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Resenha

Resenha: “O Desaparecimento de Josef Mengele”

Olivier Guez envereda o leitor na odisseia da fuga de um dos maiores assassinos de Auschwitz.

Thaís Rossi

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O Desaparecimento de Josef Mengele é uma história de não ficção escrita pelo jornalista francês Olivier Guez e publicada pela editora Intrínseca em julho deste ano. O livro recebeu o prêmio Prix Ranaudot em 2017. O escritor também é responsável pelas obras “L’impossible retour” e pelo roteiro do filme Fritz Bauer, que lhe rendeu um prêmio alemão de melhor roteirista.

Antes de começar essa resenha é preciso explicar quem foi Josef Mengele.

O “Anjo da Morte”, como era chamado, era formado em medicina e por isso foi contratado em 1937 como pesquisador assistente pelo Instituto de Hereditariedade, Biologia e Pureza Racial da Universidade de Frankfurt. Uma vez lá, Josef se tornou pupilo de Otmar Freiherr von Verschuer, cientista especialmente interessado em estudos com gêmeos — e defensor fervoroso das políticas de “higiene racial” instituídas por Hitler.

Foi recrutado pela SS (Schutzstaffel) em 1938 devido à iminência da guerra, quando lutou em algumas batalhas. Ele só recebeu a incumbência de trabalhar em Auschwitz em 1943. Ao chegar no campo, tornou-se responsável pelas revistas que decidiam quem ia para o campo de trabalho e quem ia direto para as plataformas de morte.

“As câmaras de gás funcionavam a todo vapor; Irene e Josef banhavam-se no Sola. A SS queimava homens, mulheres e crianças vivos nos fossos; Irene e Josef colhiam mirtilos. As chamas irrompiam dos crematórios; Irene chupava Josef e Josef possuía Irene”

Doutor em medicina, antropologia e genética, Josef Mengele se envolveu no estudo da melhoria da “raça ariana” por meio da eliminação dos agentes que ameaçassem empobrecê-la. Utilizou-se de castração em alguns casos e em outros simplesmente exterminou. Esses agentes eram negros, homossexuais, ciganos, indivíduos com qualquer tipo de deformidade e, evidentemente, judeus.

Assim como seu mentor, Mengele se interessava pela genética de gêmeos – em grande parte crianças – e com frequência separava os pares e matava um, para ver como o outro se sentiria, além de realizar experimentos bizarros que iam de arrancar olhos a introduzir fluidos corporais de um gêmeo no cérebro do outro.

“Bem-humorado, seu semblante alegre mascara sua crueldade. Encontrar tanto cinismo surpreende, mesmo no campo… Doutor Mengele é um nome mágico… A pessoa que todo mundo mais teme no campo. Bastar ouvir sua voz e todos tremem”

Não demorou muito para que Josef se tornasse o médico chefe do campo, concedendo-lhe a chance de expandir seu espaço, o temido bloco 10 de Birkenau, e seus estudos que passaram a incluir anões, gigantes, ou qualquer pessoa com deformidade e deficiência física.

Quando os soviéticos tomaram Auschwitz em janeiro de 1945, o “Anjo da Morte” já havia escapado. Josef Mengele conseguiu fugir das forças soviéticas e norte-americanas com caixas e mais caixas contendo suas pesquisas por territórios alemães ocupados. Por causa disso, trabalhou em fazendas até chegar a Gênova em 1949. De lá, o protagonista fugiu para a Argentina, onde O Desaparecimento de Josef Mengele começa a contar sua sina.

 “Todo mundo lucrou com o sistema, até ocorrerem as destruições dos últimos anos de guerra. Ninguém protestava quando os Judeus ajoelhados limpavam as calçadas, e ninguém abriu a boca quando eles desapareceram num piscar de olhos. Se o planeta não tivesse se unido contra a Alemanha, o nazismo continuaria no poder”

Na época, a Argentina era um grande refúgio nazista. Escondido atrás de vários pseudônimos, o ex-médico dos horrores acreditava em começar uma nova vida em Buenos Aires. Embora tenha chegado quase miserável no país, ele conseguiu se reerguer ao realizar abortos clandestinos em filhas e amantes de magnatas, através de aliados nazistas fanáticos que conquistou usando a fama de seu nome e a influência da sua família, que era respeitada e amada na Alemanha.

Após a alguns anos prósperos que resultaram na expansão do negócio de máquinas agrícolas de sua família para a América do Sul, as acusações das atrocidades cometidas em Auschwitz começam a vir à tona e Josef foi obrigado a fugir para o Paraguai. Logo depois ele vem parar aqui, no Brasil, onde viveu por anos em uma vida miserável, se comparada aos seus anos de luxo, até sua morte intrigante em 1979.

“Mengele, o funcionário modelo das usinas da morte, o assassino de Atenas, Roma, Jerusalém, pensava ter escapado do castigo. Mas ei-lo entregue à própria sorte, escravo da própria existência, esgotado, moderno Caim vagando pelo Brasil. Começa agora a descida aos infernos de Mengele”

O primeiro ponto a ser observado na história é a facilidade de Josef em cobrir seu rastro, mesmo sendo um dos homens mais procurados do mundo. Com uma leitura objetiva, porém cheia de detalhes, Guez nos mostra que o dinheiro e as convicções ideológicas eram maiores e mais importantes do que fazer justiça pelas milhares de vidas ceifadas pela raiz racista e elitista do Nazismo. Para os aliados, Josef era um anjo ariano, um herói que devia ser protegido a qualquer custo, mesmo que isso destruísse suas vidas.

Apesar de ser arrogante e intragável, Josef conquistou um apanhado de velhos nazistas ambiciosos. Eles ficavam à sua disposição, prontos para servirem de escudo humano para o médico, caso fosse necessário.

Durante a leitura é possível também perceber o cuidado e a sensibilidade do autor ao descrever os sentimentos de Josef Mengele; de sua presunção até os momentos de pavor. Embora definhasse no medo, nunca sentiu remorso, não desenvolveu um pingo de compaixão sequer por suas vítimas, ou pelos seus aliados. Tudo o que fazia era para benefício próprio e em nome de suas convicções. Ser um fugitivo no fundo do poço não melhorou em nada seu caráter elitista e preconceituoso. Josef sabia o que havia feito e sentia orgulho disso.

Em algumas partes é necessário fazer pausas, pois o detalhamento do autor na descrição das situações vividas pelas vítimas causa um impacto dolorido no leitor, porém é necessário.

Diante dos relatos, é possível perceber que, embora o médico tenha passado por um inferno mental e uma vida solitária e fria, tudo isso não foi o suficiente para que ele pagasse por suas atrocidades. Os sobreviventes do seu banho de sangue viveram anos conscientes que seu torturador ficou livre por aí, enquanto eles tiveram que lidar com os rastros de horror deixados pelo seu bisturi.

Olivier Guez deixou bem evidente que, apesar de nunca ter sido pego e respondido por seus crimes, o médico viveu sua própria reclusão às sombras da sociedade, vivendo em um inferno repleto de fantasmas passados e uma paranoia eterna, sufocado pelo seu temor de ser preso. A maneira como o autor desconstrói a imagem autoritária de Mengele e vai nos mostrando sua vulnerabilidade deixa a leitura cada vez mais interessante e faz com que queiramos devorar a história para saber até onde vai a humanidade do “Anjo da Morte”.

“Europa, vale de lágrimas.
Europa, necrópole de uma civilização aniquilada por Mengele, e os seguidores da Ordem Negra da caveira, ponta envenenada de uma flecha desferida em 1914″

 

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Resenha

Resenha | A Mais Bela de Todas

Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?

Rodrigo Roddick

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Beleza. Para muitos, relativa, para outros, se divide em exterior e interior, mas para a Rainha, é essencial. A Mais Bela de Todas não conta apenas a história da Rainha que foi chamada de “Má”, mas sim promove uma investigação sobre a opressão da beleza feminina.

“Calma, querida, eu sou uma Rainha, não uma bruxa”

Escrita por Serena Valentino, o livro faz parte de uma série que conta a história particular dos personagens da Disney com duas metades, em sua maioria vilões. Ele foi publicado no Brasil pela Universo dos Livros.

A narrativa começa com o Rei escolhendo a Rainha entre os plebeus. Logo de cara a autora já vai embalando o tema ao colocar a Rainha como filha de um artesão de espelhos, o melhor que já existiu, e sendo escolhida pelo Rei devido a sua beleza, que a princípio ela não acreditava ter.

A discussão sobre o machismo emprenhando desde o início dos tempos começa a aparecer na história devido à ausência do nome da Rainha. Ela é chamada o tempo inteiro assim, mas as outras mulheres do reino possuem nomes, como a Branca de Neve e a dama de companhia Verona. Até as três irmãs esquisitas do Rei possuem nome, menos ela e seu marido.

O fato da Rainha não ter nome evidencia a falta de identidade que uma mulher devia ter naquela época. Logo, o título de rainha sobressaía ao nome dela porque ela era a esposa de um Rei. No caso dele, a ausência de seu nome é para reafirmar a autoridade masculina daquele reino. Em outras palavras, a Rainha só era importante, só era alguém, porque era rainha.

“Ela não podia compartilhar seus pesadelos com ninguém. Já havia sido difícil o bastante revelar ao Rei sua visão. Se fosse comentá-la com alguém a quem confiasse menos, tinha certeza de que iriam acusá-la de bruxaria, e a queimaria na fogueira”

A Rainha ter sido escolhida por sua beleza inicia a obsessiva e opressiva manutenção da mesma. Esta situação carrega uma crítica, pois o que qualificou a mulher para ser rainha foi o fato dela ser bela, mais nada. Então isso sugere que se a mulher não possui beleza não serve para se casar, ainda mais com um rei.

Outro fator que oprimia a Rainha era que ela considerava sua mãe uma mulher lindíssima, a mais bonita que já havia visto, e achava que não tinha como superar sua beleza. Entretanto a Rainha era muito parecida com a mãe e o leitor pode observar isso nas sinalizações dos outros personagens. 

A beleza, o tempo inteiro, marca a preocupação da Rainha, pois como ela sustentava este título e como ela fora escolhida por sua beleza, devia ser ela então a mais bela do reino. Ninguém devia ser mais formosa que ela.

A Rainha não era Má, mas sim uma pessoa meiga. Ela amava Branca de Neve e a criava como se fosse sua filha, assim como adorava a companhia de Verona, a quem tinha como uma irmã. Mas a necessidade de ser a mais bela de todas começa a colocá-la contra sua família. Essa luta é simbolizada pelo espelho. O Rei deu de presente à esposa um relicário produzido pelo pai dela como presente de casamento, mas a Rainha não suportava ver o artefato tanto por ele lembrá-la o pai como pelo vulto que aparecia nele. O vulto é chamado de O Escravo da Rainha.

A chegada das três irmãs estranhas do Rei maximiza a preocupação da Rainha com a beleza. É por causa delas que a Rainha começa a se envolver com a magia e assim aprende o jeito certo de chamar o Escravo no espelho. Quando isso acontece, seu tormento toma forma, pois a Rainha ritualisticamente começa a consultá-lo para se autoafirmar a mais bela de todas.

“Diga-me, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?”

A Rainha acreditava que o Escravo no espelho estava julgando sua aparência, mas na verdade a beleza que ele apontava era a de seu coração.

O conjunto de magia da Rainha envolvia um livro de feitiços. É interessante a sutil crítica que autora coloca. Naquela época as mulheres tinham apenas que ser belas, não cultas, por isso os livros eram considerados inimigos das mulheres de bem. O fato do livro de feitiços ser o catalizador do sofrimento da Rainha marca a mensagem machista de que quem precisa ter conhecimento é o homem. 

Até o momento o espelho respondia que a Rainha era a mais bela, entretanto quando ela começou a ser tomada pela inveja da beleza de Verona e da Branca de Neve, o espelho muda sua resposta. A Rainha chega a mandar Verona para fora do reino para não ser ameaçada por sua beleza. Nessa época, ela ainda sustentava um pouco de autocontrole, por isso preferiu esse método a matar a mulher que considerava irmã.

Mais tarde, seu coração vai ficando sombrio e ela sucumbe ao tormento de ser sempre a mais bela de todas. Com isso Branca de Neve vai crescendo e assume o título de mais bela, o que enfurece a Rainha a tal ponto, que ela exige ao Caçador a morte da filha.

Como já sabemos, o plano falha, então ela mesma se incumbe da tarefa. A Rainha se transforma em uma velha horrorosa e leva uma maçã envenenada para Branca de Neve, que a come e dorme para sempre. Quando a Rainha vê seu plano ser desfeito pelo beijo do Príncipe, ela foge dos anões e chega a uma encruzilhada. As três irmãs falam com ela que se ela voltar para floresta pode ser salva, pois elas têm como influenciar a natureza, mas se for pela colina, sua morte será certa. 

A Rainha escolhe ir para colina como punição pelos crimes que cometeu e porque está tão atormentada para ser sempre a mais bela de todas que não consegue mais ver alternativa para voltar a ser aquela meiga mulher de antes. 

Com toda a sensibilidade poética que um livro de contos de fadas precisa ter, Serena consegue tecer a história com palavras cuidadosamente escolhidas. A sensação de estar vivendo um conto de fadas é tão grande que parece que você nem está lendo. Esse é um ponto superpositivo do livro.

A capa com a metade do rosto belo da Rainha e a contracapa com a outra metade velha é a marca registrada da série escrita por Serena e envelopa bem esta história de um universo tão conhecido que é o mundo encantado Disney. Entretanto a diagramação podia ter sido melhor trabalhada. Estamos com um livro de conto de fadas em mãos, seria maravilhoso se ele tivesse aquela aparência como nos desenhos da Disney. No entanto, a diagramação não é algo que atrapalhe. Ela supre às necessidades de uma leitura confortável.

A Mais Bela de Todas é um livro que vem nos ensinar que beleza não é apenas aquilo que a gente vê, mas aquilo que a gente pratica.

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HQs

Resenha | Daytripper

Se morremos a cada dia, quando teremos tempo para viver?

Rodrigo Roddick

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O que você faria se não precisasse fazer o que está fazendo agora? Agora. Uma palavrinha pequena que muitos valorizam, mas poucos entendem seu valor ou sequer exercem-no. Daytripper vem contar como a “nossa vida inteira” é feita de vidas e mortes, de como cada momento vivido pode ser o último.

Dos premiados irmãos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá – que ficou mais evidente agora devido à série The Umbrella AcademyDaytripper foi publicada pela primeira vez em 2010 pela DC Comics através do selo Vertigo. Aqui no Brasil, a Panini é a responsável por imprimir as edições da DC. Logo no ano seguinte, a obra levou três importantes prêmios: o Eisner, na categoria Melhor série limitada; Harvey, em Melhor edição única; Eagle, em Novo comicbook favorito.

Daytripper percorre a vida Brás de Oliva Domingos, um escritor de obituários que sonhava em escrever um romance de sucesso. Todo o enredo tem como palco nosso maravilhoso país. O livro é separado em nove capítulos que recorta momentos distintos da vida de Brás intercalados fora de ordem cronológica e revelando suas diferentes idades. Ao final de cada capítulo, Brás morre de maneira diferente, e como nos desenhos animados, a história continua como se ele não tivesse morrido. 

Esta é a primeira coisa que chama atenção do leitor porque revela o tema da história. O dia a dia que nos mata. A discussão que a HQ propõe é fazer o leitor levar sua atenção ao que lhe faz viver de verdade. A vida não é esta rotina urbana que os adultos sustentam com afinco, a vida é muito mais e muito menos que isso. A vida é viver. Mas, dentre os milhares de significados que podemos dar à vida, viver é fazer aquilo que amamos. E quanto tempo perdemos para fazer o que a gente quer? Quanto tempo levamos para apenas descobrir o que a gente ama?

Viver o momento não é apenas uma questão de estar presente em um lugar. Isso você pode conseguir indo em um hospital. A diferença no viver está no optar por estar ali e querer gastar seu tempo naquele momento. E o mais interessante é que sequer damos importância para a palavra tempo quando estamos realmente vivendo. Porque viver é infinito em cada momento.

Além de relembrar com bastante propriedade aquilo que falta para preencher nosso vazio (viver?), Daytripper propõe uma maneira da pessoa estar no constante movimento da vida: sonhar. Não se engane. Mesmo analisando planilhas no décimo andar de uma torre empresarial ou deitado em uma rede ao sol brilhante de uma ilha, todos nós temos sonhos. Todos nós queremos realizar esses sonhos. Os sonhos são a nossa vida. São eles que realizamos (ou deveríamos) a cada batida do coração.

Impossível não construir um paralelo dessa dialética com Sandman, que trata das várias manifestações do sonho. Ambas as obras ressaltam que tentar realizar os sonhos, correr atrás deles e realizá-los é o que significa viver para seres como nós, que possui a capacidade de raciocinar.

O trabalho gráfico e as cores acompanham a linha de pensamento da história, pois os recortes de quadro a quadro focalizam expressões necessárias para apoiar o tema. O tom meio “desbotado” das cores faz o leitor perceber em quais momentos a vida de Brás era sem graça e em quais ela foi colorida

Os gêmeos souberam trabalhar em equipe, pois o desenho de Bá dava às palavras de Moon a densidade que elas evocavam. Assim como há quadros em que o holofote está nas palavras, também há outros em que Bá continua a narrativa sem dizer uma palavra sequer, apenas com seus traços.

Sonhar é viver. Viver é agora. Não há nada para nós no futuro, exceto a morte certa.

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Resenha

Resenha | Para Toda Eternidade

Vida é a dádiva da morte: assim vivemos o presente.

Rodrigo Roddick

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A Morte não é uma entidade. A morte não é assustadora. E, ainda, a morte jamais foi vilã ou contrária à humanidade. A morte é apenas um ponto crucial na transformação por qual toda forma de vida passa. Para Toda Eternidade vem mostrar ao público, através de culturas distintas sobre funerais, como esta palavra que assombra o ser humano em particular é, na verdade, um presente.

Publicado no Brasil pela Darskside Books, o livro Para Toda Eternidade compreende-se em várias viagens ao redor do globo sobre diferentes maneiras de conduzir um funeral adequado e respeitoso ao falecido. A autora Caitlin Doughty é também uma agente funerária e, através de seu canal no Youtube, fala sobre o tema morte com um incomum humor descontraído. O volume contém ilustrações de Landis Blair, que dá traços e contornos à imaginação do leitor.

É possível observar como Caitlin trata a morte com naturalidade nas primeiras linhas de seu livro. Gisele Adissi (que é presidente da Sincep e Assembra – Sindicato e Associação dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, além de cofundadora do projeto “Vamos falar sobre luto?”) ao prefaciá-lo, contribui para destacar o tom que a narrativa vai seguir até sua conclusão.

“Sonho com o dia que frases como ‘ah, esse foi o melhor funeral da minha vida’ serão corriqueiras” inicia Gisele.

A partir disso, a autora começa provocando o leitor com uma diferente cremação: a única pira comunitária nos Estados Unidos e no mundo ocidental. Trata-se de um costume praticado em Crestone, no Colorado, que convida os parentes e familiares a assistir à cremação do ente falecido ao ar livre no meio de um círculo formado por lenhas. 

A simplicidade do processo pode chocar o leitor, mas traz mais naturalidade ao funeral, além de dar mais tempo aos parentes para se despedir do ente querido. Revelando esta prática um tanto mais artesanal, Caitlin critica os processos industriais, como eles costumam cobrar valores exorbitantes por apenas algumas horas e como ainda colocam os familiares a metros de distância do falecido.

“Na minha função de agente funerária eu descobri que tanto limpar o corpo quanto passar tempo com ele exercem um papel poderoso no processamento da dor. Isso ajuda as pessoas a verem o cadáver não como um objeto amaldiçoado, mas como um belo receptáculo que já abrigou seu ente querido”

Do outro lado do globo, a autora aumenta a provocação. Em uma das ilhas da Indonésia, os nativos celebram a morte de outra maneira. Celebrar é a palavra, pois em vez de chorar pelo falecimento do parente, as pessoas mumificam seus mortos e após algum tempo eles o retiram do túmulo e o vestem com suas roupas

Ritual Ma’nene na Indonésia | Foto: reprodução/Darkside Books

Na cultura deles, quando a pessoa morre, ela não está morta de fato, apenas doente. A morte só vai ocorrer quando eles realizarem um ritual em que alguns animais são sacrificados, geralmente porcos. Só então, junto da morte do animal, a alma se desliga do corpo cadavérico e morre. Inclusive, levar um porco para o funeral é sinal de respeito à família.

Entre o desenterro e o funeral, os familiares levam o morto para casa ou o colocam em uma “casa-túmulo” e o tratam como se estivessem vivo. Eles trocam suas roupas, levam comida e até conversam com os falecidos, acreditando que isso é uma forma de se conectar aos seus espíritos. Todo esse tempo é compreendido como o ritual Ma’nene.

Para Toda Eternidade perpassa as câmaras funerárias modernas do Japão e visita as ñatitas na Bolívia. Desse modo, Caitlin Doughty vai desmistificando a personagem que apavora muitas pessoas no mundo ocidental. Além disso, ela explica através de sua experiência nessas viagens como os funerais em que o cadáver é aberto e seus órgãos são expostos para urubus comerem são mais naturais que colocá-lo em um caixão debaixo da terra, como geralmente fazemos por aqui.

A autora ainda conta como o festival de “O Dia dos Mortos” realmente surgiu no México. Este é um caso legítimo de como a vida imitou a arte, pois foi o filme 007 contra Spctre (2016) – em que o protagonista aparece em um festival no Días de Los Muertos – que incitou o governo da Cidade do México a criar a celebração por lá. O receio do governador era que as pessoas começassem a procurar por um cortejo que não existia.

Costurando Para Toda Eternidade com todo cuidado, Caitlin vai atando uma cultura na outra para mostrar ao público, principalmente ao ocidental, que nós devíamos seguir o exemplo de outros países e buscar um funeral mais humano e mais feliz. Afinal, quando uma pessoa sai da escuridão da morte para vida, ela é recebida com muita alegria e todo o conforto que um nascimento deve ter, mas na morte não fazemos igual. 

“As páginas deste livro são feitas da polpa de madeira de uma árvore derrubada no ápice de sua vida. Tudo que nos cerca vem da morte, todas as partes de todas as cidades, e todas as partes de todas as pessoas”

Hoje, em pleno dia de Finados, que também é um dos festejos mais importantes na extinta cultura celta, os espíritos dos mortos estão caminhando pela terra. É o momento para pensarmos se queremos que eles nos vejam tristes por sua partida ou felizes por estarem em um lugar melhor.

A verdade, intrínseca nas páginas de Para Toda Eternidade, é que a morte é uma dádiva para vida, pois tonifica a necessidade de viver o momento; é por isso que se chama presente.

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