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Resenha “Cinquenta Tons de Cinza” – E. L. James

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Costumo pensar que quem gosta de ler de verdade tem muito a ver com quem ama café. Por exemplo, quem ama café, ama o sabor, a textura e tudo o que ele causa no corpo, portanto não importa qual seja o sabor que ele tenha, com quais ingredientes venha e etc., desde que ele seja café. É claro que temos nossas preferências, afinal, todos têm, mas a questão é que o “bookaholic” ama o ato de ler, não importando qual é a história, gênero e afins. Se estamos lendo, está tudo bem e esse é o cerne da questão. Bom, pelo menos comigo é assim desde que comecei com a desintoxicação de livros do Nicholas Sparks (que não são horríveis, apenas acabam com a nossa sanidade mental de acreditar sempre em amor). Portanto aqui fica minha justificativa pela qual eu li o tão polêmico “Cinquenta Tons de Cinza”. Fiquei curiosa e, já que estou estudando para um dia me tornar jornalista, uma das coisas que eu sei é que a gente sempre tem que ir atrás dos fatos, pra saber em primeira mão se são reais ou não, então fiz minha pesquisa.
E o que eu tenho a dizer sobre o primeiro livro da trilogia de E. L. James? Boatos exagerados. Vi muita gente enchendo a boca para dizer da “depravação” que era o livro, que não tinha “cabimento” escrever sobre sexo sadomasoquista, e muitas outras coisas do gênero. Ao escutar tudo aquilo, acho que qualquer um pensa que é um livro que só fala sobre sexo, e das coisas que a turma do BDSM faz por aí; o que não tem nada a ver, porque depois que a gente pára e lê antes de torcer o nariz pra “Literatura Erótica”, percebemos que Cinquenta Tons não é sobre sexo e nem muito menos sobre sadomasoquismo. É, para todos os efeitos, sobre amor e sobre o que ele faz com as pessoas. Antes de tornar o livro melhor do que ele realmente é, deixa eu explicar uma coisa. A “blogueira” que aqui escreve veio de um mundo fantástico e maravilhoso das fanfics de Crepúsculo. Era uma época boa em que uma adolescente de quinze anos podia dizer que era Team Edward e escrever fanfiction sobre Jacob e Reneesme sem ser julgada (mentira, eu sempre fui julgada por gostar de Crepúsculo, mas não tô nem aí. Todo mundo já gostou de alguma coisa na vida, não é mesmo?!). E para quem não conhece o termo, “fanfiction” nada mais é do que uma história escrita por um fã, que pode usar os personagens para criar outros enredos – que tenham ou não a ver com a narrativa real. Para quem estava nesse mundo de fics de Twilight, histórias que tinham a ver com sexo, Bella e Edward eram a coisa mais clichê de qualquer site que disponibilizasse esse espaço para a gente. Seja no Brasil ou não, pode procurar por aí e você vai encontrar centenas de sinopses em que Edward é o controlador e a Bella brinca de submissa ou vice versa. O que me leva a pensar que esse excesso de sexo nas fanfictions é um grito claro dos fãs que diz “tudo o que faltou no livro, nós escrevemos aqui!!!”. Simples assim.
Expliquei tudo isso porque obviamente “Cinquenta Tons de Cinza” vem desse universo de Crepúsculo, de garotinhas escrevendo e muito sexo sem que haja história. Quer dizer, pra quem leu os dois livros, as semelhanças entre os personagens são tão óbvias que você passa tranquilamente pela imagem da Anastasia e do Christian Grey vendo-os como espelhos de Edward e Isabella Swan. Então não julguei tanto assim a leitura, porque passei um bom tempo quando era menor de idade, lendo milhares de histórias alternativas iguais e até melhores do que essa, na internet. Fazer o que né. E super entendo quando as pessoas que realmente praticam BDSM dizem que o livro não faz jus à prática, porque não há de fato sexo sadomaquista, acho eu. Esse universo com certeza é bem mais profundo e mais complicado do que uns chicotinhos inofensivos que o Sr. Grey usa na Ana em uma cena ou outra. Portanto vamos aqui à minha resenha do livro, sem que haja exageros.
“Cinquenta Tons de Cinza” tem como personagem central da trama o milionário Christian T. Grey, que conhece nossa desajeitada e ingênua Anastasia Steele em uma entrevista para o jornal da faculdade. Após algumas gafes, perguntas inadequadas e muita tensão, os dois se despedem, mas para o azar – ou sorte, né, depende do ponto de vista – o calado e magnata Sr. Grey volta a vê-la mais vezes. Tem aquela coisa toda que tinha em Crepúsculo de “não fique comigo, sou perigoso”, e a célebre frase (que também tem em Crepúsculo!) de “não consigo mais ficar longe de você”, até que finalmente Ana conhece o verdadeiro Christian Grey. Mesmo ao ver um quarto cheio de apetrechos para a prática de BSDM, ela ainda fica confusa em relação à ele, já que a atração entre os dois é bem forte. Acontece que, para conseguir ter uma espécie de relacionamento, ela precisa assinar um contrato, que dita uma série de (minha opinião) absurdos, que vão desde o que ela pode ou não pode fazer na cama/relacionamento até o que ela tem que comer!!! Aliás, vi nisso mais uma semelhança com Crepúsculo. Edward também é manipulador, à sua maneira. Ele sempre tenta fazer a Bella “viver melhor”, seja dando presentes caríssimos – o que também acontece com Christian e Ana – ou até dizendo o que ela pode ou não fazer. Comparações à parte, o contrato é a grande questão da trama. Quando escuto falar que o Sr. Grey “abusa” da Ana, fico extremamente chocada porque eu aposto que nem metade das pessoas que criticam a série devem ter de fato lido todas as páginas de 50 Tons. O contrato, que deveria ser assinado para que a Ana pudesse ser de fato a submissa de Christian, não é assinado. Ou seja: os dois aceitam o que está acontecendo. Tanto o sr. Grey, ao constatar que fará sexo com ela sem que as tais normas sejam todas seguidas à risca, quanto à Ana, que está completamente ciente do que está fazendo em todos os momentos (mesmo quando aceita brincar no Quarto Vermelho da Dor). Não vejo fundamento quando dizem que ela foi “forçada” a fazer qualquer coisa na trama, pois do mesmo modo que ele de certa forma inicia ela no mundo soft de BDSM, ela também o “manipula” para se envolver com ela. Isso pode até torcer o nariz de algumas que leem agora, mas, enquanto eu lia, super fui vendo o quanto ela foi sutil ao não assinar o contrato, permitir algumas sacanagens e ao mesmo tempo, fazê-lo “mostrar-se” aos poucos para ela.Quando Ana perde a virgindade para Christian, por exemplo, vi claramente que o tal moço quieto e indisposto à relacionamentos, estava claramente abrindo espaço para um envolvimento em sua vida. O “não faço amor” que ele diz com tanta seriedade para ela, é também uma desculpa para que “as brincadeiras mais sérias” de fato possam acontecer, mas isso só mostra o quanto ele estava preocupado com ela. Como eu disse, 50 Tons, para mim, é mais do que uma literatura erótica. Li uma vez alguém que disse que um bom livro de sexo deve tirar o fôlego e só vi isso acontecer com a série “Cretino Irresistível”, da Christina Lauren (aliás, recomendo!!!), mas com a dupla Grey e Steele, isso não aconteceu. As cenas em que os dois vão parar no “Quarto Vermelho da Dor” – apelido carinhosamente dado pela Ana, ao conhecer o quarto em que Christian usa para realizar suas fantasias – são realmente bem descritas e picantes. Há o uso dos tais apetrechos quentes de BDSM, mas isso não se compara à cena “fatal” de quando Grey finalmente mostra o quão perturbado ele é. Até então, Anastasia não havia conhecido a sombra de Christian, porque entrava “aos poucos” no mundo perigoso do magnata, mas quando ela finalmente aceita conhecê-lo, é onde a trama de fato fica pesada.
Em alguns momentos, me senti entediada, não irei negar. Normalmente tenho preguiça com personagens femininas muito dependentes de homens, e a Ana, apesar de “tentar” negar todos os presentes caros e absurdos de Christian (que são tentativas ridículas de provar o quanto ele quer ela), acaba sendo muitas vezes ingênua e bobinha. Sinto falta de personagens fortes e heroicas, como é o caso da Katniss, por exemplo, em Jogos Vorazes. Aquela pessoa que, mesmo que tenha péssimas condições, ainda dá a volta por cima e sabe tomar conta de si mesma. Isso você com certeza não verá em 50 Tons de Cinza. Anastasia não sabe nem tomar conta de si mesma e é extremamente “frágil e desengonçada” para se tornar uma mulher poderosa que coloque Christian-dominador-Grey no lugar, mas ainda assim, faz da trama um bom romance. Aos que dizem que nunca irão chegar perto desse livro porque é “pornô para criança” ou babaquice, deem ao menos uma chance. Não vi cenas chocantes serem descritas, até porque o sadomasoquismo descrito ali não é efetivo nem de longe. Acho que se fosse mesmo, seria muito mais intenso ler algo assim, do que realmente foi narrado. Umas algemas e alguns brinquedos não fizeram do livro algo bobo, só mais um livro sobre como o amor pode ser perturbador e como o sexo faz as coisas muito mais interessantes. Porque se 50 Tons de Cinza é tão ruim assim, porque será que está todo mundo lotando as salas de cinema para averiguar? Mate a curiosidade lendo esse livro, faz bem.
Edição: 1
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788580572186
Ano: 2012
Páginas: 480
Tradutor: Ady Miranda, Rute, Partenope, Silvia, Sandra P.
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HQs

Darkside Books lança Prêmio Machado durante quarentena

Editora vai distribuir R$ 100 mil em prêmios aos vencedores.

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A editora Darkside Books divulgou o 1º Prêmio Machado Darkside de Literatura, Quadrinhos e Outras narrativas nesta quarta-feira (8) em seu próprio site. O intuito do prêmio é reconhecer o esforço dos escritores, dos pensadores e dos criadores de conteúdo que estão trabalhando em plena pandemia do Covid-19.

“Mesmo no silêncio e no distanciamento desta quarentena, estamos juntos, prontos para ouvir e sonhar com cada mente que busca o conhecimento, o novo olhar e a transformação“, explicou a editora.

O prêmio vai selecionar textos, quadrinhos e até projetos em desenvolvimento, contanto que sejam histórias originais e inéditas. As categorias são Romance/Contos, Quadrinhos, Não Ficção, Outras narrativas e Desenvolvimento de projeto.

O vencedor de cada categoria será contemplado com um contrato de edição de R$ 20.000, totalizando R$ 100 mil.

A inscrição deverá ser feita através do site da editora a contar da data de hoje até à meia-noite do dia 29 de setembro. O resultado será divulgado no dia 13 de novembro de 2020.

Para mais detalhes acesse o site oficial da editora.

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Livros

Coraline

Um ensaio sobre a morte? Uma fábula sobre a pré-concepção de mundo? Ou uma história que ensina crianças sobre o perigo da tentação? A obra de Gaiman pode ser tudo isso.

Rodrigo Roddick

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O outro mundo, o outro lado, submundo, além… Quantos nomes inventamos para intitular o lugar mítico de onde ninguém voltou? Quantas perguntas nos fazemos sobre o que vem após a morte? Quantas vezes fantasiamos sobre ela? Coraline é uma fábula que não apenas levanta essas questões, como também propõe uma resposta: o outro mundo pode ser um espelho do nosso mundo.

Coraline é um livro escrito pelo autor multipremiado Neil Gaiman e publicado originalmente em 2002. No ano seguinte a editora Rocco trouxe uma edição deslumbrante para o Brasil com desenhos de Dave Mckean. Mas no mês passado a bola passou para a editora Intrínseca, que conseguiu se superar e trazer uma belíssima edição em capa dura com desenhos de Chris Riddell, ilustrador que já trabalhou em mais dois livros de Gaiman: O Livro do Cemitério e A Bela e A Adormecida.

O romance de Gaiman conquistou dois importantes grandes prêmios, o Hugo (2003) e o Nebula (2004). Mas o autor já está muito a acostumado a ser premiado, pois já escreveu obras inesquecíveis como Deuses Americanos, Os Filhos de Anansi, Lugar Nenhum, O Oceano no Fim do Caminho, O Livro do Cemitério, Orquídea Negra, Os Livros da Magia e, seu trabalho mais sublime e notoriamente artístico, Sandman.

O livro ganhou uma adaptação para o cinema em 2009 chamado de Coraline e o Mundo Secreto, que foi bem recebido pela mídia e pelos cinéfilos. Ele também foi adaptado para um grafic novel em 2002 com os traços do ilustrador Craig Russell, impresso no Brasil como a primeira HQ da Rocco.

Coraline é o nome da protagonista da história que tem uma necessidade intrínseca de explorar os ambientes, ou seja, é uma aventureira. Quando ela se muda para sua nova casa, descobre uma porta trancada que dá para um corredor misterioso que a conduz para uma casa exatamente igual à sua. A única diferença era que tudo ali era perfeito! Contudo havia algo estranho: todas as pessoas tinham botões negros no lugar dos olhos.

“Então a mulher se virou. Seu olhos pareciam grandes botões pretos”

A primeira experiência positiva do leitor, antes de começar a ler a história, é com a edição. A Intrínseca presenteou os fãs de Gaiman com um livro muito bonito e bem finalizado. Coraline vem com uma capa muito bem desenhada, com fitilho, com as extremidades das páginas pintadas em roxo, com ilustrações e com uma perfeita diagramação. O livro não deixa nada a desejar no quesito editorial. E com a história não é diferente.

Apesar de evocar um sentido sobre o além, o romance propicia múltiplas interpretações. Durante essa resenha trataremos sobre quatro, que serão a rasa, a profunda, a metafórica e a subliminar.

Interpretação Rasa – Premissa

A premissa de Coraline expõe um ensinamento punitivo sobre o perigo da curiosidade. A protagonista concentra três características que geralmente estão presentes em várias crianças; são elas a coragem, a inquietude e a curiosidade. Ela é uma pessoa aventureira que não consegue ficar parada e precisa descobrir novos lugares, novas pessoas ou novas histórias para se entreter, como muitas crianças. Porém essa conduta pode levá-la a lugares perigosos.

“Ser corajoso significa estar com medo, muito medo, mas mesmo assim fazer o que é certo”

Ao sair por aí se aventurando, os pequenos podem se perder, conhecer pessoas mal intencionadas, se machucar ou até mesmo sofrer um acidente fatal. Tal como na vida real, Coraline se depara com o perigo ao encontrar uma outra mãe esquisita que quer convencê-la a ficar ali para sempre, ou seja, sequestrá-la.

Nesse sentido, o romance se transforma em um alerta ao pais para que eles fiquem sempre conscientes de onde seus filhos estão.

Interpretação Profunda – Mundo pré-construído

Também em relação à premissa da história, Gaiman escreveu uma situação fabular que abarca todos os seres humanos. Seguindo essa ideia, Coraline representa a mentalidade infantil humana ante a descoberta e exploração da vida. Todos nós temos uma curiosidade de conhecer o mundo e seus múltiplos caminhos. Quando a protagonista entra em uma nova casa, o evento pode ser entendido como o ser humano adentrando o novo mundo, chegando à vida.

Entretanto este mundo já existia antes de nascermos, e essa verdade é lembrada quando Coraline encontra o mundo secreto. À primeira vista, ele é perfeito, contendo tudo daquilo que ela mais gosta, ou seja, é convidativo. O fato dela explorar seu novo mundo perfeito representa o crescimento de uma pessoa, quando ela vai sendo paparicada pelo mundo, convidando-a a fazer parte dele.

“É assombroso que aquilo de que somos feitos esteja tão ligado à cama que acordamos pela manhã, e o mais assustador é a fragilidade disso”

O encanto é tão sedutor que as pessoas, tal como Coraline, quase não percebem que terão que pagar um alto preço por tudo aquilo. Para nós, o preço é nos inserirmos no sistema, e isso é simbolizado nos botões em vez de olhos. O custo para entrarmos neste mundo pré-concebido que é empurrado a nós é ficarmos cegos para o que realmente queremos, só enxergar aquilo que faz o mundo girar.

Vocês, pessoas, têm nomes. É porque vocês não sabem quem são”

No momento que Coraline tivesse os botões costurados nos olhos, a Outra Mãe seria sua deusa e manipularia todos os seus passos. O mesmo acontece conosco quando decidimos abandonar nossa visão verdadeira para pertencer ao mundo, passamos a ser controlados por um mundo que estava aqui antes de nascermos; um mundo que coíbe e impede a criação da nossa própria realidade.

“Ela vai roubar sua vida e tudo de que é feita. Vai roubar tudo que é importante para você, para que só reste névoa e vapor. Ela vai levar sua alegria. Um dia, você vai acordar sem alma e sem coração. Você será apenas casca, trapo, um sonho, a memória de algo que se perdeu”

A ideia de um universo pré-construído fica bastante clara quando a Outra Mãe começa a desfazer o mundo secreto de Coraline, revelando o pano de fundo branco onde nada existe; uma tela em branco para nós pintarmos a vida que quisermos.

Interpretação Metafórica – Limiar

Outra interpretação que se pode ter lendo Coraline se relaciona com o limiar. Gaiman parece ser uma pessoa muito interessada neste assunto, pois tanto em Sandman quanto em Stardust – O Mistério da Estrela, Coraline também apresenta questões sobre uma barreira mítica que evidencia o contraste das coisas.

O limiar de Coraline é o portal que conecta os dois mundos, o real e o secreto. Ele permite que o leitor desenvolva questões sobre o que estes dois universos representam. Como a história se concentra no ensinamento de limites para as crianças, o limiar tem o papel de evidenciar que o cenário é a mente humana, concentrado precisamente no embate entre os desejos infantis e as regras.

O mundo real de Coraline simboliza o mundo de regras, onde ela tem que aprender a se comportar como uma cidadã. Este mesmo lugar restringe e implica com a personalidade dela que quer o tempo todo explorar os ambientes desconhecidos.

Já o secreto seria o lugar fantasioso imaginado pela criança, onde ela poderia fazer e ter tudo o que seus pais nãos deixam ou não lhe dão.

“Você não entende, não é? — disse ela — Eu não quero ter tudo. Ninguém quer. Não necessariamente. Que graça existira em ter tudo o que eu sempre quis? Assim, do nada, não teria o menor sentido. E depois?”

De acordo com esse pensamento, a história ensina como é perigoso viver no universo fantástico em que todos os seus desejos se realizam: a pessoa pode virar escravo dele para sempre, o que representa a perda da identidade.

Interpretação Subliminar – Morte

Enfim chegamos à questão do além. Assim como as interpretações acima, o romance de Neil Gaiman pode ser encarado como uma tentativa de compreender o que vem após a morte. Logo de cara, o leitor é contemplado com a ideia de um mundo secreto, uma outra casa onde estão outros pais… Essa construção faz clara referência ao universo desconhecido por todos os seres humanos que ironicamente é o lugar para onde todos irão. Lá, conjectura-se, que as pessoas poderão rever seus parentes, mas eles serão diferentes de como os conhecia em vida.

“Não há nada além daqui. Tudo que ela fez foi a casa, os pisos e as pessoas da casa. Ela fez e aguardou”

Dois símbolos fazem alusão clara à morte. O primeiro são os botões negros. O leitor vai perceber que os botões são o que prendem as pessoas naquele universo, são como elas conseguem enxergá-lo, assim como também são o ponto que as conquista. Ou seja, os botões representam o momento da morte e a permanência do morto no além. Todavia o que torna essa ideia mais evidente é a referência ao costume grego de colocar dois dracmas (moeda grega) sobre os olhos do morto, para que ele consiga pagar o Caronte (barqueiro) no além e chegar até seu destino final.

“Os nomes são as primeiras coisas a desaparecer depois que a respiração cessa e o coração para de bater. Nossa memória dura mais que nossa nome”

A Outra Mãe

O outro símbolo é a Outra Mãe representando a própria Morte, como uma figura antropomórfica. É possível perceber que esta personagem é responsável por vigiar, construir e comandar o universo secreto descoberto por Coraline. Ela é quem costura os botões nos olhos, captura as pessoas (os três anjinhos são um exemplo) e as mantêm em seu mundo para sempre. Entretanto o que emancipa essa figura como a Morte é o fato dela precisar consumir novas vítimas para viver, o que é uma maneira subliminar de dizer que a Morte não existe sem os mortais.

“Ela roubou nossos corações e nossas almas, acabou com nossas vidas e então nos jogou aqui. Ela nos esqueceu na escuridão”

Quanta coisa um livrinho para criança pode dizer! A partir dessas quatro intepretações é possível perceber que Neil Gaiman não é apenas um autor que escreve histórias, mas sim um artista que presenteia o mundo com suas maravilhosas obras de arte.

Coraline pode até ser infantojuvenil, mas vai explodir a mente de muito adulto.

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Resenha

Resenha | Mistborn – O Império Final

Primeiro livro da saga evoca críticas contra o sistema ditatorial e o escravismo.

Rodrigo Roddick

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A escravidão é um tema muito recorrente dentro da fantasia porque sempre suscita questões acerca dos sistemas ditatoriais. Mistborn é uma série que leva a questão para o mundo da magia: se o que faz pessoas escravizarem outras é o poder, em um mundo fantástico, quem possui magia é ditador? O Império Final vem levantar essa e outras discussões.

Mistborn – O Império Final é o primeiro livro da série dividida em duas eras, sendo este volume correspondente a primeira. Ele foi escrito por Brandon Sanderson e lançado no Brasil pela editora LeYa em 2014. Sanderson ainda escreveu o livro Elantris pela mesma editora, a série Coração de Aço pela Aleph e o livro Skyward pela Planeta.

Infelizmente, a LeYa comunicou na semana passada que os livros do autor deixarão a casa devido à baixa vendagem nos últimos anos.

O Império Final não é apenas o começo de uma série, ele narra uma história em padrão teleológico (início, meio e fim). Neste primeiro volume, Kelsier, um homem nascido das brumas (quem possui habilidades mágicas relacionadas à queima de metais), encontra outra pessoa com esta mesma característica. Ensinando-a a usar seus poderes ao mesmo tempo que reúne aliados para sua causa, Kelsier dá início ao seu plano de derrotar o Senhor Soberano, o ditador daquela terra.

À primeira vista, o epílogo já dá a premissa que abarca a narrativa inteira. O leitor é apresentado a Kelsier, um atrevido ladrão que derrota um dos senhores de terra que faz parte do sistema ditatorial governado pelo Senhor Soberano. Já no início, Sanderson faz uma crítica ao comportamento dos marginalizados, que sempre estão receosos, afugentados, conformados ou até mesmo apáticos com a realidade que vivem.

“Não tinham queixa. Não tinham esperança. Mal ousavam pensar. Era assim que deviam ser, pois eram skaa. Eram…”

Kelsier livra os cidadãos do domínio desse senhor na tentativa de fazê-los se mexerem e buscarem a própria liberdade. Essa motivação do protagonista já indica sua meta de libertar as pessoas da escravidão, porém com a participação delas.

O autor brilhantemente imprime essa crítica para mostrar com clareza que nenhuma mudança real virá se não for pelas mãos dos oprimidos. Apesar do Senhor Soberano deter um poder mágico, Kelsier mostra que ele não é invencível e, como qualquer um, depende de recursos para manter seu império. É assim que ele vai desmistificando os medos do povo, lembrando-os que são eles o verdadeiro poder do imperador.

“Quando se lê, pode-se aprender muito, sabe?”

A ideia da escravidão está até na própria palavra “skaa”, que define os oprimidos. Ela sugere um sentido fonético para a palavra em português “escravo”. Não se pode afirmar com certeza se Sanderson pensou nisso, pois a palavra para escravo em inglês é “slave”. Entretanto pode ser que ele tenha desenvolvido essa ideia, afinal J. K. Rowling foi uma autora que fez muitos trocadilhos com verbetes em português em Harry Potter.

A reunião de vários setores, incluindo pessoas que também são como Kelsier, revela o pensamento político por trás da luta contra a ditadura. O protagonista não apenas pensa em derrotar o sistema, mas envolve a crise das classes sociais em seu esquema para garantir uma determinação coletiva que enfrente quaisquer tentativas de surgimento de um novo ditador.

“Manipulação está no âmago das nossas interações sociais”

Kelsier

O personagem Senhor Soberano é outro detalhe muito acertado em Mistborn. Durante a narrativa, alguns capítulos trazem as impressões dele antes dele se transformar no ditador temido que governa o império. Essa situação cria uma dúvida no leitor a respeito da transição de caráter dele; dúvida que é respondida brilhantemente pela trama. O autor relembra ao leitor que, em muitas vezes, a aparência de um governante ao público nem sempre corresponde à sua identidade real. Essa reflexão se aplica facilmente aos políticos.

“Até mesmo a blasfêmia o honra. Quando amaldiçoa usando o nome dessa criatura, você o reconhece como seu deus”

Outro ponto interessante do livro é um olhar mais delicado sobre as religiões. Ao criar os feruquemistas — pessoas que conseguem armazenar força, juventude e conhecimento em adereços metálicos — Sanderson faz um desfile de religiões de seu próprio universo. No meio dessas dissertações, ele imprime outra crítica sobre a ditadura, desta vez, mental. Assim o autor revela que quando uma religião é imposta a outra pessoa, ela está sendo escravizada mentalmente por quem a impôs. O mais justo é deixá-la escolher aquela que melhor lhe convier, que lhe faça sentido.

“A crença certa é como uma boa capa, penso eu. Se lhe servir bem, a manterá aquecida e segura. Se lhe cair mal, no entanto, pode sufocar”

A despeito das críticas e pensamentos sociais que o livro traz, Brandon Sanderson também foi um hábil escultor de histórias, no sentido do entretenimento mesmo, quando inventou um novo método de execução de magias.

Em Mistborn, as pessoas que possuem essas habilidades conseguem queimar metais em seu corpo e usar a combustão para realizar um determinador poder, como flutuar, prever o futuro próximo, aumentar a força e outros. Os que possuem essa característica, conseguem queimar apenas um tipo de metal, o que lhes dá apenas um tipo de poder. Mas os nascidos das brumas conseguem queimar todos.

Dessa forma, a magia dentro da história instiga o leitor a investigar sobre seu funcionamento e limitações, porém o mais interessante é que ela não resolve a trama, apenas contribui para que certos desafios sejam vencidos. O que é um ponto bastante positivo em livros fantásticos, que o diferencia, pois muitas literaturas semelhantes recorrem à magia para solucionar todos os impasses, o que fica chato.

Todavia o sentido mais interessante que se encontra na história é sobre a sanidade. Kelsier é interpretado o tempo inteiro como um louco visionário que sonha com coisas impossíveis. Brandon Sanderson não criou essa situação levianamente. Ele usou este artifício para discutir a alienação do cidadão. Ao colocar a sobriedade em um personagem apontado como louco, ele critica como a visão das pessoas está tão deturpada a ponto de considerar loucura aquilo que, na verdade, elas também almejam. Desse modo ele brinca com a superestimada “sanidade” que todo “cidadão-modelo” se orgulha de possuir.

“Pessoas sãs estão dormindo quando as brumas saem”

E por falar em alienação, Sanderson faz uma observação rápida sobre o elemento que comunica todos os setores do sistema: o dinheiro.

“Mas, o que é dinheiro? Uma representação física do conceito abstrato do esforço”

Mistborn – O Império Final é um livro que possui suas excentricidades, mas jamais esquece o real interesse de quem lê: o ser humano. Uma característica recorrente nas narrativas de Sanderson.

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