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Resenha

Resenha: “O Labirinto do Fauno”

Adaptação literária traz dez contos inéditos que expandem o universo criado pelo filme de Del Toro.

Rodrigo Roddick

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A primeira coisa que você precisa saber é que magia existe. A segunda é que contos de fadas têm poder. A pequena Ofélia acredita nessas verdades e, se não fosse assim, ela jamais descobriria sua verdadeira identidade: Moanna, princesa do Mundo Subterrâneo. E também nunca teria forças para enfrentar uma terra opressora. A terra dos adultos.

“Todos nós inventamos nossos contos de fadas”

O Labirinto do Fauno é uma adaptação literária do filme homônimo que foi produzido, escrito e dirigido por Guillermo Del Toro (A Forma da Água e HellBoy) e conquistou três Oscars e o prêmio Hugo (2007) na categoria Melhor Apresentação Dramática, dentre outros prêmios. Em julho, a obra foi imortalizada em papel pela editora Intrínseca.

Ofélia é a reencarnação da princesa Moanna, mas para retornar ao seu reino de origem ela precisa provar que ainda é digna, portanto tem que realizar três provas. A primeira é salvar uma árvore ancestral de um sapo guloso; a segunda, conseguir a faca em posse do Homem Pálido, e a terceira é derramar sangue inocente para abrir o portal. Mas ela precisa correr contra o tempo porque só tem até a lua cheia para cumprir essas tarefas. Enquanto isso, ela enfrenta as dificuldades de viver em uma Espanha fascista, personificada pelo capitão Ernesto Vidal (que simboliza também a austeridade, a falta de sabor e magia na vida adulta).

“Ser tão terrestre fazia parte da tristeza da mãe”

A história começa a ser contada desde o primeiro momento que o leitor repousa seus olhos sobre a capa do livro. A ilustração, as cores e o formato do título juntos parecem nos transportar para dentro deste universo fantástico já experimentado no filme. A imersão não é deixada de lado quando a viramos. A diagramação mantém o interlocutor conectado através de seus símbolos bem administrados nos cantos das páginas e o conduz rumo adentro desta floresta de palavras.

“Só os livros abordavam todas as coisas sobre as quais os adultos não queriam conversar: Vida. Morte. O Bem e o Mal. E tudo mais que tinha alguma importância na vida”

A Intrínseca soube adotar esta obra e compôs com maestria um trabalho editorial que contou, junto à narrativa, uma segunda história. Todos os detalhes empregados neste livro contêm pequenos fragmentos que vão se juntando e resultam na lapidação de uma obra-prima, uma perfeição em forma de papel. E o cuidado editorial se estendeu às palavras.

“Algumas memórias precisam ser mantidas, embora nos machuquem profundamente”

Apesar delas terem sido bem escolhidas por Cornélia Funke, que é a escritora, os tradutores da Intrínseca souberam usar a sensibilidade a favor da obra. É possível identificar uma harmonia poética no entrelaçamento das palavras de uma forma tão gostosa e suave que a gente só encontra em fábulas. Cornélia, e os tradutores por consequência, conseguiram levar os dons da arte dramática para a literatura e assim elevaram a escrita. É de-li-ci-o-so experimentar cada palavra.

“Sua mãe dizia que os contos de fadas não tinham nenhuma relação com o mundo real, mas Ofélia sabia que tinham. Os contos haviam lhe ensinado tudo sobre o mundo”

“A mãe de Ofélia não sabia, mas ela acreditava em contos de fadas. Carmem Cardoso acreditava no conto de fadas mais perigoso de todos: o do príncipe que a salvaria”

As palavras constroem uma trilha que encaminha o leitor para as profundezas dos sentidos submersos. Lá no mundo subterrâneo, ele se depara com a história concêntrica, um prêmio por ter se arriscado a mergulhar até ali. A exploração das metáforas começa justamente neste mundo.

“Escolher a liberdade tem um preço alto”

O subterrâneo simboliza ao mesmo tempo as raízes de uma história e a imortalidade de uma vida, a única verdadeiramente imortal, que é a natureza. Quando Del Toro cria este universo embaixo de outro, ele está focalizando a origem da vida mais próxima do ser humano: a terra. É dela que nosso sustento diário sai. É em cima dela que vivemos cada dia de nossas vidas. E é nela que, no fim, nos deitaremos para sempre. Da terra viemos, a terra retornaremos. Desse modo, magicamente traduzido nas linhas de sua obra, o criador nos mostra que o único jeito real de sermos eternos é abraçar nossas origens e aceitarmos sermos um com a natureza.

“Mas os homens não ouvem às árvores. Não sabem mais se relacionar com as coisas da natureza”

Não é à toa que Ofélia precisa retornar para lá. Não é à toa que ela se originou de lá. Assim como também não é por acaso que ela tem que enfrentar três provas. As tarefas representam nossas três idades na vida. Primeiro passamos pela juventude, o crescimento, em que somos obrigados a seguir o nosso instinto – por isso Ofélia adentra uma árvore (que o livro aponta como útero, simbolizando o solo de onde nascemos) e se depara com o sapo, um animal; depois chegamos à fase adulta, estação em que aprendemos a viver sofrendo facadas à cada dia para driblar o opressor – a protagonista recupera uma adaga no salão do Homem Pálido, o Comedor de Criancinhas; e por último atravessamos o véu inevitável do envelhecimento, do qual só nos despiremos mortos – o Fauno revela a Moanna que a exigência para abrir o portal para o mundo subterrâneo é o sangue inocente. Todos nós somos inocentes na hora morte, pois nela, voltamos a ser crianças.

“Os mortais não entendem que a vida não é um livro que você fecha só depois de ler a última página”

Outro detalhe muito interessante de O Labirinto do Fauno é como ele se apoia em histórias indo-europeias. A terra é simbolizada pelo Fauno, que personifica tanto o caráter quanto a imagem de Cernunnos, um deus bem antigo da mitologia celta que representa justamente os bosques, o verde, a fertilidade, a terra.

“A menina era inocente demais para aquele lugar, e a mãe não tinha forças para protegê-la. Era uma daquelas mulheres que buscavam a força nos homens, em vez de reconhecê-la no próprio coração”

Além dessas delícias, o livro traz dez contos que expandem o universo do filme. Estas histórias aparecem no início de cada divisão e sempre são antecipadas por uma ilustração espetacular. O leitor vai perceber que estes contos apareceram no filme ao compor o Livro da Encruzilhadas entregue pelo Fauno à princesa, ao mesmo tempo que vai se lembrar que elas não eram narradas naquela mídia. Aqui mais uma vez se torna necessário apontar a diagramação, pois quando estas pequenas narrativas são colocadas no livro, recebem uma borda diferenciada, que o público atento vai identificar como as mesmas que aparecem no conto de fadas que Ofélia lê dentro do carro, nas primeiras cenas do filme. 

“Todas as coisas verdadeiramente importantes não estão à mostra”

Todavia, a beleza real deste livro está na tristeza. É muito interessante como ela é realmente bela. As pessoas costumam afastá-la em detrimento de um gozo supérfluo e momentâneo causado pela alegria, mas a verdade é que é a tristeza que embeleza a vida. Nós conhecemos esta verdade quando diante de obras desse gabarito. Assistimos a um filme ou lemos um livro e choramos com o drama nos apresentados, mas terminamos eles com “que filme lindo”, “que belo livro”, “amei esta série” na ponta da língua. A beleza que conseguimos ver foi através da tristeza.

O Labirinto do Fauno é belo em sua tristeza, magnífico em suas imagens e assertivo em suas palavras. É perfeito. Uma delícia em forma de história. Uma ode ao melhor presente que podemos receber: o conhecimento.

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