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Resenha

Resenha: “Antologia da Literatura Fantástica”

Gênero discute mistérios que sempre tentamos descobrir: assim nasceu o fantástico.

Rodrigo Roddick

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Como conta a apresentação do livro, a antologia foi imaginada por três argentinos, Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo, enquanto eles conversavam sobre fantasia em uma noite de 1937. Reunindo seus autores preferidos, eles decidiram levar aos demais leitores nomes que contribuíram para o exercício do imaginário. Assim nasceu a Antologia da Literatura Fantástica.

Se todo romance traz uma premissa que faz o leitor refletir, os contos, ou precisamente uma antologia, constroem também uma linha de pensamento.

A obra foi escrita em linguagem espanhola e traduzia por Josely Vianna Baptista do original Antologia de La Literatura Fantastica e foi impressa no Brasil pela Companhia das Letras em abril. O interessante de se ter em mãos uma coletânea reunida por nomes argentinos é o destaque aos nossos conterrâneos e a uma cultura literária latina que muitas vezes não chega tão facilmente ao Brasil.

A antologia reúne 75 histórias divididas em contos, minicontos, trechos de romances e peças de teatro que marcaram o imaginário de muita gente no século XX. Estas obras foram assinadas por nomes famosos como Franz Kafka, Julio Cortázar e o mestre sombrio Edgar Allan Poe; também conta com a colaboração da madame fantástica Ursula K. Le King. Porém muitos outros autores conhecidos também se escondem nas páginas deste livro.

Logo ao iniciar a leitura, o interlocutor percebe que vai passear por algumas fábulas orientais que se valem do fantástico para ensinar as pessoas uma determinada conduta. À medida que vai avançando, nota-se uma característica semelhante entre os autores: a linguística. Todos parecem experimentar o sabor da palavra, pois se observa uma métrica ornamentando todos os vocábulos para que a experiência do leitor passe também pelas papilas gustativas da imaginação.

Esse cuidado com a palavra é uma reminiscência do estilo praticado no século XIX e provoca a quem está lendo uma organização mental e harmoniosa. Hoje, nós leitores preferimos a escrita direta, sem a utilização de verbetes rebuscados, porque contamos com um número incrível de obras para serem experimentadas e queremos ler com mais avidez. Ao estilo linguístico é necessário tempo, pois eles são como vinho, em que o degustador saboreia suas nuances em vez de devorá-lo.

Por esse motivo, os minicontos acabam prendendo mais a atenção do leitor. Como eles são escritos em poucas linhas, a pessoa já sabe ao final o que aconteceu naquela história e que aprendizado pode se tirar dela.

“Assustadora ideia de Joana sobre o texto per speculum in aenigamate: os prazeres deste mundo seriam os tormentos do inferno, vistos pelo avesso, num espelho” Léon Bloy (Os Prazeres deste Mundo, 1909)

Alguns deles assumem um teor mais sombrio e parecem tentar despertar no leitor uma lembrança do inevitável: a morte. É muito interessante como esses autores assumem o lado misterioso da morte e o exploram dentro do fantástico, por vezes, de maneira cômica. Afinal, ela, embora seja uma certeza para nós, ainda é envolvida por muitas superstições e segredos, estes que talvez jamais conheceremos. Esta ironia é o motivo de se fazer graça com ela.

Enriquecendo essa temática há um miniconto de Jean Cocteau, O Gesto da Morte.

“Um jovem jardineiro persa diz ao seu príncipe:

– Salve-me! Encontrei a Morte esta manhã. Fez-me um gesto de ameaça. Esta noite, por um milagre, gostaria de estar em Isfahan.

O bondoso príncipe lhe empresta seus cavalos. De tarde, o príncipe encontre a Morte e lhe pergunta:

– Por que, esta manhã, fez um gesto de ameaça ao nosso jardineiro?

– Não foi um gesto de ameaça – responde-lhe –, mas um gesto de surpresa. Pois o via longe de Isfahan esta manhã e devo pegá-lo esta noite em Isnfahan.”

Edgar Allan Poe faz uma grande contribuição ao tema com um dos seus contos mais sinistros e maravilhosos. A verdade sobre o caso de M. Valdemar (1845) coloca o autor como protagonista da história na tentativa de hipnotizar um moribundo e assim paralisar o momento da morte. Além de delicioso, o conto reflete a tendência do homem em tentar driblá-la, a única verdade que mantém todo mundo igual. De uma forma sutil e imaginativa, Poe nos faz discutir nosso desejo pela imortalidade.

A reflexão é o que o leitor mais vai extrair da leitura de Antologia da Literatura Fantástica. Todas as histórias que a compõe tentam desafiar quem estiver lendo a buscar dentro de si mesmo as respostas que, nós, como um coletivo, falhamos em dar atenção. É um convite à eterna busca pela elucidação dos mistérios, o que, nada acidentalmente, provocou o surgimento da literatura fantástica.

“Por acaso não somos espíritos que assumiram um corpo, uma aparência, e que depois se dissolvem no ar e na invisibilidade?” 

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