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Resenha

Resenha: “A Guerra dos Tronos”

Martin evidencia neste volume que as guerras foram as raízes da sociedade contemporânea.

Rodrigo Roddick

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O livro que iniciou o fenômeno televisivo Game of Thrones foi relançado em março deste ano pela Suma de letras. A editora pertence ao grupo Companhia das Letras, que adquiriu os direitos de publicação das obras de George R. R. Martin no Brasil. Antes, os cinco volumes do romance eram impressos pela editora LeYa. A Guerra dos Tronos é o primeiro livro da saga As Crônicas de Gelo e Fogo.

Desde a primeira cena escrita, a saga trata da luta entre a vida e a morte; a primeira sendo representada pelo fogo e a segunda pelo gelo. Esta premissa vai permear todas as tramas – principais e secundárias – até o fim dos sete livros. Não é à toa que “o verão pode durar décadas e o inverno toda uma vida”.

Capa do livro A Guerra dos Tronos pela Suma

Sinopse

A Guerra dos Tronos começa introduzindo o leitor na primeira trama da saga, que é a principal: o confronto milenar entre o gelo e o fogo. Logo, Martin parte para a apresentação dos personagens principais, começando com Bran Stark, Catelyn Tully, Daenerys Targaryen, Jon Snow, Eddard Stark, Arya Stark e Sansa Stark. Todos os capítulos são narrados em terceira pessoa, mas com o olhar dos personagens. 

Nesse começo, Robert Baratheon, o rei dos Sete Reinos, vai até o Norte convidar seu amigo de longa data Eddard Stark para ser a Mão do Rei, uma vez que a pessoa que ocupava este cargo (Jon Arryn) havia morrido. Quando eles retornam à capital, a trama que gera o título do romance se inicia através da família Lannister. Cersei, a rainha ao lado de Robert, pertence a esta família e mantém um relacionamento incestuoso com seu irmão Jamie Lannister, com quem teve três filhos – os quais ela alegou pertencer a Robert para ter legitimidade ao trono. Ela conspira para a deposição do rei quando Ned Stark se aproxima de descobrir a verdade.

Em A Guerra dos Tronos é narrado também o início da jornada de Daenerys rumo ao seu direito de nascença: o Trono de Ferro. Daenerys e Viseryon são os únicos membros vivos dos Targaryen, a família que conquistou Westeros e o governou por séculos. A dinastia foi derrotada por uma aliança entre as famílias mais poderosas dos Sete Reinos, encabeçada pela amizade de Robert Baratheon e Ned Stark.

Com a queda de Robert Baratheon, os Stark declaram guerra aos Lannister e o prenúncio de batalhas assola Westeros. O livro termina com Robb Stark sendo declarado o Rei do Norte e com Daenerys despertando seus filhos dragões.

Editora nova, cara nova?

Apesar de ingressar em uma nova casa editorial, o livro apresentou poucas mudanças. A mais bem-vinda delas foi a localização dos mapas. Nos volumes da LeYa, o Norte se encontrava no inicio do volume enquanto o Sul ficava no fim. Na edição da Suma, os dois foram reunidos em um extra nomeado como “Mapas”.

A linhagem das famílias mais importantes de Westeros também continuam no Apêndice, ao fim do livro. A fonte pequena foi mantida, mas a que estilizava o título foi alterada. O tamanho do volume também é ligeiramente menor que o anterior. Fora isso, as duas edições – LeYa e Suma – são bem parecidas. 

As famílias de Westeros

Naquela época a segurança de uma família era conquistada com a derrocada de outras. Embora houvesse juramento de vassalagem, muitas pessoas o encaram como apenas palavras ao vento; outras levavam a sério. Na saga, as famílias representam as vertentes do ser humano

Os Stark são aquelas pessoas justas e honrosas, sinceras, que quando prometem algo vão cumprir. Possuem um caráter íntegro. Já os Lannister são o oposto. Como a família é representada pelo leão, eles se acham dignos de governar os demais; só confiam neles mesmos e todos as outras famílias são encaradas como inimigos. Não estão nenhum pouco presos a juramentos e recorrem a métodos sujos quando necessários aos seus ideais. Os Tully representam aquelas pessoas que são muito fraternais, enaltecem a família e a honra acima de tudo. Os Baratheon são os visionários, aqueles que lutam por seus ideais. 

Assim como as pessoas têm personalidade para povoar seu corpo, as famílias possuem sua identidade, a qual tentam imortalizar através do legado. Martin brilhantemente traça um paralelo entre personalidade e legado para destacar a vaidade humana que sempre tentou suprimir a morte. A identidade é uma ideia, portanto é a única coisa que pode permanecer viva após as pessoas falecerem.

A ironia é que somos tão frágeis quanto à chama de uma vela. Basta apenas um sopro para que nossa vida despareça. O autor deixa claro em uma de suas passagens essa verdade que tanto tentamos encobrir com a noção de personalidade.

“Todos os homens são feitos de água, sabia disso? Quando os perfura, a água jorra e eles morrem” 

Política arcaica: o berço da sociedade contemporânea

A guerra civil que é desencadeada em A Guerra dos Tronos é a representação da política em nosso sistema atual, onde pessoas se enfrentam para empurrar suas ideias aos demais. Ainda que mais sofisticada hoje, a guerra existe na manutenção dos interesses de quem está no poder.

“Quando se joga o jogo dos tronos, ganha-se ou morre. Não existe meio-termo”

No ambiente fictício dos Sete Reinos, as famílias nobres não levam em consideração os menos favorecidos, o povo que os mantém no poder; só estão preocupadas com quem vai governar as terras e o quanto isso pode afetar sua liberdade. Infelizmente um cenário qual estamos muito acostumados atualmente.

O poder é simbolizado pelo Trono de Ferro e quem se senta nele pode governar o continente a sua maneira. Além de evidenciar esta sentença, o livro revela como as pessoas se comportam para proteger seus semelhantes e como elas não dão nenhuma importância para quem está fora deste círculo. Partindo deste raciocínio, quem veste a Coroa eleva os interesses de sua família sobre qualquer outra coisa. Todo o reino passa então a viver e trabalhar para sustentá-la e mantê-la no trono. 

Essas raízes estão presentes no modelo contemporâneo de organização social, mesmo que escondidas debaixo da terra. São elas que mantêm a injusta realidade de uma minoria sendo sustentada ao sugar os proventos da maioria. Não existe mérito quando vemos a radiografia de uma sociedade. É isso que Martin quer discutir.

A Guerra dos Tronos é uma grande análise do autor sobre o mundo atual. Uma analogia anacrônica de como o mundo se construiu e ao que ele deveria prestar atenção de verdade. 

A ironia é que criamos um sistema para nos servir, mas somos nós que servimos ao sistema.

A Muralha: a barreira entre a vida e a morte

Os vivos terão que lutar contra os mortos. O leitor já consegue identificar em A Guerra dos Tronos esta ideia quando confrontados com os Caminhantes Brancos – zumbis que surgem com o inverno. Porém estes monstros estão ao norte da Muralha, uma gigantesca construção de gelo que separa o povo de Westeros do mundo desconhecido. 

Ao introduzir esta Muralha na história, Martin não apenas criou uma proteção aos Sete Reinos, como também a falsa sensação de segurança e conforto. Mesmo sob o perigo iminente, o povo continua a levar as suas vidas cotidianas de maneira automática por não saber o que lhes aguarda. O autor então faz da Muralha um emblema para sinalizar que estamos vivendo uma ilusão; uma barreira diante do nosso olhar.

“Observar não é ver, garota morta”

Martin quis que pensássemos nisso. Temos a estúpida mania de achar que só vamos morrer quando estivermos bem velhinhos, numa cama quentinha, partindo enquanto dormimos… devido ao fato de estarmos vivendo a ilusão de segurança e conforto. No entanto, a verdade é que qualquer coisa pode nos matar. Não estamos seguros! A morte virá para todos nós e isso pode ser a qualquer momento. 

“Ver, ver realmente, é o coração de tudo”

O conforto que temos, na verdade, entorpece nossos sentidos e nos impede de enxergar a realidade. É exatamente por isso não vivemos o aqui e agora. É a morte quem nos obriga a viver o presente. Martin quer nos mostrar que só conheceremos a verdadeira face da vida, quando destruirmos a barreira de gelo e nos obrigarmos a enxergar a morte.

As Crônicas de Gelo e Fogo tenta nos despertar dessa letargia, desse sono profundo induzido, e nos acordar para a vida. A morte nos espreita. É a única certeza que temos. É o nosso destino. Então devemos fazer de nosso caminho até ela o mais vivo possível. Afinal, mesmo com todo nosso conhecimento medicinal, não podemos vencer a morte, apenas adiá-la.

“O que nós dizemos ao Deus da Morte? Hoje não”

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Resenha | Urucumacuã

A incrível aventura do príncipe alquímico que realizou diversas façanha no norte brasileiro.

Mylla Martins de Lima

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Heloísa Helena Entringer Pereira, junto à Lura Editorial, entregam uma ótima forma de conhecer um pouco mais sobre a magia do folclore amazônico. Urucumacuã foi originalmente publicado em 2018.

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Urucumacuã conta a história do lendário príncipe mágico que viveu há muitos anos no norte do Brasil, na região que hoje chamamos de Amazonas, e lá deixou seu imenso tesouro. Apesar do foco principal ser a realeza, ícones muito conhecidos como Saci Pererê, Mula sem cabeça e até o Boto cor-de-rosa também fazem parte da leitura.

”No dia em que o Sol e Lunes estiverem na casa de Gemini, um grande pássaro branco, desconhecido neste reinado, pousará na janela dos aposentos reais. Então, a rainha dará à luz filhos gêmeos: Príncipe Urucumacuã e Príncipe Kurokuru “

O tom misterioso dado às frases da leitura é o que de fato convida o leitor a se comprometer até o fim do livro, movido pela curiosidade de entender cada personagem secundário apresentado na grande história. O livro é composto por subcontos que relacionam cada ser existente nesse universo abarrotado de misticismo, onde todos são cruciais para o desfecho.

” — Que menino é este?

— De onde o trouxeram? — perguntaram ao mago Natu.

— Acalmai-vos. Explicarei agora. Esta é uma criatura ex-tranha: é Kurupirá, filho de Kaiporã, aquele ser gerado e reproduzido pela força mágica no dia em que o Bruxo Neno se deitou com a senhora Pan Thera, a Marquesa de Sonça, momentos antes de ela se transformar na gata Pintada! ”

Toda a narrativa é contada através de um jogo bem-humorado de palavras, o que torna tudo mais divertido e dinâmico. Contudo, a linguagem escolhida para trabalhar a história é um tanto cansativa, resultando em um livro denso e longo, com 659 páginas. Uma obra nova, mas com vocabulário antigo, expressões até engraçadas, mas que, em alguns casos, podem passar despercebidas, dependendo de quem está com o livro em mãos.

” — O dançarino de número 69 cometeu o ato seis vezes. Asseguro que com a princesa Putha foi in sexto… As outras cinco continuam virgens, mas pelos exames, foram penetradas pela ré, por isso a ré pendida. Não posso garantir, mas conforme a rainha Vidência, a única a engravidar foi a sexta, que se trata da vossa filha!”

A ressignificação de palavras também é considerado um dos pontos altos do livro. O vocabulário popular ganha um novo ponto de vista, na maior parte do tempo, acompanhado de sacadas genuínas. Sem filtro algum, a autora brinca com palavrinhas e palavrões, mostrando seu lado descontraído.

” — O que aconteceu? O que aconteceu?

Sem poder explicar, resumiu o fato numa simples frase:

— Foi o que a princesa Putha pariu… foi a Putha que pariu!”

Para os curiosos, Urucumacuã é uma ótima chance de descobrir o quão bonito, florido e encantador é o nosso folclore.

Urucumacuã é, para os interessados nas raízes do gigante norte brasileiro, uma enciclopédia mitológica

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Resenha | Ousadas 2: Mulheres que só fazem o que querem

Conheça mulheres que fizeram história com suas próprias histórias.

Mylla Martins de Lima

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Após o lançamento de Ousadas 1 e Uma Morte Horrível, de Pénélope Bagieu, a editora NEMO traz Ousadas 2, em homenagem ao Dia das Mulheres. Não existe presente melhor que esse no meio literário.

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O livro é recheado com pequenas histórias biográficas que mostram mulheres revolucionárias em diversas épocas. Assim como o primeiro volume, o segundo também possui 15 grandes personalidades que criaram, se destacaram e marcaram a sociedade por meio da arte, política, ciência ou ações sociais.

Todas as personagens têm em comum as dificuldades que passaram até sua ascensão, sendo definidas pelo sexo. Ambas foram atrás do que acreditaram, mesmo diante das opressões sociais ou, em casos piores, violência de todo tipo. Algumas das trajetórias causam grande incômodo por relatarem extremo abuso e pega o leitor desprevenido.

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Dentre as mulheres ousadas dessa edição, se destacam Temple Grandin, a autista que revolucionou as práticas para um tratamento mais racional de animais em fazendas e abatedouros; Sonita Alizadeh, uma rapper e ativista afeganistã que luta contra a submissão da mulher que não tem direito às escolhas do próprio corpo; e Phoolan Devi… que merece ser lembrada de maneira muito especial.

Dona de uma das história mais chocantes, Phoolan é uma indiana que nasceu na casta shudra, a mais baixa dentro do hinduísmo. A menina casou-se com apenas 10 anos, quando não sabia nem quem era si mesma, e foi levada para a casa de seu novo marido. Após ser violentada diversasvezes, a pequena adoeceu e o marido a devolveu para seus pais. Desse modo, Phoolan trouxe desonra à sua família. Não admitia-se que se falassem sobre ela. Mais tarde ela acaba arrumando confusão e é expulsa da vila.

Sem rumo, a pequena e corajosa Phoolan viajou de vila em vila, passou por violência atrás de violência… Mas a menina mais uma vez não deu o braço a torcer e espalhou a notícia dos abusos que sofreu, o que não poderia ter sido pior para os acusados. Os homens mandam uma gangue famosa da época matar a garota e ela acabou sendo capturada. Mas diferente do que se imaginava, Phoolan acaba encontrando nesta gangue seu novo lar e até seu par romântico. Ela conta sua história a seus novos companheiros e eles lhe prometem vingança a todos que a maltrataram. E a promessa foi cumprida.

Tempos depois, seu grupo é caçado e a única a sobreviver é Phoolan. Foi poupada para que passasse por tudo novamente. Tomada pela raiva, a moça monta uma nova gangue com o objetivo de dar fim aos estupradores nos vilarejos, sendo reconhecida com nobreza entre as mulheres mais pobres.

Em Ousadas 2, alguns ícones como a atleta Cheryl Bridges, a cantora Betty Davis, muito à frente de sua época, e Nellie Bly, primeira jornalista investigativa, também tem suas histórias contadas. Mesmo com a narrativa pesada, o texto segue com tiradas bem-humoradas e ilustrações maravilhosas que se encaixam muito bem com o tom dos diálogos.

Pénélope Bagieu trouxe uma grafic novel que independe de gênero para ser lida, mas indicada para jovens a partir de 14 anos, pois esses entendem melhor os acontecimentos relatados. Muito bem escrita, a série Ousadas já vendeu mais de 200,000 exemplares só na França.

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Desde sempre os homens falam pelas mulheres, mas hoje elas conseguiram mostrar que todas têm voz própria e lutam dia pós dia para serem ouvidas. Essas mulheres nunca se calaram, mesmo frente a tudo que passaram, e por isso a importância da HQ. Ousadas 2 funciona como inspiração para jovens e senhoras quebrarem padrões impostos por homens, revelando a força feminina em seu auge.

A editora NEMO, como sempre, acertou em cheio na escolha da publicação. O quadrinho, além de lindo, deixa claro quem fez e faz as regras.

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Resenha | Phasma

Delilah Dawson desvenda o mistério por trás da misteriosa capitã cromada e nos leva a uma viagem no coração da Primeira Ordem.

Thaís Rossi

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O livro foi lançado em janeiro de 2019 pelo selo geek da editora Universo dos livros. Escrito por Delilah S Dawson, ele desvenda o mistério em torno da intrigante capitã da primeira ordem.  Além de Phasma, a autora é responsável por diversas outras obras dentro do universo expandido de Star Wars como Galaxy’s Edge: Black Spire e Star Wars:The Perfect Weapon. 

Seguindo o modelo de diversos romances do universo expandido, a história de Phasma é dividida em duas linhas temporais: o presente – protagonizado pela espiã da resistência Vi Moradi – e o passado – dez anos antes dos eventos de “O despertar da força” – época em que se a história da temida capitã.

Ainda no começo da história, Vi é sequestrada por Cardeal, um capitão da primeira Ordem que tem Phasma como sua maior inimiga. Seu objetivo é extrair da espiã informações que possam incriminar a capitã,através de tortura e tirar seu prestígio diante da primeira ordem. É a partir deste interrogatório que começa a odisseia do leitor através da vida de uma das personagens mais enigmáticas da nova trilogia de Star Wars.

“- Você é Vi Moradi, Codinome Starling, conhecida espiã da Resistência e tem exatamente a informação de que preciso
– E você é o grande botão vermelho. O que acontece se eu apertar você no peito? Por acaso a luz acende em algum lugar? Alguma coisa explode?”

Antes de ser uma parte crucial da primeira ordem, Phasma viveu no hostil planeta Parnassos junto de seu irmão Keldo, com a tribo dos Scyre. Por dois anos os dois dividiram o trono da tribo, harmonizando as habilidades implacáveis de Phasma para a guerra e a sabedoria de Keldo. Como líder, a guerreira queria mais para o seu povo que vivia com escassez de água, comida, morria em chuvas ácidas e de doenças desconhecidas. Para ela, dominar as tribos próximas era a solução que traria melhorias, mas para o seu irmão o ideal era que as tribos vivessem em paz em seus cantos.

A divergência de ideias entre os irmãos veio à tona com a chegada acidental de Brandol Hux em Parnassos. Convencida de que ajudar o homem e ir com ele para as estrelas era a melhor opção, Phasma junta seu mini exército de guerreiros fiéis, deserta de sua tribo e parte para o desconhecido em busca de uma vida melhor.

“Por seus papéis muito diferentes naquela nova paz, Phasma e Keldo foram celebrados como heróis. Porém, para Phasma, não era paz. Era uma traição. Talvez ela tivesse omitido seus planos de Keldo mas ele havia se oposto a ela declaradamente e depois a desprezado, ela não esqueceria”

Para os fãs que se decepcionaram com a falta de atenção dada à personagem, o romance de Delilah é um verdadeiro presente. A história possibilitou que os amantes da saga preenchessem diversas lacunas dentro dos filmes da trilogia sequel, além de desvendar os mistérios por trás da máscara cromada da temível capitã.

A primeira coisa a se ressaltar é a habilidade de escrita de Dawnson. Apesar de o livro ter duas histórias ocorrendo paralelamente, a leitura flui facilmente de um modo que torna impossível se perder enquanto lê. Durante diversas partes do livro somos surpreendidos com uma aflição daquelas que só um bom livro de ação podem proporcionar. A autora fez questão de deixar o destino de seus personagens incertos até o ultimo momento. Sua destreza na hora de escrever transforma qualquer cena corriqueira e enfadonha em algo excepcional, o que deixa o leitor mais instigado em continuar a leitura.

Sua dedicação com seus personagens é outro fator positivo para a leitura. No livro de Delilah não existem personagens figurantes. Cada personagem é de extrema importância e cada ação executada por cada um deles é essencial para que o leitor entenda as decisões da personagem principal.

Além de exaltar o protagonismo feminino, Phasma é uma dádiva aos fãs de um modo geral. É nele que conhecemos como funciona a sistemática Primeira Ordem, comandada por Kylo Ren e Armitage Hux (filho de Brandol Hux). A autora deu detalhes de como os stormtroopers são preparados desde pequenos para servirem em batalhas e de como a Primeira Ordem deteve tanto poder em um tempo tão curto.

Usando a história do Cardeal que foi achado por Brandol Hux em Jakku enquanto passava fome e foi transformado em alguém importante – Delilah nos faz refletir o quanto grandes organizações se beneficiam e fortalecem do sofrimento alheio.

No decorrer da história percebemos que a devoção de Cardeal à primeira ordem se dá ao fato de ele achar que a nova república favorece apenas aos planetas mais ricos, deixando lugares como Jakku esquecidos.

“As outras crianças eram cruéis, os adultos piores. É isso que a sua nova república faz: ignora os pobres planetas periféricos e despeja dinheiro só nos planetas ricos que podem se dar ao luxo de ter uma voz no senado. Quem em nome de Jakku? Ninguem. Quem falou em nome do menino que eu era? Ninguém”


A discussão fica mais evidente ao fim do livro quando percebemos que Phasma, deslumbrada com o poder e luxo da primeira ordem, deixa para trás todos os seus princípios iniciais de salvar sua tribo e se deixa levar pelas promessas de luxo e poder feitas por Hux.

No decorrer do livro vemos uma líder nata, empenhada em ajudar seu povo, se transformando em um robô da primeira ordem, que segue ordens de um general sem questionar. A autora foi meticulosa ao retratar a mudança de Phasma diante da história para mostrar até onde nos leva a sede pelo poder.

É possível perceber uma familiaridade com nossa atualidade onde as pessoas se  corrompem, pois sofrem com descaso de algum governo.

“(…)Ela havia se tornado a Capitã Phasma da Primeira Ordem e nada poderia impedi-la”

O fator que leva Phasma a ser um livro único ,dentro do universo expandido, é o fato de a história ser protagonizada, quase que totalmente, por mulheres. Sendo um mundo que até pouco tempo atrás era praticamente dominado por homens. Histórias como a de Phasma são necessárias para trazer representatividade para as gerações mais novas e quebrar o padrão onde mulheres são retratadas de maneira sexualizada ou são usadas como donzelas indefesas.

Ao nos apresentar a Vi, Gosta, Siv e outras mulheres da saga, a autora nos deixa a mensagem de que podemos ser o que quisermos: guerreiras, mães, diplomatas, lutadoras e mulheres sem receios.

Embora Phasma seja a antagonista de sua própria história, é um exemplo para todas as mulheres pois, apesar de tudo, lutou pelo que ela queria e não deixou que o sexismo a impedisse de nada.

Escritoras como Delilah são necessárias na comunidade Geek pois mostram que, apesar do machismo ainda ser muito presente, não temos mais que ter medo de represália sexista pois ali também é nosso lugar.

Temos direito e DEVEMOS impor nossa presença, nossas opiniões e não precisamos nos encolher para caber em comunidades geeks.

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