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Resenha

Resenha: “O Desaparecimento de Stephanie Mailer”

Trama explora a construção do cidadão e renova o gênero policial.

Rodrigo Roddick

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A morte da jornalista Stephanie Mailer obriga os detetives Jesse Rosemberg e Derek Scott a reaverem um caso que ambos solucionaram juntos há 20 anos: o quádruplo homicídio na cidade Orphea. Jesse percebe a importância de voltar ao caso quando a Stephanie desaparece após lhe atiçar a curiosidade com uma frase que iria repercutir no livro inteiro. Stephanie explica a Jesse que eles pegaram a pessoa errada.

“A resposta estava na sua cara, capitão Rosemberg. O senhor simplesmente não a enxergou”

Jesse estava a poucos dias de se aposentar, mas incitado pela jornalista, reabre a investigação e convoca seu parceiro antigo Derek Scott – que há muito saíra da divisão de homicídios e passara aos assuntos administrativos da polícia – Ele tinha lhe ajudado no caso. O capitão Rosemberg também aproveita o auxílio de Anna Kanner, uma oficial recrutada pelo prefeito da cidade.

A trama típica do gênero já é algo que atrai muitos olhares paro o livro, mas o próprio autor também contribuiu para chamar atenção à história. Joël Dicker é um escritor francês que conquistou o Prêmio de Romance da Academia Francesa com o livro A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert e o Prêmio dos Escritores de Genebra com Os últimos dias de nossos pais

Era de se esperar então que O Desaparecimento de Stephanie Mailer também resultasse em um sucesso. A obra foi lançada no Brasil em março de 2018 pela editora Intrínseca.

o desaparecimento de stephanie mailer capa

Após encontrar seus parceiros e iniciar a investigação, a Equipe 100% – como foi chamado o trio composto por Jesse, Derek e Anna no fim do livro – descobre que o desparecimento da jornalista Stephanie Mailer pode estar ligado ao quádruplo homicídio e isso os envereda por um caminho que os leva à Noite Negra, uma peça teatral que aconteceria no festival de Orphea.

Desde o início, o leitor pode perceber o excelente trabalho de edição, que se destaca pelas perfeitas escolhas de cena, cortes e encaixes que transformam a narrativa em um quebra-cabeça, mas que não deixa o interlocutor se perder. O crédito desta perfeita disposição dos textos se deve tanto ao escritor, que obviamente seletou as cenas que apareceriam em sua obra, como à editora, que também participa deste processo.

O romance apresenta algumas realidades necessárias que a nossa sociedade reproduz atualmente como o feminismo e, de forma suave, o bullying. Entretanto o que mais se destaca no decorrer da trama são os bastidores, tanto das megaproduções de entretenimento (como livros, peças, televisão etc) quanto, principalmente, das vidas particulares das pessoas. 

Se tem uma ideia que fica dançando na cabeça do leitor durante a leitura com certeza é: por trás de uma aparente ordem, existem pessoas levando suas vidas da forma “ingênua” que aprenderam. E é justamente essa a premissa do livro. Ele nos convida a discutir a educação social que reproduzimos através das gerações. 

Esta educação hermética, incompleta e com falhas, na verdade, é a grande assassina.

O leitor vai poder observar que nas escolhas fáceis que os personagens realizam está escondida uma crítica do autor sobre a falta de problematização e a má abordagem de alguns temas muitas vezes ditos como polêmicos. Ele aponta esta ausência como a falha congênita que a sociedade possui e mantém com suas descabidas, mas sustentadas, falácias.

É com maestria que o autor aborda a questão do feminismo, existente no livro como um indicador da maior falha social: machismo. Ele constrói pelo menos três visões diferentes. Com Anna Kanner, uma policial, ele propõe a discussão de como a mulher ainda é considerada um sexo frágil, pois em vários momentos do livro ela precisa confrontar colegas de trabalho que a subjugam por ela ser mulher. 

Dicker ilustra o motivo do homem dominar a mulher na sociedade em uma das falas de Stephanie Mailer.

“Os homens não são nada complicados: você chupa o pau deles, promete o rabo e, em troca, eles dão sua fidelidade incondicional”

Ou seja, o homem que é, na verdade, o sexo frágil. Portanto em autodefesa, a masculinidade tornou-se machismo.

Ainda na subtrama de Anna, observa-se que esta é enriquecida com a existência de um ex-marido à moda antiga. Ele a traiu e quer voltar desesperadamente para ela, mas não concorda com seu trabalho, opinião que é compartilhada pelos pais dela – acrescidos na história para enfatizar a reprodução desgovernada do patriarcado através dos séculos. 

Outro ponto de vista intrínseco ao machismo se observa em como é delegada à mulher a imagem de “administradora” do seio familiar. Através de Cynthia, esposa fiel de Jerry Éden (editor-chefe de um canal de televisão), o autor mostra como toda a pressão de educar a filha do casal, Dakota Éden, foi jogada para cima dela, ao mesmo tempo que a ausência de um pai – que vivia trabalhando – faz da filha uma viciada em drogas.

“Qual foi a última vez que você investiu nessa família, deixando de lado o aspecto financeiro? Todos esses anos, você me deixou sozinha para administrar tudo e garantir o bom funcionamento da nossa família”

Já a terceira discussão acerca do feminismo se traduz na personagem de Alice Filmore, amante de Steven Bergdorf (editor-chefe da revista literária). Esta subtrama ilustra exatamente como a mulher é vista pelo homem: um objeto. Joël Dicker foi brilhante em apontar a virilidade não apenas como algo sexual, mas como a imagem que a sociedade construiu para o homem.

“Se o bom Deus nos deu colhões, foi justamente porque não teríamos coragem de outra forma”

Um ponto alto do livro é que todos personagens, até mesmo os menos importantes, possuem muita personalidade. A construção da história de cada um e o modo como eles se expressam dinamizam perfeitamente a trama, dando a impressão ao leitor que ele está diante de um caso policial de verdade, não apenas ficção. É delicioso acompanhar como cada ação, cada pensamento, cada motivação dos personagens condiz perfeitamente à personalidade deles. Você se vê rindo, criticando ou apoiando algumas atitudes que eles tomam. É excelente!

É muito bem-vindo como Dicker coloca os investigadores não apenas exercendo suas funções, mas vivendo os conflitos cotidianos como qualquer pessoa.

Além de conquistar a empatia do público, as personalidades dos inúmeros personagens ajudam os leitores a não se perderem. Entretanto o autor se precaveu colocando logo no início uma lista dos nomes mais caros à trama.

Joël Dicker fecha o livro revelando como a falha na educação social pode ser autodestrutiva, uma vez que resulta em vários conflitos interpessoais que resultam em mortes (desconsiderando os psicopatas). Ele aproveita para simbolizar esta discussão colocando o “quarto poder” como o protagonista dos homicídios ao construir os assassinos como membros da imprensa.

“Quando você mata uma vez, pode matar duas. E quando mata duas, pode matar a humanidade inteira. Não há mais limites”

É uma obra para ser apreciada de duas formas: a primeira parte pode ser lida nos intervalos de nosso dia a dia, naqueles momentos que desejamos nos entreter com alguma coisa boa; já na segunda parte, o leitor vai estar tão envolvido com as histórias individuais de cada personagem que não vai mais conseguir largar o livro.

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