Connect with us

Livros

Resenha: “Mundo em Caos”

Imagine um mundo em que os pensamentos dos homens fossem espalhados por todos os lados…

Rodrigo Roddick

Published

on

Imagine um mundo em que os pensamentos dos homens fossem espalhados por todos os lados… Só poderia ser um caos, não é mesmo? É justamente esta discussão que Mundo em Caos vai propor. Escrito por Patrick Ness e publicado no Reino Unido em 2008, o romance é o novo lançamento da Intrínseca no Brasil. A narrativa ilustra perfeitamente como seria o mundo dominado pela voz do homem, o que, na verdade, acontece desde o surgimento do patriarcado.

Capa em perspectiva de Mundo em Caos

O livro narra a história de algumas colônias de seres humanos que chegam a um planeta chamado de Novo Mundo. O motivo deles terem deixado a Terra é explicado em um conto extra. Neste lugar recém-descoberto, um germe mata todas as mulheres e metade da população masculina, além de permitir que os pensamentos dos homens sejam escutados por todos os habitantes. Tudo leva a crer que quem liberou esses germes foram os Spackles – os nativos – na grande guerra entre eles e os humanos.

Todd, o personagem principal, está a um mês de se tornar um homem e, como ele é o último garoto da cidade, há muita expectativa para isso acontecer. Esta cidade foi a última que sobrou. Nela, os meninos se tornam homens aos 13 anos (que na verdade é aos 14 porque o ano para eles é contado com 13 meses). Tudo começa a desandar quando Todd escuta um silêncio nas matas. Em um mundo dominado pelo Ruído – como é chamado o ensurdecedor mundo de palavras – o silêncio se destaca. Se todos os homens são barulhentos, o silêncio só podia significar uma mulher. A única.

Sinopse de Mundo em Caos na contracapa

Mundo em Caos apresenta logo de início uma urgente discussão social. O mundo governado pela voz do homem é um caos, pois eles só pensam em guerra e destruição. Enquanto a mulher for um silêncio, não haverá evolução real. O Ruído então representa a sociedade que nos acerca, uma sociedade criada por homens e para homens.

Este mundo masculino é apresentado de maneira muito agressiva e autoritária, incorporando elementos militares e excluindo elementos educacionais. O conhecimento é a arma mais poderosa que existe, por isso que, não por acaso, o prefeito mandou incinerar todos os livros da cidade. A maioria da população é ignorante e semianalfabeta.

O prefeito assume o papel de ditador, sua vontade é lei. E ele quer dominar o planeta inteiro. Para isso acontecer, é claro, ele precisa dominar cada um individualmente, e isso só pode ser feito se o povo não tiver instrução para questioná-lo. A religião é utilizada, no livro, como um instrumento de dominação, representada pelo padre Aaron, um lunático que serve aos propósitos do prefeito. 

“Uma mente inteligente é amiga do diabo”

A primeira ação de um sistema ditatorial é eliminar a individualidade. Se você é o coletivo, seus interesses pessoais não são relevantes. Todd explicita a dificuldade de se viver em um mundo assim quando explica o mantra que todos os homens devem fazer para preservar suas identidades, senão ela é perdida.

“Você fecha os olhos e tenta ser o mais claro e calmo que der e fala para você mesmo quem você é, porque é isso que a gente perde no meio de tanto Ruído”

Até aqui é possível identificar como o autor está discutindo o mundo em que vivemos, onde nossa liberdade de expressão e direito a individualidade o tempo todo são ameaçadas pelo domínio de homens que só sabem pensar em riqueza, guerra e poder. Ele associa essa perda de identidade à necessidade incessante que o sistema capitalista nos impõe de sermos máquinas. E olha quem Patrick Ness responsabiliza por esse caos? Os homens.

“Já a cidade sabe tudo sobre você e ainda quer saber mais, quer torturar você com o que ela sabe até não sobrar nada”

O Ruído pode ser interpretado de várias maneiras. Além de significar a voz do homem que impera o mundo, ele também representa o mundo digital das mídias sociais. Nelas ninguém se escuta e é quase impossível manter a identidade no caótico ambiente poluído pelo excesso de informação. O livro dá um pequeno indicativo disso quando explicita que o Ruído é um mundo falso, que não representa a verdade, mas sim o que as pessoas desejam que seja verdade. Não é uma perfeita definição do cenário virtual?

“O Ruído não é verdade. O Ruído é o que os homens querem que seja verdade”

Diagramação de Mundo em Caos ilustrando o Ruído

Além da notável luta feminista, Mundo em Caos também aborda, de forma sútil – mas não tão suave assim – a mesma dialética de Avatar: a descoberta, exploração e colonização de um Novo Mundo. Não é por acaso que este novo planeta é chamado assim pelos colonos, porque foi este o título atribuído às Américas quando elas foram “descobertas”.

O leitor consegue perceber essa discussão quando descobre que os Spackles, na verdade, não entraram em guerra nenhuma contra os humanos. Estes que chegaram destruindo e matando todos os nativos que encontravam pela frente com a intenção de se apossar de suas terras. Não foi exatamente a mesma coisa que aconteceu aos índios em todo o continente americano? Os Spackles, inclusive, são descritos como selvagens, exatamente a mesma leitura que os colonos europeus fizeram dos índios. 

Esta conduta, predominantemente masculina, de guerrear combina perfeitamente com o tema do livro que está discutindo justamente o caótico mundo projetado e governado pelo homem. Inclusive há uma citação que define bem o pensamento do autor.

“O Ruído é o homem sem filtro, e, sem filtro, o homem é só caos em movimento”

Detalhe da parte interna da capa de Mundo em Caos

Mesmo com este conteúdo bastante atual, a narrativa, da metade até boa parte do final, se desenvolve devagar; entretanto a maneira como Patrick escreve nos faz aceitar com bons olhos esta lentidão. Ele não chega a ser poético, mas é direto, conciso e, por vezes, engraçado. 

Mundo em Caos não é apenas uma leitura prazerosa, mas principalmente um convite ao debate mais urgente de nossa sociedade: não dá mais para aceitar o poder do mundo centralizado na mão do homem. É por causa dessa concentração de poder que o mundo é um caos.

Mundo em Caos

9.3

Nota

9.3/10
Advertisement
Comments

Livros

J.K. Rowling culpa leitores por seu Tweet “transfóbico”

J.K. Rowling voltou ao Twitter no fim de semana e respondeu às críticas sobre seu controverso tweet de dezembro que muitos consideravam transfóbico.

Edi

Published

on

By

J.K. Rowling voltou ao Twitter no fim de semana e respondeu às críticas sobre seu controverso tweet de dezembro que muitos consideravam transfóbico.

Depois de ficar quieta por mais de um mês, a conta de Rowling no Twitter voltou a esquentar no sábado, quando ela respondeu a um vídeo comovente da filha de Patton Oswalt terminando a série Harry Potter. Horas depois, ela anunciou que havia terminado de escrever o Cormoran Strike Book 5.

Então, no domingo de manhã, Rowling postou a seguinte citação da filósofa Hannah Arendt.

“… se a falsificação de uma palavra … é acreditada por tantas pessoas, a tarefa do historiador não é mais descobrir uma falsificação. A falsificação está sendo propagada. Esse fato é mais importante do que a circunstância de ser uma falsificação” Hannah Arendt, Origens do totalitarismo

Embora Rowling não compartilhe diretamente o motivo pelo qual ela postou a citação, parece ser uma resposta ao seu tweet de Maya Forstater em dezembro passado, que abalou os fãs por causa de seu ponto de vista aparentemente transfóbico.

Aqui, Rowling parece estar implicando que os críticos distorceram suas palavras e que o público aceitou algo incorreto como verdadeiro.

Dadas as críticas ferozes que cercaram o tweet no mês passado e a forte presença de Rowling no Twitter nos últimos anos, muitos esperavam que a autora fizesse algum tipo de declaração depois.

Demorou muito mais do que esperávamos, mas agora temos: ela não está se desculpando e acredita que o ponto de vista do público está errado.

Mundo em Caos

9.3

Nota

9.3/10
Continue Reading

Livros

Férias de Verão: 10 filmes que vieram de livros e você não sabia

Prova de que os livros muitas vezes antecedem as produções milionárias.

Mylla Martins de Lima

Published

on

A adaptação de uma obra literária para o cinema é um desafio imenso, até porque nem tudo que é atrativo em um funciona com o outro. Mas existem histórias tão bem repassadas para as grandes telas que ninguém diz que o roteiro saiu de uma primeira ideia. Conheça filmes que saíram dos livros e você talvez não saiba.

1. Uma dobra no tempo

A ficção científica escrita por Madeleine L’engle em 1962, chegou às livrarias brasileiras em 2018 pela DarkSide Books com uma HQ magnífia do primeiro volume e pela Harper Collins Brasil com livros em formato tradicional da trilogia completa.

No mesmo ano, a Disney contempla seus fãs com um filme cheio de magia e grandes nomes como Oprah Winfrey e Reise Witherspoon.

2. Alita: Anjo de Combate

Muito antes do filme de ação futurista que chegou nos cinemas em fevereiro de 2019, o thriller já fazia sucesso no formato mangá. Este foi escrito em 1990 por Yukito Kishiro e finalizado em 1995 com um total de nove volumes.

Aqui no Brasil, o mangá ainda é comercializado pela editora JBC.

3. Garota Exemplar

O suspense premiado pelo Critic’s Choice Awards por melhor roteiro adaptado em 2015 também surgiu do best-seller de Gillian Flyn, publicado em 2012 e impresso pela editora Intrínseca. O mesmo já havia rendido prêmios à autora, como o Edgar de melhor romance e o Goodreads Choice Awards best of the best e melhor estreia de autor.

4. Blade Runer

Falando em adaptações, Blade Runer foi inspirado em Androids sonham com ovelhas elétricas? publicado em 1968 e escrito pelo mestre da ficção científica Philip K. Dicks. O livro foi trazido para o Brasil pela editora Aleph.

Este é tão amado no meio cinematográfico que foi ao ar em três edições, sendo Blade Runer – o Caçador de Androides, de 1982, Blade Runer 2049, 2017, e Blade Runer Black out 2022 no mesmo ano.

5. Mogli: O menino lobo

Esse é conhecido tanto como uma clássica animação dos estúdios Disney de 1967, quanto o live action de 2016. Mas o que poucos sabem é que Mogli é um dos seis contos do livro The Jungle Book (Os Livros da Selva) escrito em 1894 por Rudyard Kipling e ilustrado pelo seu pai, John Lockwood Kipling.

Aqui no Brasil, a obra foi trazida pela editora Zahar.

6. Shrek

Pois é! Muito antes da primeira vez do Ogro mais fofo do cinema aparecer em alguma tela, 2001, existiu um livro publicado em 1990, escrito e ilustrado por William Steig. A estética dos personagens nas páginas são ainda mais bizarras e divertidas.

O livro é publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letrinhas.

7. JUMANJI

O livro de fantasia infantil escrito e ilustrado por Chris Van Allsburg foi originalmente publicado em 1981, e sua primeira adaptação cinematográfica foi em 1995. Anos após o primeiro filme, agora em 2017, a continuação da franquia voltou aos cinemas e, com o seu sucesso, a editora DarkSide Books desenterra o livro com uma edição capa dura e muito próxima da original.

O terceiro filme estreia esse mês aqui no Brasil.

8. O exorcista

O glorioso filme de 1974, dirigido por William Friedkin e detentor do Oscar nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Mixagem de Som, também teve suas origens nas páginas de um livro. O romance assustador foi publicado em 1971, escrito por William Blatty, trazido pela Harper Collins Brasil, e ainda esse, tem como inspiração um segundo de nome Exorcismo, escrito por Thomas B. Allen, um historiador americano que baseou-se em documentos do primeiro relato oficial de exorcismo, publicado pela DarkSide Books.

9. Psicose

Um dos sucessos de Hitchcock, o clássico suspense Psicose, tem suas raízes literárias. A obra foi escrita por Robert Bloch em 1959, publicada pela DarkSide Books aqui no Brasil, e já recebeu duas adaptações nas telonas.

10. Hellraiser

Hellraiser é um dos exemplos que o autor do livro é, também, o roteirista. Clive Barker publicou a obra em 1986 dando origem ao filme em 1987, sequenciando mais nove filmes da mesma franquia.

A DarkSide Books tem uma excelente edição, com capa de couro e detalhes dourados.

Mundo em Caos

9.3

Nota

9.3/10
Continue Reading

Livros

Christopher Tolkien, filho de JRR Tolkien, morre aos 95 anos

A Tokien Society deu a notícia hoje mais cedo para confirmar que o jovem de 95 anos faleceu.

Edi

Published

on

By

Hoje, o fandom da Terra-média lamentou a perda de um de seus maiores campeões. Há pouco tempo notificais foram divulgadas confirmando a morte de Christopher Tokien, filho de JRR Tolkien, que escreveu O Senhor dos Anéis.

A Tokien Society deu a notícia hoje mais cedo para confirmar que o jovem de 95 anos faleceu.

Em 1975, Christopher Tolkien deixou sua bolsa de estudos no New College, Oxford, para editar o legendário legado de seu falecido pai. A perspectiva era assustadora. O medievalista de 50 anos se viu confrontado com 70 caixas de obras não publicadas. Milhares de páginas de anotações, fragmentos e poemas, algumas datadas de mais de seis décadas, foram colocadas ao acaso nas caixas. 

Os textos manuscritos foram rabiscados às pressas a lápis e anotados com um amontoado de notas e correções. Uma história inicial foi redigida em um caderno de exercícios do ensino médio.

Uma grande parte do arquivo dizia respeito à história do mundo ficcional de JRR Tolkien, a Terra-média. As anotações continham uma imagem mais ampla de um universo, apenas sugerido nos dois romances mais vendidos de Tolkien, O Hobbit (1937) e O Senhor dos Anéis (1954-55). 

Tolkien pretendia trazer essa imagem à tona em uma longa e solene história que remonta à própria criação, mas ele morreu antes de concluir uma versão final e coerente.

Christopher decidiu editar esse livro, publicado em 1977 como O Silmarillion. Ele então se voltou para outro projeto extraído dos papéis de seu pai, e depois outro – finalmente publicando poesia, obras acadêmicas, ficção e uma história de 12 volumes da criação da Terra-média. The Fall of Gondolin, publicado em agosto, é o 25º livro póstumo que Christopher Tolkien produziu nos arquivos de seu pai.

Uma nova série produzida pelo Amazon esta chegando antes que o filho de Tolkien pudesse contempla-la.

Mundo em Caos

9.3

Nota

9.3/10
Continue Reading

Parceiros Editorias

error: Conteúdo Protegido