Connect with us
Paulo H. S. Pirasol

Published

on

Renegados é o primeiro livro da nova trilogia de Marissa Meyer, Crônicas Lunares (é uma série de quatro livros com volumes baseados nas histórias de Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel e Branca de Neve). O livro já figurou na primeira posição do The New York Times. A autorapossui especialização em Escrita Criativa pela Pacific Lutheran University e em Publicação pela Pace University. A obra foi lançada no Brasil pela editora Rocco com tradução de Regiane Winarski. 

Nova é uma anarquista e busca vingança contra os Renegados (Grupo de prodígios que se tornaram um símbolo de esperança e coragem). Enquanto se aproxima de seu alvo, ela conhece Adrian, um garoto Renegado que acredita na justiça e em Nova.

Renegados

Em Renegados, prodígios são humanos com habilidades extraordinárias que durante um tempo de crise – guerras civis em todos os continentes; não havia polícia; não havia prisão; vizinhos roubavam de vizinhos; lojas eram saqueadas e crianças morriam de fome na sarjeta – manifestaram-se para fazer a mudança no mundo.

“Passou a ser os fortes contra os fracos, e, no fim das contas, os fortes em geral eram uns idiotas”

Em tempos de discórdia, o ser humano busca uma moral. Nietzsche, filósofo, dirá que a moral é o triunfo das forças reativas pelas ativas; quando os fracos precisam criar leis para impedir a vitória excessiva dos fortes. Na obra de Marissa Meyer, Ace Anarquia uniu os prodígios mais poderosos que conseguiu encontrar contra governos opressores, criando a Era da Anarquia, da qual veio a ser combatida com a chegada dos Super-heróis, chamados Renegados.

A razão do Governo ter sido opressor foi por temer as habilidades dos prodígios; eles rebateram diminuindo o poder destes políticos, no comando de Ace Anarquia. Durante este caos surge a necessidade de um outro grupo agir como força reativa, assim são criados os Renegados. Heróis que vêm não exatamente para combater o mal, mas para impedir o crescimento de uma força.

Por isto, para continuarmos o ciclo que cria a moral, o livro em seu prólogo introduz o motivo de Nova, uma protagonista, ser ‘Anarquista’. Com a derrota de Ace Anarquista e a influência do heroísmo dos Renegados no mundo, é preciso de uma força reativa. Mas não basta apenas ter; a obra sabe da necessidade de clarear seus motivos, o que torna a construção dos personagens e da história bem elaborada.

Depois desse Prólogo somos levados para dez anos depois de Nova ter crescido com seu motivo de ser Anarquista e querer se opor aos Renegados. Também somos apresentados a Adrian, um Renegado filho do casal de heróis mais famosos: Capitão Cromo (Super força e é capaz de gerar armas de cromo) e o Guardião Terror (Pode ficar invisível).

“Nós dois sabemos que o mundo ficaria melhor sem heróis. Sem vilões. Sem nenhum de nós atrapalhando as pessoas normais e felizes nas vidas normais e felizes”

A obra ao construir o ideal da cada protagonista nos apresenta sutilmente ao dualismo da moral.

O dualismo consiste em dois princípios, substancias ou realidades opostas. Testemunhamos primeiro na presença dos elementos que os prodígios podem desenvolver em suas habilidades, um fator de elemento espiritual, que convive com suas emoções e fisionomias humanas, um fator físico.

Espiritual e físico  

“Ele não era mais jovem, como quando formou os Renegados. O Conselho estava envelhecendo, passando o legado para uma nova geração”

Apesar de seus feitos super humanos, eles envelhecem; criam famílias; estabelecem limites. Estas características nos ajudam a ver que a idealização do povo em eternizar seus mitos – criando deuses – é apenas por não conhece-los o bastante, por não ter acesso aos pequenos detalhes que o leitor tem direito.

Bem e mal

Outro da dualidade é a distinta percepção de bem e mal.

A lei moral, à virtude, a luta de bem e mal surge no livro sutilmente, por mais que histórias de heróis contra vilões ou anti-heróis deixem isto bem claro. Em Renegados somos apresentados aos heróis primeiramente por suas falhas e aos Anarquistas pela falta de clareza em seus objetivos; conhecemos tantas imperfeições que não distinguimos bem e mal a partir de herói e vilão, o que distinguimos são ideologias.

Em outras palavras “é tudo questão de ponto de vista”. Começamos o livro como bebês inocentes que não possuem um lado, Marissa Meyer não nos deixa outra escolha além de nos fazer identificar o certo só depois de conhecer a situação por completo; cada capítulo traz um novo olhar tanto para os personagens quanto para o leitor e não sentimos a necessidade de torcer para um lado, já que vemos apenas diferenças e não uma moralidade superior a outra.

O cuidado de construir uma história assim fez com que uma narrativa de super-herói contra vilão não estivesse baseada no bem contra o mal, mas sim na justificativa da construção de uma moral.

A diferença

É brilhante ver que uma história completa e bem trabalhada numa temática cada vez mais dialogada entre públicos de todas as idades consegue nos fazer prestar atenção com calma nas diferenças de certas morais.

Nada melhor que o livro tenha se livrado de governos opressores logo em sua primeira página, pois como lidaremos com os que pensam diferentes quando houver um espaço a ser preenchido para estabelecer a paz? Como será formada esta moral e por quem? Eis então que a história se inicia. E a partir de personagens jovens que estão se descobrindo e criticando uma geração passada que para eles não fez e não faz o suficiente.

A obra constrói uma jornada de aprendizado sobre a construção de pontos e assuntos muito importantes para o ser humano e sua sociedade. A idealização do bem e mal é algo tão complexo que não sentimos que há suficiência em dizer que o personagem é um herói apenas por ser nomeado assim.

Renegados sugere que o julgamento da moral deve ser feito só após conhecer as ações com clareza.

Advertisement
Comments

Resenha

Piano Mecânico

O autor nos convida para investigar os conflitos do ser humano após ele realizar sua utopia.

Paulo H. S. Pirasol

Published

on

capa piano mecanico pro site

Kurt Vonnegut nasceu em 1922, na cidade de Indianópolis – Onde está localizado o Museu Kurt Vonnegut – e morreu em 2007, Manhattan, devido a lesões no cérebro causadas por uma queda.

Em março de 1943, o escritor se alistou no exército e batalhou na Segunda Guerra Mundial; um dos eventos ocorrido durante esse tempo o fez escrever Matadouro 5.

Após a guerra, começou a escrever e lecionar. Em 1952, ele publicou seu primeiro romance que chegou ao Brasil em 1973 com o título Revolução do futuro. Reeditado durante um tempo também como Utopia 14. Em setembro, no entanto, ele chegou às livrarias do Brasil através da Intrínseca, traduzida por Daniel Pellizzari, numa bela reedição intitulada Piano Mecânico.

capa do livro piano mecânico

A obra narra um futuro pós-Terceira Guerra Mundial. O mundo agora está passando por uma nova revolução industrial que não substituí o trabalho manual, nem o rotineiro, mas o intelectual. Nosso protagonista é o doutor Paul Proteus, a pessoa mais importante e inteligente das grandes Indústrias Ilium, cujos pensamentos a respeito da vida são confrontados pelo desconforto que sente em sua atual sociedade.

“Nesse momento da história, em 1952 d.C., nossas vidas e nossa liberdade dependem muito da habilidade, da imaginação e da coragem de nossos gerentes e engenheiros, e espero que Deus os ajude, para que eles possam nos ajudar a permanecer vivos e livres.”

O futurismo é um movimento artístico, em sua grande parte literário, surgido oficialmente em 1909 com a publicação do Manifesto Futurista, pelo poeta italiano Filippo Marinetti.

texto manifesto futurismo

No início do século XX, a humanidade experimentou revoluções tecnológicas surpreendentes que tomaram um desenvolvimento bastante acelerado. Haviam aqueles que glorificavam a tecnologia, saudando as novas invenções assim como haviam aqueles que temiam a tecnologia e faziam alertas quanto às novas invenções.

Um artigo de Francisco Rüdiger intitulado de “Antropologia na era da máquina, ficção científica como sociologia aplicada” possuí um texto sobre Kurt Vonnegut, Piano Mecânico e o triunfo do fetichismo tecnológico no século 20.

O texto propõe mostrar como o Piano Mecânico possuí uma visão de pesquisa fortemente expressada nas ciências sociais, afirmando que Vonnegut analisa a forma como as transformações históricas afetam a intimidade do ser humano na era da tecnologia, uma análise honesta a respeito da sua própria atualidade.

“Durante a Grande Depressão, a única religião da minha família foi o entusiasmo para com a eventual cura tecnológica para todas as formas de insatisfação humana.”

Após a guerra, com o avanço da tecnologia em tempos de paz, criou-se uma razão para nos perguntarmos se a fé na tecnologia tinha a ver com a alma humana.

O artigo analisa profundamente a faceta honesta na obra de Kurt e a explora da forma mais sociológica possível. Contudo, o próprio livro já cria uma experiência capaz de lhe transmitir a angústia individual na sociedade utópica proposta pelos adoradores da tecnologia.

“Os engenheiros se aglomeraram em torno de Carlito Damas, e os que estavam na primeira fila inspecionaram as cinzas, as válvulas derretidas e a fiação carbonizada. Em cada rosto havia uma tragédia. Algo belo tinha morrido.”

O autor não tenta esmagar de fúria e críticas a idolatria humana pela tecnologia, ela por si só já é o bastante para se mostrar ridícula, segundo sua narrativa.

capa antiga de piano mecânico

Diferentes de muitas ficções que falam da tecnologia como uma ameaça mortal, a grande dificuldade que a humanidade sofre em Piano Mecânico é em se descobrir.

Paul Proteus não liga muito para sua vida no trabalho, embora seja alguém tão importante; sua mente se distraí com qualquer coisa que esteja um pouco fora da sua rotina; em certos momentos pensamos que ele é infeliz, em outros achamos que quer apenas descobrir se existe valor no que faz.

Todos os personagens são meramente bem elaborados psicologicamente. Uma das oito dicas de Vonnegut sobre como escrever um texto curto é: Dê ao leitor pelo menos um personagem para que ele possa torcer. E outra é: Cada personagem deve querer algo, mesmo que seja apenas um copo de água.

A esposa do protagonista, chamada Anita apresenta-se como intrometida quando conhecemos suas ações pelos efeitos que elas causam em Paul, se ele estiver passando por algo pessoal, a intromissão que ela causa é de discutir sua saúde mental ao ponto em que ele deixe claro não querer mais falar disso. Mas agora se existe outra pessoa envolvida, a intromissão dela é cruel e exagerada, a ponto de acompanhar e querer saber de tudo que esta pessoa está causando ao seu marido, independente do quanto ele peça para ela deixar pra lá.

Todos os personagens que surgem durante a história sabem como se comportar de maneira especifica perto de alguém que já sabemos como reage a certos comportamentos específicos. O autor nos torna tão íntimos da forma como todos agem e pensam que já acreditamos conhecê-los.

Seus diálogos e ações são bem diretos. Outra dica dele é: Dê aos seus leitores o máximo de informações possíveis, o mais rápido quanto. Utilizando-se disso em Piano Mecânico, não temos dificuldade para conhecer aquele mundo e seus personagens. Logo, não é apenas o quanto interessante elas são, mas como se torna fácil de conhecer essas características.

“De algum modo, ele tinha transmitido uma ideia surgida inesperadamente em sua mente: que a força e a elegância de Anita eram um reflexo de sua própria importância, uma imagem do poder e da arrogância dignas do gerente das Indústrias Ilium se ele as desejasse. De um segundo para o outro, Anita se tornou aos olhos de Paul uma garotinha indefesa e esforçada, e ele conseguiu sentir uma ternura genuína por ela.”

frase sobre Piano Mecânico

A história não conta com personagens bons e maus, todos apresentam muito bem suas formas de pensar. Não é sobre como as máquinas levaram o ser humano para o fim de seu tempo ou das consequências da pós-guerra.

Em Piano Mecânico, a humanidade chegou a um ponto em que tudo deveria estar bem.

“E ele tem uma casa para morar e roupas quentes. Tem as mesmas coisas que teria se estivesse cuidando de uma máquina idiota, xingando, cometendo erros, entrando em greve, todo ano, brigando com o supervisor, chegando de ressaca no nosso trabalho.”

A tecnologia chegou a um grau de produção em que quase ninguém mais terá de trabalhar, mas continuaram a se alimentar e ter onde morar, para a humanidade este era o plano de perfeição, de vida boa. É ai que Kurt entra para perturbar ainda mais seus personagens, é assim mesmo que a vida se torna boa?

TRABALHO

Karl Marx, sociólogo, abre um leque de questões sobre como o trabalho humano à medida que se afastava da relação homem e natureza deixava de ter os princípios mais importantes do resultado de um trabalho, passando apenas a ser uma forma instrumental, um meio de atingir como objetivo o próprio fim do trabalho.

Os adoradores da tecnologia queriam trabalhar nela, usando-a de meio para ter menos trabalho, assim uma vida melhor.

Para o autor, o trabalho pode ter um valor um tanto mais significativo e por isso a crise de Paul Proteus a respeito do significado de valor que seu trabalho possui, dos seus estudos, rituais de ricos e relações pessoais é bem elaborada.

Kurt Vonnegut está disposto a investigar o que vem após a perfeição através de seus personagens, lutando não por uma humanidade não futurista, mas por uma que queria cuidar das suas angústias, de fato.

Existe algo que vai além da facilidade e conforto para que a vida possa ser vivida em sua plenitude.

Continue Reading

Resenha

Árvore dos Desejos

Fábula narra sobre a amizade ser o maior desejo da vida humana; desejo que nem sempre é compreendido e muito menos revelado.

Rodrigo Roddick

Published

on

Capa Cabana do Leitor

O que é desejo? O desejo é o assunto que dá título à narrativa, mas ele muitas vezes fica subliminar quando a protagonista, que é uma árvore, está contando sua história. Árvore dos Desejos nos lembra que a vida está presente em vários elementos da natureza, não apenas em nós humanos.

“É uma tremenda dádiva amar ser quem você é”

Árvore dos Desejos é uma fábula romanceada escrita por Katherine Applegate e publicada no Brasil pela editora Intrínseca. Ela compôs a caixa comemorativa de 2 anos do Clube Intrínsecos e vai ser publicada oficialmente em 27 de outubro deste ano. Não é à toa que a edição está muito bem feita; com capa dura de efeito brilhante e excelente diagramação com ilustrações.

Apesar do foco ser nos desejos, o livro fala sobre amizade. Red, um carvalho centenário, é a Árvore dos Desejos amiga de uma corvo chamada Bongô. Sua amiga é fiel a ela e fica o tempo inteiro tentando ajudar Red em suas peripécias. Red é alvo de uma tradição dos humanos, que atam fitinhas e papéis com pedidos aos seus galhos na esperança que eles se realizem.

Red escuta pacientemente os pedidos dos seres humanos durante seus mais de duzentos anos de vida sem se intrometer nas deles, mas um dos desejos a faz violar uma das regras mais importantes e sagradas das árvores: nunca fale com um ser humano.

A fábula é narrada em primeira pessoa por Red, conferindo ao interlocutor outra visão sobre o que é ser uma árvore: ter muito tempo de vida, mas estar sujeita às ações animais. Esta escolha da autora é primordial para que o leitor se sinta na pele dela e compreenda como a humanidade é agressiva com a natureza, principalmente com as árvores.

Red, no entanto, não demonstra raiva nem rancor para com a humanidade. Ela é sábia, vive em harmonia, mas também tem traços ingênuos em alguns momentos. Por isso que a amizade com Bongô, a corvo, é muito bom pra ela, uma vez que a ave é bastante esperta e livra a amiga de apuros.

A árvore diz o tempo inteiro que não é boa piadista, mas que sabe contar boas histórias, porém é impossível não perceber a maior piada que a história dela nos revela. Red é uma árvore; árvore tem vida, e o leitor está lendo um livro em papel, que é feito do cadáver de uma árvore. Inclusive, tem uma passagem que ela chega a mencionar isso.

“Na verdade, eu poderia até ser um livro”

Não é uma piada para rir, porém. É bem triste. Mas a sutileza de Katherine é tamanha que, mesmo envergonhados em lermos sobre um cadáver da árvore, conseguimos avançar na leitura.

O bom humor de Red ajuda o leitor a desenvolver empatia pela árvore. Mesmo ela não contando boas piadas, ela acaba dizendo algumas coisas engraçadas, se não fossem tristes.

A fábula se foca principalmente no desejo e na amizade porque este é o maior desejo de Red: ser amiga da humanidade, devolvê-la à comunhão natural. Esse desejo não é revelado, mas dá pra perceber no modo como ela encara a vida ao seu redor.

“Ah, quanta coisa eu queria poder dizer àqueles dois. Queria dizer que a amizade não tem que ser complicada. Que às vezes nós é que permitimos que o mundo a transforme em uma coisa difícil”

Além dessa perspectiva, Árvore dos Desejos também funciona como uma metáfora do planeta Terra. Red comenta sobre os moradores de seus ocos; os gambás, as corujas, o corvo, os guaxinins e outro animais; quando ela é ameaçada em ser cortada, eles se unem para protegê-la.

O ser humano mora em uma árvore. Uma árvore gigantesca chamada Terra. Ela está sendo cortada a cada dia que passa. Nós vamos protegê-la? Ou a deixaremos morrer?

Continue Reading

Resenha

João e Maria

Livro: o prestigiado Neil Gaiman e o incrível Lorenzo Mattotti se encontram para recontar um clássico.

Mylla Martins de Lima

Published

on

Capa Cabana do Leitor

João e Maria é uma adaptação de um dos contos dos Irmãos Grimm feita por Neil Gaiman e ilustrada por Lorenzo Mattotti. O livro foi trazido para o Brasil através da editora Intrínseca em 2015.

Embora todos conheçam a história, revisitá-la vale muito a pena, pois um olhar menos infantil acaba tornando tudo mais chocante. As ilustrações de Lorenzo fazem com que essa experiência seja ainda mais tensa, enquanto a escrita de Gaiman apresenta toques pessoais muito sutis.

Não houve mudanças extremas durante a narrativa e o clássico só ganhou olhares mais maduros, sem interferir na personalidade dos personagens. O foco é na crueldade dos pais e da ”bruxa”, que sofre uma repaginada e é apresentada em uma versão mais realista, sem muita fantasia e misticismo, como uma senhora canibal e exploradora. Reler desse ponto de vista é realmente perturbador.

“As crianças dormiam em montes de feno. Os pais, em uma cama antiga que pertencera à avó do lenhador. João acordou no meio da noite com uma dor aguda e vazia na barriga, mas não disse nada, porque sabia que tinha pouca coisa para comer. Ele manteve os olhos fechados e tentou voltar a dormir. Quando dormia, não sentia fome”

Um lenhador e sua esposa com dois filhos vivem em uma cabana muito próxima à floresta. Apesar do estilo de vida humilde, sem qualquer tipo de luxo e muito trabalho braçal do homem, a comida nunca faltou. Foi quando a guerra se instaurou no local que veio a escassez, e com ela, a fome.

João foi quem ouviu os planos da mãe de ”esquecê-los” na floresta, pois seria mais fácil sobreviver dois que quatro. Essa é uma das cenas enfatizadas por Gaiman. Apesar de contestar de primeira, o pai logo se cala, mostrando-se submisso à loucura da mulher, levando seus filhos para um ”passeio” assim que acordaram.

”Somos quatro — disse a mãe. — Quatro bocas para alimentar. Se continuarmos assim, vamos todos morrer. Sem as bocas a mais, eu e você teremos chance.

[…] — Se você não comer —  respondeu a mulher — , não vai conseguir brandir o machado. E, se não conseguir cortar uma árvore ou levar lenha para a cidade, todos morreremos de fome. É melhor morrerem dois do que quatro. É só questão de matemática, uma questão de lógica”

O final desse conto todos já devem saber, mas o desenrolar dela pelas palavras de Gaiman é realmente impressionante, destacando as horas de medo e descrença, como é o caso da argumentação tão fria da mãe que convence seu marido a sacrificar seus filhos em troca de sua própria sobrevivência.

Nas últimas páginas do livro, uma contextualização do conto ao longo do tempo é feita. É muito interessante a causa de sua transformação! A crueldade não se restringe à ficção, já que no medievo, durante a Grande Fome, famílias simples como a do livro, costumavam abandonar seus filhos ou pior, alimentarem-se da carne deles. A prática de canibalismo era muito comum nesse período.

Essa edição é muito bonita e sua ilustração a torna ainda mais incrível, dando um clima medonho ao que já faz parte de um cenário de horror, mas que a mente inocente infantil não entendia.

Um presente aos fãs de Gaiman e um convite para aqueles que não conhecem o autor.

Continue Reading

Parceiros Editorias