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Parasita, Byung-Chul Han e O Urso, o cansaço é a linguagem do capitalismo

O capitalismo e a sua cultura da produtividade têm intensificado o cansaço coletivo e a exaustão emocional.

Matheus Camiña

O capitalismo não está funcionando. As pessoas estão cansadas. E tem muita gente tentando nos avisar disso desde Parasita.

Não é de hoje que nosso atual sistema — econômico e de vida — escancara seus sintomas mais óbvios: desigualdade social, concentração de riquezas, consumo desenfreado, esgotamento ambiental. A realidade que nos cerca parece cada vez mais insustentável.

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Antes, essa discussão ficava restrita a universidades, a políticos de discurso enviesado e a uma parcela instruída da população. Às vezes surgia em alguma aula de História ou Geografia mais crítica, mas não passava disso. Difícil parar pra discutir qual modelo de vida seria mais humano… quando mal dá tempo de viver a própria vida. Como pensar no coletivo quando você está tentando só não ser demitido por perder o horário do ônibus?

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Pensar requer tempo e esforço. E no nosso sistema, você precisa produzir. Afinal, quem produz não pode desperdiçar esse tempo, certo? Para nossa sorte, o lado bom da arte é que ela sempre vai te fazer esse convite, tornar o debate mais acessível e te chamar para refletir.

Parasita nos mostra uma família enfrentando humilhações e situações extremas só para sobreviver. Round 6 apresenta pessoas dispostas a sacrificar qualquer traço de ética ou dignidade por dinheiro. Já O Urso revela o colapso emocional de quem tenta fazer o que ama em um ambiente caótico, onde o sucesso é medido por métricas desumanas de produtividade e excelência. Esses são apenas alguns exemplos de uma longa lista de produções que, de forma direta ou simbólica, estão dizendo: estamos exaustos.

E quem mais fala sobre isso? Byung-Chul Han

Em A Sociedade do Cansaço, o filósofo sul-coreano afirma que vivemos num mundo onde produzir virou sinônimo de existir. Não há mais espaço para abstrações. Tudo é meta, tudo é performance. E não apenas no trabalho: no Instagram, você também precisa performar. Ser saudável, ser culto, ser antenado, ser sociável. Alimentação, corpo, cultura, carreira, vida afetiva — tudo precisa ser impecável. Tudo precisa ser produtivo.

Essa exigência absurda se tornou parte de quem somos — ou melhor, de quem fingimos ser. E o resultado disso é a exaustão coletiva.

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Fico aliviado em perceber que esse debate, mesmo que timidamente, está se democratizando. Não é mais só tema de filósofos e intelectuais: ele está na tela, nos roteiros, nos personagens que amamos.

Quando vemos a família de Ki-taek morando num porão, lutando por qualquer oportunidade, sentimos o peso da realidade. Quando assistimos Seong Gi-hun mergulhar na jogatina até perder o pouco que tem, entendemos onde o desespero pode nos levar. Quando acompanhamos Carmy tentando manter seu restaurante (e a própria sanidade) enquanto o mundo exige perfeição, sentimos na pele a pergunta incômoda: será que ainda é possível “fazer o que se ama” nesse sistema?

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Byung-Chul Han escreve sobre isso com uma precisão quase cortante — e eu não me atreveria a tentar replicar suas palavras. Mas o ponto é: o que antes era uma discussão de nicho, agora é pauta até para quem só quer assistir uma série depois de um dia duro de trabalho. Isso diz muito.

Bong Joon-ho contou que se surpreendeu com o alcance global de Parasita. Sua intenção era retratar uma realidade local — e, ao fazer isso, descobriu que estava mostrando um problema global. A verdade é que essa realidade se espalhou mais do que gostaríamos de admitir.

Acho que estamos todos cansados como em Parasita. Talvez, no fundo, a pergunta mais urgente da nossa era seja simples: quando é que a gente descansa?

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