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Resenha

Resenha: “Duplo eu”

“Um dia, ela percebeu que estava carregando o peso de uma segunda pessoa. Um duplo que teve de eliminar para sobreviver”

Mylla Martins de Lima

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Duplo eu é uma recente HQ publicada pela Editora Nemo, ilustrada por Audrey Laine e escrita por Navie, que, de forma brilhante, compartilhou em seu segundo trabalho, seus melhores e piores momentos na luta contra a obesidade.

Mentindo para si mesma e levando as pessoas próximas a crerem que, de fato, ela estava bem com sua aparência, Navie abre o seu coração e mostra a importância da transparência. Por se tratar de algo fora dos padrões impostos pela sociedade, a personagem encara duras críticas até mesmo de profissionais da saúde, o que dificulta a sua adaptação aos olhares alheios, culpando-se por ser quem realmente é.

“Que sentimento infernal, esse de ter a impressão de nunca ser boa o suficiente. Está constantemente nas nossas cabeças, como um diabinho que nos sussurra: ‘Você é uma merda’. Mas isso não nos impede de sorrir. Nem de fingir que está tudo bem. Manter as aparências é muito cansativo. Senti a necessidade de escrever este livro para mostrar a face oculta de um aparente bem-estar. Parece que somos nosso próprio inimigo. Parece que a gente tem que se cuidar, e que a bondade começa pelo olhar que lançamos a nós mesmos. Parece que precisamos comer cinco frutas e legumes por dia. Parece que é preciso ouvir o próprio corpo. Parece que não podemos ficar ao sabor do vento. Parece que precisamos perdoar. Parece que é preciso exercitar. Parece que é preciso se dar prazer. Parece que a vida é bela. Parece também que ela é dura. Parece que tudo em excesso faz mal, e que fumar mata. Parece que a gente está bem quando nasce e que todo o resto é um monte de besteira que a sociedade tenta impor. Parece que a gente faz o que pode. Parece que é beleza interior que conta. Parece que vai dar certo…Parece. Parece. Parece. Mas não é.”

Ao ser diagnosticada com “duplo eu”, uma segunda identidade que a conforta alimentando-a em situações difíceis, ela se sente mais aliviada por não ter de assumir toda essa culpa do desequilíbrio alimentar sozinha. Ainda com o peso na consciência, Navie não se dá por vencida e começa a se exercitar até que este duplo se desfaça, e ela consiga seu sonhado resultado.

Impossível não se emocionar com a história de vida da autora, acompanhada de uma ilustração simples e de sensibilidade incomum. Livro de importância maior para quem busca aceitação do próprio corpo, mas também excelente leitura para quem gosta de ser solícito à terceiros ou busca um belíssimo drama.