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Paulo H. S. Pirasol

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A obra de George Orwell começa a ser escrita em 1947, é publicada em 1949 e lançada no Brasil em 2009 pela editora Companhia das Letras. 1984 apresenta uma distopia de um mundo dividido em três grandes potências padecendo de uma guerra sem fim.

capa 1984

Oceania, uma das potências, é o espaço físico do protagonista Winston Smith, funcionário do departamento de Registo do Ministério da Verdade. Com os seus questionamentos e relações sexuais discretos com Júlia, membro de Liga Juvenil Anti-Sexo, ele ameaça o controle do regime político totalitário: Socialismo Inglês ou Ingsoc regido pelo Grande Irmão.

O Partido possuí quatro ministérios que trabalham na manutenção do controle de submissão da população. Orwell é criativo quanto ao funcionamento dos ministérios e quanto às estratégias cobradas para o funcionamento do regime. No início, a montagem da história forma uma estrutura que se divide em conflitos do personagem no passado e no funcionamento do Partido. Durante o desenvolvimento da narrativa, esta divisão se transforma em um único argumento, resultado de uma sinapse do conflito entre o Amor e a Autoridade.

“A Décima Primeira Edição será definitiva – disse ele. – Estamos dando à língua a sua forma final – a forma que terá quando ninguém mais falar outra coisa. Quando tivermos terminado, gente como tu terá que aprendê-la de novo. Tenho a impressão de que imaginas que o nosso trabalho consiste principalmente em inventar novas palavras. Nada disso! Estamos é destruindo palavras – às dezenas, às centenas, todos os dias. A Décima Primeira Edição não conterá uma única palavra que possa se tornar obsoleta antes de 2050”

Entre as estratégias do Partido, se encontra a Novilíngua — a qual o trecho acima se refere — apresentando a ideia da formação de uma nova língua que busca a redução gradativa de palavras. Pois bem, o que há entre as palavras e as coisas para que tenha potencial nesta ideia? Existem algumas formas de pensar sobre as palavras, entre as mais comuns está o nominalismo que procede de uma ideia de que o universal não passa de um nome, uma convenção que damos. Já para os realistas, as coisas e os nomes possuíam uma analogia prática. Quanto mais universal fosse o termo gramatical, maior seria o seu grau de participação na perfeição original da ideia. Um substantivo que exige mais de uma ideia, apresentaria em si também a maior exigência daquilo e para o Partido este era o problema.

“É lindo, destruir palavras. Naturalmente, o maior desperdício é nos verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinônimos; antônimos também. Afinal de contas, que justificação existe para a existência de uma palavra que é apenas o contrário de outra? Cada palavra contém em si o contrário. “Bom”, por exemplo. Se temos a palavra “bom,” para que precisamos de “mau”? “Imbom” faz o mesmo efeito — e melhor, porque é exatamente oposta, enquanto que o mau não é. Ou ainda, se queres uma palavra mais forte para dizer “bom”, para que dispor de toda uma série de vagas e inúteis palavras como “excelente” e “esplêndido” etc. e tal? “Plusbom” corresponde à necessidade, ou “dupliplusbom” se queres algo ainda mais forte. Naturalmente, já usamos essas formas, mas na versão final da Novilíngua não haverá outras. No fim, todo o conceito de bondade e maldade será descrito por seis palavras — ou melhor, uma única. Não vês que beleza, Winston? Naturalmente, foi a ideia do Grande Irmão, — acrescentou, à guisa de conclusão”

De forma sútil, interessante e justificável, esta explicação é realizada no início da história para que possamos compreender os movimentos estratégicos do Partido, não por uma conduta crítica, mas pela perspectiva empolgante e positiva de uma ideia diabólica visando o retrocesso da Razão que se contrapõe ao dogmatismo do Grande Irmão. Entretanto, a necessidade deste novo idioma não se sustenta somente com o sucesso de romper a ligação do pensamento e o ser nas categorias lógica-linguísticas, mas principalmente para a criação de uma nova história. Outra presença fundamental é o Duplipensar.

“E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido – se todos os anais dissessem a mesma coisa – então a mentira se transformava em história, em verdade. “Quem controla o passado,” dizia o lema do Partido, “controla o futuro: quem controla o presente controla o passado.” E no entanto o passado, conquanto de natureza alterável, nunca fora alterado. O que agora era verdade era verdade do sempre ao sempre. Era bem simples. Bastava apenas uma série infinda de vitórias sobre a memória. “Controle da realidade”, chamava-se. Ou, em Novilíngua, “duplipensar.”

O duplipensar consiste em ter simultaneamente duas opiniões conflitantes e acreditar em ambas. Fazer com que a população exercesse essa prática foi o que tornou compreensível a conformidade do slogan: Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.

Devido a essas alterações no conhecimento é que foi possível a aceitação deste slogan como verdade. Graças ao Ministério da Verdade, onde Winston trabalha, foram alterados fatos históricos em favor do Partido. Esta cautela de Orwell de apresentar maneiras compreensíveis e atemporais da realidade torna sua ficção plausível. Nos pontos mais surreais, o interesse não se mantém por uma série de conflitos — pois o conflito já é definido como único desde o início — mas sim por uma curiosidade na construção da submissão, por entrelaçá-la no contexto em forma de uma sátira perversa.

E essa perversidade está impregnada em todos os momentos. Não há fuga quando o lema do Grande Irmão presente em cartazes em todos os lugares é “Is Watching You”. Mesmo que ninguém tenha o presenciado alguma vez, eles o seguem como uma divindade que é onipotente e onipresente.

De que forma é possível confrontar um sistema ditador bem instituído? É essa pergunta que o livro procura refletir.

Resenha

The Outsiders – Vidas Sem Rumo

“Quer saber de uma coisa? A vida é dura para todo mundo”

Paulo H. S. Pirasol

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CAPA OUTSIDERS

The Outsiders – Vidas Sem Rumo é um livro escrito pela autora S. E. Hinton publicado pela primeira vez em 1967 pela Viking Press, ganhando uma adaptação para o Cinema em 1983 pelo diretor Francis Ford Coppola (Poderoso Chefão e Apocalypse Now). A editora Intrínseca retornou o livro às livrarias brasileiras em abril com tradução de Ana Guadalupe. Ele foi impresso em edição de luxo, com capa dura, pintura trilateral, tradução e projeto gráfico inéditos, contendo também uma carta da autora e um prefácio de Ana Maria Bahiana (jornalista e crítica de cinema), além de uma entrevista com a autora e uma seção dedicada aos bastidores do filme.

Em 1988, Hinton foi agraciada na primeira edição do Margaret A. Edwards Award, prêmio da American Library Association dedicado às obras voltadas ao público jovem.

Susan Eloise Hinton, nasceu em Tulsa, Oklahoma. Tinha quinze anos quando começou a escrever o livro. A maior parte dele escreveu aos dezesseis, em seu último ano na escola. O livro foi publicado em 1967, causando um tremendo sucesso e dando voz à juventude.

O clássico conta sobre a rivalidade de duas gangues, formadas por jovens, na cidade de Tulsa, em Oklahoma. Nosso narrador e protogonista pertence ao lado dos Greasers, que se opunham contra os Socs.

“— Eu sou um Greaser — começou a cantar Sodapop. — Sou delinquente, sou bandido. Sujo o nome da cidade. Dou porrada. Roubo posto. Sou uma ameaça pra sociedade. E, cara, é bom demais!”

Greaser é um termo pejorativo para se referir a uma cultura estadunidense de trabalhadores pobres marginalizados. Esta etimologia é a base do conflito que existe entre as gangues. Greaser contra Soc não se difere da classe trabalhadora contra a consumista, sendo os dois grupos representantes de um grande extremo de cada.

Para esta juventude, a identidade vai além do visual, é uma questão de “Onde tu vem? A qual família tu pertence? Com quem tu andas?” Definições que estão referentes ao declínio do individualismo nas sociedades em massa, quando o ser se apaga para dar nome e imagem a sua tribo, mesmo ela sendo uma Tribo Urbana.

O surgimento dos Greasers se passa um pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando temos mais uma enfatização extrema do conflitos entre tribos opostas, do orgulho pela identidade e da revolta contra a diferença. A primeira coisa que chama atenção na obra é repararmos que até mesmo crianças nascem e morrem batalhando nesta crise conflituosa.

Existem várias obras que abordam este contexto de criação de diferentes grupos pós-guerra, mas geralmente seus personagens são adultos mais velhos. Em The Outsiders – Vidas Sem Rumo, acompanhamos a vida de Ponyboy, um moleque de quatorze anos, meio mirrado e bastante inteligente, o mais novo Greaser entre os irmãos e o grupo de amigos. Depois da morte dos seus pais, ele passou a conviver apenas com o irmão Sodapop, dezesseis anos, e Darrel, vinte anos.

Tantos os irmãos quanto os outros membros do grupo têm suas características muito bem apresentadas e trabalhadas durante toda narrativa, até mesmo os Soc’s. A autora se preocupa em mostrar que por trás de todo esse uniforme existe uma identidade única em cada individuo. Ela não torna a individualidade o grito da obra, pois está mais concentrada em dizer quem eles são incluindo o uniforme, a convivência de suas diferenças relacionadas numa identidade geral. Ela aborda o todo.

“Naquela hora eu entendi tudo. Soda brigava por diversão, Steve, por raiva, Darry, por orgulho, Two-Bit, para ser igual aos outros. Por que eu brigo?, pensei, e não consegui encontrar nenhum bom motivo.”

Empatia devido a dor

Este ‘conheça a ti mesmo’ na obra só é abordado depois que nos acostumamos com a identidade das gangues. De início, a narrativa te coloca conectado àquele mundo mostrando a violência que as gangues causam entre si, nos instigando a temer quando ambos se encontram ou esperar provocações quando um se refere ao outro. Leva tempo para entendermos que um Soc também tem nome e emoções; e que um Greaser ser cruel não é tão comum quanto parece.

Depois que somos guiados lentamente e cuidadosamente nesta visão mais detalhada do que é um grupo, a composição de pessoas que ali convivem, e que todas possuem suas próprias identidades, somos confrontados a descobrir detalhes tão profundos delas que nem mesmo outros personagens sabiam.

E logo após este choque de olhar para um quadro e enxergar pontinhos, de avistar um grupo em que os membros se vestem parecido tanto nas roupas quanto no penteado e conseguir perceber o sentimento de cada um, nossa visão tribal começa a morrer. Passamos a deixar de enxergar que é uma gangue com imagem, identidade e reputação e vemos personagem por personagem, pessoa por pessoa, dor por dor.

“Quer saber de uma coisa? — Ela me encarou. — A vida é dura para todo mundo”

Um fator arriscado, mas que foi muito bem executado na narrativa, é do narrador ser o Ponyboy. Este menino mais novo coberto de entusiamo pela admiração e amor que tem pela gangue tem um desenvolvimento excelente que acompanha tanto o personagem quanto o narrador. Não conseguimos enxergar a autora, apenas o Ponyboy e, junto dele, nós crescemos esta visão que possibilita enxergar a dor que cada um carrega atrás do uniforme. Mesmo o protagonista, que é membro da gangue, mostra que tem muito a aprender sobre reconhecer a identidade de cada um ali, o que nos ajuda em muito como leitor a ter o mesmo tipo de aprendizado.

“No fim das contas os Socs eram só caras normais. A vida era dura para todo mundo, mas era melhor assim. Assim você sabia que o outro cara também era um ser humano”

A conclusão da história consegue ser ainda mais forte de tudo que foi apresentado. Com leveza, o livro cumpre com tudo que propôs ao chamar a atenção do leitor. O ponto mais alto é que ele desenvolve tanto o leitor. Durante a leitura — mesmo que iniciada e finalizada num único dia — o leitor passa a observar os personagens, as gangues e todo aquele mundo de forma diferente, e quando se dá conta, tanto o personagem quanto o leitor estão diferentes.

Francis Ford Coppola

Em 1980, meses depois da árdua produção e lançamento de Apocalypse Now, uma carta chega nas mãos de Coppola, diretor do acalmado Poderoso Chefão. Junto da carta vinha uma edição de bolso de The Outsiders e uma missiva curta com 301 assinaturas: trezentas de alunos e uma de Jo Ellen Misakin, bibliotecária de uma escola no interior da Califórnia.

A edição de luxo que a Intrínseca apresenta tem esta carta e a reação de Coppola em seu prefácio. Assim que terminaram as filmagens de O Fundo do Coração, Coppola deu início a The Outsiders, que no Brasil ganhou o título Vidas sem rumo. O diretor trouxe a autora para o set para trabalhar com ele na versão final do roteiro, ao mesmo tempo que escrevia O Selvagem da Motocicleta, outro do mesmo gênero.

Coppola infelizmente parece não dar muita conta em adaptar a obra literária para o audiovisual; seus planos são quase sempre bastante abertos, provavelmente pela quantidade de personagens que quer apresentar visualmente, mas acaba perdendo a atenção na concentração que devemos ter ao drama de cada personagem. Quando tenta fechar o plano, movimentando a câmera num ar que indica que agora devemos dar atenção ao diálogo, os atores – mesmo que muito bons – não conseguem acompanhar esta direção e acabam deixando o clímax passar antes mesmo do enquadramento se encontrar.

São raros os momentos em que o filme acerta em dar atenção ao que os personagens dizem, as partes em que consegue enfatizar certa situação são nos momentos violentos; estes conseguem ter muita atenção e até dividi-la com o que os personagens tem a dizer, aí conseguimos achar o drama.

Parece que o diretor teve uma preocupação maior em se perguntar “Como posso mostrar esta história?”, do que em “Como contar?”. Os personagens também são frutos desta característica de composição, tem uma força e ânimo tão de acordo com o fato de serem jovens que não possuem nenhuma pausa em suas palavras, e elas saem como se fossem nada; o filme mostra muito bem que são jovens, mas não que são jovens que precisam ser ouvidos.

Este problema está sempre ligado ao fato de acreditar que uma boa adaptação basta em deixar a história ser contada. É preciso ter a noção de que são meios de comunicações diferentes, portanto torna-se necessária uma estratégia bem elaborada, o que faltou no filme. Fora isto, a importância da criação de uma adaptação para o Cinema começa quando um diretor experiente se interessa e decide trabalhar numa história de gangues em que os personagens são jovens.

A história influência escolhas

É esta atenção que The Outsiders: Vidas Sem Rumo consegue de qualquer um. Sua grandiosidade mostra que até mesmo alguém com nome de peso, no Cinema, pode sofrer dificuldades em recontar a obra, mesmo quando entendem a necessidade de mostrá-la.

Ajudar os jovens a se encontrarem e a poderem ser capazes de enxergar os outros ao seu redor, e melhor ainda, ajudar àqueles de fora a saberem que esta juventude está além de uma generalização básica, é o primeiro passo para que ela permaneça dourada.

Permaneça dourado, Ponyboy.

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HQs

Resenha | Black Hammer

Uma história sobre heróis que foram pagos com a prisão após salvarem a humanidade.

Gustavo Carvalho Cardoso

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Black Hammer é uma HQ escrita por Jeff Lemire e desenhada por Dean Ormston, publicada pela editora Intrínseca em 2018. Jeff Lemire é um dos grandes nomes dos quadrinhos atualmente, criando histórias sombrias com tramas envolventes e com personagens cativantes.

Há 10 anos um grupo de heróis salvou Spiral City de um inimigo chamado Antideus, porém, este feito foi pago com a liberdade. Os heróis foram banidos para uma fazenda em uma pequena cidade prisão.

A HQ é uma homenagem às antigas histórias em quadrinhos que eram lançadas pela Marvel e pela DC. Os heróis são bem definidos e são quase uma paródia de heróis que já vimos em outros lugares como o Abraham Slan que é quase um Capitão América sem soro de supersoldado.

Os personagens têm camadas bastante distintas, propiciando choques de realidade e problemas familiares entre os membros, que é o que os torna muito humanos. É fácil se conectar com a trama, pois ela é bem engajada e as páginas passam rápido, fazendo o leitor mergulhar nesta história sombria e cheia de mistério.

Presos em uma prisão fora da realidade, eles têm que se misturar aos humanos de uma pequena cidade, o que leva os heróis a adotarem uma mentira conjunta. A verdadeira missão de suas vidas então começa, pois, além de terem que lidar com seus próprios traumas, terão também quem lidar com os traumas de seus colegas, como uma família.

A subversão de heróis poderosos a chefes e integrantes de uma família faz com que a história tenha um tom mais pesado, fazendo com que cada página seja uma surpresa nova.

Black Hammer é muito bem desenhada e cada personagem tem um estilo de desenho único para se encaixar com a trama que ele traz, como a Madame Libélula que apresenta um traço mais sombrio baseado nas HQs antigas de terror.

A HQ resgata a humanidade dos super-heróis ao mesmo tempo que discute a linha tênue que os faz ser vistos como monstros quando não são mais necessários.

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HQs

Resenha | O melhor que podíamos fazer

“Um livro para despedaçar seu coração e depois curá-lo”

Mylla Martins de Lima

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O melhor que podíamos fazer, publicada em 2017 pela editora NEMO, traz a memória gráfica da família de Thi Bui, uma vietnamita refugiada para os Estados Unidos. Essa autobiografia tem o intuito de encorajar, educar e inspirar de um modo diferente.

O melhor que podíamos fazer | Amazon.com.br

A história já começa com um momento muito especial na vida da autora, o parto de seu primeiro filho. Toda a ideia por trás da obra teve sua origem na construção de sua própria família partindo do questionamento: como seria a vida de seu bebê senão uma sombra carregada de medo e sofrimento?

Thi Bui começa a explicação dessa primeira pergunta através de um flashback extenso que se prolonga até as últimas páginas do memorial, desenhando em quadros as passagens de sua dura vida no Vietnã, a começar pela origem da guerra. Dessa forma, a autora vai dando voz às histórias contadas sobre a infância dos mais velhos. Abrindo espaço para seu pai, a autora reproduz as agressões aferidas de seu avô contra sua avó, que foi posta para fora de casa mesmo em um período conturbado, onde a fome devastava a população mais pobre.

Thi Bui Nos Faz Refletir Sobre O Melhor Que Podíamos Fazer Em Uma ...

Em 1940, época da Segunda Guerra Mundial, não só a Europa sofria com a invasão das tropas nazistas, mas o Japão e a China também entraram em conflito. Quando a ‘Terra do Sol Nascente’ resolveu bloquear as rotas de abastecimento chinesas, as pessoas improvisavam como podiam para sobreviver, e com a família dele não foi diferente. Sem mãe, o pai Nam descobre toda a maldade do mundo antes mesmo de se reconhecer como cidadão. Ele passa a narrativa inteira preocupado com sua própria vida. Ele foi criado pelos avós e futuramente se torna pai de Thi Bui e seus irmãos.

A vida de Má, mãe da menina, é bem diferente da de seu marido. Vinda da classe alta, seu pai era um engenheiro que trabalhava para os franceses, por isso as coisas só ficaram mais estreitas. A guerra se torna um empecilho mais tarde, quando os caminhos dela se cruzaram com os de Nam. Por conta do relacionamento de dar entre classes totalmente divergentes, o preconceito por parte da família da moça a acabou afastando, passando a viver na humildade junto ao seu futuro esposo.

Apesar de todos os transtornos na juventude, mesmo após o nascimento de seus filhos, a vida do casal não teve qualquer alívio. Os horrores do passado ainda os assombravam e, pensando no futuro dos pequenos, decidem tentar uma vida longe do caos que o Vietnã dos anos 70 ainda era, mesmo que isso significasse um tiro no escuro.

Crítica | O Melhor Que Podíamos Fazer: Memórias Gráficas – Central ...

Thi Bui dá ênfase no passado de seus pais, mas também fala um pouco sobre a dificuldade no nascimento de cada irmão. Contudo, o mais interessante, e até importante, dessa trajetória narrada é a perspectiva do anciãos sobre a guerra… até porque, quem melhor para falar senão quem passou pela dificuldade desde o início?

Com muita sensibilidade, a autora fala um pouco sobre a vida difícil de seus pais, dando mais visibilidade a Nam, já que esse se mostrava um homem mais ríspido. É de aquecer até o coração mais frio o respeito, orgulho e gratidão em suas palavras quando o assunto beira à luta, à força e à superação de seus ascendentes.

A ilustração é única. As partes mais escuras refletem muito bem o teor dramático que Thi quis empregar. Alguns detalhes avermelhados em formato aquarelado, bem manchado, não alegram as páginas, apenas fazem o papel de ponto focal, como para localizar o personagem a ser destacado.

A estréia da autora é fascinante, a qualidade do material e sua escrita estão impecáveis. O livro é indicado para quem ama leituras de superação ou quem ama textos históricos. É uma verdadeira aula sobre o século XX.

O melhor que podíamos fazer é o tipo de história que tem muito para ensinar. As mensagens mais importantes são a de coragem e perseverança.

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