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Resenha

Resenha: “O Diário de Jack, o Estripador”

Livro promove investigação sobre a autenticidade do diário ao mesmo tempo que tece discussão sobre o machismo produtor de serial killer.

Rodrigo Roddick

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Quem foi Jack, O Estripador? Teria ele escrito um diário? Algum objeto dele teria cruzado as décadas? São estas perguntas que movimentam o leitor dentro do livro O Diário de Jack, o Estripador, que se propõe a investigar a autenticidade dos elementos encontrados e também abre a discussão ao interlocutor.

“Ou ele é verdadeiro ou é uma falsificação moderna extremamente boa”

O Diário de Jack, o Estripador é um livro de não ficção escrito por Shirley Harrison, uma das envolvidas na investigação sobre o diário supostamente escrito pelo assassino em série. Publicada pela primeira vez em 1993, a narrativa chegou neste ano ao Brasil em uma versão de luxo impressa pela Universo dos Livros.

“Juntos, o relógio de Albert Johnson e o Diário de Michael Berrett apresentam um apoio poderoso para minha crença de que James Maybrick, um homem obcecado com o tempo, foi realmente Jack, o Estripador”

Tudo começa quando Michael Berrett apresenta a Shirley Harrison um manuscrito com mais de 60 páginas contendo relatos arrepiantes que foram assinados por um dos mais famosos serial killers de todos os tempos: Jack, o Estripador. Diante deste elemento, Shirley fez o que qualquer pessoa sensata em seu lugar faria: ela duvidou que o material seja verdadeiro. Mas a curiosidade a corroeu, porque se fosse um documento real, ela estaria em posse de uma considerável relíquia.

“Não houve gritos quando eu cortei. Fiquei mais do que aborrecido quando não consegui arrancar a cabeça. Acho que vou precisar de mais força da próxima vez”

Reunindo vários especialistas de diferentes áreas, Shirley tenta a todo momento se convencer – e convencer o leitor, é claro – de que tanto o diário quanto o relógio de ouro realmente pertenceram a James Maybrick, o homem que ela acredita ser a verdadeira identidade do notório assassino em série.

“Como alguém suspeitaria de que eu seria capaz de tais coisas, afinal não sou, como todos acreditam, um homem compassivo, que foi declarado como alguém que nunca machucaria uma mosca?”

“O homem gentil com pensamentos gentis logo irá atacar de novo”

Apesar de tentar provar a autenticidade do diário e do relógio, o livro também fornece elementos contraditórios à argumentação de Shirley, evidenciando que, mais do que provar que os elementos são verdadeiros, a autora quer expandir a discussão, tornar viva a investigação sobre a real história de Jack, o Estripador.

“Ficarei calmo e não mostrarei interesse no meu ato, mas se alguém o mencionar, eu darei risadas por dentro, oh, como irei rir”

Contendo os pensamentos frios e mordazes do assassino, os manuscritos chocam o leitor pela simplicidade de seu raciocínio. O texto de Shirley, por sua vez, considera os antecedentes que o levaram a cometer os crimes. Assumindo que James Maybrick foi realmente Jack, o Estripador, o leitor vai poder observar que ele escolhia as putas como vítimas por ter descoberto a traição de sua mulher, Florence Maybrick, mais conhecida como Florie.

“Ainda a amo, mas como eu a odeio. Ela destruiu tudo, mas meu coração dói por ela, oh como dói”

Maybrick era um exemplo perfeito de conservador vitoriano e por essa razão, embora ele cometesse os mesmos atos, não admitia ser preterido por outro homem. Quando descobriu a traição da esposa, em vez de confrontá-la, Maybrick preferiu fingir que não sabia de nada – o que pode ser interpretado como covardia – e preparou uma vingança junto ao silêncio de seus sentimentos conflituosos.

“Trouxe um pouco comigo. Está na minha frente. Tenho a intenção de fritar e comer mais tarde ha ha. Só de pensar já abre meu apetite”

Conflito é a palavra que parece resumir James Maybrick, pois ao mesmo tempo que a traição lhe impelia a pensamentos agressivos, também lhe provocava verdadeira excitação. Mesmo com raiva de sua mulher, ele tinha certa tendência ao voyeurismo. Na verdade, ali morava, segundo os psicólogos apontam no livro, o verdadeiro motivo dos crimes: ele sentia prazer devido aos pensamentos agressivos que ele tinha enquanto pensava em sua mulher com outro homem.

“Fiel à moralidade vitoriana, que tinha regras diferentes para homens e mulheres, a própria infidelidade de Maybrick não tinha importância”

Ou seja, Maybrick desejava se vingar da esposa, mas não conseguia simplesmente matá-la – por covardia ou por amá-la – então assume o pseudônimo Jack para punir as putas em seu lugar, já que era assim que ele a via por ser infiel. Esta conduta fica bem acentuada em seu último ataque a Mary Jane Kelly, quando ele escreve na parede do quarto onde o corpo dela foi encontrado as iniciais “FM”, interpretadas como Florence Maybrick, sua esposa. O maior prazer de Maybrick então era se vingar de Florie mais de uma vez.

“Mulheres de vida fácil eram os símbolos da infidelidade de sua esposa”

Apesar dele não atacá-la, em várias passagens ele confessa ter vontade de fazê-lo e chega, inclusive, a bater nela. Mas de alguma forma ele não tenta o assassinato. Todavia, pode-se dizer que Maybrick teve sucesso em se vingar de sua mulher, pois quando ele finalmente faleceu devido às complicações do uso contínuo de arsênico – que segundo ele aumentava sua “virilidade” –, deixou Florie em tão maus lençóis que ela quase foi executada.

“Estou ingerindo arsênico suficiente para matar você. Eu tomo isso de vez em quando porque sinto que me fortalece”

E surpreendentemente, após dar conta da vida de James Maybrick, o livro se volta para sua esposa. Florie, por trair seu marido e viver em uma época de machismo claro e emancipado pela lei, preencheu aos olhos do juiz o perfil de uma perfeita assassina. A acusação se baseou no fato dela administrar arsênico para matar o marido envenenado, contudo James, que fazia uso contínuo do produto e estava de cama com dores severas, exigiu que sua esposa lhe desse o remédio – que continha a substância – para que ele se sentisse melhor. 

Florence Maybrick, esposa de Jack, o Estripador

James Maybrick acreditava que o remédio o aliviaria das dores e explicou isso à esposa que, indo contra as indicações médicas, atendeu ao marido. Um vidrinho com arsênico foi encontrado em seu quarto pelos irmãos de James e ela fazia uso de papel pega-mosca (que contém arsênico) para uso cosmético; estes dois fatores somado à traição foram suficientes para acusá-la de assassinato.

“Aos olhos da era vitoriana, o adultério de uma mulher era o pior crime possível”

Apesar de ter sido condenada à forca, Florie consegue escapar da execução quando o juiz que deferiu a sentença se afastou por motivos de saúde e outro assumiu o caso. Este então percebeu que a situação não era passível de pena de morte e por isso a modificou para prisão perpétua.

“Ela foi mantida na prisão por quinze anos por tentativa de assassinato contra seu marido, um crime pelo qual não tinha sido julgada nem considerada culpada, e cuja pena máxima era de dez anos”

Após várias investigações, fica provado que Maybrick não morreu devido à ingestão de arsênico porque a quantidade encontrada em seu estômago não era suficiente para matar, mas Florence – por ser adúltera – continuava aos olhos do juiz como culpada. Florie ficou presa por quinze anos por um crime que não cometeu e foi solta e inocentada quando mais elementos deram luz ao seu caso, mas o período de prisioneira trouxe verdadeiros danos à sua vida.

“Quem me dará de volta os anos que passei dentro de uma cela; os amigos que me esqueceram; as crianças para quem estou morta; o brilho do sol, os ventos dos céus, minha vida como mulher, e tudo mais que perdi por essa injustiça terrível?”

Florie tinha dois filhos com James, que na época de sua prisão eram crianças. Após os quinze anos, os dois, que foram afastados da mãe devido às acusações de assassinato, jamais souberam de sua existência. Esta foi a verdadeira punição que ela recebeu de Maybrick, mesmo que ele não tenha planejado. Florie, mesmo inocente, foi acusada, condenada e quase executada pelo simples fato de ser mulher. 

Além de levantar os diferentes lados arruinados por Jack, o Estripador, o livro traz nas últimas páginas os manuscritos, as fotos, os mapas da época vitoriana e até uma imagem de uma das vítimas. Há também uma foto do relógio que supostamente pertenceu ao serial killer por conter a gravação “Eu sou Jack” e as iniciais de suas vítimas.

“Quando eu terminar minhas ações demoníacas, o próprio diabo irá me congratular”

James Maybrick – à esquerda superior, um retrato falado de Jack, o Estripador

“Eles não nascem maus. Raramente são considerados loucos […] Uma pequena porcentagem nasce com genes que os tornam naturalmente inclinados ao comportamento antissocial ou agressivo”

Após a leitura, observa-se que mais do que uma história macabra de assassinato, existe uma discussão sobre como o conservadorismo extremo (nesse caso o machismo) pode desencadear complicações psicológicas que transformam um cidadão comum em um serial killer.

Nesse contexto, a sociedade é a grande produtora de assassinos, que, de maneira controvertida, a sustenta.

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HQs

Resenha | Daytripper

Se morremos a cada dia, quando teremos tempo para viver?

Rodrigo Roddick

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O que você faria se não precisasse fazer o que está fazendo agora? Agora. Uma palavrinha pequena que muitos valorizam, mas poucos entendem seu valor ou sequer exercem-no. Daytripper vem contar como a “nossa vida inteira” é feita de vidas e mortes, de como cada momento vivido pode ser o último.

Dos premiados irmãos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá – que ficou mais evidente agora devido à série The Umbrella AcademyDaytripper foi publicada pela primeira vez em 2010 pela DC Comics através do selo Vertigo. Aqui no Brasil, a Panini é a responsável por imprimir as edições da DC. Logo no ano seguinte, a obra levou três importantes prêmios: o Eisner, na categoria Melhor série limitada; Harvey, em Melhor edição única; Eagle, em Novo comicbook favorito.

Daytripper percorre a vida Brás de Oliva Domingos, um escritor de obituários que sonhava em escrever um romance de sucesso. Todo o enredo tem como palco nosso maravilhoso país. O livro é separado em nove capítulos que recorta momentos distintos da vida de Brás intercalados fora de ordem cronológica e revelando suas diferentes idades. Ao final de cada capítulo, Brás morre de maneira diferente, e como nos desenhos animados, a história continua como se ele não tivesse morrido. 

Esta é a primeira coisa que chama atenção do leitor porque revela o tema da história. O dia a dia que nos mata. A discussão que a HQ propõe é fazer o leitor levar sua atenção ao que lhe faz viver de verdade. A vida não é esta rotina urbana que os adultos sustentam com afinco, a vida é muito mais e muito menos que isso. A vida é viver. Mas, dentre os milhares de significados que podemos dar à vida, viver é fazer aquilo que amamos. E quanto tempo perdemos para fazer o que a gente quer? Quanto tempo levamos para apenas descobrir o que a gente ama?

Viver o momento não é apenas uma questão de estar presente em um lugar. Isso você pode conseguir indo em um hospital. A diferença no viver está no optar por estar ali e querer gastar seu tempo naquele momento. E o mais interessante é que sequer damos importância para a palavra tempo quando estamos realmente vivendo. Porque viver é infinito em cada momento.

Além de relembrar com bastante propriedade aquilo que falta para preencher nosso vazio (viver?), Daytripper propõe uma maneira da pessoa estar no constante movimento da vida: sonhar. Não se engane. Mesmo analisando planilhas no décimo andar de uma torre empresarial ou deitado em uma rede ao sol brilhante de uma ilha, todos nós temos sonhos. Todos nós queremos realizar esses sonhos. Os sonhos são a nossa vida. São eles que realizamos (ou deveríamos) a cada batida do coração.

Impossível não construir um paralelo dessa dialética com Sandman, que trata das várias manifestações do sonho. Ambas as obras ressaltam que tentar realizar os sonhos, correr atrás deles e realizá-los é o que significa viver para seres como nós, que possui a capacidade de raciocinar.

O trabalho gráfico e as cores acompanham a linha de pensamento da história, pois os recortes de quadro a quadro focalizam expressões necessárias para apoiar o tema. O tom meio “desbotado” das cores faz o leitor perceber em quais momentos a vida de Brás era sem graça e em quais ela foi colorida

Os gêmeos souberam trabalhar em equipe, pois o desenho de Bá dava às palavras de Moon a densidade que elas evocavam. Assim como há quadros em que o holofote está nas palavras, também há outros em que Bá continua a narrativa sem dizer uma palavra sequer, apenas com seus traços.

Sonhar é viver. Viver é agora. Não há nada para nós no futuro, exceto a morte certa.

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Resenha

Resenha | Para Toda Eternidade

Vida é a dádiva da morte: assim vivemos o presente.

Rodrigo Roddick

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A Morte não é uma entidade. A morte não é assustadora. E, ainda, a morte jamais foi vilã ou contrária à humanidade. A morte é apenas um ponto crucial na transformação por qual toda forma de vida passa. Para Toda Eternidade vem mostrar ao público, através de culturas distintas sobre funerais, como esta palavra que assombra o ser humano em particular é, na verdade, um presente.

Publicado no Brasil pela Darskside Books, o livro Para Toda Eternidade compreende-se em várias viagens ao redor do globo sobre diferentes maneiras de conduzir um funeral adequado e respeitoso ao falecido. A autora Caitlin Doughty é também uma agente funerária e, através de seu canal no Youtube, fala sobre o tema morte com um incomum humor descontraído. O volume contém ilustrações de Landis Blair, que dá traços e contornos à imaginação do leitor.

É possível observar como Caitlin trata a morte com naturalidade nas primeiras linhas de seu livro. Gisele Adissi (que é presidente da Sincep e Assembra – Sindicato e Associação dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, além de cofundadora do projeto “Vamos falar sobre luto?”) ao prefaciá-lo, contribui para destacar o tom que a narrativa vai seguir até sua conclusão.

“Sonho com o dia que frases como ‘ah, esse foi o melhor funeral da minha vida’ serão corriqueiras” inicia Gisele.

A partir disso, a autora começa provocando o leitor com uma diferente cremação: a única pira comunitária nos Estados Unidos e no mundo ocidental. Trata-se de um costume praticado em Crestone, no Colorado, que convida os parentes e familiares a assistir à cremação do ente falecido ao ar livre no meio de um círculo formado por lenhas. 

A simplicidade do processo pode chocar o leitor, mas traz mais naturalidade ao funeral, além de dar mais tempo aos parentes para se despedir do ente querido. Revelando esta prática um tanto mais artesanal, Caitlin critica os processos industriais, como eles costumam cobrar valores exorbitantes por apenas algumas horas e como ainda colocam os familiares a metros de distância do falecido.

“Na minha função de agente funerária eu descobri que tanto limpar o corpo quanto passar tempo com ele exercem um papel poderoso no processamento da dor. Isso ajuda as pessoas a verem o cadáver não como um objeto amaldiçoado, mas como um belo receptáculo que já abrigou seu ente querido”

Do outro lado do globo, a autora aumenta a provocação. Em uma das ilhas da Indonésia, os nativos celebram a morte de outra maneira. Celebrar é a palavra, pois em vez de chorar pelo falecimento do parente, as pessoas mumificam seus mortos e após algum tempo eles o retiram do túmulo e o vestem com suas roupas

Ritual Ma’nene na Indonésia | Foto: reprodução/Darkside Books

Na cultura deles, quando a pessoa morre, ela não está morta de fato, apenas doente. A morte só vai ocorrer quando eles realizarem um ritual em que alguns animais são sacrificados, geralmente porcos. Só então, junto da morte do animal, a alma se desliga do corpo cadavérico e morre. Inclusive, levar um porco para o funeral é sinal de respeito à família.

Entre o desenterro e o funeral, os familiares levam o morto para casa ou o colocam em uma “casa-túmulo” e o tratam como se estivessem vivo. Eles trocam suas roupas, levam comida e até conversam com os falecidos, acreditando que isso é uma forma de se conectar aos seus espíritos. Todo esse tempo é compreendido como o ritual Ma’nene.

Para Toda Eternidade perpassa as câmaras funerárias modernas do Japão e visita as ñatitas na Bolívia. Desse modo, Caitlin Doughty vai desmistificando a personagem que apavora muitas pessoas no mundo ocidental. Além disso, ela explica através de sua experiência nessas viagens como os funerais em que o cadáver é aberto e seus órgãos são expostos para urubus comerem são mais naturais que colocá-lo em um caixão debaixo da terra, como geralmente fazemos por aqui.

A autora ainda conta como o festival de “O Dia dos Mortos” realmente surgiu no México. Este é um caso legítimo de como a vida imitou a arte, pois foi o filme 007 contra Spctre (2016) – em que o protagonista aparece em um festival no Días de Los Muertos – que incitou o governo da Cidade do México a criar a celebração por lá. O receio do governador era que as pessoas começassem a procurar por um cortejo que não existia.

Costurando Para Toda Eternidade com todo cuidado, Caitlin vai atando uma cultura na outra para mostrar ao público, principalmente ao ocidental, que nós devíamos seguir o exemplo de outros países e buscar um funeral mais humano e mais feliz. Afinal, quando uma pessoa sai da escuridão da morte para vida, ela é recebida com muita alegria e todo o conforto que um nascimento deve ter, mas na morte não fazemos igual. 

“As páginas deste livro são feitas da polpa de madeira de uma árvore derrubada no ápice de sua vida. Tudo que nos cerca vem da morte, todas as partes de todas as cidades, e todas as partes de todas as pessoas”

Hoje, em pleno dia de Finados, que também é um dos festejos mais importantes na extinta cultura celta, os espíritos dos mortos estão caminhando pela terra. É o momento para pensarmos se queremos que eles nos vejam tristes por sua partida ou felizes por estarem em um lugar melhor.

A verdade, intrínseca nas páginas de Para Toda Eternidade, é que a morte é uma dádiva para vida, pois tonifica a necessidade de viver o momento; é por isso que se chama presente.

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Resenha

Resenha | Medicina dos Horrores

Lindsey Fitzharrris nos remota às práticas cirúrgicas grotescas do século XIX.

Thaís Rossi

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O medo de hospitais é uma coisa muito comum nos dias de hoje. Com tantas doenças, agulhas e procedimentos de arrepiar os cabelos é quase impossível conhecer uma pessoa que não tenha pelo menos um pouquinho de medo de ir ao hospital para tratar de alguma enfermidade, mesmo com o avanço tecnológico da medicina. Medicina dos Horrores vem contar a origem desse temor.

Imagine um cenário onde as cirurgias são feitas sem anestesia, em um anfiteatro totalmente sujo, sem ventilação, lotado de pessoas sujas e com cirurgiões que não acreditam em infeções? No livro Medicina dos Horrores somos transportados a um universo insalubre, fatal e torturante. Tudo isso diretamente sentado nos teatros cirúrgicos do século XIX.


A obra de não ficção foi escrita por Lindsey Fitzharris e publicada no Brasil em setembro pela editora Intrínseca. A autora, que recebeu seu grau de doutora em história da ciência e da medicina na Universidade de Oxford, também é responsável pelo site The Chirurgeon’s Apprentice, pela apresentação da série Under the Knife no Youtube, além de ter escrito para veículos importantes como o The Guardian, The Huffington Post, The Lancet e New Scientist.

A história gira em torno da trajetória de Joseph Lister, um médico promissor que, apesar de ter conquistado muitos admiradores e seguidores de suas teorias, passou por poucas e boas para provar aos médicos da época a importância da assepsia ao tratar de pacientes.

Enquanto os cirurgiões acreditavam que a descoberta do Éter como anestesia era o ápice da modernidade cirúrgica, o jovem cirurgião tinha certeza absoluta de que havia muito mais a ser descoberto.

“Embora a geração mais velha de cirurgiões se dispusesse a experimentar o tratamento antisséptico listeriano, era difícil que aceitasse a teoria microbiana da putrefação, que estava no cerne do sistema de Lister. Enquanto os cirurgiões continuassem a se enganar quanto à causa da infecção, era improvável que aplicassem corretamente o tratamento”

Sem entender o motivo de tantas mortes pós-operatórias, Joseph dedicou a sua vida a pesquisar o motivo das epidemias de infecções nos hospitais. Durante sua carreira, suas teorias foram criticadas e ridicularizadas, pois, para os médicos, admitir que os estudos de Joseph faziam sentido, seria admitir que eles e os hospitais eram responsáveis pela morte de milhares de pessoas devido à falta de higiene. Mesmo com toda a hostilidade, Joseph não desistiu e suas técnicas foram um salto gigante para o desenvolvimento das cirurgias e concederam ao médico o título de “Pai das cirurgias”.

“Nos hospitais, era comum que ‘limpeza’ não significasse mais do que varrer o chão e abrir as janelas do centro cirúrgico, e a Royal Infirmary não era exceção. Lister desconfiava de que, se pudesse deixar as enfermarias mais limpas, talvez seus pacientes parassem de morrer”

Com Medicina dos Horrores a autora não deixou nada a desejar. Através de uma escrita minuciosa, Lindsey nos dá um retrato nu e cru da medicina Vitoriana, nos levando diretamente para dentro das chamadas casas da morte (hospitais). Seu empenho em nos mostrar detalhes sem dourar a pílula foi tão grande que em alguns momentos durante a leitura é necessário fazer pausas, pois a náusea é inevitável.

Ela descreve com uma precisão cirúrgica todo o cenário grotesco; das manchas de mofo no teto até o odor pútrido que o lugar exalava. A narrativa da autora foi tão excepcional que, aos olhos do leitor, parece que ela esteve presente em cada um dos procedimentos retratados no decorrer da história.

“Quando Lister cortava o abdômen de um cadáver – de entranhas inchadas por uma pasta grossa de alimentos não digeridos e matéria fecal – ele liberava uma mistura potente de odores fétidos que aderia ao interior das narinas por tempo considerável”

Um ponto importante a se destacar é a dedicação da autora em retratar Joseph Lister. Em uma época onde homens tinham dever de ser másculos, dominadores e insensíveis, o médico não tinha medo de demonstrar compaixão. Ele não teve vergonha de enfrentar uma depressão profunda após perder seu irmão. Lindsey foi cuidadosa ao mostrar todas as fases da evolução: do menino fascinado pelo telescópio do pai ao cirurgião renomado e aclamado por toda a comunidade médica.

Além de retratar a evolução da parte clínica dos cirurgiões, a autora nos mostra a evolução na humanidade dentro de cada um deles também. Graças a Joseph, pacientes que eram tratados como carnes de açougue e chamados pelos nomes de suas enfermidades, passaram a receber cuidados com dignidade, atenção e carinho. Para o cirurgião, dentro das paredes de um hospital não existia separação por classes, eram todos enfermos que confiavam suas vidas aos médicos.

“Todo paciente, até mesmo o mais degradado, deve ser tratado com o mesmo cuidado e a mesma consideração que se dariam ao próprio príncipe de Gales”

Conhecendo a história do jovem Lister somos inspirados a nunca desistir do que acreditamos, e aprendemos que tudo na vida está em constante evolução, seja a ciência ou até mesmo as pessoas.

Apesar de ser uma história grotesca, repleta de vivissecções, amputações, feridas infeccionadas, sangue e pus, Medicina dos Horrores é uma leitura fluida, que nos prende e nos inspira.

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