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Resenha

Resenha: “O Lado Sombrio do Sítio”

Contos macabros exploram o lado oculto das histórias de Monteiro Lobato.

Thaís Rossi

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Imagine um universo em que o amado Sítio do Picapau Amarelo é um lugar sombrio e cheio de sangue, onde a Tia Anastácia é uma assassina e a boneca Emília é vítima de um louco sádico, que a faz participar de uma espécie de Jogos Mortais.  

Na antologia O Lado Sombrio do Sítioorganizada pelo autor Felipe S Mendes, somos levados a uma viagem macabra, uma versão obscura e caótica que faz nossa fantasia infantil de morar no Sítio de Monteiro Lobato cair por terra.  O livro foi lançado pela Lura Editorial em setembro e teve uma sessão de autógrafos na 19ª edição da Bienal do Livro no Rio de Janeiro contando com a presença de André Vianco.


O Lado Sombrio do Sítio é composto por 43 contos de autores distintos, incluindo o ilustre André Vianco, também escritor de Os Sete, O Caso Laura, Estrela da Manhã, Penumbra e outros. André também é responsável pela iniciativa Vivendo de Inventar, onde ministra aulas e dá dicas sobre técnicas de storytelling e de mercado de trabalho para escritores, além de oferecer concursos internos para que seus alunos, também autores independentes, sejam publicados. O Lado Sombrio do Sítio é um dos trabalhos resultantes desta empreitada.

No conto Pirlimpimpim conhecemos uma Tia Anastácia com a mente tão perturbada que a faz sequestrar uma Dona Benta de cama, em um quase-coma. Influenciada por alucinações em que via um sítio mágico, Tia Anastácia, antes de cair no esquecimento, tenta se defender da polícia. Uma Narizinho já adulta contatou as autoridades para tentar reaver a avó doente.

Esta é a história escrita por André Vianco que abre o compilado de contos, revelando que viver no meio de um “conto de fadas” pode ser problemático.  

“Não vão esquecer da gente, Emília. A vovó Anastácia fez tudo o que podia para não esquecerem do Sítio do Picapau Amarelo outra vez” 

Já no conto Banco imobiliário temos a querida Emília como protagonista. Enquanto Pedrinho e Narizinho jogam uma prtida do jogo “Banco Imobiliário”, a boneca é vítima de um sádico que a prende em um quarto e a tortura baseando-se no jogo das crianças. Com direito a farpas em baixo da unha e explosivos que acabam com a vida de entes queridos de Emília, a autora Mayara Godoy nos serve uma trama envolvente que faz com que fiquemos aflitos do começo ao fim da história.

“Se você não ligar para as minhas sacanagens, não há graça em continuar brincando. Levante-se e encare sua tortura de frente, garota!” 

Em Tristes trópicos, tristes pretos conhecemos a personagem Gorda, uma cozinheira negra que, cansada da injustiça racial, decide se vingar dos brancos que tiraram a voz do seu povo, inclusive da Tia Anastácia. Com a ajuda do Saci e do Negrinho do pastoreiro, ela escolhe a noite de Ano Novo para se vingar, tendo como alvos a Dona Benta e outros personagens brancos do Sítio. Através do conto, João Peçanha dá uma verdadeira aula sobre dívida histórica, usando Nina Simone como trilha sonora.  

“Hoje eu cozinhei como para um ritual, pensando naqueles que jamais se sentarão naquelas cadeiras de jacarandá que estão na sala de jantar torneadas por mãos habilidosas de algum preto cujo o nome nunca saberão”

Mostrando o universo obscuro de um conto de fadas, O Lado Sombrio do Sítio é uma alusão perfeita à mente do ser humano. Ainda que existam pessoas repletas de luz e positividade, todos carregam uma parte escura dentro de si.

Ao fim da leitura aprendemos que a essência das histórias nunca morre. Ainda que tenham mudado o gênero, a personalidade de seus personagens, até mesmo o cenário, é possível sentir aquela ponta de nostalgia ao reencontrar personagens que fizeram parte da nossa infância e do nosso desenvolvimento cultural e educacional.

Mesmo com alguns contos confusos e outros bem devagar, a experiência de ler O Lado Sombrio do Sítio é única.

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