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Rodrigo Roddick

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A Morte não é uma entidade. A morte não é assustadora. E, ainda, a morte jamais foi vilã ou contrária à humanidade. A morte é apenas um ponto crucial na transformação por qual toda forma de vida passa. Para Toda Eternidade vem mostrar ao público, através de culturas distintas sobre funerais, como esta palavra que assombra o ser humano em particular é, na verdade, um presente.

Publicado no Brasil pela Darskside Books, o livro Para Toda Eternidade compreende-se em várias viagens ao redor do globo sobre diferentes maneiras de conduzir um funeral adequado e respeitoso ao falecido. A autora Caitlin Doughty é também uma agente funerária e, através de seu canal no Youtube, fala sobre o tema morte com um incomum humor descontraído. O volume contém ilustrações de Landis Blair, que dá traços e contornos à imaginação do leitor.

É possível observar como Caitlin trata a morte com naturalidade nas primeiras linhas de seu livro. Gisele Adissi (que é presidente da Sincep e Assembra – Sindicato e Associação dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, além de cofundadora do projeto “Vamos falar sobre luto?”) ao prefaciá-lo, contribui para destacar o tom que a narrativa vai seguir até sua conclusão.

“Sonho com o dia que frases como ‘ah, esse foi o melhor funeral da minha vida’ serão corriqueiras” inicia Gisele.

A partir disso, a autora começa provocando o leitor com uma diferente cremação: a única pira comunitária nos Estados Unidos e no mundo ocidental. Trata-se de um costume praticado em Crestone, no Colorado, que convida os parentes e familiares a assistir à cremação do ente falecido ao ar livre no meio de um círculo formado por lenhas. 

A simplicidade do processo pode chocar o leitor, mas traz mais naturalidade ao funeral, além de dar mais tempo aos parentes para se despedir do ente querido. Revelando esta prática um tanto mais artesanal, Caitlin critica os processos industriais, como eles costumam cobrar valores exorbitantes por apenas algumas horas e como ainda colocam os familiares a metros de distância do falecido.

“Na minha função de agente funerária eu descobri que tanto limpar o corpo quanto passar tempo com ele exercem um papel poderoso no processamento da dor. Isso ajuda as pessoas a verem o cadáver não como um objeto amaldiçoado, mas como um belo receptáculo que já abrigou seu ente querido”

Do outro lado do globo, a autora aumenta a provocação. Em uma das ilhas da Indonésia, os nativos celebram a morte de outra maneira. Celebrar é a palavra, pois em vez de chorar pelo falecimento do parente, as pessoas mumificam seus mortos e após algum tempo eles o retiram do túmulo e o vestem com suas roupas

Ritual Ma’nene na Indonésia | Foto: reprodução/Darkside Books

Na cultura deles, quando a pessoa morre, ela não está morta de fato, apenas doente. A morte só vai ocorrer quando eles realizarem um ritual em que alguns animais são sacrificados, geralmente porcos. Só então, junto da morte do animal, a alma se desliga do corpo cadavérico e morre. Inclusive, levar um porco para o funeral é sinal de respeito à família.

Entre o desenterro e o funeral, os familiares levam o morto para casa ou o colocam em uma “casa-túmulo” e o tratam como se estivessem vivo. Eles trocam suas roupas, levam comida e até conversam com os falecidos, acreditando que isso é uma forma de se conectar aos seus espíritos. Todo esse tempo é compreendido como o ritual Ma’nene.

Para Toda Eternidade perpassa as câmaras funerárias modernas do Japão e visita as ñatitas na Bolívia. Desse modo, Caitlin Doughty vai desmistificando a personagem que apavora muitas pessoas no mundo ocidental. Além disso, ela explica através de sua experiência nessas viagens como os funerais em que o cadáver é aberto e seus órgãos são expostos para urubus comerem são mais naturais que colocá-lo em um caixão debaixo da terra, como geralmente fazemos por aqui.

A autora ainda conta como o festival de “O Dia dos Mortos” realmente surgiu no México. Este é um caso legítimo de como a vida imitou a arte, pois foi o filme 007 contra Spctre (2016) – em que o protagonista aparece em um festival no Días de Los Muertos – que incitou o governo da Cidade do México a criar a celebração por lá. O receio do governador era que as pessoas começassem a procurar por um cortejo que não existia.

Costurando Para Toda Eternidade com todo cuidado, Caitlin vai atando uma cultura na outra para mostrar ao público, principalmente ao ocidental, que nós devíamos seguir o exemplo de outros países e buscar um funeral mais humano e mais feliz. Afinal, quando uma pessoa sai da escuridão da morte para vida, ela é recebida com muita alegria e todo o conforto que um nascimento deve ter, mas na morte não fazemos igual. 

“As páginas deste livro são feitas da polpa de madeira de uma árvore derrubada no ápice de sua vida. Tudo que nos cerca vem da morte, todas as partes de todas as cidades, e todas as partes de todas as pessoas”

Hoje, em pleno dia de Finados, que também é um dos festejos mais importantes na extinta cultura celta, os espíritos dos mortos estão caminhando pela terra. É o momento para pensarmos se queremos que eles nos vejam tristes por sua partida ou felizes por estarem em um lugar melhor.

A verdade, intrínseca nas páginas de Para Toda Eternidade, é que a morte é uma dádiva para vida, pois tonifica a necessidade de viver o momento; é por isso que se chama presente.

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Resenha

João e Maria

Livro: o prestigiado Neil Gaiman e o incrível Lorenzo Mattotti se encontram para recontar um clássico.

Mylla Martins de Lima

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Capa Cabana do Leitor

João e Maria é uma adaptação de um dos contos dos Irmãos Grimm feita por Neil Gaiman e ilustrada por Lorenzo Mattotti. O livro foi trazido para o Brasil através da editora Intrínseca em 2015.

Embora todos conheçam a história, revisitá-la vale muito a pena, pois um olhar menos infantil acaba tornando tudo mais chocante. As ilustrações de Lorenzo fazem com que essa experiência seja ainda mais tensa, enquanto a escrita de Gaiman apresenta toques pessoais muito sutis.

Não houve mudanças extremas durante a narrativa e o clássico só ganhou olhares mais maduros, sem interferir na personalidade dos personagens. O foco é na crueldade dos pais e da ”bruxa”, que sofre uma repaginada e é apresentada em uma versão mais realista, sem muita fantasia e misticismo, como uma senhora canibal e exploradora. Reler desse ponto de vista é realmente perturbador.

“As crianças dormiam em montes de feno. Os pais, em uma cama antiga que pertencera à avó do lenhador. João acordou no meio da noite com uma dor aguda e vazia na barriga, mas não disse nada, porque sabia que tinha pouca coisa para comer. Ele manteve os olhos fechados e tentou voltar a dormir. Quando dormia, não sentia fome”

Um lenhador e sua esposa com dois filhos vivem em uma cabana muito próxima à floresta. Apesar do estilo de vida humilde, sem qualquer tipo de luxo e muito trabalho braçal do homem, a comida nunca faltou. Foi quando a guerra se instaurou no local que veio a escassez, e com ela, a fome.

João foi quem ouviu os planos da mãe de ”esquecê-los” na floresta, pois seria mais fácil sobreviver dois que quatro. Essa é uma das cenas enfatizadas por Gaiman. Apesar de contestar de primeira, o pai logo se cala, mostrando-se submisso à loucura da mulher, levando seus filhos para um ”passeio” assim que acordaram.

”Somos quatro — disse a mãe. — Quatro bocas para alimentar. Se continuarmos assim, vamos todos morrer. Sem as bocas a mais, eu e você teremos chance.

[…] — Se você não comer —  respondeu a mulher — , não vai conseguir brandir o machado. E, se não conseguir cortar uma árvore ou levar lenha para a cidade, todos morreremos de fome. É melhor morrerem dois do que quatro. É só questão de matemática, uma questão de lógica”

O final desse conto todos já devem saber, mas o desenrolar dela pelas palavras de Gaiman é realmente impressionante, destacando as horas de medo e descrença, como é o caso da argumentação tão fria da mãe que convence seu marido a sacrificar seus filhos em troca de sua própria sobrevivência.

Nas últimas páginas do livro, uma contextualização do conto ao longo do tempo é feita. É muito interessante a causa de sua transformação! A crueldade não se restringe à ficção, já que no medievo, durante a Grande Fome, famílias simples como a do livro, costumavam abandonar seus filhos ou pior, alimentarem-se da carne deles. A prática de canibalismo era muito comum nesse período.

Essa edição é muito bonita e sua ilustração a torna ainda mais incrível, dando um clima medonho ao que já faz parte de um cenário de horror, mas que a mente inocente infantil não entendia.

Um presente aos fãs de Gaiman e um convite para aqueles que não conhecem o autor.

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HQs

Resenha | Aprendendo a cair

Uma belíssima grafic novel comovente e com diálogos sem filtro.

Mylla Martins de Lima

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A editora Nemo acaba de lançar mais uma HQ emocionante contada do ponto de vista de um jovem com necessidades especiais. Escrita pelo alemão Mikael Ross, esse quadrinho é tão profundo quanto a história por trás dele.

Aprendendo a cair tem sua origem no aniversário de 150 anos da Fundação Evangélica Neuerkerode, que gere uma cidade pequena composta por cidadãos que, em sua maioria, sofrem de algum tipo de transtorno mental. O mais interessante em meio a toda essa novidade é que essas pessoas, mesmo com suas peculiaridades, possuem uma vida como de qualquer outra, com seus empregos, lazeres e afazeres.

O quadrinho foi encomendado para Mikael em comemoração a essa data tão especial, e o mesmo levou muito a sério, morando durante um certo período no local para entender a vida dessas pessoas e o cotidiano de cerca de 800 habitantes. Feita sua pesquisa de campo, a história levou mais dois anos e meio para ser finalizada e terminar nessa edição incrível, com uma história tão cativante, que deixa o leitor morrendo de vontade de viajar para conhecer as personalidades tão fofas e engraçadas mencionadas na narrativa.

A grafic novel foi lançada na Alemanha em 2018, e um ano após sua publicação, a mesma foi a vencedora do maior prêmio de quadrinhos local, o Maz und Moritz, entregue durante a Mostra Internacional de Quadrinhos de Erlangen, feita a cada dois anos.

A história de Aprendendo a cair é contada pela perspectiva de Noel, um menino que ama AC/DC e sonha em tocar guitarra. Com a morte repentina de sua mãe, e sem seus familiares por perto, sua vida sofre uma grande mudança e ele acaba tendo de ir para longe de Berlim, morar em Neuerkerode.

Nesse centro de cuidados, o menino conhece outras pessoas como ele e, mesmo sendo a primeira vez que Noel fica longe de sua mãe, ele se diverte, faz amizade e até se apaixona… por ser tudo muito novo, cada dia da vida do menino é muito intensa! As suas descobertas são contadas em poucas páginas, fazendo os capítulos ficarem bem curtos e facilitando a degustação do público.

A arte dessa obra é apaixonante! A edição é toda colorida, feita com muito carinho e capricho, como tudo da editora. As ilustrações têm traços muito particulares, usando marcadores e lápis de cor para dar textura na finalização. Não poderia ter ficado melhor ou combinado mais com os personagens e o tom como o autor quis narrar a trama.

Aprendendo a cair é uma história de superação, que diverte, encanta com personalidades inesquecíveis e humor bem leve e aquece o coração de quem lê. A HQ arranca sorrisos de forma bem natural e por quadros bem simples.

Os diálogos engraçados de Noel e seus amigos juntos à arte maravilhosa tornam essa HQ incrível. Ela merece um espacinho na estante de cada um.

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Resenha

Endurance: um ano no espaço

Livro narra a aventura no espaço de Scott Kelly.

Paulo H. S. Pirasol

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endurance capa pro site

Endurance: um ano no espaço foi escrito por Scott Kelly com Margaret Lazarus Dean. A obra é um biografia de Scott Kelly, veterano de quatro viagens espaciais, das quais a maior delas é descrita neste livro, a missão: um ano no espaço.

Toda a jornada de Scotty Kelly tem um peso forte para os dias atuais, apesar de Endurance ter sido lançado no Brasil em 2017, pela Intrínseca. O livro conta com a tradução de Andrea Gottlieb e Thaís Paiva, uma edição que traz além de palavras, mas também fotografias tiradas pelo próprio astronauta durante sua missão.

A obra não aborda apenas o cronograma de um astronauta, embora explique com clareza os procedimentos que são feitos.

O grande destaque está no que leva Scott Kelly a deixar sua família e o planeta por um ano para realizar a possível jornada mais perigosa da história; ainda mesmo que voltando vivo, não saberia os graus de impacto que seu corpo sofreria, esses resultados foram o grande objetivo da missão, descobrir o que acontece com o corpo humano no espaço durante esse período.

“Todas as partes do meu corpo doem. Todas as minhas juntas e todos os meus músculos protestam contra a pressão esmagadora da gravidade”

Endurance

No início da década de 1920, a Antártida era o objetivo de explorações geográficas e científicas internacionais. A Expedição Endurance, realizada em julho de 1915, é considerada a última grande expedição daquele momento, o objetivo era de atravessar o continente.

navio da expedição endurance

Mas a expedição não ocorreu como planejado, o navio Endurance ficou preso no gelo e foi esmagado.

Ernest Henry Shackleton (o explorador encarregado de liderar a expedição) e sua equipe tiveram que passar por uma enorme travessia até encontrarem abrigo na Georgia do Sul (1278 km de distância onde o navio foi esmagado).

Entretanto, não conseguiram resgatar o restante da equipe devido ao congelamento do mar. Mas Ernest não desistiu e rumou até o Chile para conseguir ajuda. Os sobreviventes se sentiram forçados a matar seus cachorros para se alimentarem; ficaram no gelo por meses seguidos e quase morreram congelados. Atravessaram montanhas antes consideradas intransponíveis. Ainda assim, a expedição não perdeu nenhum membro.

Em agosto de 1916, ele consegue resgatar toda a sua tripulação que ficou conhecida pela bravura, companheirismo e incrível vontade de sobreviver.

O livro A incrível viagem de Shackleton, de Alfred Lansing (que conta sobre a expedição) é um dos objetos que Scott Kelly gosta de ter em suas viagens no espaço.

“Quando tento me colocar no lugar deles, penso que a pior coisa deve ter sido a incerteza. A incerteza da sobrevivência deve ter sido pior do que a fome e frio. Quando leio sobre sua experiências, penso em como o desafio deles foi muito maior do que o meu. Às vezes pego o livro especificamente por essa razão”

O significado de “endurance” é resistência que é o fundamental para qualquer momento perigoso.

scott kelly em endurance

Para Scott Kelly, a essência da vida boa dependia do grau de risco enfrentado, quanto mais desafiadora, mais lhe agradava. Na obra ele conta as dificuldades que teve para se ingressar em outros campos e dar atenção a certos assuntos que não atiçavam os seus desejos. Mas também porque ele ainda não se conhecia, apenas sabia que enfrentar o perigo era aonde queria estar.

Ainda no colegial comprou um livro chamado The Right Stuff (Os Eleitos) de Tom Wolfe, sobre uma aventura de pilotos da marinha, aquilo o atraiu pois mostrava como a dificuldade no mundo real está sempre além do que sabemos.

“Em um livro, encontrei algo que achava que jamais encontraria: uma ambição. Quando fechei aquelas páginas tarde da noite, havia me tornado alguém diferente”

Durante a missão de um ano, Scott liga para o autor de Os Eleitos e pergunta como ele poderia começar a escrever um livro, a resposta leva a forma como o astronauta decidiu fazer Endurance.

O Peso da mortalidade

O Catraca Livre, portal de notícias, fez em 2019 uma lista das 10 carreiras mais arriscadas do mundo e astronauta está nela.

endurance foto que tem no livro

No decorrer do livro, Scott Kelly conta inúmeras histórias de falhas que levaram a acidentes ou fins trágicos de cosmonautas com o intuito de prestar homenagens e também de explicar ao leitor o porquê certas tradições do serviço, principalmente russas, são feitas.

“Não preciso urinar, mas é uma tradição: quando Yuri Gagarin estava a caminho da plataforma de lançamento para o seu primeiro voo espacial histórico, ele pediu para estacionar – mais ou menos aqui – e fez xixi no pneu direito da frente do ônibus. Depois disso, foi para o espaço e voltou vivo. Então agora, todos temos que fazer a mesma coisa”

Para Scott, reconhecer aqueles que enfrentam seus desafios é muito importante na vida de uma pessoa; é a forma como ela presencia o exemplo de: fazer a vida ser bem vivida.

O peso que ele encontra em sua mortalidade não faz temer perdê-la, mas buscar bom uso do seu tempo de vida.

A obra mostra como é importante reconhecermos o quanto pessoas estão dispostas a sofrer para garantir avanços na melhoria de vida humana, e como é árduo que elas mantenham a resiliência.

Covid-19

Em tempos de pandemia, conhecer a perspectiva de Scott Kelly pode abrir nossos olhos para reconhecer os esforços que têm sido feitos por muitos para assegurar um futuro mais seguro; também puxa a nossa atenção para a segurança contra os riscos que nos desafiam. Recentemente o astronauta deu dicas de como suportar a quarentena.

Sua grande observação quanto ao momento pós-conflito ou até mesmo o porquê de você resolver um conflito: é para que possa se reunir com seus entes queridos.

“Sentar-se a uma mesa e fazer uma refeição com quem se ama é algo simples, e muitas pessoas fazem isso todos os dias sem dar muita importância. Para mim, é algo com que tenho sonhado há quase um ano”

O filme Gravidade (2013), dirigido por Alfonso Cuarón e estrelado por Sandra Bullock buscar mostrar a coragem naqueles que aceitam carreiras arriscadas, mas se você quiser ver isto na vida real como Scott Kelly viu ao ler Os Eleitos, basta você ligar a televisão ou entrar na internet que verá o mundo inteiro enfrentando um perigo para garantir a sua segurança e a de todos. Então, é importante manter-se seguro como um astronauta e valorizar as refeições com aqueles que ama (dentro de casa, caso não seja possível aguarde como um astronauta).

Endurance ressalta o heroísmo na jornada de Scott Kelly e de Ernest Henry Shackleton. O valor da missão está na bravura de superar um desafio, no desejo de enfrentá-lo e saber que vencer um perigo é, acima de tudo, garantir a segurança do próximo.

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