisitá-la vale muito a pena, pois um olhar menos infantil acaba tornando tudo mais chocante. As ilustrações de Lorenzo fazem com que essa experiência seja ainda mais tensa, enquanto a escrita de Gaiman apresenta toques pessoais muito sutis.

Não houve mudanças extremas durante a narrativa e o clássico só ganhou olhares mais maduros, sem interferir na personalidade dos personagens. O foco é na crueldade dos pais e da ”bruxa”, que sofre uma repaginada e é apresentada em uma versão mais realista, sem muita fantasia e misticismo, como uma senhora canibal e exploradora. Reler desse ponto de vista é realmente perturbador.

“As crianças dormiam em montes de feno. Os pais, em uma cama antiga que pertencera à avó do lenhador. João acordou no meio da noite com uma dor aguda e vazia na barriga, mas não disse nada, porque sabia que tinha pouca coisa para comer. Ele manteve os olhos fechados e tentou voltar a dormir. Quando dormia, não sentia fome”

Um lenhador e sua esposa com dois filhos vivem em uma cabana muito próxima à floresta. Apesar do estilo de vida humilde, sem qualquer tipo de luxo e muito trabalho braçal do homem, a comida nunca faltou. Foi quando a guerra se instaurou no local que veio a escassez, e com ela, a fome.

João foi quem ouviu os planos da mãe de ”esquecê-los” na floresta, pois seria mais fácil sobreviver dois que quatro. Essa é uma das cenas enfatizadas por Gaiman. Apesar de contestar de primeira, o pai logo se cala, mostrando-se submisso à loucura da mulher, levando seus filhos para um ”passeio” assim que acordaram.

”Somos quatro — disse a mãe. — Quatro bocas para alimentar. Se continuarmos assim, vamos todos morrer. Sem as bocas a mais, eu e você teremos chance.

[…] — Se você não comer —  respondeu a mulher — , não vai conseguir brandir o machado. E, se não conseguir cortar uma árvore ou levar lenha para a cidade, todos morreremos de fome. É melhor morrerem dois do que quatro. É só questão de matemática, uma questão de lógica”

O final desse conto todos já devem saber, mas o desenrolar dela pelas palavras de Gaiman é realmente impressionante, destacando as horas de medo e descrença, como é o caso da argumentação tão fria da mãe que convence seu marido a sacrificar seus filhos em troca de sua própria sobrevivência.

Nas últimas páginas do livro, uma contextualização do conto ao longo do tempo é feita. É muito interessante a causa de sua transformação! A crueldade não se restringe à ficção, já que no medievo, durante a Grande Fome, famílias simples como a do livro, costumavam abandonar seus filhos ou pior, alimentarem-se da carne deles. A prática de canibalismo era muito comum nesse período.

Essa edição é muito bonita e sua ilustração a torna ainda mais incrível, dando um clima medonho ao que já faz parte de um cenário de horror, mas que a mente inocente infantil não entendia.

Um presente aos fãs de Gaiman e um convite para aqueles que não conhecem o autor.

Continue Reading

Parceiros Editorias