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Resenha

Resenha | Para Toda Eternidade

Vida é a dádiva da morte: assim vivemos o presente.

Rodrigo Roddick

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A Morte não é uma entidade. A morte não é assustadora. E, ainda, a morte jamais foi vilã ou contrária à humanidade. A morte é apenas um ponto crucial na transformação por qual toda forma de vida passa. Para Toda Eternidade vem mostrar ao público, através de culturas distintas sobre funerais, como esta palavra que assombra o ser humano em particular é, na verdade, um presente.

Publicado no Brasil pela Darskside Books, o livro Para Toda Eternidade compreende-se em várias viagens ao redor do globo sobre diferentes maneiras de conduzir um funeral adequado e respeitoso ao falecido. A autora Caitlin Doughty é também uma agente funerária e, através de seu canal no Youtube, fala sobre o tema morte com um incomum humor descontraído. O volume contém ilustrações de Landis Blair, que dá traços e contornos à imaginação do leitor.

É possível observar como Caitlin trata a morte com naturalidade nas primeiras linhas de seu livro. Gisele Adissi (que é presidente da Sincep e Assembra – Sindicato e Associação dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, além de cofundadora do projeto “Vamos falar sobre luto?”) ao prefaciá-lo, contribui para destacar o tom que a narrativa vai seguir até sua conclusão.

“Sonho com o dia que frases como ‘ah, esse foi o melhor funeral da minha vida’ serão corriqueiras” inicia Gisele.

A partir disso, a autora começa provocando o leitor com uma diferente cremação: a única pira comunitária nos Estados Unidos e no mundo ocidental. Trata-se de um costume praticado em Crestone, no Colorado, que convida os parentes e familiares a assistir à cremação do ente falecido ao ar livre no meio de um círculo formado por lenhas. 

A simplicidade do processo pode chocar o leitor, mas traz mais naturalidade ao funeral, além de dar mais tempo aos parentes para se despedir do ente querido. Revelando esta prática um tanto mais artesanal, Caitlin critica os processos industriais, como eles costumam cobrar valores exorbitantes por apenas algumas horas e como ainda colocam os familiares a metros de distância do falecido.

“Na minha função de agente funerária eu descobri que tanto limpar o corpo quanto passar tempo com ele exercem um papel poderoso no processamento da dor. Isso ajuda as pessoas a verem o cadáver não como um objeto amaldiçoado, mas como um belo receptáculo que já abrigou seu ente querido”

Do outro lado do globo, a autora aumenta a provocação. Em uma das ilhas da Indonésia, os nativos celebram a morte de outra maneira. Celebrar é a palavra, pois em vez de chorar pelo falecimento do parente, as pessoas mumificam seus mortos e após algum tempo eles o retiram do túmulo e o vestem com suas roupas

Ritual Ma’nene na Indonésia | Foto: reprodução/Darkside Books

Na cultura deles, quando a pessoa morre, ela não está morta de fato, apenas doente. A morte só vai ocorrer quando eles realizarem um ritual em que alguns animais são sacrificados, geralmente porcos. Só então, junto da morte do animal, a alma se desliga do corpo cadavérico e morre. Inclusive, levar um porco para o funeral é sinal de respeito à família.

Entre o desenterro e o funeral, os familiares levam o morto para casa ou o colocam em uma “casa-túmulo” e o tratam como se estivessem vivo. Eles trocam suas roupas, levam comida e até conversam com os falecidos, acreditando que isso é uma forma de se conectar aos seus espíritos. Todo esse tempo é compreendido como o ritual Ma’nene.

Para Toda Eternidade perpassa as câmaras funerárias modernas do Japão e visita as ñatitas na Bolívia. Desse modo, Caitlin Doughty vai desmistificando a personagem que apavora muitas pessoas no mundo ocidental. Além disso, ela explica através de sua experiência nessas viagens como os funerais em que o cadáver é aberto e seus órgãos são expostos para urubus comerem são mais naturais que colocá-lo em um caixão debaixo da terra, como geralmente fazemos por aqui.

A autora ainda conta como o festival de “O Dia dos Mortos” realmente surgiu no México. Este é um caso legítimo de como a vida imitou a arte, pois foi o filme 007 contra Spctre (2016) – em que o protagonista aparece em um festival no Días de Los Muertos – que incitou o governo da Cidade do México a criar a celebração por lá. O receio do governador era que as pessoas começassem a procurar por um cortejo que não existia.

Costurando Para Toda Eternidade com todo cuidado, Caitlin vai atando uma cultura na outra para mostrar ao público, principalmente ao ocidental, que nós devíamos seguir o exemplo de outros países e buscar um funeral mais humano e mais feliz. Afinal, quando uma pessoa sai da escuridão da morte para vida, ela é recebida com muita alegria e todo o conforto que um nascimento deve ter, mas na morte não fazemos igual. 

“As páginas deste livro são feitas da polpa de madeira de uma árvore derrubada no ápice de sua vida. Tudo que nos cerca vem da morte, todas as partes de todas as cidades, e todas as partes de todas as pessoas”

Hoje, em pleno dia de Finados, que também é um dos festejos mais importantes na extinta cultura celta, os espíritos dos mortos estão caminhando pela terra. É o momento para pensarmos se queremos que eles nos vejam tristes por sua partida ou felizes por estarem em um lugar melhor.

A verdade, intrínseca nas páginas de Para Toda Eternidade, é que a morte é uma dádiva para vida, pois tonifica a necessidade de viver o momento; é por isso que se chama presente.

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Livros

Coraline

Um ensaio sobre a morte? Uma fábula sobre a pré-concepção de mundo? Ou uma história que ensina crianças sobre o perigo da tentação? A obra de Gaiman pode ser tudo isso.

Rodrigo Roddick

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O outro mundo, o outro lado, submundo, além… Quantos nomes inventamos para intitular o lugar mítico de onde ninguém voltou? Quantas perguntas nos fazemos sobre o que vem após a morte? Quantas vezes fantasiamos sobre ela? Coraline é uma fábula que não apenas levanta essas questões, como também propõe uma resposta: o outro mundo pode ser um espelho do nosso mundo.

Coraline é um livro escrito pelo autor multipremiado Neil Gaiman e publicado originalmente em 2002. No ano seguinte a editora Rocco trouxe uma edição deslumbrante para o Brasil com desenhos de Dave Mckean. Mas no mês passado a bola passou para a editora Intrínseca, que conseguiu se superar e trazer uma belíssima edição em capa dura com desenhos de Chris Riddell, ilustrador que já trabalhou em mais dois livros de Gaiman: O Livro do Cemitério e A Bela e A Adormecida.

O romance de Gaiman conquistou dois importantes grandes prêmios, o Hugo (2003) e o Nebula (2004). Mas o autor já está muito a acostumado a ser premiado, pois já escreveu obras inesquecíveis como Deuses Americanos, Os Filhos de Anansi, Lugar Nenhum, O Oceano no Fim do Caminho, O Livro do Cemitério, Orquídea Negra, Os Livros da Magia e, seu trabalho mais sublime e notoriamente artístico, Sandman.

O livro ganhou uma adaptação para o cinema em 2009 chamado de Coraline e o Mundo Secreto, que foi bem recebido pela mídia e pelos cinéfilos. Ele também foi adaptado para um grafic novel em 2002 com os traços do ilustrador Craig Russell, impresso no Brasil como a primeira HQ da Rocco.

Coraline é o nome da protagonista da história que tem uma necessidade intrínseca de explorar os ambientes, ou seja, é uma aventureira. Quando ela se muda para sua nova casa, descobre uma porta trancada que dá para um corredor misterioso que a conduz para uma casa exatamente igual à sua. A única diferença era que tudo ali era perfeito! Contudo havia algo estranho: todas as pessoas tinham botões negros no lugar dos olhos.

“Então a mulher se virou. Seu olhos pareciam grandes botões pretos”

A primeira experiência positiva do leitor, antes de começar a ler a história, é com a edição. A Intrínseca presenteou os fãs de Gaiman com um livro muito bonito e bem finalizado. Coraline vem com uma capa muito bem desenhada, com fitilho, com as extremidades das páginas pintadas em roxo, com ilustrações e com uma perfeita diagramação. O livro não deixa nada a desejar no quesito editorial. E com a história não é diferente.

Apesar de evocar um sentido sobre o além, o romance propicia múltiplas interpretações. Durante essa resenha trataremos sobre quatro, que serão a rasa, a profunda, a metafórica e a subliminar.

Interpretação Rasa – Premissa

A premissa de Coraline expõe um ensinamento punitivo sobre o perigo da curiosidade. A protagonista concentra três características que geralmente estão presentes em várias crianças; são elas a coragem, a inquietude e a curiosidade. Ela é uma pessoa aventureira que não consegue ficar parada e precisa descobrir novos lugares, novas pessoas ou novas histórias para se entreter, como muitas crianças. Porém essa conduta pode levá-la a lugares perigosos.

“Ser corajoso significa estar com medo, muito medo, mas mesmo assim fazer o que é certo”

Ao sair por aí se aventurando, os pequenos podem se perder, conhecer pessoas mal intencionadas, se machucar ou até mesmo sofrer um acidente fatal. Tal como na vida real, Coraline se depara com o perigo ao encontrar uma outra mãe esquisita que quer convencê-la a ficar ali para sempre, ou seja, sequestrá-la.

Nesse sentido, o romance se transforma em um alerta ao pais para que eles fiquem sempre conscientes de onde seus filhos estão.

Interpretação Profunda – Mundo pré-construído

Também em relação à premissa da história, Gaiman escreveu uma situação fabular que abarca todos os seres humanos. Seguindo essa ideia, Coraline representa a mentalidade infantil humana ante a descoberta e exploração da vida. Todos nós temos uma curiosidade de conhecer o mundo e seus múltiplos caminhos. Quando a protagonista entra em uma nova casa, o evento pode ser entendido como o ser humano adentrando o novo mundo, chegando à vida.

Entretanto este mundo já existia antes de nascermos, e essa verdade é lembrada quando Coraline encontra o mundo secreto. À primeira vista, ele é perfeito, contendo tudo daquilo que ela mais gosta, ou seja, é convidativo. O fato dela explorar seu novo mundo perfeito representa o crescimento de uma pessoa, quando ela vai sendo paparicada pelo mundo, convidando-a a fazer parte dele.

“É assombroso que aquilo de que somos feitos esteja tão ligado à cama que acordamos pela manhã, e o mais assustador é a fragilidade disso”

O encanto é tão sedutor que as pessoas, tal como Coraline, quase não percebem que terão que pagar um alto preço por tudo aquilo. Para nós, o preço é nos inserirmos no sistema, e isso é simbolizado nos botões em vez de olhos. O custo para entrarmos neste mundo pré-concebido que é empurrado a nós é ficarmos cegos para o que realmente queremos, só enxergar aquilo que faz o mundo girar.

Vocês, pessoas, têm nomes. É porque vocês não sabem quem são”

No momento que Coraline tivesse os botões costurados nos olhos, a Outra Mãe seria sua deusa e manipularia todos os seus passos. O mesmo acontece conosco quando decidimos abandonar nossa visão verdadeira para pertencer ao mundo, passamos a ser controlados por um mundo que estava aqui antes de nascermos; um mundo que coíbe e impede a criação da nossa própria realidade.

“Ela vai roubar sua vida e tudo de que é feita. Vai roubar tudo que é importante para você, para que só reste névoa e vapor. Ela vai levar sua alegria. Um dia, você vai acordar sem alma e sem coração. Você será apenas casca, trapo, um sonho, a memória de algo que se perdeu”

A ideia de um universo pré-construído fica bastante clara quando a Outra Mãe começa a desfazer o mundo secreto de Coraline, revelando o pano de fundo branco onde nada existe; uma tela em branco para nós pintarmos a vida que quisermos.

Interpretação Metafórica – Limiar

Outra interpretação que se pode ter lendo Coraline se relaciona com o limiar. Gaiman parece ser uma pessoa muito interessada neste assunto, pois tanto em Sandman quanto em Stardust – O Mistério da Estrela, Coraline também apresenta questões sobre uma barreira mítica que evidencia o contraste das coisas.

O limiar de Coraline é o portal que conecta os dois mundos, o real e o secreto. Ele permite que o leitor desenvolva questões sobre o que estes dois universos representam. Como a história se concentra no ensinamento de limites para as crianças, o limiar tem o papel de evidenciar que o cenário é a mente humana, concentrado precisamente no embate entre os desejos infantis e as regras.

O mundo real de Coraline simboliza o mundo de regras, onde ela tem que aprender a se comportar como uma cidadã. Este mesmo lugar restringe e implica com a personalidade dela que quer o tempo todo explorar os ambientes desconhecidos.

Já o secreto seria o lugar fantasioso imaginado pela criança, onde ela poderia fazer e ter tudo o que seus pais nãos deixam ou não lhe dão.

“Você não entende, não é? — disse ela — Eu não quero ter tudo. Ninguém quer. Não necessariamente. Que graça existira em ter tudo o que eu sempre quis? Assim, do nada, não teria o menor sentido. E depois?”

De acordo com esse pensamento, a história ensina como é perigoso viver no universo fantástico em que todos os seus desejos se realizam: a pessoa pode virar escravo dele para sempre, o que representa a perda da identidade.

Interpretação Subliminar – Morte

Enfim chegamos à questão do além. Assim como as interpretações acima, o romance de Neil Gaiman pode ser encarado como uma tentativa de compreender o que vem após a morte. Logo de cara, o leitor é contemplado com a ideia de um mundo secreto, uma outra casa onde estão outros pais… Essa construção faz clara referência ao universo desconhecido por todos os seres humanos que ironicamente é o lugar para onde todos irão. Lá, conjectura-se, que as pessoas poderão rever seus parentes, mas eles serão diferentes de como os conhecia em vida.

“Não há nada além daqui. Tudo que ela fez foi a casa, os pisos e as pessoas da casa. Ela fez e aguardou”

Dois símbolos fazem alusão clara à morte. O primeiro são os botões negros. O leitor vai perceber que os botões são o que prendem as pessoas naquele universo, são como elas conseguem enxergá-lo, assim como também são o ponto que as conquista. Ou seja, os botões representam o momento da morte e a permanência do morto no além. Todavia o que torna essa ideia mais evidente é a referência ao costume grego de colocar dois dracmas (moeda grega) sobre os olhos do morto, para que ele consiga pagar o Caronte (barqueiro) no além e chegar até seu destino final.

“Os nomes são as primeiras coisas a desaparecer depois que a respiração cessa e o coração para de bater. Nossa memória dura mais que nossa nome”

A Outra Mãe

O outro símbolo é a Outra Mãe representando a própria Morte, como uma figura antropomórfica. É possível perceber que esta personagem é responsável por vigiar, construir e comandar o universo secreto descoberto por Coraline. Ela é quem costura os botões nos olhos, captura as pessoas (os três anjinhos são um exemplo) e as mantêm em seu mundo para sempre. Entretanto o que emancipa essa figura como a Morte é o fato dela precisar consumir novas vítimas para viver, o que é uma maneira subliminar de dizer que a Morte não existe sem os mortais.

“Ela roubou nossos corações e nossas almas, acabou com nossas vidas e então nos jogou aqui. Ela nos esqueceu na escuridão”

Quanta coisa um livrinho para criança pode dizer! A partir dessas quatro intepretações é possível perceber que Neil Gaiman não é apenas um autor que escreve histórias, mas sim um artista que presenteia o mundo com suas maravilhosas obras de arte.

Coraline pode até ser infantojuvenil, mas vai explodir a mente de muito adulto.

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Resenha

Resenha | Mistborn – O Império Final

Primeiro livro da saga evoca críticas contra o sistema ditatorial e o escravismo.

Rodrigo Roddick

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A escravidão é um tema muito recorrente dentro da fantasia porque sempre suscita questões acerca dos sistemas ditatoriais. Mistborn é uma série que leva a questão para o mundo da magia: se o que faz pessoas escravizarem outras é o poder, em um mundo fantástico, quem possui magia é ditador? O Império Final vem levantar essa e outras discussões.

Mistborn – O Império Final é o primeiro livro da série dividida em duas eras, sendo este volume correspondente a primeira. Ele foi escrito por Brandon Sanderson e lançado no Brasil pela editora LeYa em 2014. Sanderson ainda escreveu o livro Elantris pela mesma editora, a série Coração de Aço pela Aleph e o livro Skyward pela Planeta.

Infelizmente, a LeYa comunicou na semana passada que os livros do autor deixarão a casa devido à baixa vendagem nos últimos anos.

O Império Final não é apenas o começo de uma série, ele narra uma história em padrão teleológico (início, meio e fim). Neste primeiro volume, Kelsier, um homem nascido das brumas (quem possui habilidades mágicas relacionadas à queima de metais), encontra outra pessoa com esta mesma característica. Ensinando-a a usar seus poderes ao mesmo tempo que reúne aliados para sua causa, Kelsier dá início ao seu plano de derrotar o Senhor Soberano, o ditador daquela terra.

À primeira vista, o epílogo já dá a premissa que abarca a narrativa inteira. O leitor é apresentado a Kelsier, um atrevido ladrão que derrota um dos senhores de terra que faz parte do sistema ditatorial governado pelo Senhor Soberano. Já no início, Sanderson faz uma crítica ao comportamento dos marginalizados, que sempre estão receosos, afugentados, conformados ou até mesmo apáticos com a realidade que vivem.

“Não tinham queixa. Não tinham esperança. Mal ousavam pensar. Era assim que deviam ser, pois eram skaa. Eram…”

Kelsier livra os cidadãos do domínio desse senhor na tentativa de fazê-los se mexerem e buscarem a própria liberdade. Essa motivação do protagonista já indica sua meta de libertar as pessoas da escravidão, porém com a participação delas.

O autor brilhantemente imprime essa crítica para mostrar com clareza que nenhuma mudança real virá se não for pelas mãos dos oprimidos. Apesar do Senhor Soberano deter um poder mágico, Kelsier mostra que ele não é invencível e, como qualquer um, depende de recursos para manter seu império. É assim que ele vai desmistificando os medos do povo, lembrando-os que são eles o verdadeiro poder do imperador.

“Quando se lê, pode-se aprender muito, sabe?”

A ideia da escravidão está até na própria palavra “skaa”, que define os oprimidos. Ela sugere um sentido fonético para a palavra em português “escravo”. Não se pode afirmar com certeza se Sanderson pensou nisso, pois a palavra para escravo em inglês é “slave”. Entretanto pode ser que ele tenha desenvolvido essa ideia, afinal J. K. Rowling foi uma autora que fez muitos trocadilhos com verbetes em português em Harry Potter.

A reunião de vários setores, incluindo pessoas que também são como Kelsier, revela o pensamento político por trás da luta contra a ditadura. O protagonista não apenas pensa em derrotar o sistema, mas envolve a crise das classes sociais em seu esquema para garantir uma determinação coletiva que enfrente quaisquer tentativas de surgimento de um novo ditador.

“Manipulação está no âmago das nossas interações sociais”

Kelsier

O personagem Senhor Soberano é outro detalhe muito acertado em Mistborn. Durante a narrativa, alguns capítulos trazem as impressões dele antes dele se transformar no ditador temido que governa o império. Essa situação cria uma dúvida no leitor a respeito da transição de caráter dele; dúvida que é respondida brilhantemente pela trama. O autor relembra ao leitor que, em muitas vezes, a aparência de um governante ao público nem sempre corresponde à sua identidade real. Essa reflexão se aplica facilmente aos políticos.

“Até mesmo a blasfêmia o honra. Quando amaldiçoa usando o nome dessa criatura, você o reconhece como seu deus”

Outro ponto interessante do livro é um olhar mais delicado sobre as religiões. Ao criar os feruquemistas — pessoas que conseguem armazenar força, juventude e conhecimento em adereços metálicos — Sanderson faz um desfile de religiões de seu próprio universo. No meio dessas dissertações, ele imprime outra crítica sobre a ditadura, desta vez, mental. Assim o autor revela que quando uma religião é imposta a outra pessoa, ela está sendo escravizada mentalmente por quem a impôs. O mais justo é deixá-la escolher aquela que melhor lhe convier, que lhe faça sentido.

“A crença certa é como uma boa capa, penso eu. Se lhe servir bem, a manterá aquecida e segura. Se lhe cair mal, no entanto, pode sufocar”

A despeito das críticas e pensamentos sociais que o livro traz, Brandon Sanderson também foi um hábil escultor de histórias, no sentido do entretenimento mesmo, quando inventou um novo método de execução de magias.

Em Mistborn, as pessoas que possuem essas habilidades conseguem queimar metais em seu corpo e usar a combustão para realizar um determinador poder, como flutuar, prever o futuro próximo, aumentar a força e outros. Os que possuem essa característica, conseguem queimar apenas um tipo de metal, o que lhes dá apenas um tipo de poder. Mas os nascidos das brumas conseguem queimar todos.

Dessa forma, a magia dentro da história instiga o leitor a investigar sobre seu funcionamento e limitações, porém o mais interessante é que ela não resolve a trama, apenas contribui para que certos desafios sejam vencidos. O que é um ponto bastante positivo em livros fantásticos, que o diferencia, pois muitas literaturas semelhantes recorrem à magia para solucionar todos os impasses, o que fica chato.

Todavia o sentido mais interessante que se encontra na história é sobre a sanidade. Kelsier é interpretado o tempo inteiro como um louco visionário que sonha com coisas impossíveis. Brandon Sanderson não criou essa situação levianamente. Ele usou este artifício para discutir a alienação do cidadão. Ao colocar a sobriedade em um personagem apontado como louco, ele critica como a visão das pessoas está tão deturpada a ponto de considerar loucura aquilo que, na verdade, elas também almejam. Desse modo ele brinca com a superestimada “sanidade” que todo “cidadão-modelo” se orgulha de possuir.

“Pessoas sãs estão dormindo quando as brumas saem”

E por falar em alienação, Sanderson faz uma observação rápida sobre o elemento que comunica todos os setores do sistema: o dinheiro.

“Mas, o que é dinheiro? Uma representação física do conceito abstrato do esforço”

Mistborn – O Império Final é um livro que possui suas excentricidades, mas jamais esquece o real interesse de quem lê: o ser humano. Uma característica recorrente nas narrativas de Sanderson.

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HQs

Resenha | Coragem

HQ que apresenta a importância de estar com a saúde mental em dia.

Mylla Martins de Lima

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Raina Telgemeier é uma cartunista norte-americana responsável por um grande acervo de livros para o público infanto-juvenil. Coragem não é diferente. A editora Intrínseca trouxe sua autobiografia para o Brasil em uma edição linda e bem colorida.

HQ Coragem: uma história para quem tem medo - Geekness

Em uma noite, Raina acordou com uma dor estranha na barriga, mas como sua mãe havia passado pela mesma coisa, talvez não fosse nada grave… apenas uma virose. O problema é que a dor não passava e, junto dela, vinha o medo. Depois de diversos exames terem dado “OK”, seus pais perceberam que não se tratava de uma doença física e, por isso, procuraram ajuda psicológica.

A HQ foca no público que mais precisa desse apoio, quem está passando pela aterrorizante fase da puberdade. Ela normaliza o medo, mas estimula os jovens a não passarem por esse caminho turbulento sozinhos e a confiarem em seus responsáveis, que farão o possível para ajudar.

Essa transição inevitável pode vir acompanhada de ansiedade e, se não tratada com devida seriedade, é possível que algo mais complexo aconteça, chegando a afetar seu estado físico. A autora manda um recado para jovens e adultos usando sua própria experiência, por isso uma leitura em família seria incrível.

Coragem, de Raina Telgemeier #Resenha - Leitora Compulsiva

A ideia de trabalhar a identidade da personagem também foi ótima. Raina era uma menininha de 10 anos, feliz, que amava assistir TV e desenhar como qualquer uma de suas amigas da escola. Isso faz com que o leitor entenda que o problema não tem a ver com estereótipos.

A palavra estresse não é de uso exclusivo dos adultos. Lidar com um ambiente conturbado, seja em casa ou na escola, além de mudanças corporais e mentais, são desgastantes para todos. Essa grafic novel pedagógica apresenta esse argumento de forma muito clara para que até os mais leigos no assunto compreendam que não se trata de um problema desprezível.

Coragem fala especificamente sobre emetofobia, o medo de vômito, mas o quadrinho serve como exemplo para muitos outros tipos de sofrimentos causados pela ansiedade, que é considerado atualmente um dos transtornos mais comuns.

A prova da importância de Coragem é sua indicação ao Prêmio Eisner 2020, a maior premiação quando o assunto é histórias em quadrinho. A HQ está concorrendo às categorias de Melhor Roteirista e Artista e Melhor Publicação Infantil.

Ler é Bom, Vai! Coragem, de Raina Telgemeier

O quadrinho é cheio de lições para a família toda. Trata de um assunto sério, mas é uma leitura divertida e muito didática. Raina encoraja qualquer pessoa a abrir seu coração e pedir ajuda, e seu depoimento no final do livro é muito sincero e acolhedor.

Coragem é mais que desenhos coloridos com traços infantis, é um arauto de como enfrentar seus medos, seja ele qual for.

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