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Capa Cabana do Leitor o labirinto do fauno Capa Cabana do Leitor o labirinto do fauno

Resenha

Resenha: “O Labirinto do Fauno”

Adaptação literária traz dez contos inéditos que expandem o universo criado pelo filme de Del Toro.

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A primeira coisa que você precisa saber é que magia existe. A segunda é que contos de fadas têm poder. A pequena Ofélia acredita nessas verdades e, se não fosse assim, ela jamais descobriria sua verdadeira identidade: Moanna, princesa do Mundo Subterrâneo. E também nunca teria forças para enfrentar uma terra opressora. A terra dos adultos.

“Todos nós inventamos nossos contos de fadas”

Citação o labirinto do fauno

O Labirinto do Fauno é uma adaptação literária do filme homônimo que foi produzido, escrito e dirigido por Guillermo Del Toro (A Forma da Água e HellBoy) e conquistou três Oscars e o prêmio Hugo (2007) na categoria Melhor Apresentação Dramática, dentre outros prêmios. Em julho, a obra foi imortalizada em papel pela editora Intrínseca.

capa o labirinto do fauno

Ofélia é a reencarnação da princesa Moanna, mas para retornar ao seu reino de origem ela precisa provar que ainda é digna, portanto tem que realizar três provas. A primeira é salvar uma árvore ancestral de um sapo guloso; a segunda, conseguir a faca em posse do Homem Pálido, e a terceira é derramar sangue inocente para abrir o portal. Mas ela precisa correr contra o tempo porque só tem até a lua cheia para cumprir essas tarefas. Enquanto isso, ela enfrenta as dificuldades de viver em uma Espanha fascista, personificada pelo capitão Ernesto Vidal (que simboliza também a austeridade, a falta de sabor e magia na vida adulta).

“Ser tão terrestre fazia parte da tristeza da mãe”

A história começa a ser contada desde o primeiro momento que o leitor repousa seus olhos sobre a capa do livro. A ilustração, as cores e o formato do título juntos parecem nos transportar para dentro deste universo fantástico já experimentado no filme. A imersão não é deixada de lado quando a viramos. A diagramação mantém o interlocutor conectado através de seus símbolos bem administrados nos cantos das páginas e o conduz rumo adentro desta floresta de palavras.

“Só os livros abordavam todas as coisas sobre as quais os adultos não queriam conversar: Vida. Morte. O Bem e o Mal. E tudo mais que tinha alguma importância na vida”

ilustração o labirinto do fauno

A Intrínseca soube adotar esta obra e compôs com maestria um trabalho editorial que contou, junto à narrativa, uma segunda história. Todos os detalhes empregados neste livro contêm pequenos fragmentos que vão se juntando e resultam na lapidação de uma obra-prima, uma perfeição em forma de papel. E o cuidado editorial se estendeu às palavras.

“Algumas memórias precisam ser mantidas, embora nos machuquem profundamente”

diagramação o labirinto do fauno

Apesar delas terem sido bem escolhidas por Cornélia Funke, que é a escritora, os tradutores da Intrínseca souberam usar a sensibilidade a favor da obra. É possível identificar uma harmonia poética no entrelaçamento das palavras de uma forma tão gostosa e suave que a gente só encontra em fábulas. Cornélia, e os tradutores por consequência, conseguiram levar os dons da arte dramática para a literatura e assim elevaram a escrita. É de-li-ci-o-so experimentar cada palavra.

“Sua mãe dizia que os contos de fadas não tinham nenhuma relação com o mundo real, mas Ofélia sabia que tinham. Os contos haviam lhe ensinado tudo sobre o mundo”

o labirinto do fauno

“A mãe de Ofélia não sabia, mas ela acreditava em contos de fadas. Carmem Cardoso acreditava no conto de fadas mais perigoso de todos: o do príncipe que a salvaria”

As palavras constroem uma trilha que encaminha o leitor para as profundezas dos sentidos submersos. Lá no mundo subterrâneo, ele se depara com a história concêntrica, um prêmio por ter se arriscado a mergulhar até ali. A exploração das metáforas começa justamente neste mundo.

“Escolher a liberdade tem um preço alto”

O subterrâneo simboliza ao mesmo tempo as raízes de uma história e a imortalidade de uma vida, a única verdadeiramente imortal, que é a natureza. Quando Del Toro cria este universo embaixo de outro, ele está focalizando a origem da vida mais próxima do ser humano: a terra. É dela que nosso sustento diário sai. É em cima dela que vivemos cada dia de nossas vidas. E é nela que, no fim, nos deitaremos para sempre. Da terra viemos, a terra retornaremos. Desse modo, magicamente traduzido nas linhas de sua obra, o criador nos mostra que o único jeito real de sermos eternos é abraçar nossas origens e aceitarmos sermos um com a natureza.

“Mas os homens não ouvem às árvores. Não sabem mais se relacionar com as coisas da natureza”

ilustração 2 o labirinto do fauno

Não é à toa que Ofélia precisa retornar para lá. Não é à toa que ela se originou de lá. Assim como também não é por acaso que ela tem que enfrentar três provas. As tarefas representam nossas três idades na vida. Primeiro passamos pela juventude, o crescimento, em que somos obrigados a seguir o nosso instinto – por isso Ofélia adentra uma árvore (que o livro aponta como útero, simbolizando o solo de onde nascemos) e se depara com o sapo, um animal; depois chegamos à fase adulta, estação em que aprendemos a viver sofrendo facadas à cada dia para driblar o opressor – a protagonista recupera uma adaga no salão do Homem Pálido, o Comedor de Criancinhas; e por último atravessamos o véu inevitável do envelhecimento, do qual só nos despiremos mortos – o Fauno revela a Moanna que a exigência para abrir o portal para o mundo subterrâneo é o sangue inocente. Todos nós somos inocentes na hora morte, pois nela, voltamos a ser crianças.

“Os mortais não entendem que a vida não é um livro que você fecha só depois de ler a última página”

Outro detalhe muito interessante de O Labirinto do Fauno é como ele se apoia em histórias indo-europeias. A terra é simbolizada pelo Fauno, que personifica tanto o caráter quanto a imagem de Cernunnos, um deus bem antigo da mitologia celta que representa justamente os bosques, o verde, a fertilidade, a terra.

O labirinto do fauno livro 2

“A menina era inocente demais para aquele lugar, e a mãe não tinha forças para protegê-la. Era uma daquelas mulheres que buscavam a força nos homens, em vez de reconhecê-la no próprio coração”

Além dessas delícias, o livro traz dez contos que expandem o universo do filme. Estas histórias aparecem no início de cada divisão e sempre são antecipadas por uma ilustração espetacular. O leitor vai perceber que estes contos apareceram no filme ao compor o Livro da Encruzilhadas entregue pelo Fauno à princesa, ao mesmo tempo que vai se lembrar que elas não eram narradas naquela mídia. Aqui mais uma vez se torna necessário apontar a diagramação, pois quando estas pequenas narrativas são colocadas no livro, recebem uma borda diferenciada, que o público atento vai identificar como as mesmas que aparecem no conto de fadas que Ofélia lê dentro do carro, nas primeiras cenas do filme. 

O labirinto do fauno livro 1

“Todas as coisas verdadeiramente importantes não estão à mostra”

Todavia, a beleza real deste livro está na tristeza. É muito interessante como ela é realmente bela. As pessoas costumam afastá-la em detrimento de um gozo supérfluo e momentâneo causado pela alegria, mas a verdade é que é a tristeza que embeleza a vida. Nós conhecemos esta verdade quando diante de obras desse gabarito. Assistimos a um filme ou lemos um livro e choramos com o drama nos apresentados, mas terminamos eles com “que filme lindo”, “que belo livro”, “amei esta série” na ponta da língua. A beleza que conseguimos ver foi através da tristeza.

O Labirinto do Fauno é belo em sua tristeza, magnífico em suas imagens e assertivo em suas palavras. É perfeito. Uma delícia em forma de história. Uma ode ao melhor presente que podemos receber: o conhecimento.

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